Voltar ao resumo

Dance with Me.

Veludo, Suor e a Polaroid do Pecado

A festa na residência de Alexander Rio Valentino não era um evento para ser visto em colunas sociais; era uma experiência sensorial reservada para aqueles que habitavam as sombras elegantes da indústria. O ar na sala de estar estava espesso, uma mistura inebriante de fumaça de cigarro de cravo, perfumes caros e o aroma doce das balas de laranja que Rio espalhara por taças de cristal. O som de um jazz fusion experimental vibrava nas paredes, mas para Rio, tudo aquilo era apenas ruído de fundo.

Ele estava encostado no batente da porta da cozinha, observando Michael. O cantor parecia uma criatura de outro mundo no meio daquela fauna de músicos e artistas. Michael usava uma jaqueta de seda vermelha que brilhava sob as luzes baixas, e embora estivesse cercado de gente, seus olhos buscavam constantemente os de Rio. A conexão entre eles não precisava de fios; era uma frequência de rádio que só os dois sintonizavam.

— Você está com aquele olhar de novo — sussurrou Niko, surgindo do nada com uma câmera Polaroid pendurada no pescoço e uma garrafa de cerveja na mão. — Aquele olhar de "eu vou compor uma sinfonia sobre como essa pessoa é sagrada".

Rio soltou uma risada curta, ajeitando os cachos que caíam sobre os olhos. Ele já tinha bebido o suficiente para que a sua habitual reserva de seda começasse a desfiar.

— Ele é sagrado, Niko. Só que ele ainda não sabe disso.

— Ele sabe — rebateu o ucraniano, estalando os dedos. — Mas ele prefere que você o ensine. Agora, se me dão licença, vou ver se convenço a Zelda de que ela não pode morder o baixista só porque ele está fora do tom.

Rio aproveitou a distração e fez um sinal discreto para Michael. Não precisou de palavras. Um leve inclinar de cabeça em direção à escada foi o suficiente. Michael assentiu, esperando alguns minutos antes de deslizar silenciosamente para fora do círculo de conversas.

O andar de cima da casa de Rio era um refúgio de madeira escura, estantes de livros e o cheiro reconfortante de discos de vinil antigos. A chuva começara a garoar lá fora, um som rítmico e suave que batia nas claraboias, criando a trilha sonora perfeita para o que Rio sentia no peito.

Ele entrou no quarto e fechou a porta, encostando-se nela por um momento para recuperar o fôlego. O álcool e a antecipação faziam seu sangue zumbir. Michael entrou logo depois, parecendo subitamente tímido, a energia magnética do palco dando lugar à vulnerabilidade que Rio tanto amava.

— É mais calmo aqui em cima — disse Michael, sua voz quase um sussurro.

— É onde eu me escondo do mundo — Rio respondeu, caminhando em direção a ele.

Rio começou a se despir com uma lentidão deliberada. Ele tirou a camisa de seda, deixando-a cair no chão de madeira. Seu peito era pálido e definido, marcado pela luz âmbar do abajur. Ele sentiu o olhar de Michael queimar sua pele, uma carícia invisível que era mais potente do que qualquer toque físico. Com um sorriso de canto, Rio desabotoou o primeiro botão da calça de alfaiataria e desceu o zíper até a metade, deixando o tecido descansar perigosamente baixo nos quadris.

— Rio... — Michael respirou seu nome como se fosse uma prece.

— Venha aqui, Michael.

Rio sentou-se na beira da cama de dossel, as pernas longas esticadas. Michael aproximou-se, seus movimentos graciosos e incertos. Quando ele finalmente tocou a pele nua dos ombros de Rio, foi como se um circuito tivesse sido fechado. Rio o puxou para entre suas pernas, e Michael, num ímpeto de coragem, subiu na cama, posicionando-se por cima dele.

O peso de Michael era leve, mas a presença era esmagadora. Ele começou a distribuir beijos pelo pescoço de Rio, subindo pela linha da mandíbula até encontrar a orelha. Rio soltou um som baixo, uma mistura de gemido e suspiro, suas mãos subindo para as costas de Michael, sentindo a estrutura firme sob a jaqueta de seda.

