dama e o vagabundo
Entre o Trauma e o Desejo
O céu da Vila Áurea já estava tingido por um roxo profundo quando decidi que não podia simplesmente deixar o Biel na praça ou devolvê-lo para aquele cenário de abandono na casa do seu Jorge. O pequeno ainda esfregava os olhos, sonolento, quando o peguei pela mão. Pulga nos acompanhou em silêncio, mas o olhar dele dizia tudo: ele estava comigo nessa.
Nossa primeira parada foi a casa da minha mãe. Dona Sônia é o tipo de mulher que não precisa de muito para entender o que está acontecendo. Assim que cruzamos o portão e ela viu o estado da camiseta do Biel e o jeito que ele se encolhia, seus olhos brilharam com aquela determinação que só as mães da quebrada têm.
— Ele não volta para aquele lugar, Hanna — disse minha mãe, enquanto já preparava um prato de sopa quente para o menino. — Amanhã mesmo eu vou atrás do juiz, de assistência social, do que for preciso. Vou pedir a guarda desse anjo. O Jorge não tem condições nem de cuidar da própria sombra, quanto mais de uma criança.
— A senhora tem certeza, mãe? — perguntei, sentindo um alívio enorme lavar minha alma. — É uma responsabilidade grande.
— Responsabilidade é deixar um menino desses à mercê do mundo, minha filha — ela respondeu, passando a mão no rosto do Biel. — Comigo ele vai ter comida, escola e, principalmente, respeito.
Fiquei radiante. Minha mãe, quando colocava uma coisa na cabeça, ninguém tirava. Sabia que ela ia conseguir. Deixei o Biel lá, já entretido com um desenho na televisão e um pão com manteiga, e segui com o Pulga para a casa dele. No caminho, eu não conseguia parar de pensar em como o pai do Biel era desleixado. Provavelmente ele nem notaria que o filho não ia dormir em casa, e se notasse, era capaz de agradecer por ter menos uma boca para alimentar.
Chegamos na casa do Pulga e o silêncio do ambiente era um convite ao descanso, mas minha mente ainda estava acelerada.
— Vou tomar um banho, tá? — avisei, sentindo o cansaço do dia pesar nos ombros.
— Vai lá, azulzinha. A casa é sua — Pulga respondeu, jogando a chave na mesinha e ligando a TV.
No banheiro, tive uma surpresa. Pendurada em um cabide atrás da porta, havia uma camiseta minha de dormir e um short que eu tinha esquecido lá semanas atrás. Sorri sozinha. Eu nem sabia por que aquelas roupas ainda estavam ali, mas parecia que o destino — ou o próprio Pulga, de um jeito silencioso — já sabia que eu voltaria.
Saí do banho renovada, com o cheiro de sabonete doce e a pele fresca. Pulga já estava deitado, com o controle remoto na mão, navegando por algum catálogo de filmes. Me enfiei debaixo do cobertor com ele, sentindo o calor do seu corpo me acolher instantaneamente.
— Minha mãe vai mesmo tentar a guarda — comecei, encostando a cabeça no peito dele. — Eu fico pensando... o Jorge é tão largado que é capaz de ele mesmo assinar os papéis sorrindo, só pra não ter trabalho.
— É o mais provável, Hanna — Pulga disse, passando o braço por cima dos meus ombros. — Tem gente que não nasceu pra ser pai. O importante é que agora o moleque tá seguro. Sua coroa é firmeza, ela vai dar conta.
Ficamos um tempo em silêncio, apenas assistindo às imagens passando na tela, mas minha curiosidade falou mais alto. Havia um assunto que sempre me deixava intrigada e, ao mesmo tempo, arrepiada.
— E como estão as coisas lá no galpão? — perguntei, mudando o tom de voz.
Pulga deu uma risada curta, mas percebi que ele ficou um pouco tenso.
