Voltar ao resumo

Desabrochando

Ecos de Papel e Promessas Amargas

O corredor principal da escola Anakt estava mergulhado no burburinho frenético que precedia a primeira aula. Mizi estava encostada nos armários, uma perna dobrada e as mãos gesticulando animadamente enquanto Lexy mostrava alguns esboços novos em seu tablet. O contraste entre as duas era hipnótico: o rosa vibrante de Mizi parecia querer saltar sobre a palidez etérea de Lexy, que sorria de forma contida, absorvendo cada palavra da amiga como se fosse música.

— Eu juro, Lexy, se você usar esse tom de azul na tela grande, vai parecer que a pintura está respirando! — Mizi exclamou, aproximando-se mais da garota albina.

Lexy riu, um som suave que parecia o tilintar de cristais.

— Você sempre exagera, Mizi. É só um estudo de cor.

— Exagero nada! Eu conheço talento quando vejo um... — Mizi interrompeu a frase no meio. Seus olhos, que estavam focados no tablet, desviaram-se para o final do corredor.

Lá, caminhando com a elegância melancólica de quem carrega o próprio inverno particular, estava Sua. Ela não olhou para os lados. Seus olhos estavam fixos no livro que segurava contra o peito, e a trajetória era clara: a biblioteca. Ivan não estava com ela, o que era raro, mas o isolamento de Sua parecia ainda mais denso hoje, como uma redoma de vidro fumê.

Mizi sentiu uma fisgada estranha no peito. O episódio da garagem no dia anterior voltou como um flash: o calor da mão de Sua, o cheiro de papel antigo, e o modo como aquele calor evaporou assim que Lexy chegou. Ela viu Sua desaparecer atrás das portas duplas da biblioteca e, de repente, o entusiasmo pelos esboços de Lexy pareceu murchar.

— Mizi? Você ouviu o que eu disse? — Lexy perguntou, inclinando a cabeça, os olhos azuis claros cheios de dúvida.

Mizi piscou, forçando um sorriso que não chegou aos olhos.

— Ah, desculpa, Lexy! Eu... eu acabei de lembrar que o Luka me emprestou um livro de física ontem e eu prometi devolver antes da aula, senão ele vai ter um colapso nervoso e começar a citar leis de Newton no meio do pátio.

Lexy arqueou uma sobrancelha, o olhar cético.

— Você? Devolvendo um livro de física? Na biblioteca?

— Eu sei, eu sei, é um milagre da natureza! — Mizi deu um tapinha rápido no ombro de Lexy e já começou a se afastar de costas. — Me encontra na sala de artes daqui a dez minutos? Eu juro que sou rápida!

Sem esperar resposta, Mizi girou nos calcanhares e quase correu em direção à biblioteca. Ela empurrou as portas com menos força do que o habitual, tentando não anunciar sua chegada com o estrondo de sempre.

O silêncio da biblioteca a envolveu como um cobertor pesado. Mizi caminhou entre as estantes, o nariz captando o rastro de morango sintético de seu próprio chiclete e o cheiro de ozônio que parecia emanar de Sua. Ela a encontrou nos fundos, na seção de literatura clássica e livros raros — um lugar onde o pó dançava nos raios de sol e as estantes eram tão altas que pareciam fechar o teto.

Sua estava de pé, passando os dedos longos pelas lombadas desgastadas. Ela não se virou quando Mizi se aproximou.

— O Luka não frequenta essa seção — disse Sua, a voz baixa e fria como uma lâmina de gelo. — E você não tem nenhum livro de física com você.

Mizi parou a dois passos dela, soltando um suspiro longo. Ela abandonou a fachada brincalhona.

— Você tem ouvidos de morcego ou algo assim?

— Eu tenho o hábito de prestar atenção ao meu redor — Sua finalmente se virou. Seus olhos estavam nublados, sem o brilho de curiosidade que Mizi tinha visto na biblioteca no dia anterior. — O que você quer, Mizi? A Lexy se cansou de ser o seu sol por cinco minutos?

Mizi sentiu a alfinetada e deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Sua.

— Isso não tem nada a ver com a Lexy. Eu... eu me senti mal por ontem. Você saiu sem falar nada.

