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Desabrochando

O Gosto da Dúvida e o Silêncio da Verdade

A segunda-feira na escola Anakt amanheceu com um brilho que parecia ofensivo para quem ainda arrastava o peso da semana anterior. Mizi, no entanto, parecia ter passado por um processo de restauração milagrosa. Ela atravessou os portões com o cabelo rosa impecavelmente vibrante, o uniforme levemente desajustado daquele jeito que só ela conseguia carregar com estilo, e o inconfundível cheiro de chiclete de morango anunciando sua chegada a metros de distância.

Para Hyuna, Till e Luka, era um alívio. Mizi estava de volta: rindo alto, provocando Till sobre sua nova camiseta de banda e quase sendo expulsa do corredor por tentar andar de skate entre os armários. A Mizi "fantasma" de quinta-feira parecia ter sido apenas um delírio coletivo.

No entanto, havia um par de olhos que não se deixava enganar. Do outro lado do pátio, Sua observava a cena com a habitual distância. Ela viu Mizi rir, viu Mizi pular, mas notou como os olhos da garota rosa evitavam sistematicamente o fundo do corredor onde ela e Ivan estavam parados. Mizi estava de volta, sim, mas havia algo em sua energia que parecia... ensaiado.

— Ela está forçando a barra — comentou Ivan, jogando o palito do pirulito no lixo com precisão cirúrgica. — O motor está girando rápido demais para quem estava sem combustível há três dias.

— Ela está tentando recuperar o tempo perdido — murmurou Sua, apertando o livro contra o peito. — Ou tentando esquecer que precisou de ajuda.

O sinal tocou, e o grupo se dispersou. Durante o intervalo das aulas de artes, Mizi e Lexy acabaram sozinhas no estúdio do segundo andar. O sol entrava pelas janelas amplas, iluminando as partículas de tinta e poeira que flutuavam no ar. Lexy estava organizando seus pincéis, enquanto Mizi estava sentada em cima de uma mesa, balançando as pernas e mascando seu chiclete com uma intensidade rítmica.

— Você está melhor mesmo, Mizi? — Lexy perguntou, aproximando-se. A luz destacava o branco quase sobrenatural de seu cabelo. — Senti que você estava fugindo de mim no final de semana.

— Imagina, Lex! Eu só precisava de um "detox" de gente — Mizi riu, mas o som saiu um pouco agudo. — Mas agora eu estou cem por cento. Pronta para outra.

Lexy parou na frente de Mizi. O olhar azul da garota albina era suave, carregado de uma adoração que ela nunca fizera muita questão de esconder. Para Lexy, Mizi era a musa definitiva, a explosão de cor que dava sentido ao seu mundo pálido.

— Fico feliz. Eu fiquei preocupada. Senti que tinha algo... diferente entre nós — Lexy encurtou a distância, colocando as mãos nos joelhos de Mizi.

Mizi parou de balançar as pernas. O chiclete parou no canto da boca.

— Diferente? Que nada, Lex. Somos as mesmas de sempre.

— Não somos — sussurrou Lexy. Ela se inclinou para frente, o rosto ficando perigosamente perto do de Mizi. — Eu quero que você saiba que pode contar comigo para tudo. Para o brilho e para a sombra.

Mizi sentiu a respiração de Lexy. Era um momento clássico, o tipo de cena que ela mesma teria provocado semanas atrás apenas pelo prazer da conquista ou da diversão. Mas, naquele segundo, algo travou.

Lexy fechou os olhos e partiu para o beijo. Foi um movimento delicado, quase hesitante.

Mizi, movida por um reflexo que nem ela mesma entendeu, virou o rosto no último segundo. O beijo de Lexy atingiu o canto de sua bochecha, perto da orelha.

O silêncio que se seguiu no estúdio de artes foi ensurdecedor.

Lexy se afastou lentamente, os olhos azuis arregalados, a confusão e a dor começando a nublar sua expressão de porcelana. Mizi saltou da mesa, o coração batendo na garganta como um pássaro engaiolado.

— Lexy, eu... eu esqueci que tenho que... — Mizi começou, as palavras saindo atropeladas. — O Luka! Ele me pediu ajuda com um negócio de química. É urgente. Muito urgente.

— Mizi? — a voz de Lexy saiu pequena, ferida.

— Desculpa, eu falo com você depois! — Mizi não esperou. Ela pegou sua mochila e saiu da sala quase tropeçando nos próprios pés.

