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De risadinha

Sincronia por Trás das Cortinas

O Teatro Gazeta, em São Paulo, pulsava com a energia de uma noite de ingressos esgotados. Nos bastidores, o ar era denso, carregado com o cheiro de café fresco, laquê e aquela eletricidade estática que só existe minutos antes de um show de comédia começar. Ana, com seu tablet em mãos e o fone de ouvido profissional ajustado sobre o coque loiro impecável, era o centro gravitacional daquele caos organizado.

Ela conferia os níveis de áudio, a iluminação lateral e o cronômetro que brilhava em vermelho no canto da tela. Para qualquer pessoa de fora, ela parecia uma máquina de eficiência fria, mas por dentro, o coração de Ana ainda batia no ritmo acelerado do encontro que tivera com Afonso no hotel. O beijo, a confissão, a promessa de janeiro... tudo aquilo estava guardado em uma pasta mental "VIP", protegida por uma senha que só ele possuía.

Os quatro amigos se aproximaram da lateral do palco, fazendo o aquecimento habitual. Thiago Ventura pulava de um lado para o outro, Márcio Donato resmungava sobre a temperatura do ar-condicionado, e Dihh Lopes observava a plateia por uma fresta na cortina. Afonso, no entanto, mantinha os olhos fixos em Ana.

Ela percebeu o olhar e caminhou até eles. O rádio em sua cintura chiou levemente, mas ela o ignorou por um segundo.

— Tudo pronto, meninos — disse ela, a voz suave, mas firme o suficiente para cortar a agitação deles. — O público está quente, a luz de entrada está testada e o retorno de vocês está no volume que pediram.

Ela parou diante deles, um por um, ajustando os microfones de lapela com a precisão de quem conhece cada centímetro daqueles equipamentos. Quando chegou em Afonso, seus dedos roçaram a gola da jaqueta dele por um segundo a mais do que o necessário. O contato fez os olhos de Afonso brilharem com uma cumplicidade silenciosa.

— Eu vou estar aqui o tempo todo — continuou Ana, olhando para o grupo com um sorriso meigo que raramente mostrava durante o trabalho. — Vou dar uma atenção individual a cada um de vocês em momentos especiais do show. Vou falar pelo contato no fone se houver qualquer imprevisto ou se eu notar algo que vocês possam usar na hora. Qualquer coisa é só me falarem, meninos.

— Você é o nosso anjo da guarda, Ana — disse Thiago, com uma sinceridade rara. — Sem você, a gente provavelmente entraria no palco sem calças.

— Não duvido nada, Thiago — ela riu, dando um passo para trás. — Agora vão lá e quebrem tudo.

Com um último aceno, ela se retirou para a mesa de controle lateral, mergulhando na penumbra técnica. As luzes do teatro se apagaram, a trilha sonora subiu e os gritos da plateia ecoaram como um trovão.

O show começou com a energia lá no alto. Dihh Lopes foi o primeiro, dominando o palco com seu estilo ácido. Ana, sentada diante dos monitores, observava cada movimento. Ela percebeu que um grupo na terceira fileira estava rindo de algo interno, distraindo o comediante.

Ela pressionou o botão do comunicador, e a voz dela surgiu clara e calma apenas no fone de ouvido de Dihh.

— Dihh, o casal da terceira fila, cadeira 12 e 13. Eles estão com uma sacola de presente gigante no colo. Acho que é aniversário de alguém. Usa isso.

Dihh, sem perder o tempo da piada, olhou para a direção indicada e abriu um sorriso predatório.

— E esse presente aí, amigão? É pra mim ou você tá escondendo um anão aí dentro? — O teatro explodiu em risadas enquanto Dihh improvisava dez minutos de material em cima do casal, tudo graças ao "olho de águia" de Ana.

Quando foi a vez de Márcio Donato, Ana notou que ele estava suando mais do que o comum e parecia um pouco ofegante.

— Márcio — ela falou suavemente no fone dele —, respira. A próxima piada é a do hospital, dá uma pausa dramática maior. Eu vou pedir para baixarem o ar em dois graus agora. Bebe um gole da água que está no suporte da esquerda.

Márcio obedeceu quase instintivamente. Ele bebeu a água, recuperou o fôlego e entregou um dos melhores blocos da noite. No escuro dos bastidores, Ana sorriu ao ver a postura dele relaxar.

Thiago Ventura entrou como um furacão, mas em certo momento, ele se empolgou tanto que começou a se afastar da área de captação da luz principal.

— Thiago, dois passos para trás — comandou Ana no ouvido dele. — Você está saindo do foco da câmera 2. Isso, perfeito. Agora faz aquela cara de maloqueiro que a gente sabe que você ama.

Thiago fez uma pose para a câmera, arrancando aplausos, e deu uma piscadela rápida em direção ao escuro onde sabia que Ana estava.

Por fim, foi a vez de Afonso.

Ana sentiu um frio na barriga que não tinha nada a ver com a logística do show. Ela o observou caminhar até o centro do palco sob uma ovação de pé. Ele estava em seu elemento, mas ela sabia que, naquela noite, havia algo diferente na entrega dele. Ele parecia mais leve, mais presente.

No meio do set, Afonso começou a falar sobre relacionamentos e sobre como era difícil encontrar alguém que entendesse o ritmo louco de um comediante. Ana sentiu que ele estava saindo do roteiro.

