Desabrochando
Sombras de Ressaca e o Gosto do Desejo
A segunda-feira na escola Anakt tinha o peso de uma bigorna de ferro. O sol que entrava pelas janelas do corredor parecia excessivamente brilhante, quase agressivo, perfurando as pálpebras de quem tinha passado o final de semana mergulhado no ponche duvidoso da Hyuna. O ar carregava um cheiro de desinfetante barato e o eco de passos que soavam como marteladas na cabeça de Mizi.
Mizi estava em seu pior estado. O cabelo rosa, geralmente vibrante, estava preso em um coque tão bagunçado que parecia um ninho de pássaros revoltados. Ela não tinha passado maquiagem, e suas olheiras eram tão profundas que poderiam ser confundidas com sombra de olho gótica. O chiclete de morango, sua marca registrada, estava sendo mastigado com uma força desnecessária, como se ela estivesse tentando punir o doce.
— Se alguém rir, eu juro que enfio essa baqueta no nariz de quem for — murmurou Hyuna, debruçada sobre a mesa do refeitório, escondendo o rosto entre os braços.
— Pelo menos você não tentou explicar física quântica para um abajur — resmungou Till, que estava pálido como um papel e usava óculos escuros dentro do refeitório.
— Eu disse que o ponche era uma ideia ruim — comentou Luka, ajustando os óculos com uma calma irritante. Ele era o único que parecia funcional, além de Sua e Ivan, que observavam a cena com o habitual distanciamento gélido.
Mizi não dizia nada. Ela estava com a cabeça encostada na mesa, bufando de vez em quando. A ressaca a deixara ranzinza, azeda e com o pavio mais curto que um fósforo usado.
— Mizi, você quer um pouco de água? — Sua perguntou em voz baixa, estendendo uma garrafa.
— Eu quero que o mundo pare de girar — respondeu Mizi, a voz abafada pela mesa. — E que o sol peça demissão.
Nesse momento, uma garota do primeiro ano, com o uniforme impecável e um sorriso esperançoso, aproximou-se da mesa. Ela segurava um pequeno envelope decorado com adesivos de coração.
— Oi, Mizi! — disse a caloura, a voz soando como um sino estridente nos ouvidos sensíveis do grupo. — Eu vi você na festa e... achei que você estava incrível. Eu queria saber se você não quer...
Mizi levantou a cabeça devagar. Seu olhar era puro veneno. Ela nem sequer olhou para o envelope.
— Não quero. Seja lá o que for, a resposta é não.
A garota piscou, o sorriso vacilando.
— Mas eu nem terminei de falar...
— E nem precisa — cortou Mizi, levantando-se bruscamente. A cadeira arrastou no chão com um barulho estridente que fez Till gemer de dor. — Eu não estou com paciência para fã-clube hoje. Vai procurar o Luka, ele gosta de atenção.
Sem olhar para trás, Mizi saiu pisando fundo, ignorando o olhar chocado da caloura e as expressões confusas de seus amigos.
— Nossa — murmurou Ivan, roubando um pedaço do lanche de Till. — O morango hoje acordou com gosto de vinagre.
Sua observou as costas de Mizi desaparecerem pelo corredor. Havia algo mais do que apenas ressaca ali; era uma agitação que ela reconhecia. Sem dizer uma palavra, Sua levantou-se e seguiu a garota de cabelos rosa.
Ela conhecia os esconderijos da escola. Mizi não iria para a biblioteca — barulho de páginas virando era irritante demais hoje. Ela não iria para o pátio. Sua seguiu o rastro do perfume de morango até um antigo depósito de materiais de limpeza nos fundos do bloco de artes, um lugar raramente usado e silencioso.
Ao abrir a porta pesada, a luz fraca revelou Mizi sentada em uma cadeira de madeira velha, os braços cruzados e os olhos fechados, quase cochilando ali mesmo entre baldes e vassouras.
— O depósito não é exatamente o lugar mais confortável para uma sesta — disse Sua, fechando a porta atrás de si, mergulhando o ambiente em uma penumbra acolhedora.
Mizi abriu um olho só, soltando um suspiro pesado.
— Você não desiste, não é, boneca de gelo?
— Você foi grosseira com aquela menina. Ela só queria ser legal.
— Eu não pedi para ninguém ser legal — Mizi se empertigou na cadeira, o olhar intenso voltando a brilhar, apesar do cansaço. — Eu estou com a cabeça explodindo, Sua. E todo mundo fica latindo ao meu redor.
Sua caminhou até ela, parando a poucos centímetros. O silêncio do depósito era absoluto, quebrado apenas pela respiração das duas.
— Você está fugindo — afirmou Sua, calmamente.
— Fugindo de quê?
