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De risadinha

A Barreira das Pranchetas e dos Boatos

O som das rodinhas das malas ecoando pelo piso de granito do Aeroporto de Congonhas era a trilha sonora oficial da vida de Ana. Eram seis da manhã de uma terça-feira e o grupo estava embarcando para mais uma sequência de shows no Sul. Enquanto Thiago Ventura tentava equilibrar um copo de café e um pão de queijo, e Márcio Donato reclamava do sono profundo, Ana já estava no seu quinto check-list do dia.

— Ana, você viu meu fone de ouvido? — Afonso se aproximou, a voz ainda rouca de quem tinha acabado de acordar.

— Está na lateral da sua mochila, Afonso. Eu mesma guardei ontem depois que você o esqueceu na mesa do camarim — respondeu ela, sem tirar os olhos do tablet.

— Você é um anjo. O que eu faria sem você? — Ele sorriu, aquele sorriso de lado que costumava desarmar qualquer pessoa, mas que em Ana causava um efeito de alerta imediato.

— Provavelmente perderia o voo, os fones e o senso de direção — ela retrucou, com um tom profissional e polido. — Agora, por favor, confira se seu RG está à mão. Não quero atrasos no portão 12.

Afonso a observou se afastar para falar com Dihh Lopes sobre o cronograma de entrevistas em Porto Alegre. Havia algo em Ana que o intrigava profundamente. Ela era impecável, rápida, inteligente e, ocasionalmente, muito engraçada. Mas, sempre que ele tentava diminuir a distância entre os dois, ela agia como se houvesse uma parede de vidro blindado separando-os.

No avião, o destino — ou talvez uma pequena sabotagem de Thiago Ventura — colocou Afonso e Ana lado a lado.

— Destino interessante, não? — Afonso comentou, ajeitando o cinto de segurança.

— Coincidência logística, Afonso — Ana respondeu, abrindo um livro de Marketing Estratégico. — Tenho muita leitura atrasada do mestrado. Se não se importar, vou focar aqui.

— Você não para nunca, Ana? — Ele perguntou, genuinamente curioso. — Você tem 23 anos. É jovem, brilhante. Já está no mestrado, gerencia a carreira de quatro caras difíceis... não sente vontade de só... não fazer nada às vezes?

Ana fechou o livro por um segundo, mantendo o dedo entre as páginas. Ela olhou para ele e sentiu aquele frio familiar no estômago. Afonso era, sem dúvida, um homem atraente. O jeito espontâneo dele e a forma como ele parecia enxergar através das pessoas a assustavam.

— Minha vida exige foco, Afonso. Eu não tenho o luxo de "não fazer nada" se quiser chegar onde planejei. Nossos momentos são diferentes. Você já conquistou seu espaço, já tem sua estabilidade. Eu ainda estou cavando o meu chão.

— Momentos diferentes? — Ele franziu a testa. — A gente está no mesmo avião, indo para o mesmo show. A idade é só um detalhe, Ana. Eu não sou um ancião, sabia?

— Não foi o que eu quis dizer — ela disse, voltando os olhos para o livro. — Só acho que nossas prioridades não batem. Agora, com licença.

A verdade era que Ana estava mentindo. Suas prioridades batiam muito bem com a ideia de passar horas conversando com ele, mas ela se recusava a ser "mais uma". Na noite anterior, enquanto organizava as redes sociais do grupo, ela tinha visto uma marcação em um perfil de fofoca: Afonso Padilha saindo de um restaurante em São Paulo com uma influenciadora de moda. A foto estava borrada, mas o sorriso dele era inconfundível.

"Ele tem a vida dele. Os rolos dele. E eu sou a produtora", ela repetia mentalmente como um mantra de proteção.

Ao chegarem no hotel em Porto Alegre, o caos se instalou. O sistema de reservas tinha caído e a recepção estava lotada. Enquanto os meninos sentavam nos sofás para fazer stories reclamando do cansaço, Ana assumiu o controle.

— Eu não quero saber se o sistema caiu — ela disse calmamente para o recepcionista, mas com uma autoridade que fez o homem emendar a postura. — Eu tenho quatro artistas exaustos e uma equipe técnica que precisa descarregar o caminhão em duas horas. Você vai encontrar essas chaves agora ou eu mesma vou entrar atrás desse balcão e resolver.

De longe, os quatro observavam a cena.

— Cara, ela é muito brava — sussurrou Márcio. — Eu tenho medo e tesão ao mesmo tempo quando ela faz essa voz de 'eu mando aqui'.

— O Afonso só tem o tesão mesmo — Thiago provocou, dando uma cotovelada no amigo. — Olha a cara de bobo dele vendo ela dar esporro no recepcionista.

— Ela é foda, Thiago. Só isso — Afonso defendeu, mas não conseguia desviar o olhar.

Ana conseguiu os quartos em tempo recorde. Quando entregou a chave de Afonso, ele tentou segurar a mão dela por um segundo a mais.

— Obrigado, Ana. De verdade. Você salva a nossa pele todo dia.

