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De risadinha em risadinha

O Voo 402 e o Mistério de Fortaleza

— Tem certeza que você pegou todos os contratos da Lexos? — Ana perguntou, sem tirar os olhos da tela do notebook enquanto a van sacolejava a caminho do aeroporto.

— Peguei, Ana. Tá tudo aqui na pasta — Thiago respondeu, esticando as pernas o máximo que o espaço limitado permitia. — Relaxa um pouco. Você vai para uma gravação rápida comigo e depois vai sumir por sete dias. O mundo não vai acabar se você não conferir esse e-mail agora.

Ana suspirou, fechando o computador com um estalo seco. Seus cabelos loiros, que ela insistia em manter presos durante o trabalho, pareciam querer escapar do coque, e seus olhos castanho-claros mostravam o cansaço de quem tinha organizado três apresentações em três cidades diferentes na última semana.

— O mundo não acaba, Thiago, mas a logística sim. Se eu não deixar tudo mastigado para o Dihh e para o Márcio, quando eu voltar de férias vou encontrar vocês morando na rua porque esqueceram de renovar o aluguel do teatro.

No banco de trás, Afonso, que estava estranhamente silencioso observando a paisagem urbana passar pela janela, virou-se para frente. O anúncio das férias de Ana tinha caído como uma pequena bomba em seu humor naquela manhã.

— Uma semana, Ana? — Afonso perguntou, tentando soar casual, mas falhando miseravelmente. — O que uma pessoa faz em Fortaleza por uma semana inteira sozinha?

— Eu não vou ficar trancada no quarto, Afonso — ela respondeu, dando um meio sorriso. — Vou para a praia, comer caranguejo, ver o mar e visitar uns amigos que moram por lá. Eu mereço, não mereço?

— Merece, claro — Thiago interveio, com aquele brilho de malícia que sempre precedia uma tempestade de zoeira. — Mas a gente sabe que esse papo de "visitar amigos" é código para outra coisa. Ninguém viaja três mil quilômetros só para ver o mar. O mar do Rio tá logo ali.

— Lá vem — Ana resmungou, já prevendo o que viria.

— Não, sério — Márcio Donato, que estava sentado ao lado de Afonso, inclinou-se para frente, entrando na conversa. — A Ana está muito misteriosa. "Amigos em Fortaleza". Sei bem que tipo de "amigos" são esses. Devem ter uns dois metros de altura, dentes perfeitos e usam sunga o dia inteiro.

— Exatamente! — Thiago exclamou, batendo as mãos nos joelhos. — Ela vai é namorar. Vai voltar para São Paulo com sotaque cearense e um anel de coco no dedo, dizendo que decidiu viver de brisa e artesanato.

— Parem com isso — Ana riu, balançando a cabeça. — Eu não vou namorar ninguém. Primeiro porque eu não tenho tempo, segundo porque eu vou para descansar. E terceiro... ah, por favor, do jeito que as coisas estão, nem homem hétero existe mais direito. É tudo miragem.

Afonso sentiu uma pontada no peito com o comentário, mas forçou uma risada junto com os outros.

— Nem hétero existe mais? — Afonso perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Pô, Ana, assim você acaba com a minha autoestima e com a do pessoal aqui na van.

— Você entendeu o que eu quis dizer, Afonso — ela disse, olhando-o pelo retrovisor interno. — O mercado está escasso. Por isso, prefiro focar no meu sol, na minha água de coco e no meu silêncio.

— Sei... o silêncio de Fortaleza tem nome e sobrenome — provocou Márcio. — Eu conheço esse brilho no olho castanho. Isso aí é saudade de algum "contatinho" de verões passados.

— Não tem contatinho nenhum, Márcio! — Ana protestou, embora estivesse se divertindo com a insistência deles. — E o Thiago volta amanhã mesmo depois da gravação. Vocês vão ter que se virar com a planilha que eu deixei impressa. Se o Afonso chegar atrasado no ensaio de quarta, a culpa é de vocês que não acordaram ele.

A van parou em frente ao terminal de embarque. O clima de despedida começou a se instalar, e Afonso sentiu uma urgência incômoda. Ele não queria que ela fosse. Não por uma semana. A presença de Ana no backstage era o que mantinha sua ansiedade sob controle; era para ela que ele olhava antes de entrar no palco, buscando aquele aceno de cabeça que dizia que tudo estava certo.

Enquanto Thiago e Ana desciam para fazer o check-in, Afonso e os outros desceram apenas para ajudar com as malas.

— Juízo nessa gravação, Thiago — Dihh Lopes avisou, dando um abraço no amigo. — E Ana... vê se desliga o celular, senão o Afonso vai te ligar de cinco em cinco minutos perguntando onde estão as meias dele.

— Eu não vou ligar nada! — Afonso protestou, sentindo o rosto esquentar.

— Vai sim — Márcio completou. — Ele já está com cara de quem perdeu o brinquedo favorito. Olha lá, parece um cachorrinho de mudança.

Ana sorriu para Afonso, ignorando a provocação dos meninos. Ela se aproximou dele enquanto Thiago conferia as passagens no balcão logo à frente.