— Eu disse tchau — rebateu Sua, fechando o livro que tinha nas mãos com um estalo seco. — E você estava ocupada demais sendo "intensa" para notar. Não precisa se desculpar por ser quem você é, Mizi. Eu só me lembrei de onde é o meu lugar. E ele não é numa garagem barulhenta.

— Para com isso — Mizi disse, a voz subitamente rouca. Ela deu mais um passo, encurralando Sua contra a estante de madeira escura. — Você sabe que não é verdade. Ontem, na garagem, antes da Lexy chegar... o que aconteceu entre a gente não foi "barulho de fundo".

Sua tentou sustentar o olhar, mas a intensidade de Mizi era avassaladora. Mizi tinha aquele olhar sedutor, predatório e, ao mesmo tempo, desesperadamente honesto. A mão de Mizi subiu, apoiando-se na prateleira logo acima da cabeça de Sua, os fios de cabelo rosa roçando a testa da outra garota.

A tensão entre elas subiu como uma maré rápida. O silêncio da biblioteca, que antes era um refúgio, agora parecia uma câmara de pressão. Sua conseguia sentir o calor emanando do corpo de Mizi, o perfume de morango agora misturado com algo mais profundo, mais humano.

— Você é exaustiva — sussurrou Sua, mas sua voz não tinha força. Seus olhos caíram para os lábios de Mizi, que estavam entreabertos.

Mizi inclinou o rosto. A distância entre elas era mínima; a respiração de uma se misturava à da outra. O olhar de Mizi era um convite e um desafio, uma promessa de que o gelo poderia, sim, queimar se fosse tocado da maneira certa. Sua sentiu o coração martelar contra as costelas, um ritmo que ela não conseguia controlar com poesia ou silêncio.

Mizi fechou os olhos, aproximando-se ainda mais, o nariz roçando o de Sua.

E então, como se tivesse sido atingida por um choque elétrico, Mizi parou.

Ela abriu os olhos, mas o brilho intenso tinha sido substituído por uma confusão súbita e uma pontada de pânico. Ela olhou para Sua, depois para as próprias mãos, e deu um passo desajeitado para trás, quase tropeçando nos próprios pés.

— Eu... eu esqueci — gaguejou Mizi, a voz falhando. — Eu prometi pra Lexy... eu tenho que... a aula de artes.

Sua ficou estática, a respiração ainda pesada, observando a transformação brusca. O calor que estava prestes a explodir foi substituído por um vácuo desconfortável.

— Mizi? — Sua chamou, a voz trêmula.

— Desculpa, Sua. Eu tenho que ir. A gente se vê... por aí.

Mizi girou e praticamente fugiu pelo corredor de livros, o som de seus passos rápidos ecoando como batidas de tambor em retirada. Sua permaneceu encostada na estante, o frio da madeira penetrando em seu uniforme. Ela tocou os próprios lábios, sentindo o fantasma do calor de Mizi.

— Covarde — sussurrou Sua para o ar vazio, mas não havia raiva em sua voz, apenas uma profunda e familiar melancolia.

Cerca de vinte minutos depois, Sua saiu da biblioteca. Ela caminhava pelo pátio interno, tentando recompor sua máscara de indiferença. Ivan estava encostado em uma pilastra, mastigando um chiclete de canela com uma expressão de tédio profundo. Quando viu a irmã, ele se desencostou e começou a caminhar ao lado dela.

— Você demorou — comentou Ivan, observando o rosto pálido da irmã. — Aconteceu alguma coisa?

— Nada que valha a pena mencionar, Ivan. Apenas o barulho de sempre.

— Sei — Ivan estreitou os olhos. — A garota rosa passou por mim correndo agora pouco como se tivesse visto um fantasma. Ou como se tivesse feito algo estúpido.

Sua não respondeu. Eles continuaram caminhando em direção ao refeitório, onde o grupo costumava se reunir. Ao longe, Sua avistou a mesa central.

Lá estava Mizi. Ela estava sentada ao lado de Lexy, rindo alto de algo que Hyuna dizia. Till estava discutindo com Luka sobre algum detalhe técnico, e Mizi parecia a imagem perfeita da descontração. Ela tinha um braço jogado sobre o encosto da cadeira de Lexy, e a garota albina sorria para ela com uma doçura que fez o estômago de Sua revirar.

Era como se os últimos dez minutos na biblioteca nunca tivessem existido. Como se a tensão, o quase-beijo e a fuga desesperada fossem apenas alucinações de Sua.