— Eu não quero que isso seja apenas uma música, Rio — sussurrou Michael contra a pele dele. — Eu quero que seja real. Eu nunca... eu nunca fiz isso com ninguém. Não assim.

Rio parou por um segundo, seus olhos profundos encontrando os de Michael. A revelação de que o homem mais famoso do planeta estava confiando a ele sua primeira vez, sua vulnerabilidade mais pura, fez o peito de Rio apertar de uma forma que nenhuma melodia jamais conseguira.

— Então deixe-me ser o seu ritmo, Michael — murmurou Rio, puxando-o para um beijo profundo. — Eu vou cuidar de você.

O beijo tinha gosto de vinho tinto e das balas de laranja que Rio sempre carregava. A língua de Rio explorava a boca de Michael com uma sofisticação de jazz, enquanto as mãos de Michael, trêmulas mas curiosas, exploravam o abdômen nado de Rio, descendo até a borda da calça entreaberta.

O calor entre eles era uma entidade física. Michael despejava beijos pelo peito de Rio, descendo até o umbigo, sua respiração quente enviando arrepios por todo o corpo do músico. Rio arqueou as costas, os dedos enterrados nos cachos escuros de Michael, guiando-o, incentivando-o. Tudo era novo para Michael, mas ele aprendia rápido, como se o corpo de Rio fosse um instrumento que ele nascera para tocar.

— Você é tão bonito — disse Michael, levantando o rosto para olhar para Rio, os olhos dilatados de desejo e uma ternura que quase fez Rio chorar. — Eu sinto que posso respirar quando estou com você.

— Então respire comigo — Rio respondeu, puxando-o para cima novamente para que seus corpos ficassem colados, pele contra pele, coração batendo contra coração no mesmo compasso.

A chuva lá fora aumentou, transformando-se em um temporal que isolava o quarto do resto do universo. Rio começou a guiar as mãos de Michael para baixo, mostrando-lhe como o toque poderia ser ao mesmo tempo uma arma e uma cura. A tensão no quarto era tão palpável que parecia que o ar poderia entrar em combustão a qualquer momento.

— Rio, eu... — Michael começou, mas a voz falhou.

— Shh. Só sinta. Não há câmeras aqui. Não há Quincy, não há fãs. Só nós dois e o som da chuva.

Rio virou Michael, ficando por cima dele por um momento, observando como o cantor parecia uma obra de arte renascentista sob a luz suave. Ele beijou as pálpebras de Michael, as maçãs do rosto, a ponta do nariz. Estava prestes a levar aquele momento para o seu ápice, a consumar a promessa que vinha sendo escrita em guardanapos e sessões de estúdio de madrugada, quando o som de passos pesados ecoou no corredor.

— RIO! MICHAEL! — O grito de Niko atravessou a porta como uma granada sonora. — Se vocês não descerem agora, a Zelda vai comer o bolo de aniversário do produtor e eu não vou ser responsável pelas consequências gástricas!

A porta se abriu com um estrondo antes que qualquer um dos dois pudesse reagir. Niko parou no batente, a câmera Polaroid já na mão por puro instinto de fotógrafo.

O clarão do flash iluminou o quarto por um milésimo de segundo, capturando a cena com uma crueza absoluta: Rio, sem camisa, com a calça desabotoada e o cabelo em um caos glorioso; Michael sob ele, com a jaqueta aberta, o rosto corado e os lábios inchados de beijos.

Houve um silêncio mortal.

— Ah... — Niko baixou a câmera, a foto começando a sair lentamente da fenda do aparelho. Ele olhou para os dois, depois para a câmera, depois para os dois de novo. — Bom, isso certamente não é uma discussão sobre a mixagem do baixo.

Michael cobriu o rosto com as mãos, soltando uma risada nervosa e aguda, enquanto Rio sentou-se na cama, passando a mão pelo rosto e tentando recuperar o que restava de sua dignidade aristocrática.

