Dance with Me.
Amanhecer de Vidro e Hortelã
A luz do sol de Los Angeles era, naquela manhã, a inimiga pessoal de Alexander Rio Valentino. Ela não entrava pela janela do estúdio de forma poética ou cinematográfica; ela perfurava as pálpebras de Rio como agulhas de ouro, acompanhada por um coro de martelos invisíveis que batiam ritmicamente contra o interior de seu crânio.
Rio estava estirado no sofá de couro da sala de controle, uma das pernas longas pendendo para fora e o braço cobrindo os olhos. O cheiro de terra molhada da noite anterior havia sido substituído por um odor metálico de eletrônicos aquecidos e o aroma persistente de café forte que alguém — provavelmente Niko — estava preparando.
— Se alguém tocar um prato de bateria nos próximos dez minutos, eu juro que transformo este estúdio em um cemitério — resmungou Rio, sua voz saindo mais rouca e quebrada do que o habitual veludo.
— Bom dia para você também, Bela Adormecida do Jazz! — A voz de Niko ecoou, desnecessariamente alta. O ucraniano entrou na sala carregando uma bandeja com um copo de suco verde de aparência duvidosa e duas aspirinas. — Você bebeu como se o mundo fosse acabar em lei seca e agora está aí, parecendo um figurante de filme de vampiro que esqueceu de voltar para o caixão.
Rio sentou-se devagar, sentindo o mundo girar em um ângulo de quarenta e cinco graus. Ele passou a mão pelo cabelo cacheado, que estava em um estado de anarquia total, e notou que ainda vestia a camisa de seda da noite anterior, agora amassada e com um leve perfume de vinho tinto.
— Onde está o Michael? — perguntou Rio, fechando os olhos enquanto tateava a mesa à procura de uma bala de laranja, encontrando apenas embalagens vazias.
— Ele está na cozinha tentando convencer a Zelda de que ela não pode comer bacon, o que é hilário, porque ela tem o dobro do tamanho dele — Niko riu, sentando-se de lado na cadeira giratória e estalando os dedos. — E ele está preocupado com você. Ele passou a última hora perguntando se o seu fígado ia sobreviver ou se precisávamos chamar um padre.
Nesse momento, Michael apareceu na porta. Ele estava impecável, como se não tivesse passado a madrugada acordado cuidando de um músico embriagado. Usava uma calça de veludo cotelê escura e uma camisa de algodão leve. Ao ver Rio sentado, um sorriso suave e aliviado iluminou seu rosto.
— Rio! Você acordou — disse Michael, aproximando-se com passos leves. Ele segurava uma toalha úmida e fria. — Como está a sua cabeça?
— Parece que o Quincy Jones decidiu usar meu cérebro como metrônomo — respondeu Rio, aceitando a toalha que Michael ofereceu e pressionando-a contra a testa. — Obrigado, Michael. E me desculpe por... bem, por qualquer coisa poética e inconveniente que eu tenha dito ontem.
— Você disse que eu era feito de nuvens — Michael riu, a risada aguda e cristalina que sempre fazia o coração de Rio errar uma batida. — E tentou ensinar a Zelda a cantar em scat. Foi... memorável.
Rio soltou um gemido de constrangimento e se recostou no sofá. Seus olhos vagaram pela sala até encontrarem a bolsa de couro onde ainda restava a garrafa de whisky da noite anterior. Um instinto autodestrutivo e tipicamente boêmio sussurrou em seu ouvido.
— Niko... me passe aquela garrafa. Só um gole. Para equilibrar as frequências — pediu Rio, estendendo a mão trêmula.
— Nem pensar! — Michael interveio antes que Niko pudesse sequer olhar para a bolsa. Ele se colocou entre Rio e a bebida com uma determinação surpreendente. — Você precisa de hidratação e glicose, não de mais "equilíbrio de frequências".
— Michael tem razão, Rio — acrescentou Niko, pegando uma Polaroid da mesa e tirando uma foto do estado deplorável do amigo. — Você está a um passo de virar uma nota de rodapé trágica na história da música. Beba o suco verde. Eu coloquei espinafre, maçã e uma pitada de ódio puro para te acordar.
