De volta ao nosso começo
O Acorde do Caos e o Silêncio do Coração
O sol da manhã de Willow Creek parecia ignorar o peso das memórias que Sophie carregava. O ar estava fresco, carregado com o cheiro de terra úmida e feno novo, um perfume que Sophie aprendera a amar muito antes de conhecer o cheiro de perfumes caros e camarins higienizados. No estábulo da fazenda Calloway, o único som era o atrito do couro e o bufo rítmico de Faísca. Sophie estava concentrada, ajustando a cela com uma precisão quase meditativa. Montar sem sela no dia anterior fora um ato de rebeldia e libertação, mas hoje ela queria apenas sentir a estrutura, o controle e a paz de um passeio planejado.
— Você sempre teve o jeito certo para apertar o cilhão — uma voz familiar ecoou, fazendo Sophie sobressaltar-se levemente.
Ela se virou e viu Ben parado na entrada, a silhueta emoldurada pela luz dourada que atravessava as frestas da porta. Ao lado dele estavam Anne, Caly, Mike e Léo. O grupo parecia trazer consigo uma energia vibrante, contrastando com o silêncio reflexivo de Sophie. Perto dali, Lena e Megg, que tomavam café sentadas em fardos de feno, levantaram o olhar, observando a aproximação com curiosidade.
— É uma memória muscular, eu acho — respondeu Sophie, dando um tapinha no pescoço de Faísca. — Algumas coisas a gente nunca esquece, por mais que tente.
Anne, a irmã mais nova de Ben, deu um passo à frente. Seus olhos brilhavam com uma mistura de ansiedade e esperança. Ela segurava um folheto amassado nas mãos, as unhas pintadas de um azul vibrante que denunciava sua juventude.
— Sophie... eu queria te pedir uma coisa. Uma coisa enorme — começou Anne, a voz oscilando. — A nossa festa de formatura é amanhã à noite. É uma tradição aqui, você sabe, todos os antigos alunos também vão. Mas o Sr. Henderson, que ia cuidar do som e da banda, pegou uma gripe horrível e está de cama. A cidade está em pânico.
Caly soltou uma risadinha, encostando-se na parede de madeira.
— Pânico é apelido, Soph. Se não tiver música, os adolescentes de Willow Creek vão começar uma revolução agrária.
— Nós pensamos... — continuou Anne, aproximando-se mais — se você não se importaria de cantar. Só algumas músicas. Significaria o mundo para a minha turma. E para a cidade.
Sophie olhou para a jovem, vendo nela o reflexo de si mesma há dez anos: cheia de sonhos e desesperada por um momento de beleza em meio à rotina do interior. Ela olhou para Ben, que mantinha uma expressão neutra, embora houvesse uma suavidade em seus olhos castanhos que ele não conseguia esconder totalmente.
— Eu aceito, Anne — disse Sophie, abrindo um sorriso genuíno. — Com muito prazer. Vai ser bom cantar algo que não seja um réquiem.
O grito de alegria de Anne ecoou pelo estábulo, e ela abraçou Sophie com força, sendo seguida pelos risos dos rapazes. A atmosfera de tensão que pairava desde a chegada de Sophie parecia estar se dissipando, substituída por uma familiaridade agridoce.
— Já que estamos todos aqui — disse Jene Calloway, surgindo de trás do grupo com um avental sobre o vestido —, eu decidi que ninguém sai desta fazenda sem almoçar. Vou preparar um banquete. Faz dez anos que não vejo esta casa tão cheia de vida.
O convite foi aceito com entusiasmo. Enquanto Jene e os rapazes se dirigiam para a casa principal, Megg se afastou para atender o celular, que não parava de vibrar em seu bolso. Lena permaneceu ao lado de Sophie, ajudando-a a terminar de cuidar de Faísca.
— Você está bem com isso? — perguntou Lena em voz baixa. — Cantar na escola onde tudo começou?
