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Desabrochando

Cinzas de Morango e o Peso do Silêncio

O corredor da escola Anakt parecia ter perdido um pouco de sua saturação cromática nos últimos três dias. Para quem observava de fora, era apenas a rotina de sempre: o barulho dos armários batendo, as risadas estridentes no refeitório e os professores tentando manter uma ordem que já não existia. Mas para o grupo de amigos do segundo ano, havia um buraco em forma de furacão rosado no meio da mesa central.

Mizi não aparecia. Não atendia as chamadas de Hyuna, não respondia às mensagens preocupadas de Luka e nem mesmo aos memes agressivos que Till enviava para tentar disfarçar sua ansiedade. Lexy, a garota de cabelos brancos, andava pelos cantos com uma expressão de melancolia artística ainda mais profunda, dizendo apenas que Mizi "precisava de um tempo para respirar".

Sua, por outro lado, tinha se tornado uma estátua de gelo ainda mais impenetrável. Ela passava os intervalos escondida nos arquivos da biblioteca, lendo os mesmos poemas repetidamente, tentando ignorar a sensação de que o vácuo deixado por Mizi estava sugando todo o oxigênio de seus pulmões.

No quarto dia, porém, o furacão retornou. Mas não era o mesmo.

Quando Mizi atravessou os portões da escola, o burburinho habitual diminuiu por um segundo. Ela não estava saltitante. Não havia chiclete de morango, nem o sorriso de canto que desafiava o mundo. O cabelo rosa, antes vibrante, parecia opaco, preso em um coque desleixado que deixava fios escaparem sem ordem. Seu uniforme estava impecável, mas parecia grande demais para ela, como se Mizi tivesse encolhido por dentro.

As olheiras sob seus olhos eram profundas, manchas roxas que nem mesmo a luz forte do pátio conseguia disfarçar. Ela caminhava devagar, os ombros caídos, olhando para o chão como se estivesse contando cada rachadura no cimento.

— Meu Deus, Mizi! — Hyuna foi a primeira a chegar, quase derrubando a garota com um abraço que foi recebido com uma passividade assustadora. — Onde você estava? A gente achou que você tinha sido sequestrada por alienígenas ou algo assim!

Mizi apenas deu um sorriso fraco, um movimento muscular que não alcançou seus olhos.

— Eu só... tive uma gripe forte, Hyuna. Nada demais.

— Gripe? Você parece que foi atropelada por um caminhão de melancolia e depois o caminhão deu ré — Till comentou, aproximando-se com as mãos nos bolsos, tentando esconder o alívio de vê-la.

— Till tem razão — Luka ajustou os óculos, analisando-a com preocupação técnica. — Sua palidez indica uma queda drástica nos níveis de serotonina ou uma privação de sono severa. Você quer ir para a enfermaria?

— Eu estou bem, gente. Sério — a voz de Mizi estava baixa, sem aquela cadência arrastada e provocante. Era apenas... morta.

Sua e Ivan observavam a cena de uma distância segura, perto da entrada do bloco de salas. Ivan mastigava um pirulito de uva, os olhos semicerrados.

— Ela parece um fantasma — murmurou Ivan. — O que quer que tenha acontecido naqueles três dias, não foi gripe.

Sua não respondeu. Ela sentia um aperto no peito que a incomodava. Ver Mizi daquele jeito — sem luz, sem vida, sem aquele brilho irritante que costumava derreter seu gelo — era pior do que ser ignorada por ela. Era como ver uma pintura famosa ser rasgada lentamente.

No intervalo, o grupo se reuniu na mesa de sempre. Lexy estava sentada ao lado de Mizi, segurando sua mão com uma posse silenciosa. Mizi não falava. Ela apenas encarava a bandeja de comida intocada, mexendo em um pedaço de maçã com o garfo.

— Então — começou Hyuna, tentando quebrar o gelo — a gente vai ensaiar hoje depois da aula? O Ivan disse que conseguiu um novo sintetizador.

