De risadinha
O Silêncio entre as Datas
O hotel em São Paulo parecia subitamente mais silencioso após o turbilhão de apresentações do fim de semana. O corredor do décimo andar estava mergulhado naquela penumbra acarpetada e luxuosa, onde o único som era o zumbido distante do ar-condicionado. Ana, sentada à pequena escrivaninha de seu quarto, esfregou as têmporas. A luz do notebook refletia em seus olhos castanhos, e pilhas de contratos e calendários impressos cobriam a madeira escura.
Ela havia estabelecido uma missão para aquela tarde: organizar as férias e a agenda individual de cada um dos quatro. Era uma tarefa logística hercúlea, considerando que conciliar os desejos de Thiago, Márcio, Dihh e Afonso era como tentar pastorear gatos em um campo minado.
Thiago fora o primeiro. Entrou, fez três piadas sobre o frigobar, reclamou que queria folga em dias de jogo do Santos e saiu em dez minutos, deixando um rastro de perfume e agitação. Márcio veio em seguida, resmungando sobre o cansaço, mas aceitou as datas sem muita briga, desde que pudesse dormir dez horas seguidas. Dihh Lopes foi o mais pragmático, analisou as planilhas como um estrategista militar e saiu fazendo uma observação ácida sobre como Ana parecia "tensa demais para quem só estava olhando números".
Agora, faltava apenas Afonso.
Ana respirou fundo e ajeitou a gola da blusa de seda. Ela sabia que era ridículo, mas a presença de Afonso Padilha causava nela um curto-circuito que sua mente lógica não conseguia reparar. Aos 23 anos, com um mestrado em andamento e uma carreira meteórica, Ana era uma fortaleza de competência. Mas, no campo pessoal, ela era um rascunho em branco. Nunca tinha sentido a necessidade de pressa; sempre focada nos estudos e no trabalho, o amor era algo que acontecia com os outros, ou nas comédias românticas que ela assistia para desligar o cérebro. E o fato de nunca ter beijado ninguém era um segredo trancado a sete chaves, uma vulnerabilidade que ela temia que os meninos — especialmente o implacável Afonso — transformassem em munição.
Uma batida leve na porta a fez pular na cadeira.
— Pode entrar — disse ela, tentando projetar uma voz profissional que desmentia o tremor em suas mãos.
A porta se abriu e Afonso apareceu. Ele não estava com as roupas de palco, mas usava um moletom cinza e o cabelo estava levemente bagunçado, o que, para o azar de Ana, o deixava ainda mais atraente de um jeito casual e desarmado.
— A chefe tem um minuto para o último da fila? — perguntou ele, fechando a porta atrás de si.
— Para você, Afonso, eu tenho exatamente o tempo necessário para não atrasar o relatório da noite — respondeu ela, apontando para a cadeira vaga ao lado da escrivaninha. — Senta.
Afonso sentou-se, mas em vez de olhar para os papéis, ele ficou observando o perfil de Ana. O quarto estava impregnado com o perfume cítrico dela, e o silêncio ali dentro era muito diferente do caos dos camarins.
— Você parece exausta, Ana — comentou ele, o tom de voz perdendo a ironia habitual. — Os outros três te deram muito trabalho?
— O de sempre. O Thiago quer o mundo, o Márcio quer a cama e o Dihh quer ter razão — ela deu um sorriso pequeno, ainda olhando para a tela. — Agora, preciso decidir o que você quer. Pelo menos para as férias de janeiro.
— O que eu quero... — Afonso repetiu, a voz baixinha, quase como se falasse para si mesmo.
Ana abriu a planilha dele.
— Eu reservei duas semanas para você no início do ano. Pensei que você gostaria de ir para Curitiba ver sua família, ou talvez aquela viagem para a Europa que você mencionou no mês passado. O que acha?
Afonso não respondeu de imediato. Ele se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, diminuindo a distância entre eles. Ana sentiu o calor dele e o cheiro de sabonete, e de repente, as datas no monitor começaram a dançar diante de seus olhos.
— Ana, olha para mim um pouco — pediu ele.
Ela hesitou, mas virou o rosto. Afonso estava perto. Perto demais para o que o protocolo profissional exigia. O olhar dele era atento, observador, mas não tinha a malícia das provocações que ele fazia no palco. Havia uma curiosidade genuína ali.
