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De volta ao nosso começo

O Despertar dos Ecos no Ginásio

O espelho do camarim improvisado na escola secundária de Willow Creek refletia uma mulher que parecia equilibrar dois mundos em seus ombros. Sophie usava um vestido de cetim prateado que fluía como água até o chão, contrastando com as botas de couro que ela se recusara a trocar — um pequeno pedaço da garota da fazenda que ainda vivia sob a pele da estrela pop. Megg estava ao seu lado, retocando o brilho nos lábios de Sophie com a precisão de um cirurgião, enquanto Lena verificava o cronograma no tablet.

— Você está pronta, Soph? — perguntou Lena, notando o leve tremor nas mãos da amiga. — O ginásio está lotado. Acho que até as cidades vizinhas esvaziaram para vir te ver.

— Eu não me sentia assim nem antes do show no Madison Square Garden — confessou Sophie, soltando um suspiro longo. — Lá, eles amam a Sophie Keily. Aqui, eles conhecem a Sophie Calloway. E a Calloway tem muito mais a perder.

Megg guardou o batom e segurou o rosto de Sophie com as duas mãos, forçando-a a olhar em seus olhos azuis determinados.

— Escute bem. Você não está aqui para provar nada a ninguém. Você está aqui para dar a esses garotos uma noite que eles nunca vão esquecer e para mostrar a essa cidade que a voz que eles tentaram calar agora ecoa pelo mundo inteiro. Agora, vai lá e brilha.

O sinal foi dado. Quando o mestre de cerimônias anunciou o nome "Sophie Keily", o rugido que emanou do ginásio foi ensurdecedor. Não era apenas um aplauso; era um som catártico, uma mistura de orgulho local e a excitação de ter uma lenda viva em seu pequeno palco de madeira.

Sophie subiu os degraus e a luz dos refletores a encontrou. Por um segundo, a visão ficou turva. Ela viu a primeira fila: sua mãe, Jene, com um lenço nos olhos; Jack e Olivia, cujas expressões de ceticismo haviam sido substituídas por um choque silencioso; e Ben. Ele estava parado perto da lateral, os braços cruzados, observando-a com uma intensidade que parecia queimar a distância entre eles.

— Boa noite, Willow Creek! — a voz de Sophie ecoou, clara e potente, amplificada pelo sistema de som de última geração que Megg fizera questão de instalar. — Há dez anos, eu me formei neste mesmo ginásio. Eu tinha sonhos que pareciam grandes demais para estas ruas, e medos que pareciam pesados demais para o meu coração. Para os formandos de hoje, eu digo: não tenham medo da chuva. É ela que faz o que é verdadeiro crescer.

Ela se sentou ao piano e as primeiras notas de uma melodia inédita preencheram o espaço. A música era vibrante, cheia de nuances que falavam sobre estradas abertas e o cheiro de terra molhada. A cidade assistia, hipnotizada. Eles nunca a tinham visto assim — no controle total, uma força da natureza que transformava dor em arte. Seus irmãos trocavam olhares assombrados; eles finalmente entendiam que o talento de Sophie não era apenas uma fuga, era a essência dela.

Depois de três músicas novas e alguns de seus maiores sucessos, Sophie encerrou a apresentação sob uma ovação de pé que fez as paredes do ginásio tremerem. Ela apresentou o DJ, um amigo de Nova York que Megg trouxera para garantir que a festa continuasse, e desceu do palco, sentindo o corpo vibrar com a adrenalina.

A festa de formatura transformou-se em um baile animado. Megg, já com uma bebida na mão, estava no meio da pista, ensinando passos de dança modernos para um grupo de alunos entusiasmados. Lena estava em um canto mais calmo, conversando animadamente com Olivia, que parecia finalmente ter baixado a guarda.

Sophie, exausta mas feliz, caminhou até a área vip improvisada, onde Ben e o grupo de amigos estavam reunidos.

— Isso foi... — Ben começou, mas as palavras pareceram falhar enquanto ele a olhava de cima a baixo. — Foi inacreditável, Sophie. Eu nunca vi nada parecido.

— Você foi fantástica! — JJ exclamou, abraçando Sophie com força. — Como você consegue ter tanta energia? E aquela letra sobre o riacho... você estava falando da gente, não estava?

— Talvez — Sophie sorriu, sentando-se no sofá de couro desgastado entre Ben e Caly.

— Eu estou oficialmente aposentado de tentar te impressionar — Caly brincou, levantando sua cerveja em um brinde. — A Megg já me humilhou na dança e agora você destruiu meus tímpanos com talento puro. O que vocês comem em Nova York? Diamantes?