— Eles são idiotas, não liga — ela sussurrou.

— Eu sei — Afonso respondeu, a voz um pouco mais baixa. — Mas... uma semana é bastante tempo. Vê se não se acostuma muito com o sol de lá. A gente precisa de você aqui. O show não é o mesmo sem a "ditadora da administração".

Ana sentiu algo vibrar em seu peito. A forma como Afonso a olhava, sem o escudo das piadas, era sempre desarmante.

— Eu volto antes que você sinta falta das minhas broncas, Afonso. Prometo.

— Acho difícil — ele murmurou, quase inaudível.

— O quê? — ela perguntou, inclinando a cabeça.

— Acho difícil você voltar antes de eu sentir falta — ele corrigiu, recuperando o sorriso de canto. — Boa viagem, loira. E cuidado com os "amigos" que o Márcio inventou. Se algum deles for muito alto, diz que você já trabalha com quatro gigantes da comédia e não tem vaga para mais ninguém.

Ana riu e deu um beijo rápido no rosto dele, um gesto que fez o tempo parar por um segundo para Afonso.

— Pode deixar. Tchau, meninos!

Ela e Thiago acenaram enquanto cruzavam o portão de embarque. Márcio, Dihh e Afonso ficaram observando até que eles sumissem de vista.

— É, Padilha... — Márcio disse, colocando a mão no ombro do amigo. — Perdeu a administradora para o Ceará.

— Ela vai voltar, Márcio. Para de ser agourento — Afonso respondeu, mas seus olhos ainda estavam fixos no portão vazio.

— Vai voltar? Vai. Mas e se ela voltar com um "amigo" a tiracolo? — Dihh provocou. — O mercado pode estar escasso, mas Fortaleza é terra de gente bonita. Se eu fosse você, já ia preparando um solo novo sobre superação de perdas amorosas.

Afonso soltou um suspiro pesado e começou a caminhar de volta para a van.

— Vamos logo. A gente tem reunião com o empresário e eu ainda não decidi o que vou fazer no bloco de amanhã.

— Ih, olha lá! — Thiago, que já estava lá dentro do aeroporto, mandou uma mensagem no grupo do WhatsApp dos 4 Amigos com uma foto de Ana distraída na fila. — A noiva já está com saudade do noivo? Ela não para de olhar o celular.

Afonso sentiu o celular vibrar no bolso, mas não respondeu. Ele sabia que a semana seria longa. Muito longa.

***

Enquanto isso, já sentada na poltrona do avião, Ana olhava pela janela. Thiago estava ao seu lado, já com os fones de ouvido, pronto para apagar durante o voo curto para a cidade vizinha.

Ela abriu a galeria de fotos do celular. Passou por várias planilhas, fotos de camarins bagunçados e cronogramas de viagens. Parou em uma foto tirada na última semana: os quatro amigos rindo no palco, mas a câmera tinha focado acidentalmente em Afonso, que estava olhando para a lateral do palco — exatamente onde ela costumava ficar.

Ana sorriu sozinha. Ela sabia que os meninos estavam apenas brincando sobre os "amigos em Fortaleza". A verdade era que, nos últimos meses, nenhum lugar no mundo parecia tão interessante quanto o caos dos bastidores onde Afonso estivesse presente.

— Tá sorrindo para a planilha de novo, Ana? — Thiago perguntou, abrindo um dos olhos.

— Não, Thiago. Só estou pensando que talvez uma semana seja tempo demais longe de vocês.

— De "nós" ou de um "nós" específico que usa boné e não sabe onde guarda as meias? — ele provocou, voltando a fechar os olhos.

Ana não respondeu. Ela apenas encostou a cabeça na poltrona e fechou os olhos, deixando o som das turbinas abafar seus pensamentos. Ela ia para Fortaleza, sim. Ia ver o mar e descansar. Mas, pela primeira vez na vida, a administradora organizada não via a hora de o tempo passar rápido para que o cronograma a trouxesse de volta para o lugar onde seu coração, sem nenhuma autorização profissional, tinha decidido estacionar.

No aeroporto, Afonso entrava na van pensando na mesma coisa. Sete dias. Seriam as 168 horas mais longas da turnê.

— Ei, Afonso — chamou Dihh, já dentro do carro. — O que você acha de a gente fazer uma surpresa e ir buscar ela no aeroporto quando ela voltar?

Afonso olhou para o amigo, a ideia começando a florescer em sua mente.

— Com cartaz e tudo? — perguntou Afonso, um brilho de esperança voltando aos olhos.

— Com cartaz, carro de som e o Thiago vestido de caranguejo — Márcio completou, rindo.

— Fechado — disse Afonso. — Mas o cartaz é meu. E eu vou escrever: "O mercado de Fortaleza fechou. A administradora voltou para o dono".

— Cafona demais! — Dihh gritou entre gargalhadas. — Mas a gente deixa, só porque você está sofrendo.

A van partiu, deixando para trás o aeroporto, mas levando consigo a promessa de que, não importava para onde Ana fosse, os bastidores dos 4 Amigos sempre seriam o seu verdadeiro destino.