— É um fechamento, Lena. Ou talvez uma abertura. Eu não sei mais.
De repente, um grito estridente vindo do lado de fora do estábulo cortou a conversa. Era Megg. Sophie e Lena trocaram um olhar alarmado e correram para a varanda lateral.
Megg estava com o rosto transformado. Geralmente impecável e controlada, a produtora estava vermelha, andando de um lado para o outro com o celular colado à orelha. Seus olhos azuis soltavam faíscas.
— William, eu não quero saber se o estádio já está reservado! — gritou ela, a voz subindo uma oitava. — Você tem noção de que estamos no meio de uma situação familiar delicada? Eu não ligo para os patrocinadores agora! Se você me ligar mais uma vez para falar sobre a logística das doações sem ter o setlist pronto, eu juro que despacho sua cabeça para Nova York por sedex!
Caly, Ben e os outros, que já estavam sentados à mesa na varanda, ficaram em silêncio absoluto. Caly, que segundos antes estava fazendo uma piada, ficou sério, observando Megg com uma mistura de choque e fascínio. Ele nunca tinha visto uma mulher perder a calma com tanta elegância e fúria ao mesmo tempo.
— Megg, respira — tentou Lena, aproximando-se com cautela.
— Não me peça para respirar, Lena! — Megg explodiu, gesticulando freneticamente. — Esse idiota está me cobrando o show beneficente! O show que a Sophie prometeu para o mês que vem! Músicas novas, local, orfanatos, escolas... e nós estamos aqui, no meio do nada, sem um acorde escrito!
A frustração de Megg era palpável. O estresse de equilibrar a carreira de uma superestrela com o luto pessoal de Sophie finalmente havia transbordado. Sophie deu um passo à frente, sua presença calma agindo como um contraponto ao caos da amiga. Ela estendeu a mão com autoridade silenciosa.
— Megg. Dá o telefone aqui.
Megg hesitou, bufando, mas entregou o aparelho. Sophie colocou o celular no ouvido.
— William? Sou eu. — A voz de Sophie era fria e profissional, o tom de quem comandava arenas lotadas. — Escute bem. Megg está sob minhas ordens. O show vai acontecer e as músicas serão entregues. Mas se você gritar com a minha produtora ou ligar com esse tom de novo, eu cancelo o contrato e você será o primeiro a ser substituído. Estamos entendidos? Ótimo. Agora, desligue e espere o meu e-mail.
Ela encerrou a chamada e devolveu o telefone para uma Megg atônita. O silêncio na varanda era tão denso que se podia ouvir o zumbido dos insetos no campo.
— Senta, Megg — disse Sophie, colocando as mãos nos ombros da amiga e forçando-a a se sentar em uma cadeira de balanço. — Agora, me diga exatamente o que está acontecendo. Sem gritos.
Megg cobriu o rosto com as mãos, os ombros tremendo levemente.
— Eu esqueci, Soph. Com tudo o que aconteceu... o memorial, o seu pai, o Ben... eu simplesmente apaguei da agenda que esse show beneficente é o maior da sua carreira. É para hospitais, asilos, tudo o que você sempre quis ajudar. E o William está surtando porque não temos o local confirmado e nem as músicas novas que você prometeu para a divulgação. Ele diz que, se não fecharmos os detalhes técnicos em quarenta e oito horas, os grandes doadores vão retirar o apoio.
Sophie respirou fundo. A pressão do mundo exterior finalmente havia rompido a bolha de Willow Creek. Ela olhou para a mesa, onde sua família e seus amigos de infância a observavam. Ben tinha um olhar de profunda preocupação; ele parecia estar percebendo, pela primeira vez, a magnitude da vida que Sophie levava longe dali.
— Nós vamos resolver isso — afirmou Sophie, olhando para Megg e depois para Lena. — Eu vou cantar na formatura amanhã, e vou usar isso como ensaio. E quanto às músicas... eu tenho escrito algumas coisas desde que cheguei.