A conversa fluiu com uma leveza que Sophie não sentia há anos. Eles riram de histórias da época da escola, de como Mike costumava dormir nas aulas de história e de como Léo era o único que conseguia acalmar o diretor. Por um momento, a bolha de paz parecia inquebrável. Lena e Megg juntaram-se ao grupo, e as histórias de Sophie sobre as turnês mundiais deixaram todos boquiabertos, enquanto as amigas contavam os bastidores engraçados da fama.

— Então é verdade que você teve que fugir de um hotel em Paris escondida em um carrinho de lavanderia? — perguntou Mike, com seu humor seco habitual.

— Culpa da Megg — Sophie riu, apontando para a produtora. — Ela disse que seria a rota mais rápida para o aeroporto.

— E foi! — Megg defendeu-se, fazendo todos rirem.

No entanto, em um canto da mesa, Tali Fields permanecia em silêncio, girando o anel de noivado no dedo. O brilho nos olhos de Ben enquanto ele olhava para Sophie era um veneno para ela. Ela via a conexão, a eletricidade que nem dez anos de distância conseguiram apagar. Tali sabia que, se não agisse, perderia Ben para o fantasma que acabara de se tornar carne e osso.

Ela pegou o celular e enviou uma mensagem rápida. Dez minutos depois, a porta dupla do ginásio se abriu e um homem entrou, caminhando com uma arrogância familiar.

Justin Smith não mudara muito. O rosto era um pouco mais marcado pelos anos de festas e excessos, mas o sorriso presunçoso era o mesmo. Ele fora o "garoto problema" de Willow Creek, o cara que sempre estivera no meio das confusões e que, em uma noite de bebedeira há dez anos, beijara Sophie à força em uma festa, criando um mal-entendido que Ben nunca esqueceu.

Tali levantou-se com um sorriso triunfante e acenou.

— Justin! Que surpresa maravilhosa! — disse ela, a voz alta o suficiente para atrair a atenção da mesa.

O grupo silenciou. Sophie sentiu o sangue congelar nas veias. A imagem daquela noite — a confusão, o cheiro de álcool de Justin e a expressão de traição no rosto de Ben — voltou com a força de um soco.

— Ora, ora — disse Justin, aproximando-se da mesa e fixando os olhos em Sophie. — Se não é a nossa estrela internacional. Eu sabia que o cheiro de sucesso traria você de volta para o ninho, Soph.

Ben levantou-se lentamente, a postura rígida, a mandíbula travada.

— O que você está fazendo aqui, Justin? — a voz de Ben era um rosnado baixo.

— Calma, cowboy — Justin levantou as mãos em sinal de paz fingida. — Eu sou um ex-aluno, não sou? Vim ver a atração principal. Afinal, a Sophie e eu temos... história, não temos, querida?

Ele se inclinou sobre a mesa, invadindo o espaço pessoal de Sophie. Megg e Lena levantaram-se imediatamente, prontas para intervir, mas Tali foi mais rápida.

— Ah, Justin, não seja modesto — disse Tali, com uma falsa doçura. — Todos lembram daquela festa antes da Sophie fugir. Foi o beijo mais comentado da década em Willow Creek. Alguns dizem que foi por isso que ela foi embora, para esconder a vergonha de ter trocado o Ben por você, mesmo que por uma noite.

O silêncio que se seguiu foi cortante. O barulho da música ao fundo parecia estar em outro planeta. Sophie olhou para Ben e viu a dúvida e a dor antiga cruzarem os olhos castanhos dele.

— Tali, chega — disse Sophie, a voz trêmula mas firme. — Você sabe perfeitamente bem que aquilo não foi um beijo. Foi um assédio que o Justin forçou e que você usou para espalhar mentiras.

Justin soltou uma risada debochada.

— Não foi o que pareceu para quem estava olhando, Soph. Você parecia bem interessada até o Ben aparecer e estragar a diversão. Talvez Nova York tenha te ensinado a atuar, mas eu lembro do sabor daquela noite.

Ben deu um passo à frente, mas Jack, que observava de perto, colocou a mão no peito do amigo.

— Não vale a pena, Ben — disse Jack, embora seus próprios olhos estivessem cheios de raiva.

— Vale sim — retrucou Justin, aproximando-se ainda mais de Sophie. — O que foi, Soph? O sucesso subiu à cabeça a ponto de você esquecer os velhos amigos? Ou você só gosta de homens que pode controlar com o seu dinheiro?

