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De volta ao nosso começo

O Voo do Pássaro de Fogo

Sophie não pensou. Ela apenas sentiu. O impulso foi mais forte do que a razão, mais antigo do que a fama e mais visceral do que a dor. Sem sela, sem rédeas formais, apenas com a confiança mútua que havia sido forjada em anos de infância compartilhada, ela se impulsionou para cima. Faísca, como se estivesse esperando por aquele exato comando silencioso há uma década, relinchou com um vigor que fez as vigas do estábulo vibrarem.

Quando eles saíram do estábulo para a luz ofuscante da tarde, o tempo em Willow Creek pareceu congelar. O som das marteladas cessou. As conversas na praça morreram. As pessoas pararam com cestos de maçãs nos braços, e as crianças apontaram com os olhos arregalados.

— Sophie! — gritou Ben, correndo para fora do estábulo, a voz carregada de uma urgência que misturava medo e admiração. — Sophie, para! Ele está sem sela! Você vai cair!

Mas Sophie não ouviu. Ou, se ouviu, o som foi abafado pelo vento que já começava a chicotear seu rosto. Ela inclinou o corpo para frente, as mãos agarradas firmemente à crina escura de Faísca, e sentiu a musculatura poderosa do animal trabalhando sob suas coxas.

— Vai, garoto! — ela comandou, a voz saindo em um grito de pura libertação.

Faísca disparou. O galope era rítmico, uma batida de tambor contra o solo seco da cidade. Eles atravessaram a praça principal como um borrão de cor e movimento. Sophie ria — uma risada alta, cristalina, que não era ouvida naquela cidade desde a noite da chuva. Era o som de uma alma que, por um breve momento, tinha conseguido se desvencilhar das correntes da culpa.

— Meu Deus! Alguém pare ela! — Megg gritou, deixando cair o celular no chão, algo que ela nunca faria em circunstâncias normais. — Ela vai se matar! Sophie! Volte aqui agora mesmo!

Megg estava pálida, as mãos trêmulas enquanto olhava para a amiga desaparecendo na curva da estrada que levava aos campos abertos.

— Alguém faça alguma coisa! — Lena exclamou, embora seus olhos estivessem cheios de uma admiração secreta. — Ela está louca?

Jene Calloway aproximou-se das duas mulheres da cidade grande, colocando uma mão calma no ombro de Megg. Ela tinha um sorriso nostálgico no rosto, os olhos úmidos enquanto observava a poeira baixar na estrada.

— Deixem ela ir — disse Jene, a voz suave mas firme. — Sophie sabe exatamente o que está fazendo. Aquele cavalo é a extensão dela. Ela precisava disso mais do que de ar.

Ben, no entanto, não estava tão convencido pela calma de Jene. Ele trocou um olhar rápido com Caly, Mike e Léo, que já estavam se movendo em direção aos seus próprios cavalos amarrados perto da cerca.

— Vamos atrás dela! — ordenou Ben, montando seu cavalo preto com uma agilidade que ignorava sua lesão na perna. — Se ela cair naqueles vales, ninguém vai ouvir os gritos!

— Aposta quanto que ela chega no riacho antes da gente? — Caly exclamou, já montado, um sorriso selvagem no rosto.

— Menos conversa, Caly! — Mike retrucou, embora também estivesse visivelmente empolgado com a perseguição.

Os quatro homens partiram em um galope furioso, levantando uma cortina de poeira que deixou Megg tossindo e Lena impressionada.

Sophie sentia o mundo passar por ela como uma pintura borrada. O cheiro de capim, o calor do sol e a força bruta de Faísca a transportaram para um tempo onde não existiam contratos, não existiam paparazzi e não existia o peso de um carro caindo de um penhasco. Ali, no campo aberto, ela era apenas Sophie.

Ela só parou quando alcançou a crista da Colina do Vento, o ponto mais alto antes do declive que levava ao rio. Ela puxou levemente a crina de Faísca, e o animal parou, bufando, o suor brilhando em seu pescoço. Sophie estava ofegante, o rosto corado e os olhos brilhando com uma vida que parecia ter retornado de vez.

Minutos depois, o som de múltiplos galopes anunciou a chegada dos outros. Ben foi o primeiro a surgir, o rosto tenso, seguido de perto por Caly, Mike e Léo. Eles pararam seus cavalos em um semicírculo ao redor dela.

— Você ficou louca? — Ben perguntou, tentando manter a voz severa, mas falhando miseravelmente ao ver o sorriso radiante dela. — Podia ter quebrado o pescoço, Sophie Calloway!

— Eu nunca me senti tão viva, Ben — ela respondeu, olhando para ele com uma intensidade que o fez desviar o olhar.

— Cara, isso foi incrível! — Caly riu, limpando o suor da testa. — Você atravessou a cidade como se estivesse fugindo da polícia. A cara da sua produtora loira foi impagável!

— Ela vai me matar quando eu voltar — Sophie admitiu, rindo junto com eles.

— Bom, se você sobreviver à Megg — disse Léo, ajustando a sela —, tem que sobreviver a nós. O que acha de uma corrida de volta? Mas desta vez, pelos campos baixos.

— Sem sela? — Mike perguntou, arqueando uma sobrancelha para Sophie. — Tem certeza de que aguenta, "estrela"?

Sophie inclinou-se sobre o pescoço de Faísca, os olhos verdes desafiadores.

— O último a chegar na cerca do celeiro vai ter que servir as bebidas para todo mundo no festival hoje à noite!

Antes que Ben pudesse protestar, ela deu o comando e Faísca saltou para frente.

— Ei! Isso é trapaça! — gritou Caly, lançando seu cavalo atrás dela.