— É pra isso que me pagam, Afonso — ela disse, retirando a mão com uma agilidade cirúrgica. — Esteja no lobby às 18h para o translado. Sem atrasos.

No camarim do teatro, antes do show, o clima era de descontração. Afonso estava sentado em frente ao espelho, mas seus olhos acompanhavam Ana, que conferia as garrafas de água e as toalhas. Ela usava uma calça jeans escura justa e uma camisa preta da produção, com as mangas dobradas. O cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto, revelando o pescoço delicado.

Afonso achava ela simplesmente maravilhosa. Não era apenas a beleza física — que era óbvia —, mas a competência. Ele nunca tinha conhecido uma mulher que fosse tão dona de si.

— Ana, vem cá — chamou Afonso.

Ela se aproximou, com a prancheta no peito como um escudo.

— O que foi? Algum problema com o microfone?

— Não. Eu só queria saber... por que você nunca aceita jantar com a gente depois dos shows? Você sempre corre pro hotel ou diz que tem que estudar.

— Porque o meu trabalho termina quando vocês descem do palco, mas a minha responsabilidade com a logística do dia seguinte começa logo depois — ela respondeu, rápida.

— Mentira — Thiago interrompeu, surgindo do nada com um microfone na mão. — Ela não vai porque ela sabe que se for, o Padilha não vai parar de cercar ela. E a Ana é inteligente, ela sabe que o Afonso é um perigo.

— Thiago, cala a boca — Afonso resmungou, embora estivesse rindo.

— É sério, Ana! — Thiago continuou. — O Afonso tá num mel ultimamente. Viu a fofoca de ontem? A loira do restaurante?

Ana sentiu uma pontada no peito, mas manteve a expressão neutra.

— Eu não acompanho a vida pessoal dos meus agenciados, Thiago. Não me interessa.

— Viu, Afonso? — Dihh Lopes entrou na conversa. — "Não me interessa". Tomou um xeque-mate da loira.

Afonso olhou para Ana e percebeu, por um microssegundo, uma sombra de desconforto nos olhos dela. Ele se levantou e caminhou até ela, ignorando as risadas dos amigos ao fundo.

— Aquela foto de ontem... — ele começou, baixando o tom de voz para que apenas ela ouvisse. — Era uma prima minha que mora no interior e foi me pedir conselho sobre a carreira dela. Não era "rolo", Ana.

Ana sentiu o coração disparar. Por que ele estava se justificando?

— Você não me deve explicações, Afonso. Como eu disse, sua vida pessoal é sua.

— Mas eu quero te dar — ele insistiu, dando um passo para mais perto. — Eu tenho a impressão de que você acredita em tudo o que lê por aí e usa isso pra criar essa distância de dois mil quilômetros entre a gente.

— Eu não crio distância, Afonso. Eu crio limites profissionais. É diferente.

— Limites são bons — ele disse, a voz agora quase um sussurro —, mas paredes são solitárias, Ana.

Ela ficou sem resposta. O perfume dele, uma mistura de madeira e algo fresco, a envolvia. Por um instante, ela quis largar a prancheta, esquecer os cronogramas e apenas admitir que achava ele o homem mais interessante que já tinha cruzado seu caminho. Mas então, a voz da razão gritou em sua mente: "Ele é um comediante famoso. Você é a produtora. Não seja um clichê."

— Cinco minutos para o sinal — ela disse, recuperando a compostura. — Vão para as posições.

O show foi um sucesso, mas Afonso estava distraído. Ele perdia o tempo de algumas piadas porque seus olhos teimavam em procurar a silhueta de Ana nas coxias. Ela estava lá, sempre atenta, falando ao rádio, conferindo o tempo.

Após a apresentação, enquanto o público ainda aplaudia, os meninos voltaram para o camarim em êxtase.

— Porto Alegre nunca decepciona! — gritou Márcio.

Ana entrou no camarim logo atrás deles, já com o celular na orelha.

— Sim, o transporte já pode encostar. São quatro passageiros. Obrigada.

Ela desligou e começou a recolher as coisas.

— Pessoal, o carro está esperando. Vamos direto para o hotel. Amanhã o voo é cedo.

— Ah, qual é, Ana! — Thiago reclamou. — Vamos comer um churrasco. Porto Alegre, pô!

— Vocês têm compromisso em Curitiba amanhã à tarde. Se saírem agora, conseguem dormir seis horas. Se forem ao churrasco, vão chegar no palco amanhã parecendo figurantes de The Walking Dead. E eu não vou lidar com o mau humor de vocês por falta de sono.

— Ela tem razão — Afonso disse, surpreendendo a todos. — Vamos pro hotel.

No corredor do hotel, após todos pegarem seus cartões, Afonso esperou que os outros entrassem em seus quartos. Ana estava caminhando em direção ao elevador para ir para o seu andar, que ficava em outro nível.

— Ana! — ele chamou.

Ela parou e se virou. O corredor estava silencioso.

— O que foi agora, Afonso?

Ele caminhou até ela. Não havia piadas, não havia plateia, não havia os outros três para provocar.

— Por que você tem tanto medo de que eu seja o que as pessoas dizem? — ele perguntou diretamente.