Mizi levantou o olhar e viu os irmãos Baek se aproximando. Por um breve segundo, o riso dela vacilou, e seus olhos encontraram os de Sua. Houve um lampejo de culpa, de algo não resolvido, mas então Mizi piscou e voltou a atenção para Lexy, puxando a amiga para mais perto para mostrar algo no celular.

— Eles são um circo, não são? — Ivan murmurou ao lado de Sua, notando a rigidez nos ombros da irmã.

— Um circo muito barulhento — Sua respondeu, a voz recuperando sua cadência gélida.

Eles chegaram à mesa. Till levantou a mão em um cumprimento seco para Ivan, e Luka ajeitou os óculos, sorrindo para Sua.

— Ah, Sua! Que bom que veio. Eu estava contando para a Lexy sobre a sua análise de Plath. Ela ficou muito interessada.

Lexy olhou para Sua, o olhar azul agora mais suave, menos defensivo do que na garagem.

— Mizi me contou que você gosta de coisas profundas — disse Lexy. — Eu adoraria que você visse minhas pinturas qualquer dia desses. Acho que você entenderia o que eu tento expressar com as sombras.

Sua olhou para Lexy, depois para Mizi. Mizi estava ocupada demais encarando a própria lata de refrigerante, evitando o contato visual a todo custo.

— Talvez — respondeu Sua, sentando-se na ponta oposta a Mizi. — Mas sombras são perigosas, Lexy. Às vezes, as pessoas se escondem nelas porque têm medo da luz.

O silêncio caiu sobre a mesa. Hyuna soltou um assobio baixo.

— Profundo. Eu disse que ela era do time do Till.

— Ei! — protestou Till. — Eu não sou tão depressivo assim.

A conversa voltou a fluir, mas a dinâmica tinha mudado. Mizi falava demais, ria demais, sempre direcionando tudo para Lexy ou Hyuna. Ela era uma explosão de energia, mas Sua conseguia ver as rachaduras. Mizi estava performando.

Ivan, sentado ao lado de Till, começou a zoar o estilo "emo" do guitarrista, o que gerou uma discussão acalorada e surpreendentemente cômica entre os dois. Luka tentava mediar, enquanto Hyuna incentivava o caos.

Sua permaneceu em silêncio, observando. Ela viu quando Lexy tocou a mão de Mizi para acalmá-la de uma risada, e viu como Mizi hesitou por um segundo antes de retribuir o toque. Mas o que Sua mais notou foi que, apesar de todo o barulho e de todas as cores, Mizi não parecia feliz. Ela parecia alguém tentando manter as paredes de uma represa que estava prestes a romper.

Em um momento em que Lexy se distraiu conversando com Luka, Mizi finalmente olhou para Sua. Foi um olhar rápido, carregado de uma súplica silenciosa que Sua não soube interpretar.

Sua abriu seu livro, mergulhando nas palavras impressas para não ter que lidar com a confusão nos olhos rosados de Mizi.

— "O gelo é um mestre silencioso" — leu Sua em voz baixa, quase para si mesma.

— O que disse? — perguntou Hyuna.

— Nada — Sua fechou o livro e levantou-se. — Perdi o apetite. Ivan, te vejo na aula de história.

Ela se retirou antes que alguém pudesse protestar. Enquanto se afastava, Sua sentiu os olhos de Mizi queimando em suas costas. Ela sabia que Mizi queria ir atrás dela, mas também sabia que Mizi não o faria. Não enquanto Lexy estivesse lá. Não enquanto o barulho fosse mais seguro do que a verdade.

Ivan observou a irmã sair e depois voltou o olhar para Mizi. Ele deu um peteleco no pirulito que estava na boca e encarou a garota de cabelos rosa com um olhar que dizia claramente: "Eu sei o que você fez".

Mizi engoliu em seco e voltou a rir de uma piada da Hyuna, mas o som saiu oco.

O dia na escola Anakt continuou, mas para as duas garotas, o ar parecia ter ficado mais rarefeito. O gelo de Sua tinha voltado a se fechar, mas agora havia uma rachadura profunda no centro, uma marca deixada por dedos que cheiravam a morango. E Mizi, no meio de seu círculo de amigos e cores, sentia-se, pela primeira vez, completamente perdida no próprio barulho.