— Você está sempre fugindo, sabia? — disse ele. — A gente viaja o país inteiro, divide hotéis, jantares, aviões... e eu sinto que conheço a administradora Ana perfeitamente. Mas não conheço a Ana que tem 23 anos e que, às vezes, fica vermelha quando eu conto uma piada mais pesada.
Ana sentiu o rosto esquentar instantaneamente, provando o ponto dele.
— Eu sou sua gestora, Afonso. Meu trabalho é garantir que tudo funcione, não... não ser um livro aberto.
— Mas a gente não está no teatro agora — rebateu ele, esticando a mão e, com uma coragem que o surpreendeu, tocou a ponta dos dedos de Ana que descansavam sobre a mesa. — E você está tremendo. Por que você tem tanto medo de mim?
— Eu não tenho medo de você — mentiu ela, a voz saindo mais fina do que pretendia. — Eu só sou... reservada.
Afonso sorriu, um sorriso de canto que era sua marca registrada.
— Reservada. Sei. O Thiago diz que você é um robô de última geração enviado para nos manter na linha. Mas robôs não têm o pulso tão acelerado assim.
Ele deslizou a mão, cobrindo a mão dela. Ana sentiu um choque percorrer sua espinha. O contato era novo, assustador e terrivelmente viciante. Ela nunca tinha deixado ninguém chegar tão perto, não por falta de oportunidade, mas por uma timidez crônica que ela mascarava com eficiência e planilhas.
— Afonso, a agenda... — tentou ela, em um último esforço de defesa.
— Esquece a agenda por cinco minutos — ele se levantou, mas não se afastou. Ele contornou a mesa e parou ao lado da cadeira dela. — Sabe o que eu acho? Eu acho que você é a pessoa mais inteligente que eu já conheci. E a mais corajosa também, por aguentar a gente. Mas você é péssima em esconder quando está nervosa.
Ele colocou a mão no encosto da cadeira dela, cercando-a. Ana olhou para cima, encontrando os olhos dele. O coração dela martelava contra as costelas, um ritmo frenético que parecia preencher todo o quarto. Ela se sentia pequena, mas não de um jeito ruim.
— Você é muito zueiro, Afonso — sussurrou ela. — Eu nunca sei quando você está falando sério ou quando está preparando o terreno para uma esquete nova.
Afonso suspirou, a expressão tornando-se subitamente séria, quase solene.
— Eu nunca faria piada com isso, Ana. Com você.
Ele se inclinou devagar. Ana fechou os olhos, o pânico e a expectativa lutando dentro dela. Ela pensou em se afastar, em dizer que tinha muito trabalho, em inventar uma desculpa logística. Mas o cheiro dele, a proximidade, a segurança que ele transmitia apesar de toda a bagunça que era sua vida pública, a mantiveram presa ao lugar.
Afonso parou a milímetros do rosto dela. Ele percebeu a hesitação dela, o modo como ela segurava a respiração. Ele sempre foi um observador nato, e algo na inocência do rosto de Ana o fez parar. Ele percebeu, naquele instante, que para ela aquilo não era apenas um "lance" de bastidores. Era algo monumental.
— Ana — chamou ele, a voz como um carinho. — Abre os olhos.
Ela obedeceu, os cílios loiros tremendo.
— Eu não vou fazer nada que você não queira — disse ele, a mão subindo para acariciar levemente a bochecha dela. — Mas eu queria muito saber se o que eu estou sentindo é correspondido. Ou se eu sou apenas um item na sua lista de tarefas que está dando problema.
Ana engoliu em seco. A honestidade dele quebrou a última barreira de sua timidez.
— Você nunca foi apenas um item, Afonso — confessou ela, a voz quase inaudível. — Você é o item que eu mais tenho medo de errar a conta.
Afonso sorriu, desta vez de forma completa, e eliminou o espaço restante.
O beijo foi leve no início, um toque de lábios que testava o terreno. Para Ana, foi como se o mundo tivesse parado de girar. A primeira sensação foi de um calor avassalador, seguido por uma percepção aguda de cada detalhe: a textura da pele dele, o modo como ele a segurava com delicadeza, como se ela fosse feita de cristal.