Ela desceu as escadas correndo, o peito subindo e descendo. Por que ela tinha feito aquilo? Lexy era linda, era sua melhor amiga, era a pessoa que sempre esteve lá. O beijo era o passo lógico. Mas, no momento em que Lexy se aproximou, a única coisa que veio à mente de Mizi foi o cheiro de papel antigo e a sensação de um uniforme frio contra seu rosto.

Mizi caminhou desgovernada pelos corredores, ignorando os chamados de Hyuna no pátio. Seus pés, movidos por um instinto subconsciente, a levaram para o único lugar onde o barulho não conseguia alcançá-la totalmente.

As portas da biblioteca se abriram com um rangido familiar.

Mizi entrou e caminhou até o fundo, sentando-se no chão, escondida entre as prateleiras de história antiga. Ela abraçou os joelhos e escondeu o rosto. Estava confusa, irritada consigo mesma e, acima de tudo, assustada com a própria reação.

— A aula de química é no bloco C, no andar de baixo. Você está geograficamente perdida ou apenas fugindo de algo de novo?

Mizi levantou a cabeça. Sua estava parada no corredor, segurando um carrinho de devolução de livros. Ela parecia a mesma de sempre — fria, contida, melancólica —, mas havia um brilho de reconhecimento em seu olhar.

— Droga, Sua. Você é tipo um radar de gente desesperada? — Mizi tentou recuperar sua voz debochada, mas ela saiu rouca.

Sua soltou o carrinho e caminhou até Mizi, sentando-se no chão à frente dela, mantendo uma distância respeitosa.

— Você entrou aqui parecendo que tinha visto um fantasma. Ou que tinha se tornado um de novo. O que aconteceu?

Mizi suspirou, encostando a cabeça na estante de madeira. Os livros de capa dura pareciam observar seu drama.

— A Lexy tentou me beijar.

Sua não mudou a expressão, mas seus dedos apertaram levemente a barra da saia do uniforme.

— E? Vocês são próximas. Achei que esse fosse o caminho natural para vocês duas.

— Eu também achei! — Mizi exclamou, baixando o tom logo em seguida ao ver o olhar de advertência da bibliotecária ao longe. — Eu achei que queria. Mas quando ela veio... eu simplesmente não consegui. Eu dei um fora nela, Sua. Um fora horrível. Eu saí correndo como se ela fosse um monstro.

Sua observou Mizi. A garota rosa parecia genuinamente aflita, o chiclete de morango esquecido e sem sabor na boca.

— E por que você não conseguiu? A Lexy é gentil. Ela gosta de você.

— Eu sei! Esse é o problema! — Mizi olhou para Sua, e seus olhos rosados estavam cheios de uma dúvida angustiante. — Eu não sei por que eu recusei. Eu só senti que... que se eu fizesse aquilo, eu estaria mentindo. Mas mentindo sobre o quê? Eu nem sei o que eu sinto!

Sua permaneceu em silêncio por um longo momento. Ela estendeu a mão e, num gesto raro de iniciativa, tocou o ombro de Mizi.

— Talvez você não tenha recusado a Lexy — disse Sua, a voz baixa e suave. — Talvez você só tenha percebido que o que você está procurando não está nela.

Mizi sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela olhou para a mão de Sua em seu ombro e depois para o rosto da garota de cabelos escuros. A proximidade ali, no silêncio da biblioteca, parecia muito mais certa do que a proximidade no estúdio de artes sob a luz do sol.

— E onde está, Sua? — Mizi perguntou, a voz mal passando de um sussurro. — O que eu estou procurando?

Sua desviou o olhar por um segundo, a melancolia em seu rosto parecendo se aprofundar.

— Eu não sou um oráculo, Mizi. Eu mal consigo entender meus próprios silêncios.

— Mas você me entendeu na quinta-feira — Mizi insistiu, inclinando-se para frente. — Você me levou para casa. Você me segurou quando eu estava desmoronando. Ninguém mais fez isso. Nem a Lexy.

— A Lexy não entende a queda — explicou Sua, voltando a olhar para Mizi. — Ela só entende a luz. É difícil para as pessoas que brilham aceitar que o escuro também faz parte de quem elas são.

Mizi sentiu uma vontade súbita de chorar, mas não de tristeza. Era uma sensação de ser vista, de ser despida de todas as cores artificiais e ser aceita apenas como a massa confusa de sentimentos que ela era.

— Você é muito inteligente para o seu próprio bem — Mizi deu um sorriso triste. — E eu sou uma idiota. Eu estraguei tudo com a Lexy e agora estou aqui, perturbando o seu silêncio de novo.

