Desabrochando
Neon, Caos e o Gelo Quebrado
A conversa com Lexy tinha sido mais difícil do que Mizi imaginara, mas menos trágica do que temia. No pequeno estúdio de artes, entre o cheiro de terebentina e o silêncio pesado, Mizi despejou a verdade. Não disse que seu coração agora batia em um ritmo ditado por uma garota de cabelos escuros e vibe melancólica, mas disse que não podia dar a Lexy o que ela queria. Lexy, com sua sabedoria pálida e silenciosa, apenas aceitou. Houve lágrimas, sim, mas também um abraço final que selou a amizade delas no lugar onde sempre deveria ter estado.
Agora, no entanto, Mizi não estava pensando em amizade. Ela estava pensando em como o mundo parecia estar girando rápido demais, colorido demais e, definitivamente, alto demais.
— Eu juro por tudo que é sagrado, Ivan, se você me fizer entrar aí, eu vou usar seus sintetizadores como lenha para uma fogueira — disse Sua, parando abruptamente na calçada diante da casa de Hyuna.
A casa não era apenas uma residência; parecia uma caixa de som gigante prestes a explodir. Luzes de neon roxas e azuis escapavam pelas frestas das janelas, e a batida do grave era tão intensa que Sua conseguia senti-la vibrando na sola de seus sapatos. O jardim estava coalhado de adolescentes que ela mal reconhecia, segurando copos vermelhos e rindo de piadas que só o álcool tornava engraçadas.
— A Hyuna disse que era "só o pessoal" — murmurou Ivan, ajustando a gola de sua jaqueta preta. Ele parecia imperturbável, mas seus olhos escaneavam a multidão com um desdém clínico. — Claramente, a definição dela de "pessoal" inclui metade da escola e alguns penetras de outras cidades.
— Vamos embora — Sua girou nos calcanhares, mas Ivan segurou seu pulso.
— O Luka está lá dentro. E o Till. Se a gente sair agora, a Hyuna vai caçar a gente até o inferno por termos dado um bolo nela. Além disso... — Ivan deu um meio sorriso cínico — ...você sabe que a garota rosa está lá dentro.
Sua sentiu o rosto esquentar, uma reação que ela odiava. Desde o incidente na biblioteca e o beijo na bochecha, a presença de Mizi em sua mente era como uma música chiclete que ela não conseguia parar de cantarolar.
— Eu não me importo com a Mizi — mentiu Sua, a voz quase sumindo sob o som de um remix de rock que começou a tocar.
— Claro que não. E eu não gosto de doces. Vamos logo, Sua. Entra, dá um "oi" e a gente foge em vinte minutos.
Eles forçaram passagem pela multidão. O cheiro de suor, perfume barato e bebida era sufocante. Assim que cruzaram a porta da sala, o caos se tornou absoluto.
— MEUS IRMÃOS DE GELO FAVORITOS! — o grito veio de cima.
Hyuna estava em pé sobre uma mesa de centro, equilibrando-se com uma habilidade impressionante enquanto segurava uma baqueta em uma mão e um copo na outra. Ela usava uma jaqueta de couro cheia de patches e parecia a própria personificação da anarquia.
— Hyuna, você vai cair daí e quebrar o pescoço — disse Ivan, aproximando-se da mesa.
— Se eu cair, o chão me segura! — ela riu, pulando da mesa com uma leveza felina e aterrissando bem na frente deles. — Que bom que vieram! A festa tá insana, né? O Till exagerou um pouco no ponche, mas quem se importa?
— Onde está o Till? — perguntou Sua, tentando não ser empurrada por um grupo de garotos que passava dançando.
Hyuna apontou para o canto da cozinha.
— Ali. Ele entrou em um debate filosófico intenso há dez minutos.
Sua e Ivan olharam na direção indicada. Till, o "emo rebelde" que geralmente mantinha uma postura de superioridade carrancuda, estava sentado no chão, encostado na geladeira. Ele segurava uma garrafa de vidro vazia e gesticulava dramaticamente para ela.
— Você não entende, cara... — Till dizia para a garrafa, a voz arrastada e embargada. — A distorção... a distorção é a única verdade. Você acha que é transparente, mas você... você oculta o vazio!
— Ele está discutindo com a garrafa? — Ivan perguntou, genuinamente interessado.
— Sim — respondeu Luka, surgindo de trás deles com uma lata de refrigerante fechada e uma expressão de cansaço profundo. — Ele tentou explicar a teoria das cordas para um abajur antes disso. Eu tentei impedi-lo de beber o ponche da Hyuna, mas ele é teimoso.
— Pelo menos você está sóbrio, Luka — observou Sua, sentindo-se um pouco mais segura perto do nerd do grupo.