Ela não sabia o que fazer com as mãos, então as apoiou nos ombros dele, sentindo o tecido macio do moletom. Afonso, percebendo a inexperiência dela, foi paciente. Ele a conduziu com uma ternura que ninguém que o visse contando piadas ácidas no palco acreditaria existir. O beijo se aprofundou gradualmente, tornando-se mais firme, mais real.
Para Ana, era a descoberta de um novo continente. Toda a sua organização, sua lógica e seu controle não serviam de nada ali. E, pela primeira vez na vida, ela não se importava em estar perdida.
Quando se separaram, a testa dele permaneceu encostada na dela. Ambos estavam ofegantes. O silêncio do quarto agora tinha uma voltagem elétrica, uma cumplicidade que mudaria tudo a partir daquele segundo.
— Uau — sussurrou Afonso, os olhos ainda fechados. — Se eu soubesse que a administradora era assim, eu teria pedido para revisar a agenda muito antes.
Ana riu, um som genuíno e relaxado, escondendo o rosto no peito dele por um momento.
— Cala a boca, Padilha.
— É sério, Ana. Você... você está bem? — perguntou ele, afastando-se um pouco para olhar o rosto dela, que agora estava de um rosa profundo.
— Estou — disse ela, recuperando um pouco da sua postura, embora o brilho nos olhos a entregasse. — Só... um pouco surpresa. Eu passei tanto tempo organizando a vida de vocês que esqueci de organizar a minha.
Afonso pegou a mão dela e a beijou.
— Deixa que a sua vida eu ajudo a bagunçar. E a organizar depois, se você fizer questão.
Ana olhou para o notebook, onde a planilha de férias ainda brilhava.
— E as suas férias, Afonso? O que eu coloco no sistema?
Afonso olhou para ela, depois para a porta, e finalmente para o relógio na parede.
— Coloca que eu vou passar janeiro em qualquer lugar onde você esteja. Mas, por enquanto... — ele se inclinou novamente, o sorriso travesso voltando ao rosto — ...acho que a gente tem uns 20 minutos antes do Thiago vir aqui perguntar se eu morri.
— O Thiago é um problema — concordou ela, rindo.
— O Thiago é um problema para a administradora. Para a Ana... ele é só um ruído de fundo.
Eles se beijaram novamente, desta vez com mais confiança. Ana percebeu que, embora soubesse tudo sobre logística, contratos e marketing, ela estava apenas começando a aprender a lição mais importante daquela turnê: que a melhor parte do show acontece quando as cortinas se fecham e a vida real, sem roteiro e cheia de improvisos, finalmente começa.
Minutos depois, um grito abafado veio do corredor, seguido por uma batida violenta na porta.
— PADILHA! VOCÊ TÁ AÍ DENTRO FAZENDO O QUÊ? TÁ LENDO O DICIONÁRIO COM A ANA? — era a voz de Thiago Ventura, acompanhada pelas risadas de Márcio e Dihh. — SAI DAÍ, A GENTE QUER PEDIR HAMBÚRGUER E A ANA PRECISA APROVAR O ORÇAMENTO!
Ana e Afonso se separaram, rindo da interrupção inevitável. Ela ajeitou o cabelo rapidamente e Afonso limpou um vestígio de brilho labial do canto da boca.
— Vai lá, "Padi" — disse ela, apontando para a porta. — Antes que eles derrubem o hotel.
Afonso caminhou até a porta, mas parou com a mão na maçaneta.
— Janeiro, Ana — lembrou ele. — Não esquece.
— Eu nunca esqueço de nada, Afonso. Está anotado.
Ele abriu a porta e foi imediatamente bombardeado pelos três amigos, que tentavam espiar para dentro do quarto.
— E aí, como foi a "reunião"? — perguntou Dihh, com um olhar de quem sabia exatamente o que tinha acontecido. — A agenda tá pronta ou você foi reprovado?
— A agenda está perfeita — respondeu Afonso, passando por eles com um sorriso de orelha a orelha que ele não conseguia esconder. — A melhor agenda da minha vida.
Lá dentro, Ana fechou o notebook. Ela ainda estava trêmula, mas havia uma leveza em seu peito que nenhuma conclusão de mestrado jamais lhe dera. Ela olhou para a escrivaninha bagunçada e sorriu. Pela primeira vez, o caos parecia exatamente o que ela precisava.