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Depois do MTV

O Rugido dos Leões de Papel

A limusine preta deslizava pelas ruas de Los Angeles como um tubarão silencioso em águas infestadas de piranhas. Do lado de fora, o mundo estava em chamas. Marshall olhava para a tela do celular de Paul, que não parava de exibir notificações. A foto na piscina já era o assunto mais comentado do planeta. O contraste era brutal: a pele pálida dele contra o brilho dourado dela, um momento de intimidade roubada que agora pertencia a cada tablóide de quinta categoria.

— Você está pronta para isso? — perguntou Marshall, a voz rouca, quase um sussurro que mal superava o som do motor. — Assim que a porta abrir, não haverá mais "Marshall e Christina". Seremos alvos.

Christina ajeitou o vestido de seda vermelha, uma escolha deliberada que gritava por atenção. Ela retocou o batom, o tom escarlate parecendo uma pintura de guerra. Seus olhos, no entanto, traíam uma leve trepidação que ela se recusava a deixar transparecer na voz.

— Eu passei a vida sendo o que os outros queriam, Marshall. Se é para ser odiada, que seja por algo que eu escolhi. Vamos dar a eles o que eles querem, mas vamos fazer com que se engasguem com isso.

O carro parou em frente à boate *The Viper Room*. A multidão de paparazzi já estava lá, alertada por informantes, formando uma barreira de lentes e flashes que parecia uma parede de espelhos quebrados. O segurança abriu a porta.

Marshall saiu primeiro. Ele não usava o capuz desta vez. Estava de cara limpa, a expressão endurecida, os olhos azuis gélidos desafiando qualquer um a dizer uma única palavra. Ele estendeu a mão para dentro do carro. Quando os dedos de Christina se entrelaçaram nos dele e ela emergiu para a luz, o som foi ensurdecedor. Gritos, perguntas disparadas como metralhadoras e o clique frenético das câmeras criaram um vácuo de caos.

— Marshall! É verdade sobre o caso? Christina, você perdoou as ofensas dele? — gritou um repórter, quase caindo sobre o cordão de isolamento.

Eles não responderam. Marshall apenas apertou a mão dela com mais força, puxando-a para perto de seu corpo enquanto abriam caminho. O contato físico era uma declaração de guerra. Dentro da boate, a música alta e o cheiro de álcool caro os envolveram, mas o silêncio que se seguiu à entrada deles foi quase cômico. As celebridades presentes, os modelos, os figurões da indústria — todos pararam.

— Parece que o circo chegou à cidade — murmurou Marshall no ouvido dela, enquanto se dirigiam para uma área VIP reservada.

— E nós somos os donos do show — respondeu Christina, forçando um sorriso radiante para a plateia de curiosos.

Eles se sentaram em um reservado de veludo escuro. Paul Rosenberg apareceu logo em seguida, parecendo ter envelhecido dez anos na última hora. Ele se inclinou sobre a mesa, ignorando as garrafas de vodka que o garçom acabara de trazer.

— Vocês têm noção do que acabaram de fazer? — perguntou Paul, a voz baixa e tensa. — O Interscope está recebendo ligações de todos os lados. A Disney quer saber se a Christina enlouqueceu. Marshall, o Dre está no telefone e ele não parece feliz.

— Diga ao Dre que eu ligo de volta quando o barulho diminuir — disse Marshall, servindo-se de água tônica. — E diga ao pessoal da gravadora que, se eles querem vender discos, esse é o melhor marketing que já tiveram. O ódio vende tanto quanto o sexo, Paul. E nós temos os dois agora.

Christina cruzou as pernas, observando o movimento da pista de dança. Ela se sentia estranhamente leve, como se o peso de manter as aparências tivesse evaporado.

— Paul, relaxa — disse ela. — Eles iam nos destruir de qualquer jeito com aquela foto. Pelo menos agora, não estamos fugindo. Se eles querem um escândalo, vamos dar um épico.

Paul suspirou, esfregando a testa.

— É uma jogada arriscada. Vocês estão misturando gasolina com fósforos. Se um de vocês explodir, o outro vai junto.

— A gente já vive em explosão, Paul — rebateu Marshall, olhando para Christina. — A diferença é que agora a gente divide o pavio.

Quando Paul se afastou para lidar com a crise, o silêncio voltou a pairar entre os dois, apesar da música eletrônica pulsante ao redor. Christina pegou um guardanapo de papel sobre a mesa e uma caneta que estava na bolsa. Ela começou a rabiscar algo, alheia ao ambiente.

— O que você está fazendo? — perguntou Marshall, curioso.

— Escrevendo o refrão da nossa destruição — disse ela, sem desviar os olhos do papel. — Você disse que queria rimas reais. Aqui está uma: "O monstro e a boneca, dançando sobre o vidro quebrado. Ninguém se importa com a dor, desde que o flash seja rápido".