— Ele está improvisando — sussurrou para si mesma, ajustando o volume do microfone dele.

— Sabe — disse Afonso para a plateia —, a gente viaja muito. Conhece muita gente. Mas o que ninguém te conta é que a pessoa mais incrível do mundo pode estar do seu lado o tempo todo, segurando uma prancheta e garantindo que você não tropece no próprio ego.

A plateia soltou um "ahhh" coletivo. Ana sentiu seu rosto queimar na escuridão da técnica.

— Afonso, volta para o roteiro — ela disse no fone dele, embora sua voz estivesse carregada de carinho. — Você está deixando a sua produtora vermelha e isso não está no cronograma.

Afonso deu uma risadinha curta que a plateia não entendeu, mas que para Ana significava tudo.

— Minha produtora está me dando bronca no ouvido agora — confessou Afonso para o público, rindo. — Ela é mandona, gente. Se eu não fizer o que ela quer, ela cancela meu jantar. E eu estou morrendo de fome.

As risadas foram imediatas. Ana balançou a cabeça, escondendo o sorriso atrás da mão. Ele era impossível.

— Foca no show, Padilha — ela disse, tentando manter a autoridade. — Falta o bloco do pinhão. Cinco minutos para encerrar.

Afonso finalizou o show com maestria, e quando os quatro se reuniram no palco para os agradecimentos finais, a sensação de dever cumprido era palpável. Eles se abraçaram, agradeceram à plateia e, sob uma chuva de aplausos, caminharam para fora do palco.

Assim que cruzaram a cortina, o clima mudou. A adrenalina do palco começou a baixar, dando lugar àquela exaustão satisfatória.

— Cara, aquela dica do casal foi matadora, Ana! — gritou Dihh, tirando o fone e pendurando-o no pescoço. — Você salvou meu começo de show.

— E o ar-condicionado? — Márcio suspirou, pegando uma toalha. — Eu achei que ia derreter. Obrigado, de verdade.

— Eu quase saí do foco, né? — Thiago riu, dando um tapinha no ombro de Ana. — Você não deixa passar nada, loira. É por isso que a gente te ama.

Ana sorriu para os três, sentindo-se parte daquela família barulhenta e disfuncional.

— É o meu trabalho, meninos. Alguém tem que garantir que vocês pareçam profissionais lá fora.

Afonso foi o último a se aproximar. Ele esperou que os outros três seguissem para o camarim, onde já se ouvia o barulho de latas de refrigerante abrindo e conversas altas. Ele parou diante de Ana, que ainda estava guardando o tablet na mochila.

— E para mim? — perguntou ele, a voz baixa, protegida pelo barulho ambiente. — Qual é o feedback da chefe?

Ana olhou para ele, deixando a máscara de produtora cair por completo.

— Para você? — Ela se aproximou, ajeitando a lapela da jaqueta dele pela décima vez naquela noite. — Para você, o feedback é que você é um exibido que adora me deixar nervosa na frente de três mil pessoas.

— Mas funcionou, não funcionou? — Ele sorriu, aquele sorriso que fazia Ana esquecer qualquer planilha.

— Funcionou — admitiu ela. — Você foi incrível, Afonso. Como sempre.

Ele segurou a mão dela por um momento, um gesto rápido antes que alguém aparecesse.

— Você ouviu o que eu disse lá no palco? Sobre a pessoa incrível com a prancheta?

— Ouvi. E se você repetir isso amanhã no aeroporto, eu juro que despacho sua mala para o Japão.

Afonso riu e a puxou para um abraço rápido, um refúgio de paz no meio do caos dos bastidores.

— Eu não me importo de ir para o Japão, desde que você seja a produtora da turnê.

Ana o empurrou levemente, rindo, mas mantendo a mão no braço dele.

— Vai para o camarim, Padilha. Os meninos estão te esperando. E eu ainda tenho que conferir o borderô da bilheteria.

— Você não para nunca? — perguntou ele, já se afastando.

— Alguém tem que manter esse circo funcionando — respondeu ela, voltando para sua postura profissional, mas com um brilho nos olhos que não estava lá antes de Belo Horizonte.

Enquanto Afonso caminhava em direção ao camarim, Ana voltou para sua mesa. Ela abriu o sistema de vendas, mas seus olhos se perderam por um momento na tela escura do monitor. Ela pensou na garota de 23 anos que, há apenas alguns meses, achava que sua vida se resumiria a números e marketing. Agora, ela fazia parte de algo maior. Ela era o alicerce de quatro dos maiores humoristas do país, e, mais do que isso, tinha encontrado alguém que via além da sua eficiência.

O rádio chiou novamente. Era a voz de Dihh Lopes.

— Ana, o Thiago tá tentando abrir uma garrafa de espumante com um sapato aqui no camarim. Acho que a gente precisa de uma intervenção administrativa.

Ana suspirou, mas era um suspiro carregado de felicidade.

— Já estou indo, Dihh. Digam ao Thiago para não destruir o patrimônio do teatro.

Ela fechou a mochila, ajeitou o fone no pescoço e caminhou em direção ao barulho. O show no palco podia ter acabado, mas para Ana, o espetáculo mais importante estava apenas começando, longe dos holofotes, onde as piadas eram internas e o amor não precisava de roteiro.