De risadinha em risadinha
O Sorriso Debaixo do Boné
A luz da manhã em Goiânia era impiedosa. Ela atravessava as frestas da cortina do hotel com uma insistência que não combinava com o estado de exaustão absoluta — e satisfação plena — em que Afonso se encontrava. Ele rolou na cama, o braço buscando automaticamente o calor de Ana, mas encontrou apenas o lençol bagunçado e o cheiro persistente de sol e baunilha que ela exalava.
Afonso abriu um dos olhos e viu o relógio digital na mesa de cabeceira: 06:15. Ele tinha teste de som às 08:30 e, conhecendo a fama de "radar" de Thiago Ventura, cada minuto que passasse dentro daquele quarto após o amanhecer aumentava em 25% as chances de uma zoação eterna.
Ele se levantou com cuidado, observando Ana mergulhada em um sono profundo. Ela parecia ter se desligado do mundo, o rosto sereno enterrado no travesseiro, um contraste gritante com a mulher que, horas antes, tinha perdido completamente a compostura profissional entre aqueles mesmos lençóis. Afonso sorriu sozinho, sentindo o peito inflar. Ele se inclinou e deixou um beijo casto no ombro dela, onde a pele ainda guardava o calor da noite.
— Dorme, loira — sussurrou ele. — Eu seguro as pontas lá embaixo.
Ele recolheu suas roupas espalhadas pelo chão, vestiu-se com a agilidade de um ninja e saiu do quarto, deslizando pelo corredor deserto como se estivesse fugindo de um crime. Ao entrar em seu próprio quarto, jogou-se no banho, tentando tirar o sorriso bobo do rosto. Ele precisava parecer o Afonso de sempre: o cara das piadas rápidas, não o cara que estava perdidamente apaixonado pela administradora da turnê.
Duas horas depois, o saguão do hotel já estava tomado pelo caos habitual. Thiago, Dihh e Márcio estavam reunidos perto do café, discutindo o setlist da noite.
— Cadê a Ana? — perguntou Dihh, olhando para o relógio. — São 08:20. Ela nunca se atrasa para a van.
Afonso, que estava concentrado demais em seu café preto, deu de ombros com uma indiferença ensaiada.
— Não sei, cara. Deve estar resolvendo alguma coisa no computador.
— Sei... — Thiago estreitou os olhos, analisando Afonso de cima a baixo. — Você está muito calmo hoje, Padilha. E esse cabelo? Tomou banho de pressa ou dormiu de cabeça para baixo?
— Dormi mal, Thiago. O ar-condicionado estava fazendo barulho — mentiu Afonso, sentindo o suor frio brotar na nuca.
— Estranho — comentou Márcio, pegando um pão de queijo. — O meu estava silencioso. Mas olha só quem apareceu...
A porta do elevador se abriu e Ana saiu.
O grupo parou de falar instantaneamente. Ana caminhava em direção a eles, mas não era a Ana de sempre. Ela usava óculos escuros, o cabelo estava preso em um coque que beirava o "artístico-desleixado" e seus passos não tinham a precisão militar habitual. Ela segurava um copo de café térmico como se fosse um suporte de vida.
— Bom dia, meninos — disse ela, a voz ligeiramente mais rouca.
— Bom dia? — Thiago quase gritou. — Ana, você está com uma cara de quem foi atropelada por um caminhão de caranguejos de Fortaleza e depois o caminhão deu ré.
— Eu só... não dormi bem — ela respondeu, evitando olhar diretamente para Afonso, embora ele pudesse sentir a eletricidade entre os dois. — Tive que fechar uns relatórios da turnê de Portugal e perdi a noção da hora.
— Relatórios, sei — Dihh riu, cruzando os braços. — Você está com olheiras que nem o corretivo mais caro da Sephora resolve, Ana. O que aconteceu? A planilha ganhou vida e te deu uma surra?
— Parem de encher a paciência dela — Afonso interveio, tentando protegê-la, mas sua intervenção só serviu para atiçar os leões.
— Ih, olha lá! O cavaleiro andante! — Márcio gargalhou. — O Afonso defendendo a pontualidade alheia é a maior piada que já ouvimos nesse show.
Ana sentou-se em uma das poltronas, soltando um suspiro longo. Ela parecia exausta, mas havia uma suavidade em seus ombros que não estava lá antes da viagem. Afonso a observava discretamente por cima da borda de sua xícara. Vê-la daquele jeito, desarmada e nitidamente cansada por causa da noite que passaram juntos, trouxe à sua mente uma lembrança vívida de quatro anos atrás.
Ele se lembrou do dia em que o empresário do grupo a apresentou.