— Eu não tenho medo — ela respondeu, mas sua voz falhou levemente.

— Tem sim. Você se esconde atrás dessas planilhas porque é mais fácil controlar números do que sentimentos. Você me acha um "galinha", um cara que não leva nada a sério porque meu trabalho é fazer rir. Mas você é a pessoa que mais me vê nos bastidores. Você sabe que eu não sou só isso.

Ana suspirou, encostando-se na parede fria do corredor.

— Afonso, eu tenho 23 anos. Eu estou tentando ser levada a sério em um meio extremamente machista. Se eu me envolver com você, eu viro "a namorada do Afonso Padilha" e deixo de ser a Ana, a administradora competente. Eu não posso perder o que eu construí por causa de... de uma atração.

— Então você admite? — Ele deu um sorriso vitorioso, aproximando-se. — Admite que existe uma atração?

— Eu nunca disse que você era feio, Afonso. Eu disse que você é um risco que eu não posso correr.

Ele parou a poucos centímetros dela. Ana podia sentir o calor do corpo dele. Ela olhou para cima e encontrou os olhos castanhos dele, que agora não tinham nada de brincalhões. Eram intensos, focados e, para o desespero dela, extremamente sinceros.

— E se eu te disser que eu topo correr o risco por nós dois? — ele sussurrou. — Eu espero o seu tempo, Ana. Eu respeito o seu trabalho. Eu não quero que você seja "a namorada de fulano". Eu quero que você continue sendo essa mulher foda que me deixa nervoso toda vez que entra numa sala. Mas eu queria que, quando as luzes apagassem, a gente não precisasse fingir que não quer se beijar.

Ana sentiu suas defesas desmoronarem como um castelo de cartas. A maturidade dele ao falar aquilo a pegou de surpresa. Ela esperava uma cantada barata, uma piada para quebrar o gelo, mas ele estava sendo... maduro. Confiável.

— Eu não sei fazer isso, Afonso — ela confessou, a voz baixa. — Eu não sei ser casual. Eu nunca tive tempo para "rolos".

— Quem disse que eu quero algo casual? — Ele levou a mão ao rosto dela, afastando uma mecha de cabelo com uma delicadeza que a fez fechar os olhos. — Eu sou observador, Ana. Eu vejo como você cuida de tudo. Eu vejo como você é dedicada. Eu não quero estragar isso. Eu quero fazer parte disso.

Ele se inclinou devagar, dando a ela todo o tempo do mundo para recuar. Mas Ana não recuou. Pela primeira vez, ela deixou a prancheta mental de lado.

O beijo começou lento, quase uma pergunta. Os lábios de Afonso eram macios e tinham gosto de café e hortelã. Ana sentiu uma onda de alívio percorrer seu corpo, como se estivesse guardando aquele fôlego há meses. Ela correspondeu, as mãos subindo hesitantes para a nuca dele, sentindo o cabelo curto e a pele quente.

Afonso a puxou para mais perto, aprofundando o beijo com uma urgência contida. Era um encontro de dois mundos: a organização dela e o caos dele, a juventude dela e a experiência dele. E, naquele momento, tudo fazia sentido.

Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Afonso encostou a testa na dela, sorrindo.

— Viu? O mundo não acabou. Nenhuma planilha foi deletada.

Ana riu, um som genuíno que raramente saía perto dele.

— Você é um idiota, sabia?

— O seu idiota preferido, espero.

— Não começa, Padilha — ela disse, tentando recuperar a postura, embora o rosto estivesse corado. — Isso não muda o fato de que amanhã, no lobby, somos profissional e gestora. Nada de gracinhas na frente dos meninos. Eles não podem saber.

— Por mim, tudo bem. Vai ser até divertido ver o Thiago tentar adivinhar por que eu estou com essa cara de felicidade constante.

— Afonso, eu estou falando sério — ela o encarou, voltando ao "modo produtora". — Minha carreira vem primeiro.

— Eu sei, Ana. E eu admiro isso em você — ele deu um beijo rápido na testa dela. — Vai descansar. Você tem um voo pra organizar amanhã, lembra?

— Eu nunca esqueço — ela sorriu, caminhando em direção ao elevador.

Antes de entrar, ela olhou para trás. Afonso ainda estava parado no corredor, observando-a.

— Afonso?

— Oi?

— A loira da foto... se ela aparecer de novo, eu mesma despacho a mala dela pra outro continente.

Afonso soltou uma gargalhada alta que provavelmente acordou metade do andar.

— Pode deixar, chefe!

Ana entrou no elevador e encostou as costas na parede de espelho. Seu coração ainda estava acelerado. Ela sabia que estava entrando em um terreno perigoso, que os boatos ainda existiriam e que a diferença de idade e de momento de vida ainda era real. Mas, pela primeira vez, ela sentiu que não precisava resolver todos os problemas antes que eles acontecessem.

Às vezes, o melhor plano era simplesmente deixar o show continuar e ver o que o improviso reservava para o próximo ato. E, se o improviso incluísse Afonso Padilha, talvez o risco valesse cada segundo.