— Meu silêncio já estava perturbado desde o dia em que você estourou aquela bola de chiclete na minha frente no refeitório — Sua admitiu, e houve um traço quase imperceptível de humor em sua voz.

Mizi riu, uma risada curta e genuína. Ela se sentiu um pouco mais leve.

— O que eu faço agora, Sua? Eu não posso voltar lá e agir como se nada tivesse acontecido.

— Você precisa ser honesta. Com ela e com você. Se você não sente o que ela sente, não force. O barulho de uma mentira é muito pior do que o silêncio de uma verdade difícil.

Mizi assentiu, absorvendo as palavras. Ela olhou para Sua e, num impulso, deslizou para mais perto, sentando-se ao lado dela na estante, ombro a ombro.

— Você se importa se eu ficar aqui um pouco? Só até o meu coração parar de tentar pular para fora da minha boca?

Sua hesitou por um segundo, mas depois relaxou os ombros.

— A biblioteca é um espaço público, Mizi. Desde que você não faça barulho.

— Eu prometo ser a pessoa mais quieta do mundo — mentiu Mizi, já encostando a cabeça no ombro de Sua.

Sua ficou rígida por um momento, mas não se afastou. O calor de Mizi era reconfortante, um contraponto necessário ao frio constante que ela carregava. Elas ficaram ali, escondidas entre livros de história que ninguém lia, enquanto o resto da escola continuava seu ritmo frenético lá fora.

— Sua? — Mizi chamou baixinho, depois de alguns minutos.

— O que foi agora?

— Você acha que... você acha que eu sou uma pessoa ruim por ter feito aquilo com a Lexy?

Sua suspirou, fechando os olhos por um momento.

— Eu acho que você é humana, Mizi. E humanos cometem erros quando tentam entender o que o coração quer. Você só está perdida.

— E você? Você está perdida também?

Sua demorou a responder. Ela olhou para as mãos de Mizi, que brincavam com a barra da própria saia.

— Eu sempre estive perdida, Mizi. Mas eu me acostumei com o caminho.

Mizi levantou a cabeça e olhou para Sua. A proximidade era perigosa de novo, mas desta vez, Mizi não sentiu vontade de fugir. Ela sentiu vontade de entender. Ela estendeu a mão e tocou uma mecha do cabelo escuro de Sua, colocando-a atrás da orelha da garota.

— Talvez a gente possa se perder juntas um pouco — sugeriu Mizi, o olhar intenso e sedutor voltando, mas tingido de uma vulnerabilidade nova.

Sua sentiu o rosto esquentar. Ela não estava acostumada a ser o alvo daquele olhar de Mizi. Era desorientador.

— Você deveria ir falar com a Lexy — disse Sua, tentando recuperar sua compostura. — E o Ivan deve estar me procurando. Ele fica paranoico quando eu sumo por muito tempo.

— O Ivan pode esperar. E a Lexy... eu vou falar com ela, eu prometo. Mas agora... agora eu só quero ficar aqui. Com você.

Mizi se inclinou e, num gesto rápido e suave, depositou um beijo na bochecha de Sua, exatamente no mesmo lugar onde Lexy tinha tentado beijá-la.

— Obrigada por ser o meu porto seguro, boneca.

Sua ficou sem palavras. Ela observou Mizi se levantar, recuperar a mochila e sair da biblioteca com um aceno de mão e um sorriso que, desta vez, parecia um pouco mais real.

Sua permaneceu sentada no chão por muito tempo depois que Mizi saiu. Ela tocou a bochecha onde o beijo de Mizi ainda parecia queimar. O silêncio da biblioteca voltou, mas agora ele parecia diferente. Não era mais um refúgio vazio; era um espaço preenchido pela incerteza e por uma cor rosa que ela não conseguia mais apagar de seus pensamentos.

Lá fora, Mizi caminhava pelo corredor. Ela ainda não sabia por que tinha recusado Lexy, mas agora ela tinha uma pista. O problema não era o beijo em si, mas quem estava do outro lado dele. Ela respirou fundo, sentindo o gosto de menta que Sua lhe dera no ônibus ainda persistindo em sua memória, sobrepondo-se ao morango de sempre.

A segunda-feira na escola Anakt continuava brilhante, mas para Mizi e Sua, as cores e as sombras tinham acabado de se misturar de um jeito que nenhum livro de arte ou poesia poderia explicar. O gelo tinha rachado de vez, e o barulho... o barulho estava apenas começando a fazer sentido.