— De tudo. Da festa, da Lexy, de mim.
Mizi soltou uma risada curta e se levantou. Ela era um pouco mais alta que Sua e, naquele momento, usou essa vantagem para se aproximar, encurralando a garota de cabelos escuros contra a parede de prateleiras.
— Você acha que sabe muito sobre mim, não é? — Mizi sussurrou, a voz subitamente rouca. O mau humor de antes estava se transformando em algo muito mais perigoso. — Acha que porque me viu chorar um dia, agora tem o mapa da minha cabeça?
— Eu não disse isso — Sua respondeu, mantendo o contato visual, recusando-se a recuar. — Mas eu sei quando você está tentando criar barulho para não ouvir o que está acontecendo aqui dentro.
Mizi estreitou os olhos. A intensidade sedutora que ela usava como arma estava ali, mas agora estava misturada com uma urgência real.
— Você quer saber o que está acontecendo aqui dentro, Sua? — Mizi levou a mão ao rosto de Sua, o polegar acariciando o lábio inferior da garota. — O problema é que você é silenciosa demais. E o seu silêncio me deixa louca.
Antes que Sua pudesse responder, Mizi se inclinou. Não foi um beijo de cinema, longo e dramático. Foram dois selinhos rápidos, quase experimentais, como se Mizi estivesse confirmando uma teoria. Os lábios de Mizi eram quentes e tinham o gosto persistente de menta e morango.
Sua congelou, o coração disparando contra as costelas. Mas antes que ela pudesse processar o choque, Mizi partiu para o ataque definitivo.
Mizi a beijou com vontade, uma fome que acumulava há semanas. Sua língua pediu passagem e encontrou a de Sua em uma dança frenética. Sua, que sempre fora a personificação do controle, sentiu o chão sumir sob seus pés. Ela agarrou os ombros de Mizi, os dedos cravando-se no tecido do uniforme.
Mizi empurrou Sua com mais força contra a parede, as mãos descendo para a cintura da garota. Em um movimento audacioso, Mizi flexionou a perna, pressionando o joelho firmemente entre as coxas de Sua, bem no centro de sua intimidade, aplicando uma pressão rítmica e deliberada durante o beijo.
O choque térmico do contato fez Sua soltar um gemido abafado contra a boca de Mizi. Era uma sensação avassaladora, um calor que subia por sua espinha e nublava qualquer pensamento lógico.
Mizi se afastou apenas alguns milímetros, os lábios inchados e a respiração tão errática quanto a de Sua. Ela observou o rosto da garota de gelo: as bochechas estavam coradas, os olhos nublados de desejo e a expressão de choque era quase adorável.
— O que foi? O gelo derreteu? — provocou Mizi, com um sorriso ladino, embora seus próprios olhos traíssem o quanto ela também estava afetada.
Sua estava ofegante, a mão subindo para cobrir a boca, o rosto queimando de vergonha.
— Mizi... eu... eu não esperava...
— Você fala demais para quem gosta tanto de silêncio — Mizi murmurou, voltando a atacar o pescoço de Sua.
Os beijos de Mizi eram intensos, quase possessivos. Ela mordiscava a pele macia do pescoço de Sua, fazendo-a arquear as costas e soltar suspiros curtos. Sua, perdendo a batalha contra a própria timidez, envolveu o pescoço de Mizi com os braços, puxando-a para mais perto, querendo fundir seus corpos naquele depósito empoeirado.
— Você é... irritante — sussurrou Sua, entre um beijo e outro, as mãos agora perdidas nos cabelos rosas de Mizi.
— E você está adorando — rebateu Mizi, voltando a selar seus lábios nos dela.
O beijo recomeçou, mas desta vez era diferente. Não havia mais a hesitação do início. Era uma exploração mútua, mãos tateando tecidos, corpos pressionados um contra o outro em uma busca desesperada por contato. Mizi pressionava Sua contra a parede com tanta força que as prateleiras atrás delas rangeram, mas nenhuma das duas se importava.
— A gente... a gente vai se meter em encrenca — Sua conseguiu dizer, a voz falhando quando Mizi voltou a pressionar o joelho contra ela.
— A encrenca já chegou faz tempo, Sua — Mizi sorriu contra sua pele, os olhos brilhando com uma chama que nenhuma ressaca conseguiria apagar. — E eu não pretendo ir a lugar nenhum.
Ali, entre baldes de limpeza e o cheiro de mofo, o silêncio da escola Anakt foi substituído pelo som de respirações pesadas e promessas mudas. O gelo de Sua não tinha apenas derretido; ele tinha evaporado sob o calor de Mizi, e pela primeira vez, nenhuma das duas queria que o mundo voltasse ao normal.