— Alguém precisa garantir que a casa não pegue fogo — Luka ajeitou os óculos. — Embora, com a Mizi no estado em que está, o fogo seja o menor dos nossos problemas.
— Onde ela está? — Sua perguntou rapidamente, o coração dando um solavanco.
— No "pista de dança" improvisada. Ou o que restou dela.
Sua seguiu o olhar de Luka para o centro da sala. O que ela viu foi algo que nunca esqueceria.
Mizi estava em cima de um sofá, cercada por um círculo de pessoas que batiam palmas no ritmo da música. Ela estava... elétrica. O cabelo rosa estava todo despenteado, as bochechas coradas de um jeito que não era apenas calor, e os olhos brilhavam com uma lucidez perigosa e selvagem. Ela dançava sem ritmo nenhum, apenas se jogando de um lado para o outro, rindo como se tivesse acabado de descobrir o segredo da felicidade eterna.
— ELA CHEGOU! — Mizi gritou assim que viu Sua.
Ela pulou do sofá, cambaleando levemente, e correu em direção aos irmãos. Mizi cheirava a morango, mas um morango misturado com algo forte e ardido. Ela se jogou sobre Sua, envolvendo-a em um abraço que quase as levou ao chão.
— Sua! Minha boneca de gelo! Você veio! — Mizi exclamou, o rosto enterrado no pescoço de Sua. — Eu achei que você ia ficar em casa lendo poemas sobre túmulos e silêncio.
Sua tentou se afastar, mas Mizi estava incrivelmente forte.
— Mizi, você está bêbada — disse Sua, a voz firme, apesar do tremor nas mãos.
— Eu não tô bêbada! Eu tô... efervescente! — Mizi se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Sua. — O mundo tá tão barulhento hoje, Sua. E eu amo isso! Eu amo todo mundo! Eu amo a Hyuna, eu amo o Till bêbado, eu amo o Luka chato... e eu amo você!
O coração de Sua parou. O barulho da festa pareceu sumir por um microssegundo.
— Você não sabe o que está dizendo — Sua murmurou, sentindo o calor da pele de Mizi contra a sua.
— Eu sei sim! — Mizi riu, pegando o rosto de Sua entre as mãos. As palmas de Mizi estavam quentes, quase queimando. — Você é tão bonita quando tá brava. Sabia? Parece uma rainha de neve que esqueceu onde deixou o castelo.
— Mizi, chega — Ivan interveio, puxando Mizi pelo braço com delicadeza, mas firmeza. — Você vai acabar vomitando nos sapatos da minha irmã e eu vou ter que te jogar na piscina.
— Não tem piscina aqui, Ivan! — Mizi deu um tapa brincalhão no ombro dele. — Você é muito sério. Quer um pouco de ponche? É rosa! Igual ao meu cabelo!
— Não, obrigado. Eu prezo pelos meus neurônios.
Mizi se soltou de Ivan e voltou a focar em Sua. Ela se aproximou, sussurrando perto do ouvido da outra, ignorando completamente todo o caos ao redor.
— Eu fiz o que você disse — sussurrou Mizi, a voz subitamente séria, embora ainda arrastada. — Eu falei com a Lexy. A gente tá bem. Eu não menti. O silêncio da verdade... dói, mas é melhor.
Sua olhou para ela, surpresa pela clareza momentânea no meio daquela névoa alcoólica.
— Fico feliz por você, Mizi.
— Mas agora eu quero barulho! — Mizi gritou novamente, puxando Sua pela mão em direção ao meio da sala. — Dança comigo, Sua! Só uma música!
— Eu não danço, Mizi.
— Todo mundo dança! Até o Ivan tá balançando o pé ali no canto, eu vi!
Ivan, de fato, estava batendo o pé discretamente no ritmo da bateria, mas parou assim que foi mencionado, recuperando sua máscara de indiferença.
— Vai lá, Sua — disse Hyuna, aparecendo com uma bandeja de salgadinhos. — Tira um pouco dessa poeira de biblioteca dos ombros. A Mizi não vai te soltar enquanto você não der um giro com ela.
Sua olhou ao redor. Till agora estava tentando ensinar a garrafa a tocar violão. Luka estava discutindo com um penetra sobre a precisão histórica de um filme de ficção científica. Ivan estava observando a multidão com um interesse antropológico. E Mizi... Mizi olhava para ela com uma expectativa tão pura, tão carente de algo que Sua não sabia se podia dar, que sua resistência simplesmente desmoronou.
— Uma música — cedeu Sua. — Só uma.
Mizi soltou um grito de vitória e puxou Sua para o centro do "furacão". A música era rápida, um pop-rock japonês que Sua nunca ouvira, mas Mizi parecia conhecer cada nota. Ela girava, pulava e, o tempo todo, mantinha os olhos fixos em Sua.
