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Destiny

O Batismo de Cinzas e o Silêncio da Horda

A paisagem mudou drasticamente à medida que as montanhas ficavam para trás, substituídas por uma planície vasta e impiedosa, onde o vento parecia carregar o lamento de mil guerreiros. O acampamento huno surgiu no horizonte não como uma cidade de seda e pedra, mas como uma cicatriz escura na terra — uma coleção de tendas de couro negro e estandartes rasgados que tremulavam como asas de corvos.

O silêncio que recebeu a chegada de Shan Yu foi mais pesado que o barulho de uma batalha.

Mulan cavalgava agora em um cavalo separado, um animal robusto e arisco que ela aprendera a dominar sob o olhar crítico de Shan Yu. À medida que se aproximavam do centro do acampamento, as figuras começaram a emergir das sombras das tendas. Eram homens de faces marcadas pelo sol e pelo aço, mulheres de olhar duro e crianças que já carregavam facas na cintura.

O choque foi instantâneo. Eles esperavam ver uma legião retornando com os despojos da China; viram apenas o seu líder, coberto de cicatrizes, acompanhado por uma figura franzina vestida com roupas hunas que não lhe pertenciam, cujos cabelos curtos e negros emolduravam um rosto de traços imperiais.

Shan Yu puxou as rédeas de seu garanhão negro no centro da praça de terra batida. Mulan parou ao lado dele, sentindo o peso de centenas de olhares carregados de ódio e confusão.

— Onde estão nossos filhos? — A voz veio de um ancião, cuja pele parecia pergaminho queimado. — Onde estão os dez mil que cruzaram a muralha?

Shan Yu não desviou o olhar. Sua presença ainda era absoluta, mesmo em meio à derrota.

— Enterrados sob o gelo da montanha Tung-Shao — respondeu ele, sua voz ressoando como um trovão baixo. — O exército do Imperador não nos venceu. Foi a montanha.

Um murmúrio de indignação percorreu a multidão. Guerreiros apertaram os punhos nas empunhaduras de suas espadas.

— Como? — gritou um homem alto, com uma cicatriz que atravessava o olho esquerdo. — Quem poderia mover a montanha contra os Hunos?

Shan Yu estendeu o braço, apontando diretamente para Mulan.

— Ela.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo estalar de uma fogueira próxima. Mulan manteve o queixo erguido, embora suas entranhas estivessem revirando. Ela via a incredulidade transformar-se em uma fúria incandescente nos olhos daquelas pessoas.

— Uma mulher? — O guerreiro caolho cuspiu no chão, avançando um passo. — Você nos diz que uma única fêmea chinesa aniquilou nossos irmãos? Isso é um insulto à nossa força!

— Ela usou o fogo e o gelo — disse Shan Yu, voltando-se para o seu povo. — Ela viu o que nenhum de vocês viu. Ela teve a coragem de causar uma avalanche que quase me levou junto. Ela é a razão de eu estar sozinho hoje.

A multidão explodiu em um rugido. Gritos de "Morte!", "Traidora!" e "Escrava!" ecoaram pelas tendas. Mulan viu mulheres pegando pedras e homens desembainhando adagas curvas. O ar cheirava a sangue iminente.

— Entregue-nos a cadela! — gritou uma mulher, cujos olhos brilhavam com o luto. — Vamos arrancar a pele dela centímetro por centímetro por cada vida que ela tirou!

O guerreiro caolho avançou mais, estendendo a mão para puxar Mulan de cima do cavalo.

— Ela será a escrava de todo o acampamento até que seus ossos se quebrem!

Antes que a mão do homem pudesse tocar a perna de Mulan, o aço de Shan Yu brilhou. Com uma velocidade desumana, ele desembainhou sua espada imensa e a posicionou a milímetros da garganta do guerreiro. O movimento foi tão brusco que o cavalo de Mulan relinchou e recuou.

— Silêncio! — rugiu Shan Yu.

O comando foi tão poderoso que até o vento pareceu parar de soprar. Ele olhou para cada um deles, seus olhos amarelos prometendo uma morte rápida a qualquer um que o desafiasse.

— Ouçam bem — disse ele, a voz agora baixa e perigosa. — Mulan não é uma escrava. Ela não é um troféu para as suas frustrações. Ela é minha.

Ele circulou seu cavalo, protegendo o flanco de Mulan.

