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Descendentes

O Banquete de Chá das Deusas e a Queda de Copas

A atmosfera na sala da diretora de Auradon Prep estava tão carregada que o ar parecia crepitar. De um lado, Red, a filha da Rainha de Copas, tentava manter uma postura de vítima perfeita, com os olhos levemente avermelhados e um lenço de seda nas mãos. Do outro, o clã Madrigal ocupava o espaço como uma força da natureza. Luisa estava sentada com as mãos nos joelhos, uma montanha de paciência prestes a ruir; Isabela examinava as unhas com um tédio perigoso, enquanto flores exóticas começavam a brotar nos cantos dos rodapés; e Mirabel mantinha um caderno na mão, como se estivesse pronta para documentar cada mentira proferida.

No centro de tudo, Max Hatter permanecia em pé, encostado na parede com uma indiferença calculada, enquanto Luis estava logo atrás dele, parecendo querer se fundir com as sombras para evitar o olhar fulminante de sua mãe.

— Então, deixe-me ver se entendi bem — começou Max, sua voz cortando o silêncio como uma lâmina fina. — Você está alegando que o Luis, um rapaz que pede desculpas até para as cadeiras quando esbarra nelas, usou de "força bruta desproporcional" para te intimidar porque você estava apenas tentando ser... amigável?

Red inflou o peito, tentando recuperar a autoridade.

— Ele me empurrou, Max! Eu só queria perguntar sobre os horários da academia e ele reagiu como um animal da Ilha. Minha mãe vai saber disso, e as relações diplomáticas entre o País das Maravilhas e Auradon vão sofrer as consequências.

Isabela soltou uma risadinha melódica que fez Red estremecer.

— Querida, sua mãe é a Rainha de Copas. Ela corta cabeças por causa de rosas brancas pintadas de vermelho. Não fale sobre diplomacia comigo — Isabela levantou-se, caminhando até Red com uma elegância predatória. — Eu conheço o meu sobrinho. Ele é forte, sim. Mas ele tem mais autocontrole em um dedo do que você tem em toda a sua linhagem real.

— Eu vi o que aconteceu — interrompeu Mirabel, ajustando os óculos. — Bom, eu não vi o momento exato, mas vi o Luis depois disso. Ele estava em pânico. Um agressor não fica em pânico com medo de ter magoado os sentimentos de alguém, Red. Um agressor não se esconde atrás do namorado quando a mãe chega.

Luisa finalmente se levantou. O movimento foi lento, mas o peso de sua presença fez a sala parecer menor. Ela caminhou até Luis e colocou a mão em seu ombro.

— Luis, olhe para mim — ordenou ela. O gigante obedeceu, os olhos suplicantes. — Você a tocou com intenção de machucar?

— Não, mamãe. Eu juro. Eu só... eu tirei o braço dela de cima de mim. Eu queria ir embora. O Max estava me esperando.

Luisa virou-se para Red.

— Minha família carrega fardos, garota. Carregamos o peso de vilas inteiras, de expectativas e de dons que às vezes parecem maldições. Mas nunca, em toda a história dos Madrigal, usamos nossa força contra alguém que não pode se defender. Se o meu filho diz que não te machucou, eu acredito nele acima de qualquer coroa que você use.

Red começou a gaguejar, percebendo que o teatro não estava funcionando com as mulheres que vieram do Encanto.

— Mas... mas as regras de Auradon dizem que...

— As regras de Auradon também proíbem falso testemunho e assédio — Max interveio, dando um passo à frente e tirando um pequeno dispositivo do bolso. — E como eu sou um Hatter, e nós somos conhecidos por sermos um pouco paranoicos, eu costumo manter alguns dos meus brinquedos tecnológicos ativos.

Ele apertou um botão e uma projeção holográfica flutuou no centro da sala. Era a cena do campo de R.O.U.B.O. de ângulos variados. A imagem mostrava claramente Red se aproximando de Luis, agarrando o braço dele com força enquanto ele tentava se afastar, e Luis gentilmente, mas com firmeza, removendo a mão dela antes de caminhar em direção a Max. Não houve empurrão. Não houve agressão. Houve apenas uma rejeição clara.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Red ficou pálida, a cor de seu cabelo parecendo agora um contraste violento com sua pele sem sangue.

— Max... você gravou isso? — perguntou Luis, surpreso.

— Amore, eu gravo todos os seus treinos para analisar sua postura física — Max respondeu com um sorriso de lado. — O fato de ter capturado uma tentativa de difamação foi apenas um bônus delicioso.

Isabela soltou um suspiro de satisfação.

— Bem, parece que o caso está encerrado. Luisa, o que fazemos com ela? Eu adoraria transformá-la em um vaso de cactos, mas Mirabel diz que isso é "politicamente incorreto" em Auradon.

— Vamos deixar que a diretoria cuide da punição acadêmica — decidiu Luisa, sua voz agora fria e definitiva. — Mas Red, saiba de uma coisa: você tentou usar a força da minha família como uma arma contra nós mesmos. Isso é algo que eu não perdoo facilmente. Fique longe do meu filho.

Red recolheu suas coisas e saiu da sala quase correndo, sem olhar para trás. A porta bateu com força, deixando apenas os Madrigal e o Chapeleiro no recinto.

O clima mudou instantaneamente. O pânico de Luis, que havia sido momentaneamente substituído pelo choque, voltou com força total. Ele olhou para as três tias e para a mãe, esperando o inevitável sermão sobre ter se envolvido em tal confusão.

— Então... — começou Luis, coçando a nuca —... chá?

Mirabel riu, quebrando a tensão.

— Sim, Luis. Chá parece uma ótima ideia. Eu adoraria conhecer melhor o rapaz que tem gravações de segurança do seu namorado "por precaução".