Mizi levantou a cabeça devagar. Seus olhos encontraram os de Sua por um breve segundo, e o que Sua viu ali a fez estremecer: não havia provocação, não havia culpa, havia apenas um cansaço existencial que parecia infinito.

— Eu não vou poder ir — disse Mizi. Sua voz falhou levemente. — Eu vou para casa descansar.

— Mas você acabou de voltar! — protestou Till. — Mizi, o que tá rolando? Você não é assim. Cadê o chiclete? Cadê a piada idiota sobre o meu piercing?

Mizi fechou os olhos por um momento longo demais.

— Eu só estou cansada, Till. O barulho... cansa às vezes.

Aquelas palavras atingiram Sua como um projétil. "O barulho cansa". Era a frase dela. Era o mantra que Sua usava para se proteger do mundo, e agora Mizi a estava usando como um escudo contra seus próprios amigos.

— Você quer que eu te acompanhe até em casa, Mizi? — Lexy perguntou, a voz doce e protetora.

— Não precisa, Lexy. Eu consigo andar.

Mizi levantou-se, deixando a bandeja cheia para trás. Ela começou a se afastar, mas seus passos eram instáveis. No meio do refeitório, ela parou, cambaleou levemente e apoiou a mão em uma mesa vazia.

Sua agiu antes de pensar. Ela se levantou da mesa com uma rapidez que surpreendeu até Ivan.

— Eu vou ao banheiro — disse Sua para o grupo, já se afastando.

Ela seguiu Mizi de longe, mantendo uma distância prudente até que estivessem no corredor dos armários, que estava vazio naquele horário. Mizi estava encostada em um dos armários metálicos, a cabeça baixa, respirando de forma irregular.

— Você é uma péssima mentirosa — disse Sua, sua voz ecoando no corredor silencioso.

Mizi não se sobressaltou. Ela apenas virou o rosto devagar, as mechas rosas escondendo parte de sua expressão.

— Ah, é você. Veio me dizer que eu finalmente aprendi a apreciar o silêncio?

Sua caminhou até ela, parando a uma distância onde podia sentir o cheiro de Mizi. Não havia mais o perfume forte de morango; havia apenas o cheiro neutro de sabão e algo que lembrava hospital.

— Eu vim dizer que você parece um cadáver ambulante — Sua cruzou os braços, tentando manter a fachada fria. — O que aconteceu, Mizi? E não me venha com a história da gripe.

Mizi soltou uma risada seca, um som quebrado que não tinha nada de alegre.

— O que aconteceu? — Mizi finalmente levantou o olhar, e Sua viu que seus olhos estavam marejados. — Aconteceu que eu cansei de fingir que tudo é uma festa, Sua. Cansei de ser a garota que faz todo mundo rir enquanto eu me sinto... oca.

— E a Lexy? — a pergunta saiu antes que Sua pudesse contê-la.

— A Lexy é... — Mizi hesitou, fechando os punhos. — A Lexy gosta da Mizi que brilha. Ela não sabe o que fazer com a Mizi que apaga. Ninguém sabe.

Houve um silêncio pesado entre elas. Mizi parecia estar prestes a desabar no chão frio do corredor. Sua sentiu uma onda de empatia que a assustou. Ela sabia o que era se sentir oca. Ela vivia naquela vacuidade há anos.

— Eu sei — sussurrou Sua.

Mizi olhou para ela, surpresa.

— O quê?

— Eu sei o que fazer com o silêncio — Sua deu um passo à frente, diminuindo a distância. — Eu vivo nele, lembra? Se você não consegue brilhar agora, não precisa fingir.

Mizi soltou um soluço sufocado, cobrindo o rosto com as mãos. O gelo de Sua derreteu completamente naquele instante. Sem pensar nas consequências, sem pensar em Lexy ou no que o grupo acharia, Sua envolveu Mizi em um abraço.