Sua, por sua vez, sentia-se um peixe fora d'água. Ela se movia de forma rígida, tentando não esbarrar em ninguém, mas a energia de Mizi era contagiosa. Em algum momento, entre um refrão e outro, Mizi pegou as mãos de Sua e as colocou em sua cintura.
— Relaxa, boneca — Mizi disse, inclinando a cabeça para trás. — O mundo não vai acabar se você perder o controle por três minutos.
Sua olhou para Mizi. Sob as luzes de neon, a garota rosa parecia algo saído de um sonho febril. Ela era o oposto de tudo o que Sua conhecia: era o caos contra a ordem, o grito contra o sussurro. E, naquele momento, Sua percebeu que não queria estar em nenhum outro lugar.
— Você é um desastre, Mizi — disse Sua, permitindo que um pequeno sorriso surgisse em seus lábios.
— O seu desastre favorito! — Mizi riu, puxando Sua para mais perto enquanto a música atingia o clímax.
A festa continuou em um borrão de luzes e sons. Horas depois, o ponche da Hyuna finalmente cobrou seu preço. Till tinha dormido abraçado à sua "amiga" garrafa no chão da cozinha. Hyuna tinha se aposentado para o sofá, onde discutia táticas de sobrevivência zumbi com um Luka visivelmente exausto. Ivan tinha encontrado um canto quieto no jardim para mexer no celular, provavelmente hackeando o Wi-Fi da vizinhança.
Sua estava sentada nos degraus da varanda dos fundos, observando as estrelas que mal podiam ser vistas por causa da poluição luminosa da cidade. O barulho lá dentro tinha diminuído para um zumbido baixo de conversa e música ambiente.
A porta rangeu atrás dela. Mizi apareceu, caminhando com cuidado. Ela parecia um pouco mais sóbria, ou talvez apenas mais cansada. Ela trazia dois copos de água.
— Aqui — disse Mizi, sentando-se ao lado de Sua e entregando-lhe um dos copos. — Acho que meu cérebro está tentando se transformar em geleia de morango.
— Eu avisei que você ia se arrepender — disse Sua, bebendo a água com gratidão.
— Eu não me arrependo de nada — Mizi suspirou, encostando a cabeça no ombro de Sua. — Foi divertido. Ver você dançando foi o ponto alto do meu ano.
— Eu não chamei aquilo de dança. Foi mais uma tentativa de sobrevivência.
Mizi riu baixinho. O silêncio da noite, quebrado apenas pelo som distante de carros e pelo grilar de alguns insetos no jardim de Hyuna, era confortável.
— Sua? — Mizi chamou, a voz agora suave e sem a agressividade do álcool.
— Hum?
— Obrigada. Por ter vindo. E por não ter me deixado cair quando eu estava pulando no sofá.
Sua olhou para Mizi. A luz da lua refletia nos olhos rosados, revelando uma vulnerabilidade que Mizi raramente mostrava ao mundo.
— Eu não deixaria você cair, Mizi. Mesmo que você fosse o barulho mais irritante do mundo.
Mizi sorriu e, desta vez, não houve provocação ou sedução barata. Ela apenas se inclinou e encostou sua testa na de Sua.
— O gelo está derretendo, boneca. Eu consigo ouvir o barulho da água.
— Talvez — admitiu Sua, fechando os olhos. — Mas não espere que eu comece a discutir com garrafas de vidro amanhã.
Mizi soltou uma risadinha e, por um longo tempo, elas ficaram ali, apenas respirando o ar fresco da madrugada. No meio do caos da festa da Hyuna, entre penetras bêbados e debates filosóficos sem sentido, elas tinham encontrado um pequeno espaço de verdade.
Lá dentro, Ivan apareceu na porta, observando as duas por um momento. Ele não disse nada, apenas deu um suspiro e voltou para dentro para acordar o Till. Ele sabia que, a partir daquela noite, o isolamento dos irmãos Baek tinha acabado de vez. O gelo tinha sido quebrado não por um golpe, mas por uma melodia rosa e persistente que se recusava a ser ignorada.
— Vamos, Mizi — disse Sua, levantando-se e ajudando a outra a ficar de pé. — O Ivan quer ir embora e eu não quero estar aqui quando a Hyuna decidir que é hora de limpar a casa.
— Ah, não... limpeza é o pior tipo de silêncio — reclamou Mizi, mas segurou a mão de Sua com força.
Elas caminharam em direção ao carro de Ivan, deixando para trás os restos da festa e o eco do neon. O caminho para casa seria silencioso, mas era um silêncio novo, preenchido pela promessa de que, na segunda-feira, o refeitório da escola Anakt teria um pouco mais de cor — e muito mais barulho. E, pela primeira vez na vida, Sua descobriu que não se importava nem um pouco com isso.