Marshall pegou o guardanapo, lendo as palavras. Um sorriso genuíno, algo que ele raramente mostrava em público, iluminou seu rosto.

— Você tem um lado sombrio, Aguilera. Eu sabia que ele estava lá, escondido sob aquelas notas altas e o glitter.

— Todos nós temos — disse ela, aproximando-se dele. — Você apenas teve a coragem de fazer do seu lado sombrio a sua marca registrada. Eu estou apenas começando a deixar o meu sair para brincar.

O momento foi interrompido por uma figura alta e elegante que se aproximou da mesa. Era um produtor musical influente, conhecido por seu trabalho com Christina, mas que sempre olhara para Eminem com um misto de desdém e medo.

— Christina, querida — disse o homem, ignorando Marshall completamente. — Precisamos conversar sobre a sua imagem. Isso que você está fazendo... é um erro tático. Esse tipo de associação pode manchar a sua marca permanentemente.

Marshall sentiu o sangue ferver. Ele começou a se levantar, mas a mão de Christina em seu braço o deteve. Ela se levantou sozinha, encarando o produtor com uma frieza que Marshall não esperava.

— Minha marca, Robert? — perguntou ela, a voz doce como veneno. — Minha marca é a minha voz. E a minha voz diz que eu faço o que eu quiser, com quem eu quiser. Se você está preocupado com as vendas, sugiro que compre um exemplar do próximo álbum do Marshall. Ele vai te ensinar como transformar controvérsia em ouro.

O produtor abriu a boca para retrucar, mas o olhar de Marshall, que agora estava de pé atrás de Christina, o fez recuar.

— O tempo de vocês acabou — disse Marshall, a voz num tom perigosamente baixo. — Saia daqui antes que eu decida que você é o tema da minha próxima música. E você sabe que eu não escrevo baladas de amor para caras como você.

O homem se retirou rapidamente, desaparecendo na multidão. Marshall e Christina voltaram a se sentar, a adrenalina da confrontação ainda vibrando no ar.

— Isso foi... intenso — admitiu Marshall, soltando uma risada curta. — Você o colocou no lugar dele melhor do que eu faria.

— Eu cansei de ser a garota boazinha, Marshall. Especialmente para pessoas que só se importam com o quanto eu rendo no final do trimestre.

— Bem-vinda ao meu mundo — disse ele, pegando a mão dela por cima da mesa. — É solitário, é barulhento e todo mundo quer um pedaço de você. Mas, pelo menos, você nunca fica entediada.

Eles ficaram ali por horas, bebendo, conversando e ignorando os olhares furtivos que vinham de todos os cantos do clube. Pela primeira vez em muito tempo, Marshall não sentia a necessidade de atacar. A presença de Christina era um tipo diferente de combustível. Ela o desafiava de uma forma que seus rivais no rap nunca conseguiram; ela o desafiava a ser humano.

Perto das três da manhã, decidiram que já tinham causado dano suficiente por uma noite. Ao saírem, a cena se repetiu: flashes, gritos e o caos da imprensa. Mas, desta vez, havia algo diferente na forma como caminhavam. Não era uma fuga; era uma procissão.

Dentro do carro, a caminho da casa de Marshall em Detroit — uma decisão de última hora para fugir do epicentro de Los Angeles —, o silêncio se tornou confortável. Christina encostou a cabeça no ombro dele, o cansaço finalmente vencendo a adrenalina.

— O que acontece amanhã? — perguntou ela, com os olhos fechados.

— Amanhã, a gente acorda e lê as mentiras que escreveram sobre hoje — disse Marshall, passando o braço por cima dos ombros dela. — E depois, a gente vai para o estúdio.

— O estúdio? — ela levantou a cabeça, surpresa.

— Sim. Se o mundo quer nos ver juntos, vamos dar a eles a trilha sonora. Eu tenho uma batida que o Dre me mandou na semana passada. É agressiva, é melancólica e é perfeita para a sua voz.

Christina sorriu, um brilho de excitação voltando aos seus olhos.

— Uma colaboração? Marshall, isso vai causar um terremoto na indústria.

— Deixe que trema — disse ele. — A gente já está no meio do escândalo. Vamos fazer com que ele valha a pena.

O jatinho particular de Marshall os aguardava no aeroporto de Van Nuys. Enquanto subiam a escada, Marshall parou e olhou para o céu estrelado da Califórnia. Ele sabia que a estrada à frente seria turbulenta. Haveria processos, críticas, fãs decepcionados e uma pressão esmagadora. Mas, ao olhar para a mulher ao seu lado, ele sentiu uma clareza que não sentia há anos.

— Sabe, Aguilera — disse ele, enquanto se acomodavam nas poltronas luxuosas do avião —, eu ainda acho que você é uma princesinha irritante.

— E eu ainda acho que você é um misógino com problemas de temperamento — retrucou ela, aceitando a taça de champanhe que o comissário ofereceu.