— Saia daqui, Justin — disse Sophie, levantando-se. Ela não era mais a menina assustada de dezesseis anos. — Agora.

— E se eu não sair? — desafiou ele.

Megg deu um passo à frente, cruzando os braços. Sua postura de produtora de elite era intimidante.

— Se você não sair em dez segundos, eu chamo a segurança que eu trouxe comigo e você vai passar a noite explicando para a polícia por que está assediando uma cidadã. E acredite, eu tenho os melhores advogados do país no meu discador rápido.

Justin olhou para Megg, depois para o olhar assassino de Ben, e finalmente para Tali, que parecia satisfeita com o caos que criara.

— Tudo bem, tudo bem — disse Justin, recuando. — Eu já vi o que queria. A estrela continua sendo apenas uma garotinha assustada escondida atrás de guarda-costas. Vejo você por aí, Ben. Se ela não fugir de novo amanhã.

Ele deu as costas e saiu, deixando um rastro de veneno no ar. Tali sentou-se novamente, suspirando falsamente.

— Puxa, que coisa chata. Eu não sabia que o Justin ainda era tão... intenso.

Sophie olhou para Tali, e pela primeira vez, não sentiu mágoa, apenas uma profunda clareza.

— Você sabia exatamente o que estava fazendo, Tali. Você o chamou.

Tali abriu a boca para negar, mas o olhar de Ben a interrompeu. Ele a olhava com uma expressão de total estranhamento, como se estivesse vendo a noiva pela primeira vez.

— Ben, eu... — Tali tentou começar.

— Não — interrompeu Ben, a voz fria. — Não diga nada.

Sophie sentiu o ginásio girar. A alegria da apresentação, a conexão com os amigos, tudo fora manchado pelo retorno daquela sombra. Ela olhou para Lena e Megg.

— Eu preciso sair daqui. Agora.

Ela não esperou por uma resposta. Sophie atravessou o ginásio, ignorando os pedidos de fotos e os cumprimentos dos alunos. Ela saiu pelas portas duplas, sentindo o ar frio da noite bater em seu rosto. Ela correu até o estacionamento, mas parou quando ouviu passos rápidos atrás dela.

— Sophie! Espera! — era a voz de Ben.

Eles pararam sob a luz fraca de um poste de iluminação. Sophie estava com os olhos cheios de lágrimas, a maquiagem levemente borrada.

— É por isso que eu fui embora, Ben! — ela gritou, a voz quebrada. — Por causa das mentiras, da culpa, das pessoas como a Tali e o Justin que transformaram a minha dor em um espetáculo! Eu nunca te traí! Eu nunca quis aquele beijo!

Ben parou a poucos centímetros dela. A respiração dele estava pesada.

— Eu sei, Sophie. No fundo, eu sempre soube. Mas eu estava tão ferido por você ter ido embora que deixei a raiva alimentar a mentira.

— E agora? — perguntou ela, a voz sumindo. — Você está noivo dela. Ela trouxe aquele homem aqui para destruir a única noite boa que eu tive nesta cidade em dez anos.

Ben olhou para o ginásio e depois de volta para Sophie. A lesão em sua perna parecia doer mais do que o normal, um lembrete físico de tudo o que haviam perdido.

— Eu não sei o que acontece agora, Soph. Mas eu sei que a Tali cruzou uma linha que não tem volta.

Nesse momento, Megg e Lena apareceram na porta do ginásio, observando-os de longe. O DJ lá dentro mudara a música para algo lento e melancólico.

— A festa acabou para mim — disse Sophie, limpando o rosto. — Amanhã é o aniversário da morte do meu pai. Eu vim aqui por ele. E depois que a cerimônia acabar, eu acho que Nova York é o único lugar onde eu realmente pertenço.

Ela se virou e caminhou em direção ao carro de Megg, deixando Ben sozinho sob a luz amarelada. O plano de Tali havia funcionado: ela trouxera o passado de volta. Mas o que ela não percebera era que, ao tentar quebrar Sophie, ela acabara de quebrar a última ilusão que mantinha Ben ao seu lado.

A noite de Willow Creek, que começara com o brilho das estrelas e o som de uma voz angelical, terminava agora com o eco de verdades dolorosas e a promessa de uma tempestade que estava apenas começando. Sophie entrou no carro, fechou os olhos e, pela primeira vez, não desejou apenas fugir. Ela desejou lutar. Mas, desta vez, ela não lutaria apenas pela sua carreira; ela lutaria pela verdade que Willow Creek tentara enterrar sob dez anos de silêncio e poeira.

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