Os 4 Amigos estavam em uma sala de reuniões apertada em São Paulo. O clima era de tensão, pois a turnê anterior tinha sido um caos logístico. O empresário abriu a porta e disse: "Gente, essa é a Ana. Ela vai colocar ordem na casa".
Afonso lembrou-se de ter olhado para aquela menina de 22 anos, que parecia pequena demais para lidar com quatro humoristas egocêntricos. Ela estava vestindo um terninho cinza que claramente a deixava desconfortável, segurando uma pasta preta contra o peito como se fosse um escudo. Seus olhos castanhos brilhavam de puro nervosismo, e ela mal conseguia manter contato visual por mais de dois segundos.
— Olá — ela disse naquele dia, a voz trêmula. — Eu fiz um levantamento dos custos de hospedagem e... eu acho que podemos otimizar as rotas.
Thiago tinha feito uma piada qualquer sobre ela parecer uma estagiária fugida da escola, e Afonso lembrou-se de ver o rosto dela ficar vermelho instantaneamente. Ela estava tão nervosa que derrubou a pasta, espalhando folhas de Excel por todo o chão. Afonso a ajudou a recolher os papéis e, quando suas mãos se tocaram brevemente, ele viu o medo nos olhos dela.
"Ela não vai durar uma semana com a gente", ele pensou na época.
Como ele estava errado.
Agora, olhando para a Ana sentada à sua frente no lobby do hotel, aquela menina nervosa tinha desaparecido. Em seu lugar, estava a mulher que não apenas controlava a turnê, mas que tinha acabado de virar o mundo de Afonso de cabeça para baixo.
— Ana, você está ouvindo? — a voz de Thiago o trouxe de volta ao presente. — O teste de som foi adiantado em quinze minutos.
— O quê? Por que ninguém me avisou? — Ela saltou da poltrona, o instinto profissional chutando o cansaço para longe. — Eu preciso ligar para o técnico, o rider de luz ainda não foi conferido e...
Ela começou a digitar freneticamente no celular, mas tropeçou levemente no tapete do hotel. Afonso foi mais rápido, segurando-a pelo cotovelo.
— Calma, loira. Respira — disse ele, a voz suave e carregada de uma intimidade que não passou despercebida pelos outros três. — O Thiago está brincando. O horário continua o mesmo.
Ana parou, olhou para o sorriso sarcástico de Thiago e depois para a mão de Afonso que ainda segurava seu braço. Ela relaxou, soltando o ar que nem sabia que estava prendendo.
— Eu vou matar você, Thiago Ventura — ela murmurou, mas sem nenhuma agressividade real.
— Você está muito lenta hoje, Ana — Dihh comentou, limpando uma lágrima de riso. — O que quer que tenha acontecido ontem à noite, eu quero o dobro da dose, porque você está zen demais.
— Não aconteceu nada — ela disse, finalmente olhando para Afonso.
O olhar que trocaram foi rápido, mas continha todo o peso das últimas oito horas. Afonso viu nela a mesma Ana que derrubou os papéis no chão anos atrás, mas agora, o nervosismo não era de medo. Era o nervosismo de quem estava começando a entender que o controle absoluto era uma ilusão, e que o caos — especialmente o caos provocado por Afonso — era muito mais interessante.
A van chegou e o grupo se acomodou. Como de costume, os meninos começaram a testar piadas novas, gritando uns com os outros, enquanto Ana tentava se concentrar no tablet. No entanto, sua cabeça caía para o lado a cada cinco minutos.
Afonso, sentado ao lado dela, simplesmente puxou o ombro dela para que ela encostasse a cabeça em seu peito.
— Dorme — ele disse, baixinho. — Eu te acordo quando chegarmos ao teatro.
Os outros três ficaram em silêncio por exatamente três segundos.
— Ah, não! — Thiago gritou. — Agora ele é o travesseiro oficial!
— Eu sabia! — Dihh apontou o dedo. — A administradora se rendeu ao charme do paranaense!
— Ana, se você dormir aí, ele vai cobrar hora extra de encosto! — Márcio completou.
Ana nem se deu ao trabalho de responder. Ela apenas fechou os olhos, sentindo o batimento cardíaco de Afonso sob sua orelha, e mergulhou em um sono sem sonhos, sentindo-se, pela primeira vez em anos, completamente segura no meio do barulho.
Quando chegaram ao teatro, a rotina assumiu o comando. Ana, mesmo com a "cara de cansada antes nunca vista", era uma força da natureza. Ela conferiu os cabos, brigou com o fornecedor de catering porque o café não estava forte o suficiente e organizou a fila do meet & greet com a precisão de um relógio suíço.
Afonso a observava do palco durante o teste de som. Ele via a forma como ela gesticulava, como resolvia problemas com um simples olhar sarcástico, e não conseguia parar de sorrir.