Max fez uma reverência impecável.

— Será um prazer. Eu preparei uma mesa no jardim dos fundos. E Isabela... — Max olhou para a tia do namorado —... eu tomei a liberdade de escolher as flores. Espero que não se importe com a falta de simetria. A perfeição é tão tediosa, não acha?

Isabela arqueou uma sobrancelha, um sorriso intrigado surgindo em seus lábios.

— Você é audacioso, pequeno Chapeleiro. Gosto disso.

O grupo se dirigiu ao jardim, onde uma mesa estava posta com uma toalha de retalhos coloridos e bules que pareciam ter vida própria. Max movia-se com uma agilidade frenética, servindo as xícaras enquanto Luis tentava, sem sucesso, não quebrar as delicadas peças de porcelana com suas mãos imensas.

— Sente-se, Luis — disse Luisa, apontando para a cadeira ao seu lado. — Você ainda não está completamente fora de perigo. Precisamos conversar sobre como você lida com essas situações. Você não pode simplesmente entrar em colapso toda vez que alguém te acusa de algo.

— Eu sei, mãe — murmurou Luis, sentando-se com cautela. — É que eu não queria que vocês pensassem mal de mim.

— Nós nunca pensaríamos mal de você, seu bobo — Mirabel disse, pegando uma xícara. — Mas ficamos preocupadas. Auradon não é como o Encanto. Aqui, as pessoas usam palavras como espadas.

— E é por isso que ele me tem — Max disse, sentando-se ao lado de Luis e entrelaçando seus dedos com os dele sobre a mesa. — Eu sou a espada dele. E o escudo. E, ocasionalmente, o veneno no chá dos inimigos.

Luisa observou o gesto de carinho. Ela viu a forma como Luis relaxava instantaneamente ao toque de Max. Era uma dinâmica estranha — o gigante gentil e o gênio caótico —, mas funcionava de uma maneira que ela respeitava.

— Você cuida bem dele, Max Hatter? — perguntou Luisa, fixando seus olhos nos dele.

Max não desviou o olhar. O sarcasmo desapareceu, substituído por uma seriedade que Luis raramente via.

— Com a minha vida, senhora Madrigal. Eu demorei três anos para convencê-lo de que eu era a bagunça certa para a vida organizada dele. Não vou deixar nada, nem ninguém, estragar isso.

— Bom — Luisa assentiu, bebendo seu chá. — Porque se você o magoar, não haverá buraco no País das Maravilhas fundo o suficiente para você se esconder de mim.

— Entendido — Max sorriu, o brilho travesso voltando aos olhos. — Mas acho que o Luis é quem costuma me "magoar" mais, geralmente me esmagando em abraços que estalam minhas costelas.

Luis ficou vermelho instantaneamente.

— Max! Não fale essas coisas na frente da minha mãe!

As tias caíram na gargalhada, e até Luisa soltou um riso curto. O chá continuou com histórias do Encanto e anedotas sobre a infância de Luis, que Max ouvia com uma atenção devota, arquivando cada detalhe para usar em provocações futuras.

Isabela, no entanto, não resistiu e fez algumas orquídeas azuis brotarem no centro da mesa.

— Pronto — disse ela. — Agora a mesa está aceitável.

— Um toque de azul — Max analisou, inclinando a cabeça. — Combina com o humor melancólico do Luis quando ele está com fome. Aceitável, de fato.

Ao final da tarde, as mulheres Madrigal se preparavam para partir. Luisa deu um abraço apertado em Luis, sussurrando algo em seu ouvido que o fez sorrir de orelha a orelha. Depois, ela se virou para Max.

— Apareça no Encanto nas férias, Max. Quero ver se você consegue aguentar um jantar com a família inteira sem tentar analisar a psiquê de todo mundo.

— É um desafio que aceito com prazer — respondeu Max.

Quando elas finalmente atravessaram os portões, Luis soltou o ar que parecia estar segurando desde que as primas deram a notícia no campo. Ele envolveu Max em um abraço de urso, levantando-o do chão.

— Você foi incrível hoje. Obrigado por não deixar a Red ganhar.

— Ela nunca teve chance, Amore — Max disse, acariciando o rosto de Luis enquanto ainda estava suspenso no ar. — Ninguém tem chance contra nós. Especialmente quando eu tenho evidências em vídeo e uma sogra que pode derrubar montanhas.

Luis o colocou no chão, mas não o soltou.

— Eu te amo, Max. Obrigado por ser... bem, por ser você.

— Eu também te amo, seu gigante adorável — Max puxou Luis pela gola da camisa para um beijo rápido. — Agora, vamos. Eu ainda tenho que ganhar de você no xadrez, e depois disso, acho que merecemos um tempo sozinhos, longe de primas, tias e princesas mentirosas.

— Concordo plenamente — Luis sorriu, seguindo Max em direção aos dormitórios.

Enquanto caminhavam, Max olhou para trás uma última vez, vendo as flores de Isabela ainda brilhando no jardim. Ele sabia que a vida em Auradon continuaria sendo um jogo de xadrez, mas com Luis ao seu lado, ele já tinha dado o xeque-mate. E se Red ou qualquer outra pessoa tentasse atravessar seu caminho novamente, bem... o Chapeleiro sempre tinha mais um truque na cartola.

— Ei, Max — chamou Luis, parando na porta do prédio.

— Sim?

— Você realmente grava meus treinos por causa da "postura física"?

Max deu um sorriso enigmático, ajustando o chapéu.

— Digamos que eu gosto de ter registros de todos os meus ângulos favoritos, Amore. E você tem muitos ângulos excelentes.

Luis riu, balançando a cabeça, e entraram no prédio, deixando para trás o drama do dia e fortalecendo o laço que nem a realeza, nem a força bruta, poderia jamais quebrar.