Rio olhou para o copo com desdém, mas a presença firme de Michael ao seu lado o impediu de protestar. Michael sentou-se na borda da mesa de som, muito perto de Rio, observando-o com aqueles olhos grandes e expressivos que pareciam ver através de todas as camadas de sofisticação que Rio costumava usar para se proteger.
— Beba, Rio. Por favor — pediu Michael suavemente.
Rio suspirou e virou o conteúdo do copo. O gosto era horrível, mas o efeito foi imediato: um choque de realidade que fez seus sentidos começarem a se organizar novamente.
— Vocês dois são tirânicos — resmungou Rio, limpando a boca com as costas da mão. — Onde está a liberdade artística?
— A liberdade artística acaba quando você começa a confundir o pedal do piano com um apoio para a cabeça — rebateu Niko, pegando a foto que acabara de revelar e sacudindo-a. — Olhe só, ficou ótima. Parece um anúncio de reabilitação de luxo.
Niko deixou a foto sobre o console e, percebendo o clima mais calmo — e o olhar intenso que Michael dirigia a Rio —, levantou-se.
— Vou levar a Zelda para dar uma volta e ver se encontro algum lugar que venda donuts que não tenham gosto de papelão. Vocês dois... tentem não compor nada que exija um hospício como cenário.
Assim que a porta se fechou atrás de Niko e o som dos passos dele desapareceu no corredor, o silêncio no estúdio tornou-se denso, preenchido apenas pelo zumbido dos equipamentos. Rio sentia a proximidade de Michael como uma carga elétrica. O cheiro de Michael — uma mistura de sabonete suave e algo que lembrava baunilha — era o melhor remédio para sua náusea.
— Você realmente cuidou de mim a noite toda? — perguntou Rio, sua voz caindo para aquele tom confidencial de madrugada, apesar de já ser dia.
— Sim — respondeu Michael, mexendo nervosamente na gola da própria camisa. — Eu não queria que você ficasse sozinho. Você estava... vulnerável. Foi estranho ver o Alexander Rio Valentino sem todas as suas respostas inteligentes prontas.
Rio deu um meio sorriso, um vislumbre daquela elegância melancólica que o definia.
— Às vezes as respostas inteligentes são apenas ruído, Michael. Ontem... o ruído parou.
Michael inclinou-se um pouco mais. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza extrema, afastou um cacho de cabelo que caía sobre os olhos de Rio. O toque de seus dedos era frio, mas provocou um incêndio sob a pele de Rio.
— Eu gostei do silêncio — sussurrou Michael. — Foi a primeira vez que eu senti que não precisava ser o "Rei" de nada. Eu era apenas o Michael. E você era apenas o Rio.
Rio sentiu a garganta secar, e desta vez não era pela ressaca. Ele olhou para os lábios de Michael, lembrando-se do beijo no estúdio dias atrás, e da conversa telefônica que ainda queimava em sua memória. A tensão entre o que eles deveriam ser para o mundo e o que eram naquele pequeno espaço isolado era quase insuportável.
— Michael... — Rio murmurou, sua mão subindo para segurar o pulso de Michael, mantendo a mão do cantor contra seu rosto. — Eu sou um homem complicado. Minha vida é feita de sombras e de acordes que nunca resolvem. Você é... você é a luz que o mundo inteiro quer possuir.
— Eu não quero que o mundo me possua, Rio — disse Michael, os olhos brilhando com uma intensidade súbita. — Eu quero que alguém me conheça. De verdade.
O movimento foi mútuo. Não houve hesitação desta vez. Rio puxou Michael pela nuca e Michael se entregou ao beijo com uma fome que contrastava com sua habitual timidez. Tinha gosto de hortelã do suco verde, de cansaço e de uma verdade que só florescia no escuro dos estúdios. Era um beijo lento, exploratório, onde Rio usava toda a sua experiência para guiar Michael, e Michael respondia com uma intuição artística que transformava o toque em melodia.