A corrida de volta foi uma explosão de adrenalina e camaradagem. Eles gritavam, riam e competiam como se os dez anos de separação tivessem sido apenas um sonho ruim. Por alguns quilômetros, a dor da lesão de Ben, o luto de Sophie e as responsabilidades da vida adulta desapareceram. Eles eram apenas os jovens de Willow Creek, donos do horizonte.

Sophie chegou primeiro, por pouco, derrapando Faísca na frente do portão principal sob os aplausos surpresos de quem ainda estava na praça.

***

A noite do Festival das Luzes chegou com uma magia que parecia envolver cada centímetro da cidade. Willow Creek estava transformada. Lanternas de papel coloridas balançavam suavemente nas árvores, e centenas de pequenas velas em potes de vidro delineavam os caminhos. O ar estava saturado com o cheiro de torta de abóbora, canela e o churrasco tradicional da família Sally.

Sophie estava deslumbrante. Ela escolhera um vestido longo de seda verde-esmeralda que realçava seus olhos, com uma fenda discreta que permitia que ela se movesse com facilidade. Seus cabelos castanhos estavam soltos, ondulando sobre os ombros. Ao seu lado, Megg e Lena também não passavam despercebidas. Megg usava um conjunto azul-celeste que gritava luxo nova-iorquino, enquanto Lena optara por um vestido preto elegante e minimalista.

— Eu retiro o que disse sobre este lugar — Megg comentou, segurando uma taça de ponche de frutas. — Se eu pudesse engarrafar essa atmosfera e vender na Broadway, eu estaria ainda mais rica.

— É a paz, Megg — disse Lena, observando Mike de longe, que acenou discretamente para ela. — É algo que a gente esquece que existe.

Sophie sentiu dois pequenos pesos se agarrarem às suas pernas. Eram Gregori e Hope, seus sobrinhos.

— Tia Sophie! Tia Sophie! — gritou Hope, puxando o vestido dela. — Você vai cantar hoje? A vovó disse que você tem voz de anjo!

— E você vai brincar com a gente na barraca de pescaria? — Gregori perguntou, os olhos brilhando de expectativa.

Sophie abaixou-se, ficando na altura deles, e sorriu com uma doçura que derreteu qualquer resquício da "Sophie Keily" inalcançável.

— Eu vou cantar sim, meu amor. Mas primeiro, eu quero ganhar todos os prêmios da pescaria com vocês. O que acham?

As crianças gritaram de alegria e a arrastaram em direção às barracas coloridas. Sophie passou a hora seguinte rindo, comendo algodão-doce e ajudando os sobrinhos a pescar peixinhos de plástico. Ela viu Olivia e Jack observando de longe, e o sorriso que trocaram foi de puro reconhecimento. A irmã deles estava de volta.

Enquanto caminhava em direção à barraca de doces, Sophie quase colidiu com Ben. Ele estava usando uma camisa de flanela limpa, jeans escuros e seu chapéu de cowboy. Ao seu lado, Tali usava um vestido rosa justo, segurando o braço dele com uma força que denunciava sua insegurança.

— Sophie — disse Ben, a voz suave. — Você está... você está muito bonita.

— Obrigada, Ben. — Sophie sentiu o rosto esquentar. — O festival está maravilhoso. Vocês fizeram um ótimo trabalho.

— É, nós trabalhamos muito — interrompeu Tali, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Especialmente o Ben. Ele quer que tudo seja perfeito, já que é o último grande evento antes do nosso casamento. Você já recebeu o convite, Sophie? Fazemos questão que a celebridade da cidade esteja lá.

O golpe foi direto, mas Sophie manteve a postura. Ela olhou para Ben, esperando que ele dissesse algo, mas ele apenas apertou o maxilar, parecendo desconfortável.

— Eu ficaria honrada, Tali — respondeu Sophie, a voz firme. — Mas agora, se me dão licença, prometi aos meus sobrinhos que veríamos os fogos do alto do coreto.

Ela se afastou antes que a mágoa pudesse transparecer. Ela caminhou até o centro da praça, onde o palco para o memorial estava sendo preparado. O piano de cauda, trazido especialmente de uma cidade vizinha a pedido de Megg, brilhava sob as luzes das lanternas.

O clima na cidade começou a mudar conforme a hora do memorial se aproximava. A música festiva deu lugar a um silêncio respeitoso. As pessoas começaram a se reunir ao redor do palco, segurando velas acesas.

Sophie viu sua mãe sentada na primeira fila, ladeada por Jack e Olivia. Ela viu os Sally, os amigos, e até mesmo pessoas que ela não via há anos. Todos estavam ali por Tom Calloway.

Ela subiu os degraus do palco com o coração batendo na garganta. Megg lhe deu um sinal de positivo nos bastidores, e Lena piscou, encorajando-a.

Sophie sentou-se ao piano. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som do vento nas árvores. Ela olhou para o céu estrelado e, por um momento, sentiu a presença do pai ali, sussurrando que estava tudo bem.

— Esta música — começou Sophie, a voz projetando-se sem esforço pela praça — não é sobre a dor da perda. É sobre a gratidão por ter tido alguém que nos ensinou a voar, mesmo quando o mundo queria que ficássemos no chão. Papai, esta é para você.

Seus dedos tocaram a primeira nota, um som límpido e melancólico que pareceu flutuar sobre a multidão. Quando ela começou a cantar, não era a voz de uma diva do pop. Era a voz de uma filha pedindo perdão e celebrando um amor que nem a morte poderia apagar.

Lá embaixo, Ben Sally sentiu uma lágrima solitária escorrer pelo rosto. Ele soltou a mão de Tali, sem perceber, e deu um passo à frente, hipnotizado pela mulher no palco. Naquele momento, sob as luzes de Willow Creek, a música de Sophie não estava apenas homenageando o passado; estava, nota por nota, começando a reescrever o futuro.

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