De risadinha em risadinha
O Sal, o Sol e o Abraço que Demorou uma Semana
O ar condicionado do camarim do Teatro Rio Vermelho, em Goiânia, parecia insuficiente para conter a energia que circulava ali dentro. Para Ana, o retorno ao trabalho tinha o gosto agridoce de quem deixa o paraíso para voltar à guerra, mas uma guerra que ela amava. Ela estava mais bronzeada, com a pele dourada pelo sol de Fortaleza e o cabelo com aquele aspecto de quem passou dias entre o sal do mar e o vento da Beira Mar. A marquinha do biquíni, que aparecia discretamente sob a alça da sua regata branca, era o troféu de sete dias de paz.
Mas a paz tinha acabado. O tablet estava de volta à sua mão, e o rádio no cinto não parava de chiar com solicitações da equipe técnica.
— Ana, você não é uma administradora, você é uma miragem — Thiago Ventura disse ao entrar no camarim, parando bruscamente ao vê-la. — Olha essa cor! Você foi para o Ceará ou foi forjada no núcleo do sol?
Ana riu, ajeitando uma pilha de crachás sobre a mesa.
— Fui para casa, Thiago. Natal e Fortaleza recuperam a alma de qualquer um. Mas já vi que vocês sentiram minha falta, porque o estoque de água mineral está um caos e o Dihh esqueceu de confirmar o transfer de amanhã.
— O Dihh não esqueceu, ele entrou em greve de competência porque você não estava aqui — brincou Márcio, entrando logo atrás e lhe dando um abraço rápido. — Bem-vinda de volta, chefinha. O Afonso tá insuportável, só para você saber.
— Insuportável como? — perguntou ela, tentando manter o tom casual, embora seu coração tivesse dado um solavanco só de ouvir o nome dele.
— Tipo um pinscher com saudade do dono — respondeu Márcio, saindo para buscar o microfone.
Ana continuou organizando o espaço, conferindo as toalhas pretas e as frutas. O camarim ficou vazio por alguns minutos, o silêncio sendo quebrado apenas pelo burburinho abafado da plateia que começava a lotar o teatro do outro lado da cortina. Foi então que a porta se abriu novamente, mas de um jeito diferente. Não foi o estalo apressado de Thiago ou o chute de Márcio. Foi um movimento lento.
Afonso Padilha parou na soleira da porta. Ele estava com a roupa do show, o boné de sempre, mas seus olhos pareciam estar processando a imagem de Ana em câmera lenta.
— Oi — disse ele, a voz um pouco mais rouca que o habitual.
— Oi, Afonso — Ana respondeu, sentindo um calor que não vinha do sol cearense subir pelo pescoço. — Conseguiu decorar o texto novo ou vai improvisar sobre a minha ausência de novo?
Afonso não respondeu com uma piada. Ele caminhou até ela, ignorando a mesa que os separava, e simplesmente a envolveu em um abraço. Não foi o abraço rápido de "bom show" que eles costumavam trocar. Foi um abraço de chegada, de alívio. Suas mãos espalmaram-se nas costas dela, sentindo a pele quente e macia, e ele enterrou o rosto na curva do pescoço de Ana, aspirando profundamente.
— Você está com cheiro de sol — ele sussurrou contra a pele dela.
Ana ficou estática por um segundo, os braços pendidos ao lado do corpo, antes de finalmente retribuir, fechando os olhos e sentindo o perfume cítrico dele. O rosto de Afonso continuava ali, escondido em seu pescoço, e ela sentiu a respiração dele falhar por um instante. Ele a apertou mais, como se estivesse conferindo se ela era real ou se o cansaço da turnê estava pregando peças em sua mente.
— Afonso... — ela começou, a voz falhando. — O show começa em dez minutos.
— Eu sei — ele disse, mas não se moveu. — Só mais um pouco. O Wi-Fi do meu cérebro só conecta quando você está por perto.
Ele finalmente se afastou, mas não totalmente. Suas mãos desceram pelos braços dela, sentindo a textura da pele bronzeada, e seus olhos fixaram-se na pequena marca branca que o biquíni deixara perto da clavícula. Ele engoliu em seco, um brilho de desejo misturado com carinho atravessando seu olhar.