Foi um abraço desajeitado no início, mas Mizi se agarrou ao uniforme de Sua como se fosse uma boia em um oceano revolto. Ela enterrou o rosto no ombro de Sua, e as lágrimas que ela vinha segurando por quatro dias finalmente transbordaram.

— Eu não consigo... eu não consigo mais — soluçava Mizi, seu corpo tremendo violentamente contra o de Sua.

— Shhh. Está tudo bem — Sua murmurou, passando a mão pelo cabelo opaco de Mizi. — Você não precisa conseguir nada agora. Só respira.

Elas ficaram ali por um tempo que pareceu eterno. O corredor vazio era o único lugar no mundo onde Mizi podia ser fraca e Sua podia ser calorosa. Quando o choro de Mizi finalmente diminuiu para espasmos ocasionais, ela se afastou um pouco, mas não soltou os braços de Sua.

— Por que você está sendo legal comigo? — perguntou Mizi, a voz rouca e os olhos vermelhos. — Eu te ignorei na garagem. Eu fugi de você na biblioteca.

Sua limpou uma lágrima do rosto de Mizi com o polegar, um gesto de uma delicadeza que ela nunca soube que possuía.

— Porque o barulho de fundo é chato, Mizi. Mas o seu silêncio... o seu silêncio dói de ouvir.

Mizi deu um pequeno sorriso, o primeiro sorriso real em dias.

— Você é muito estranha, Sua.

— E você é um desastre — rebateu Sua, mas seu tom era suave. — Vem. Você não vai para a aula. Eu vou te levar para casa.

— E o Ivan? E o grupo?

— O Ivan entende o silêncio melhor do que ninguém. Ele vai dar uma desculpa para os outros.

Sua ajudou Mizi a se recompor. Ela pegou a mochila da garota e, de mãos dadas — não como um gesto de provocação, mas como uma âncora —, as duas caminharam em direção à saída lateral da escola.

Enquanto atravessavam o pátio, viram Ivan de longe. Ele estava encostado no portão, como se estivesse esperando por elas. Quando viu Sua guiando uma Mizi fragilizada, ele apenas tirou o pirulito da boca e assentiu com a cabeça, um sinal silencioso de que ele cuidaria de tudo na escola.

— Ele é um bom irmão — comentou Mizi, a voz ainda fraca.

— Ele é — concordou Sua.

Elas caminharam até o ponto de ônibus em silêncio. Não era o silêncio desconfortável da biblioteca após a fuga de Mizi, nem o silêncio gélido da indiferença. Era um silêncio compartilhado, uma trégua entre o caos e a melancolia.

No ônibus, Mizi encostou a cabeça no ombro de Sua e fechou os olhos.

— Sua? — chamou ela baixinho.

— Hum?

— Você tem algum chiclete?

Sua revirou os bolsos da mochila e encontrou uma pequena caixa de balas de menta que Ivan tinha lhe dado.

— Só tenho de menta. Serve?

Mizi pegou uma, colocando-a na boca.

— É frio — ela comentou, encostando-se mais em Sua. — Combina com você. Mas eu acho que prefiro morango.

— Eu sei que prefere — Sua respondeu, olhando pela janela. — Mas por hoje, a menta vai ter que bastar para manter você acordada.

Mizi não respondeu, pois já tinha pegado no sono, exausta por ter tentado ser o sol por tanto tempo. Sua olhou para a garota em seu ombro e sentiu uma estranha determinação. Ela não deixaria Mizi apagar. Se Mizi precisava de tempo para recuperar suas cores, Sua seria a sombra que a protegeria até que ela estivesse pronta para brilhar de novo.

Longe dali, na escola, Lexy procurava por Mizi pelos corredores, o tablet cheio de desenhos coloridos que Mizi nunca veria naquele dia. E na mesa do refeitório, Hyuna, Till e Luka olhavam para as duas cadeiras vazias, sentindo que o equilíbrio do grupo tinha mudado para sempre. O gelo e o barulho tinham finalmente encontrado um terreno comum, e nada na escola Anakt seria o mesmo depois daquele silêncio compartilhado.