— Niko... eu vou te matar — disse Rio, embora não houvesse raiva real em sua voz, apenas uma resignação profunda. — Eu vou te matar e vou usar o seu mullet para limpar o piano.

— Ei, não culpe o mensageiro! — Niko defendeu-se, balançando a foto para que ela revelasse a imagem mais rápido. — Eu bati! Ou achei que bati. O som do jazz lá embaixo está muito alto. Além disso, essa foto... meu Deus, Rio, se isso vira capa de álbum, a gente vende cem milhões de cópias só pelo escândalo.

— Niko, saia — ordenou Rio, apontando para a porta. — Agora.

— Tá, tá! Estou indo. Mas sério, o bolo está sendo atacado pela Dobermann. E Michael... — Niko olhou para o cantor, que agora espiava por entre os dedos. — Você está com uma marca de batom no pescoço. Ou é vinho. De qualquer jeito, fica bem em você.

Niko saiu, fechando a porta e rindo alto enquanto corria pelo corredor. Rio soltou um suspiro longo e pesado, deixando os ombros caírem. Ele olhou para Michael, que ainda estava deitado, olhando para o teto com uma expressão de choque e diversão.

— Ele tirou uma foto — murmurou Michael. — Ele realmente tirou uma foto.

— Ele é um desastre ambulante — Rio concordou, deitando-se ao lado de Michael. — Mas ele é leal. Ele nunca deixaria essa foto sair das mãos dele.

Michael virou-se para o lado, apoiando o rosto na mão e olhando para Rio. A interrupção quebrara o clima erótico, mas deixara algo mais doce em seu lugar: uma cumplicidade que o sexo sozinho talvez não alcançasse.

— Você acha que ele vai nos chantagear por pizza? — perguntou Michael.

— Pizza, donuts e provavelmente vai querer que eu grave um solo de trompete na música nova dele — Rio riu, acariciando o rosto de Michael. — Sinto muito, Michael. Eu queria que fosse... perfeito.

— Foi perfeito — Michael disse com sinceridade, pegando a mão de Rio e beijando os nós dos dedos. — Foi a primeira vez que eu me senti... humano. Mesmo com o Niko sendo o Niko.

Rio sorriu e puxou Michael para um abraço apertado, os dois ainda seminus sob o edredom de veludo. A chuva continuava a cair, e lá embaixo, a festa parecia um mundo distante.

— Nós temos o resto da vida para terminar o que começamos — sussurrou Rio.

— Eu gosto do som disso — Michael respondeu, fechando os olhos.

Eles ficaram ali por mais alguns minutos, apenas ouvindo a respiração um do outro. Rio sabia que, no bolso de Niko, havia agora uma imagem que valia mais do que qualquer contrato de gravadora. Era a prova de que, no meio do caos da fama e da pressão do mundo, Alexander Rio Valentino e Michael Jackson tinham encontrado um lugar onde podiam simplesmente existir.

E, embora o Rio "aristocrata" devesse estar furioso, o Rio "homem" estava apenas feliz por ter o cheiro de Michael em sua pele e o som da risada dele em seus ouvidos.

— Rio? — Michael chamou, já quase dormindo.

— Sim, meu sol?

— Você ainda tem aquelas balas de laranja? Minha boca está com gosto de... bem, de você.

Rio soltou uma gargalhada alta, esticando o braço para alcançar a mesa de cabeceira. Ele pegou uma bala, descascou-a e a colocou na boca de Michael.

— Coma a bala, Michael. E depois vamos descer antes que o Niko venda a sua alma por um pedaço de bolo.

Eles desceram as escadas dez minutos depois, devidamente vestidos, embora o brilho nos olhos de ambos entregasse tudo o que a Polaroid de Niko já havia registrado. A festa continuava, a chuva ainda caía, e no meio de Los Angeles, dois artistas sabiam que a música mais bonita de suas vidas estava apenas começando a ser composta.