— O galpão tá o mesmo de sempre, Hanna. Trabalho, correria, as cargas chegando e saindo. Por que a pergunta?
— Ai, você sabe que aquele lugar me dá calafrios — confessei, sentindo um tremor involuntário. — Eu nunca esqueci aquela vez que eu estava passando por perto e vi aquele homem... você lembra? Levando aquela "madeireira" nas costas, e a madeira ainda estava molhada, pesada demais. Ele parecia que ia quebrar ao meio.
Pulga gargalhou, uma risada gostosa que vibrou no peito dele onde eu estava apoiada.
— Você e seus traumas, azulzinha. Aquilo faz parte do dia a dia. Ninguém morre por carregar um pouco de peso, não.
— Não ri! — dei um tapinha de leve no braço dele. — Eu juro que traumatizei. Ver aquele esforço todo, aquele ambiente escuro... eu prefiro meus livros e o salão dos gêmeos, muito obrigada.
— Cada um no seu corre, Hanna. O meu é o galpão, o seu é ser a mente brilhante da Vila — ele disse, me dando um beijo no topo da cabeça.
O filme continuava passando, mas eu já não prestava atenção em mais nada. O clima entre nós começou a mudar. O ar parecia mais denso, carregado de uma eletricidade que só existia quando estávamos sozinhos. Eu, que nunca fui de perder a oportunidade de provocar, comecei a distribuir selinhos rápidos no canto da boca dele, depois no queixo, subindo para a bochecha.
— Tá querendo o quê, dona Hanna? — ele perguntou, com a voz ficando mais grave, mas sem desviar os olhos da TV.
— Nada... só estou sendo carinhosa — menti, dando mais um selinho, dessa vez demorando um pouco mais nos lábios dele.
Pulga não aguentou. Com um movimento rápido e firme, ele me puxou para o colo dele. Ele estava sentado, encostado na cabeceira da cama, e agora eu estava montada em suas pernas, nossos rostos a centímetros de distância.
— Carinhosa, é? — ele murmurou, as mãos grandes apertando minha cintura com posse. — Você sabe que eu não tenho muita paciência pra esses seus joguinhos, né?
— Quem disse que é um jogo? — respondi, passando meus dedos pelos fios curtos do cabelo dele, puxando-o levemente para mim.
Eu continuei com as provocações, roçando meu nariz no dele, dando beijos castos que o deixavam visivelmente impaciente. Eu adorava ver o controle dele se esvair, adorava saber que eu tinha esse poder sobre o cara mais marrento da quebrada.
— Chega — ele disse, a voz quase um rosnado.
Antes que eu pudesse rir ou dizer qualquer outra coisa, Pulga selou nossos lábios de forma definitiva. Não era mais o beijo calmo de antes. Era intenso, profundo, quase faminto. Ele me puxou para ainda mais perto, se é que era possível, e eu senti todo o desejo que ele vinha guardando explodir naquele contato.
Minhas mãos se perderam na nuca dele, enquanto o beijo se tornava uma batalha de línguas e fôlego. O mundo lá fora — o Biel, o galpão, a escola, o Doni — tudo sumiu. Só existia o calor daquele quarto, o som das nossas respirações ofegantes e a certeza de que, entre todas as confusões da Vila Áurea, aquele era o único lugar onde eu realmente queria estar.
— Você me deixa louco, sabia? — ele sussurrou entre um beijo e outro, descendo os lábios para o meu pescoço, onde ele deixou uma marca leve que eu sabia que demoraria a sair.
— Essa é a ideia, Felipe — respondi, entregando-me totalmente ao momento, sentindo que o azul do meu cabelo era apenas um detalhe perto do fogo que queimava entre nós dois.
A noite estava apenas começando, e na penumbra daquele quarto, as promessas de proteção e os traumas do passado deram lugar a algo muito mais urgente: a nossa verdade, escrita na pele e no desejo que ninguém na Vila Áurea seria capaz de apagar.