— Que bom que você voltou, Ana. De verdade.
— Eu também senti falta — ela admitiu, a voz baixa. — Até das suas reclamações sobre o horário da van.
— Mentira — ele sorriu, recuperando um pouco do seu jeito brincalhão, mas sem soltar as mãos dela. — Você sentiu falta de ser a única pessoa inteligente desse grupo.
— Isso também. Agora vai, os meninos já estão no palco.
Afonso deu um último aperto nas mãos dela, relutante, e saiu do camarim. Ana precisou de um minuto inteiro para respirar e voltar a focar no tablet. Seu pescoço ainda formigava onde o rosto dele estivera encostado.
***
O show foi um sucesso, mas para Ana, as horas pareceram se arrastar. A adrenalina do palco, as risadas da plateia, os problemas técnicos de última hora... tudo parecia um ruído de fundo. Sua mente voltava constantemente para aquele abraço no camarim.
Depois da apresentação, o grupo seguiu para o hotel. O cansaço era evidente no rosto de todos. Thiago e Dihh foram direto para o bar do lobby, enquanto Márcio subiu para dormir. Ana, exausta da viagem de volta e da intensidade do primeiro dia de trabalho, despediu-se de todos e foi para o seu quarto.
O quarto de hotel era confortável, mas solitário. Ela jogou a mochila em um canto, tirou os sapatilhas e suspirou. O calor de Goiânia ainda persistia dentro dela. Ela foi para o banheiro, tirou a roupa de trabalho e tomou um banho morno, deixando a água levar o cansaço e o sal que ela ainda sentia na alma.
Ao sair do banho, ela não teve disposição para vestir o pijama completo. Estava quente, e a sensação do tecido contra a pele bronzeada era um pouco incômoda. Ela optou por uma camisola de seda curta, de alças finas, na cor pérola, que contrastava perfeitamente com seu tom de pele atual. Estava secando o cabelo com uma toalha quando ouviu duas batidas leves na porta.
Seu coração deu um salto. Ela sabia quem era. Ninguém mais bateria daquele jeito, com aquela hesitação quase respeitosa, no meio da madrugada.
Ana caminhou até a porta e a abriu apenas uma fresta.
Afonso estava ali, ainda com a calça jeans do show, mas sem o boné e com a camiseta preta levemente amassada. Ele parecia ter passado os últimos trinta minutos andando de um lado para o outro no corredor.
— Oi — disse ele, e então seus olhos desceram.
Ele parou de falar. A imagem de Ana, com o cabelo úmido caindo sobre os ombros, a pele brilhando suavemente sob a luz do corredor e usando apenas aquela peça de seda que revelava muito mais do que ele estava acostumado a ver, o deixou completamente sem palavras. A marquinha do biquíni, agora muito mais visível sem a regata por cima, parecia um convite silencioso.
— Eu... eu vim ver se você tinha o cronograma de amanhã impresso — ele gaguejou, a desculpa mais esfarrapada da história da comédia brasileira saindo de sua boca.
Ana deu um sorriso de canto, encostando o ombro no batente da porta.
— O cronograma está no seu e-mail, Afonso. E no grupo do WhatsApp. E eu te mandei por DM no Instagram antes do show.
— É... — ele coçou a nuca, o olhar subindo e descendo, incapaz de se fixar em um ponto só. — Eu acho que meu celular descarregou.
— Entendi.
Houve um silêncio carregado. Afonso deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dela. O cheiro do sabonete de Ana e o aroma residual do sol eram inebriantes.
— Posso entrar? — ele perguntou, a voz descendo uma oitava.
Ana hesitou por apenas um segundo antes de abrir a porta e dar passagem. Afonso entrou e ela fechou a porta, o clique da fechadura ecoando como o início de um novo capítulo.
Ele se virou para ela, as mãos nos bolsos da calça, tentando manter a compostura.
— Você está muito diferente — ele disse, a voz rouca. — Não é só o bronzeado. Você parece mais... leve.