— Ela derrotou o que dez mil homens não puderam. Ela foi descartada pelo seu próprio povo, abandonada para morrer como lixo por um império que não merece o seu aço. Ela sobreviveu à montanha e sobreviveu a mim.

Ele apontou a ponta da espada para a multidão.

— Ninguém tocará nela. Ninguém ousará insultá-la. Quem levantar a mão contra ela, estará levantando contra mim. E vocês sabem como eu lido com traidores.

O guerreiro caolho recuou, engolindo em seco, a fúria ainda presente, mas agora subjugada pelo medo. Os outros Hunos trocaram olhares sombrios, mas ninguém ousou dar um passo à frente. Shan Yu era o lobo alfa, e sua palavra era a lei absoluta da horda.

— Mova-se — ordenou Shan Yu para Mulan, indicando a maior estrutura do acampamento, uma cabana feita de troncos pesados e peles de urso negro.

Eles avançaram sob o corredor de ódio silencioso. Mulan sentia as agulhas dos olhares em suas costas, mas a proteção de Shan Yu era como um escudo físico. Ele a guiou até a entrada da cabana e desmontou, fazendo um sinal para que ela fizesse o mesmo.

Ao entrarem, o calor de uma lareira central os recebeu. O interior era rústico, mas imponente. Mapas de couro estavam espalhados sobre mesas de carvalho, e as paredes eram decoradas com crânios de animais e armas de povos conquistados. Shan Yu caminhou até o fundo da cabana e abriu uma porta pesada que levava a um anexo lateral.

— Este será o seu quarto — disse ele, dando espaço para ela passar.

Mulan entrou hesitando. O quarto era surpreendentemente limpo e guarnecido com peles macias e uma cama baixa. Havia uma pequena janela alta por onde se via o céu escurecendo.

— Por que fez aquilo lá fora? — perguntou Mulan, virando-se para ele. — Você poderia ter deixado que me matassem. Teria sido o fim de seus problemas e uma vingança justa para o seu povo.

Shan Yu encostou-se no batente da porta, cruzando os braços. A luz do fogo na sala principal criava uma silhueta intimidadora ao redor dele.

— Eu não busco vingança justa, Mulan. Eu busco poder. E você é o poder encarnado. Se eu permitisse que eles a matassem, estaria destruindo a única coisa interessante que restou desta guerra.

— Eles me odeiam — disse ela, a voz baixa. — Eles nunca vão me aceitar.

— Eles não precisam aceitá-la. Eles precisam temê-la. E, com o tempo, eles aprenderão que você é mais huno do que qualquer um daqueles covardes que só sabem gritar em bando.

Ele deu um passo para dentro do quarto, diminuindo a distância entre eles.

— Você está segura aqui. Dentro destas paredes, ninguém pode alcançá-la.

— E quem me protege de você? — desafiou ela, embora seu coração tivesse saltado uma batida.

Shan Yu soltou um riso seco e inclinou-se para frente, seu rosto a centímetros do dela. O cheiro de couro e perigo que o seguia envolveu Mulan novamente.

— Ninguém — sussurrou ele. — Mas você já descobriu que o meu toque não é o que você deveria temer. O que você deve temer é o que acontece quando você finalmente perceber que este lugar, este caos, é onde você sempre pertenceu.

Ele estendeu a mão e, com o polegar, traçou a linha da mandíbela dela, um gesto que era ao mesmo tempo uma carícia e uma ameaça.

— Descanse, pequena loba. Amanhã, o acampamento verá você treinar. E eles verão por que eu a escolhi para caminhar ao meu lado.

Ele se retirou e fechou a porta, deixando Mulan na penumbra. Ela sentou-se na beira da cama, as mãos trêmulas descansando sobre as peles de lobo. Lá fora, ela ouvia o murmúrio distante da horda, um som como o de um mar revolto prestes a quebrar. No silêncio do quarto, a verdade era mais assustadora do que os gritos de ódio lá fora: ela não se sentia mais como uma prisioneira. Pela primeira vez, cercada por inimigos e sob a proteção de um monstro, Mulan sentia que o mundo finalmente estava sendo honesto com ela.

Ela deitou-se, fechando os olhos, e enquanto o sono a levava, o eco da voz de Shan Yu permanecia em sua mente como uma promessa sombria: ela não era mais uma filha da China. Ela era a protegida do Lobo, e o fogo que ela iniciara na montanha estava apenas começando a queimar.