— Ótimo — Marshall sorriu, brindando com sua garrafa de água. — Se a gente começar a concordar muito, a música vai ficar chata.

O avião decolou, deixando para trás as luzes de Los Angeles e o turbilhão de fofocas que eles mesmos haviam alimentado. Em Detroit, o inverno estava chegando, mas dentro daquele avião, o fogo que Marshall e Christina haviam acendido prometia queimar por muito tempo.

Horas depois, já em solo de Michigan, a limusine os levou até a mansão fortificada de Marshall. O ar era frio e cortante, um lembrete de que eles estavam longe do glamour artificial da costa oeste. Marshall abriu a porta de casa e foi recebido pelo silêncio reconfortante de seu refúgio.

— É aqui que o monstro vive? — perguntou Christina, entrando e observando a decoração sóbria e moderna.

— É aqui que eu me escondo — corrigiu Marshall. — Sinta-se em casa. Só não toque nos meus cadernos de rimas sem permissão.

Ele a levou até o estúdio caseiro, um bunker de tecnologia de ponta escondido no porão. As luzes vermelhas e azuis dos painéis de controle refletiam-se nos vidros. Marshall apertou alguns botões e uma batida pesada, com um piano sombrio ao fundo, começou a preencher o ambiente.

Christina fechou os olhos, absorvendo o ritmo. Ela começou a cantarolar uma melodia, uma linha vocal que subia e descia, harmonizando-se perfeitamente com a agressividade da percussão.

— Isso — disse Marshall, pegando um microfone e entregando-o a ela. — Cante isso. Diga a eles o que você sente quando as câmeras apagam.

Ela se posicionou diante do microfone, a voz saindo pura e poderosa, cortando o ar como uma lâmina de cristal. Marshall ficou parado, apenas ouvindo. Ele já tinha ouvido as melhores vozes do mundo, mas havia algo na entrega de Christina — uma mistura de dor, desafio e uma vulnerabilidade crua — que o atingia em um lugar que ele mantinha trancado a sete chaves.

Quando ela terminou o primeiro improviso, o estúdio ficou em silêncio por um longo momento.

— Você é incrível — disse Marshall, a voz desprovida de qualquer sarcasmo.

— Eu sei — respondeu ela, mas seu sorriso era suave. — Agora é a sua vez. O que o Eminem tem a dizer sobre a princesa que se recusou a ser resgatada?

Marshall pegou sua caneta e começou a escrever furiosamente. As palavras fluíam como uma torrente. Ele escreveu sobre o VMA, sobre o ódio mútuo que se transformou em algo que eles ainda não sabiam nomear, e sobre o prazer de ver o mundo queimar enquanto eles dançavam nas cinzas.

— "Eles dizem que eu sou o veneno, e você é a cura / Mas a verdade é que a gente é a mesma loucura / Dois lados da moeda, jogados no chão / Onde o ódio é a rima e o amor é a prisão" — recitou Marshall.

Christina aproximou-se, lendo os versos por cima do ombro dele.

— "Amor é a prisão"? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha. — Você está ficando sentimental, Mathers?

— É apenas uma metáfora, Aguilera. Não se empolgue.

— Sei — disse ela, rindo. — Mas é uma boa metáfora.

Eles passaram o resto da madrugada ali, entre rimas e melodias, construindo algo que era mais do que uma música. Era um manifesto. O escândalo lá fora continuava a crescer, as manchetes tornavam-se cada vez mais absurdas e as carreiras de ambos estavam na corda bamba. Mas ali, naquele bunker em Detroit, eles eram apenas dois artistas tentando encontrar sentido no caos.

Ao amanhecer, Marshall subiu para o quarto de hóspedes para deixar Christina descansar. Ele parou na porta por um momento.

— Christina?

— Sim?

— Obrigado por não ter me dado aquele soco no VMA.

Ela sorriu, já se acomodando entre os lençóis.

— De nada, Marshall. Mas guarde os agradecimentos. A turnê de divulgação dessa música vai ser um inferno. E eu pretendo te irritar em cada segundo dela.

— Eu não esperava nada menos — disse ele, fechando a porta.

Marshall caminhou até seu próprio quarto, sentindo o peso do cansaço, mas também uma satisfação estranha. Ele sabia que o escândalo estava longe de acabar. Na verdade, a parte mais difícil ainda estava por vir. O mundo não aceitaria facilmente a união do rapper mais controverso da história com a diva do pop. Eles seriam julgados, analisados e, eventualmente, atacados.

Mas, enquanto olhava pela janela para os campos gelados de Detroit, Marshall sorriu. Pela primeira vez em sua carreira, ele não estava lutando sozinho. O monstro e a princesa tinham formado uma aliança, e o rugido que eles estavam prestes a soltar faria o mundo inteiro tremer. O escândalo Eminem e Christina Aguilera não era apenas uma notícia de tablóide; era o início de uma nova era na música, onde o ódio e o verso finalmente encontravam sua harmonia mais perigosa.