— Você está com cara de quem ganhou na Mega-Sena sozinho, sabia? — Thiago comentou, aproximando-se de Afonso no microfone.
— Só estou feliz que a turnê está dando certo, Thiago.
— Sei. A turnê tem cabelos loiros e usa óculos escuros para esconder as olheiras de uma noite épica? Porque se for isso, a turnê está indo muito bem mesmo.
Afonso riu, ajustando o boné.
— Ela é incrível, não é?
Thiago parou de brincar por um momento, olhando para Ana, que discutia seriamente com o técnico de luz no fundo do teatro.
— É, ela é. Ela salvou a nossa pele mais vezes do que a gente gosta de admitir. E, honestamente, Padilha... ela é a única pessoa que consegue te deixar calado. Só por isso eu já dou a minha bênção.
O show daquela noite foi diferente. Afonso parecia estar com o dobro da energia. Cada vez que ele fazia uma piada e ouvia a risada de Ana vindo da lateral do palco, ele sentia que podia voar.
Nos bastidores, após a apresentação, o clima era de celebração. O grupo estava reunido no camarim, bebendo cerveja e comendo pizza, quando Ana entrou com a pasta de contratos.
— Só para avisar que o borderô de hoje foi o maior da temporada até agora — ela anunciou, tentando manter o tom profissional, apesar de estar visivelmente exausta.
— Esquece o borderô, Ana! — Dihh levantou uma fatia de pizza. — Vem comer. Você precisa de glicose. Você está pálida.
— Eu estou bem, Dihh. Só preciso de uma cama.
— A do Afonso ou a sua? — Thiago perguntou, rápido como um raio.
O camarim explodiu em gargalhadas. Ana sentiu o rosto queimar, a mesma vermelhidão de quatro anos atrás, mas desta vez ela não desviou o olho. Ela olhou para Afonso, que estava rindo junto com os amigos, mas com um olhar que dizia: "Eu te protejo".
— A minha, Thiago. Sozinha — ela respondeu, com um sorriso desafiador. — Porque se eu passar mais uma noite com o Afonso tentando me explicar a teoria da comédia dele, eu peço demissão.
— Teoria da comédia, é? — Márcio riu. — É esse o nome que vocês dão agora?
Afonso levantou-se e caminhou até ela, pegando a pasta de suas mãos e colocando-a sobre a mesa.
— Deixa que eu levo isso. Você vai para o hotel agora. Eu chamo um carro separado para a gente.
— Ih, o carro separado! — Thiago começou a cantarolar. — "Lá vai o casal, no carro do amor..."
Ana revirou os olhos, mas não protestou quando Afonso passou o braço pelos ombros dela, conduzindo-a para fora do camarim sob uma chuva de piadas e assobios.
Enquanto caminhavam pelo estacionamento do teatro, o ar da noite estava fresco. Ana encostou a cabeça no ombro de Afonso.
— Você é um idiota por ter deixado eles perceberem — ela murmurou.
— Eles iam perceber de qualquer jeito, loira. Eu não consigo disfarçar o jeito que eu olho para você. Desde aquele dia na sala de reuniões, lembra?
Ana parou e olhou para ele, surpresa.
— Você lembra disso?
— Lembro de cada detalhe. Lembro do seu terninho cinza, da pasta preta e de como você ficou vermelha quando o Thiago te zoou. Eu queria ter feito o que fiz ontem à noite já naquele dia.
Ana sorriu, uma expressão de pura ternura que raramente mostrava.
— Eu estava apavorada. Achei que vocês iam me odiar.
— A gente te amou desde o primeiro relatório de custos, Ana. Mas eu... eu demorei um pouco mais para entender que o que eu sentia não era só gratidão pela minha agenda organizada.
Ele a puxou para um beijo rápido e doce, sob a luz dos postes do estacionamento.
— Agora, vamos para o hotel. Você precisa dormir. E desta vez, eu prometo que vou te deixar descansar.
Ana riu, entrando no carro que acabara de chegar.
— Promete mesmo, Padilha?
Afonso entrou logo atrás, fechando a porta e isolando-os do resto do mundo.
— Prometo. Mas só até o café da manhã. Porque amanhã a gente tem viagem cedo e eu vou precisar da minha administradora bem acordada para me dizer onde eu deixei o meu passaporte.
— No bolso lateral da sua mochila, Afonso. Como sempre.
Ele riu, puxando-a para perto. Os bastidores daquela turnê podiam ser caóticos, cansativos e cheios de piadas infames, mas ali, no silêncio do carro, ambos sabiam que a melhor parte do show não estava no palco. Estava na cumplicidade de quem sabia exatamente onde o outro guardava o passaporte, o coração e a vontade de nunca mais ir embora.