— Tem? — perguntou Lena, surpresa.
— Sim. Willow Creek tem um jeito de fazer as palavras saírem, mesmo que elas doa — Sophie desviou o olhar para Ben por um segundo antes de voltar para a produtora. — Megg, ligue para a equipe técnica. Diga que o show vai ser em Nova York, no Central Park, como planejado. E diga que o tema será "O Caminho de Volta".
Megg pareceu se acalmar, a cor voltando ao seu rosto. Ela olhou para Caly, que ainda a observava com uma expressão de "quem é essa mulher?".
— Desculpem pelo show — murmurou Megg, ajeitando o cabelo. — Às vezes eu esqueço que nem todo mundo vive em um campo de batalha corporativo.
— Não peça desculpas — disse Caly, finalmente quebrando o silêncio. — Foi a coisa mais impressionante que eu vi nesta fazenda desde que o trator do Jack pegou fogo. Você é... intensa, Megg.
Megg soltou uma risada curta, o primeiro sinal de seu humor habitual retornando.
— Você não viu nada, cowboy.
O almoço seguiu, mas o clima havia mudado. A realidade da vida de Sophie agora estava sentada à mesa com eles. Jene serviu o ensopado, e as conversas voltaram, mas agora giravam em torno do show beneficente e da logística da formatura.
— Você realmente vai cantar músicas novas amanhã? — perguntou Ben, enquanto ajudava Sophie a recolher os pratos após a refeição. Eles estavam sozinhos na cozinha por um momento.
— Eu preciso, Ben. É a única forma de eu processar tudo isso. O que eu sinto pelo meu pai, o que eu sinto por ter ido embora... e o que eu sinto quando olho para você.
Ben parou, um prato em cada mão. O olhar dele era uma mistura de dor e desejo.
— Sophie, você sabe que isso só torna as coisas mais difíceis, não sabe? Você tem esse mundo gigante esperando por você. Nova York, shows beneficentes, milhões de fãs. E eu tenho... isso. A terra, os cavalos e uma vida que você fugiu há dez anos.
— Eu não fugi da vida daqui, Ben. Eu fugi da dor que eu causei. Existe uma diferença.
— Será que existe? — Ben se aproximou, o cheiro de couro e ar livre envolvendo-a. — Amanhã, naquela escola, todo mundo vai ver a Sophie Keily. Mas eu... eu só quero ver a garota que costumava ler letras de música para mim no riacho.
— Ela ainda está aqui, Ben. Ela só está um pouco mais cansada.
A conversa foi interrompida pela entrada barulhenta de Caly e Megg, que pareciam ter iniciado uma discussão acalorada e estranhamente bem-humorada sobre as vantagens de cavalos versus carros esportivos.
O restante do dia foi um borrão de preparativos. Sophie passou horas no piano da sala de estar, rabiscando partituras e testando melodias enquanto Lena organizava os contratos no notebook e Megg, agora totalmente recuperada, disparava ordens pelo telefone de forma eficiente e silenciosa.
À noite, Sophie saiu para a varanda. O silêncio de Willow Creek era profundo, mas em sua mente, as melodias do novo show já começavam a se formar. Ela sabia que a formatura não seria apenas uma apresentação para Anne e seus amigos. Seria o primeiro teste de sua nova verdade.
Ela olhou para a fazenda dos Sally ao longe. Uma luz estava acesa na varanda de Ben. Ela se perguntou se ele também estava pensando no que aconteceria quando a música parasse.
Três dias para a despedida final do pai. Um mês para o maior show de sua vida. E apenas vinte e quatro horas para enfrentar o lugar onde seu coração fora quebrado pela primeira vez. Sophie fechou os olhos e deixou o vento da noite levar suas dúvidas. Ela era Sophie Calloway, e estava na hora de mostrar ao mundo — e a si mesma — que algumas feridas só cicatrizam quando são transformadas em canção.