Rio sentiu o corpo de Michael relaxar contra o seu, as mãos do cantor perdidas em seus cabelos bagunçados. Naquele momento, a dor de cabeça de Rio desapareceu, substituída por uma clareza absoluta. Ele sabia que estava entrando em um território perigoso, um lugar onde a fama de Michael e sua própria busca por autenticidade colidiriam de forma violenta, mas ele não se importava.
Eles se separaram devagar, as testas ainda encostadas. A respiração de Michael estava curta, um som rítmico que Rio queria gravar e transformar em um loop eterno.
— Isso não é uma música, Rio — sussurrou Michael, os olhos fechados.
— Não — concordou Rio, acariciando o lábio inferior de Michael com o polegar. — Isso é o que acontece quando a música para e a vida começa.
Eles ficaram ali por um tempo, em um silêncio que não precisava de notas de rodapé. Rio sentiu-se, pela primeira vez em anos, completamente presente. Ele pegou um pedaço de papel que estava jogado no chão — um recibo de entrega de comida — e uma caneta que estava no bolso da camisa.
"A luz do dia é cruel", escreveu ele com letra apressada, "mas o seu reflexo nela é a única coisa que faz a manhã valer a pena."
— O que você está escrevendo? — perguntou Michael, curioso.
— Um segredo — respondeu Rio, dobrando o papel e colocando-o no bolso de Michael. — Para quando você estiver em um palco cercado por milhares de pessoas e se sentir sozinho.
Michael sorriu, um sorriso que não era para as câmeras, nem para os fãs, nem para a história. Era apenas para Rio.
A porta do estúdio se abriu novamente e Niko entrou, carregando uma caixa de donuts e parecendo mais enérgico do que nunca. Zelda entrou correndo à frente dele, indo direto para Rio e lambendo sua mão, o que fez o músico rir e quase cair do sofá.
— Voltei! E trouxe provisões — anunciou Niko, parando e olhando para os dois. Ele estreitou os olhos, observando o cabelo de Michael levemente desalinhado e a expressão de Rio, que passara de "cadáver" para "radiante". — Pelo amor de Deus, vocês dois não conseguem ficar dez minutos sem transformar o estúdio em um set de filmagem de romance francês?
— Estávamos apenas... discutindo a estrutura do próximo verso — disse Rio, levantando-se com uma agilidade que surpreendeu a todos, inclusive a si mesmo.
— Sei. O verso sobre "contato visual prolongado e tensão sexual palpável" — Niko revirou os olhos e jogou um donut de chocolate para Rio. — Coma isso. Temos trabalho. Michael, o Quincy liga em meia hora e ele quer ouvir o progresso daquela ponte.
Michael levantou-se, recuperando sua postura profissional, mas seus olhos ainda brilhavam com o segredo que Rio depositara em seu bolso.
— Eu estou pronto, Niko — disse Michael, caminhando em direção ao microfone.
Rio sentou-se ao piano, seus dedos encontrando as teclas com uma confiança renovada. Ele começou a tocar uma sequência de acordes menores que subitamente se abriam em uma harmonia maior e brilhante.
— Rio? — chamou Michael lá de dentro da cabine, colocando os fones de ouvido.
— Sim, Michael?
— O suco verde realmente funcionou. Você está tocando como se estivesse vendo cores.
Rio olhou para Michael através do vidro, o mesmo vidro que tantas vezes servia de barreira entre eles, mas que agora parecia transparente como nunca.
— Eu estou vendo cores, Michael — disse Rio, começando a melodia de uma nova canção que falava sobre amanheceres, ressacas e a coragem de ser visto no escuro. — E todas elas têm o seu nome.
Niko, sentado na mesa de som, suspirou e apertou o botão de gravar. Ele sabia que aquela sessão seria longa, que a chuva provavelmente voltaria ao entardecer e que Alexander Rio Valentino continuaria escrevendo em guardanapos. Mas ele também sabia, enquanto olhava para a Polaroid em sua mão, que o que estava acontecendo entre aqueles dois era a obra de arte mais honesta que ele já tivera o privilégio de capturar.
A música começou, e Los Angeles, com todo o seu barulho e sua luz agressiva, desapareceu. Só restava o som, o cheiro de laranja e a promessa de que, na próxima madrugada, eles fariam tudo de novo.