— O Ceará faz isso com as pessoas — ela respondeu, aproximando-se dele. — Mas eu não sou a única diferente aqui. Você está muito quieto hoje, Afonso. Cadê o cara que não para de fazer piada?
— Ele ficou lá no palco — Afonso esticou a mão, tocando hesitante uma mecha do cabelo úmido dela. — Aqui, com você, eu não sinto que preciso ser o engraçado o tempo todo.
Ele deslizou os dedos pelo ombro dela, a ponta do indicador seguindo a linha da alça da camisola até chegar à marca do biquíni na pele dourada. Ana sentiu um arrepio percorrer sua espinha, e sua respiração tornou-se curta.
— Eu passei a semana inteira pensando em como seria te ver de novo — ele confessou, os olhos fixos nos dela. — Mas nada do que eu imaginei chegava perto disso.
— Disso o quê? — ela sussurrou.
— De você assim. Sem as planilhas, sem o rádio, sem os meninos por perto para estragarem o momento. Só a Ana.
Ele aproximou o rosto do dela. Ana podia sentir o calor que emanava do corpo dele, o cheiro de café e adrenalina que sempre o acompanhava após os shows.
— Eu não queria ter te soltado naquele abraço hoje cedo — ele disse, a voz agora apenas um sopro.
— Então por que soltou? — ela desafiou, com um brilho de coragem nos olhos castanhos.
Afonso não precisou de mais nenhum incentivo. Ele envolveu a cintura dela com os braços, puxando-a para perto. O contraste entre a seda fria da camisola e as mãos quentes dele fez Ana soltar um suspiro baixo. Ela entrelaçou os braços no pescoço dele, sentindo os cabelos curtos da nuca de Afonso entre os dedos.
O beijo começou lento, uma exploração cuidadosa de quem teve medo de que aquele momento nunca chegasse. Tinha o gosto da saudade acumulada em sete dias e da tensão construída em meses de bastidores. Afonso a beijava com uma urgência contida, suas mãos descendo pela curva das costas dela, sentindo a pele nua onde a camisola terminava.
Ana respondeu com a mesma intensidade, entregando-se àquela sensação de perda de controle que ela tanto evitava em sua vida profissional. Com Afonso, o caos não precisava ser administrado; ele podia ser apenas sentido.
Eles se afastaram por um segundo, as testas coladas, ambos tentando recuperar o fôlego.
— Se o Thiago bater nessa porta agora, eu juro que eu mato ele — Afonso murmurou, fazendo Ana rir contra seus lábios.
— Ele não vai bater. Ele está ocupado demais tentando convencer o Dihh de que ele é o melhor comediante do grupo.
— Ótimo — Afonso voltou a beijar o pescoço dela, exatamente onde tinha afundado o rosto mais cedo naquele dia. — Porque eu não pretendo sair daqui tão cedo.
Ana o puxou de volta para o beijo, sentindo-se mais em casa naquele quarto de hotel em Goiânia do que em qualquer praia paradisíaca do Ceará. O sol de Fortaleza tinha recarregado suas energias, mas era o calor de Afonso que finalmente a fazia sentir que a turnê, e sua vida, estavam exatamente onde deveriam estar.
Naquela noite, as planilhas ficaram esquecidas sobre a mesa, os celulares foram silenciados e os bastidores ganharam uma história que, pela primeira vez, não seria contada em nenhum palco. Era uma história escrita no silêncio de um quarto de hotel, entre marcas de sol e abraços que demoraram uma eternidade para acontecer.
— Ana? — ele chamou baixo, enquanto a deitava suavemente na cama larga.
— Oi?
— Agradece aos seus amigos de Fortaleza por mim.
— Por quê? — ela perguntou, sorrindo.
— Porque a saudade que eles me causaram foi a melhor consultora de marketing que eu já tive. Eu nunca mais vou deixar você ir embora sem saber exatamente o que eu sinto.
Ela o puxou para baixo, selando a promessa com um beijo que dizia que, dali em diante, a única logística que importava era a de estarem sempre perto um do outro.