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Destiny

O Despertar da Loba entre as Cinzas

A lua sobre as estepes era uma sentinela fria, observando o mundo com uma indiferença que Mulan passara a admirar. No Império, a lua era poesia, era o rosto de uma deusa, era o cenário para o lamento de amantes separados. Aqui, no coração do território huno, ela era apenas luz — uma ferramenta para caçar ou para ser caçado.

Mulan estava sentada do lado de fora da tenda principal, observando as brasas de uma fogueira que morria lentamente. O vento cortante da noite trazia o som distante de cavalos inquietos e o riso rouco de guerreiros que, aos poucos, aceitavam sua presença — não por bondade, mas porque temiam o homem que a reivindicara.

— Você olha para o fogo como se esperasse que ele lhe desse respostas — a voz de Shan Yu surgiu das sombras, profunda e vibrante, como o rosnado de um trovão distante.

Ela não se sobressaltou. Já havia aprendido a reconhecer o peso de seus passos, a vibração que sua presença causava no ar antes mesmo dele ser visto.

— O fogo não dá respostas — respondeu Mulan, sem desviar os olhos das brasas alaranjadas. — Ele apenas consome. Assim como você.

Shan Yu caminhou até ela e sentou-se sobre os calcanhares, a uma distância que era, ao mesmo tempo, respeitosa e invasiva. Ele não usava a armadura pesada; apenas uma túnica de peles escuras que deixava à mostra as cicatrizes em seus antebraços, marcas de uma vida onde a paz era um conceito inexistente.

— Consumir é a natureza dos fortes — disse ele, pegando um pequeno galho e remexendo as cinzas. — O que sobra depois do fogo é o que realmente importa. É o que é puro. É o que é indestrutível.

— E o que sobrou de mim, Shan Yu? — Mulan finalmente o encarou. Seus olhos castanhos, outrora cheios de uma esperança ingênua, agora carregavam a dureza do aço temperado no gelo. — Você me salvou da neve para me transformar em quê? Em uma sombra? Em uma arma que você guarda na cintura?

Shan Yu soltou um riso seco, um som que raramente chegava aos seus olhos amarelos e predatórios.

— Eu não guardo armas na cintura que não saibam morder por conta própria. Você não é uma sombra, Mulan. Você é o reflexo de tudo o que a China tentou esconder. Eles queriam uma boneca de porcelana; eu encontrei uma loba entre as ovelhas.

Ele estendeu a mão e, com uma lentidão deliberada, tocou a ponta do cabelo curto de Mulan. O gesto era carregado de uma tensão que fazia o coração dela martelar contra as costelas, um ritmo de guerra que ela não conseguia silenciar.

— Amanhã — continuou ele, a voz baixando para um sussurro perigoso —, os clãs se reunirão para o Grande Khurultai. Eles querem saber por que seu líder trouxe uma mulher chinesa para o coração da horda. Eles querem sangue, Mulan. Eles querem ver se a loba que eu descrevi realmente existe ou se eu trouxe apenas um troféu ferido.

Mulan sentiu um arrepio que não vinha do vento frio. Ela sabia o que aquilo significava. No mundo de Shan Yu, não havia lugar para protegidos. Havia apenas aliados ou cadáveres.

— O que você quer que eu faça? — perguntou ela, a voz firme apesar do tremor interno.

— Eu quero que você lute — Shan Yu levantou-se, estendendo a mão para ajudá-la a subir. — Não como um soldado imperial seguindo ordens de um general que não a conhece. Lute por você. Lute para mostrar a eles que a montanha que caiu sobre meus homens não foi um acidente da natureza. Foi você.

***

O dia seguinte nasceu com um céu de chumbo. O acampamento estava em polvorosa. Centenas de guerreiros, vindos de tribos nômades que Mulan mal conseguia distinguir, formavam um círculo imenso na planície. O cheiro de suor, couro e cavalos era sufocante.

No centro do círculo, Shan Yu estava de pé, imponente, com seu falcão pousado no ombro. Ele não disse uma palavra enquanto Mulan caminhava em sua direção, vestida com as túnicas de couro hunas, sua espada — a mesma que pertencera ao seu pai, recuperada por Shan Yu nos destroços da avalanche — batendo contra sua coxa.

Um guerreiro gigantesco, com o rosto marcado por tatuagens tribais e uma cicatriz que lhe dividia o lábio superior, deu um passo à frente. Era Targhai, o líder de uma das facções mais violentas da horda.

— Shan Yu! — rugiu Targhai, sua voz ecoando pela planície. — Você nos diz que esta coisa pequena, esta fêmea dos campos de arroz, é o guerreiro que dizimou nossa vanguarda? Você nos insulta! O gelo nos traiu, não uma mulher!

Shan Yu nem sequer piscou.

— Se você acredita que o gelo foi o culpado, Targhai, então não terá dificuldades em provar que sua força é superior à dela.

O gigante riu, um som gutural que foi acompanhado pelo escárnio da multidão. Ele desembainhou um machado imenso, cujas lâminas pareciam pesadas demais para um homem comum erguer.

— Eu vou esmagar a cabeça dela e enviá-la de volta ao Imperador em uma cesta de vime! — gritou o guerreiro.

Mulan olhou para Shan Yu. Ele não lhe deu encorajamento, não lhe deu ordens. Ele apenas observava, com aquela expectativa fria que a irritava e a impulsionava ao mesmo tempo.

— Não use a força dele contra ele — sussurrou Mulan para si mesma, lembrando-se das lições de seu treinamento, mas também de algo mais profundo, algo que aprendera observando o próprio Shan Yu. — Use o medo dele.

Targhai avançou como um touro enfurecido. O primeiro golpe do machado abriu uma cratera na terra onde Mulan estava há um segundo. Ela era rápida, movendo-se como o vento que soprava pelas estepes, mas o círculo de guerreiros era apertado, e ela não tinha muito espaço para manobrar.

— Lute, chinesa! — gritou Targhai, girando a arma com uma velocidade surpreendente para seu tamanho. — Pare de correr como um coelho!

Mulan desembainhou sua espada. O metal brilhou sob a luz cinzenta. Ela não atacou; ela esperou. Targhai, irritado pela falta de reação, desferiu um golpe descendente com toda a sua força. Mulan não desviou completamente; ela usou a lateral de sua lâmina para desviar o curso do machado, deixando que o peso da arma arrastasse o gigante para frente.

Enquanto ele perdia o equilíbrio, Mulan girou e desferiu um chute preciso na parte de trás de seu joelho. O gigante caiu sobre uma perna, soltando um urro de dor e fúria. Antes que ele pudesse se recuperar, ela estava sobre ele, a ponta de sua espada pressionada contra a jugular do guerreiro.

O silêncio caiu sobre a horda como um manto de neve. Os risos cessaram. O desprezo nos olhos dos hunos transformou-se em algo que Mulan nunca esperara ver direcionado a ela: reconhecimento.

Targhai ofegava, o sangue escorrendo de um pequeno corte no pescoço. Ele olhou para Mulan, esperando o golpe final. No Império, a honra exigiria misericórdia ou uma execução ritual. Aqui, Mulan olhou para Shan Yu.

— Mate-o — sugeriu uma voz na multidão.

— Acabe com isso! — gritou outro.

Mulan pressionou a lâmina um pouco mais, sentindo a pulsação frenética do homem sob seu aço. Ela viu o medo nos olhos dele — o medo de morrer pelas mãos de quem ele considerava inferior.

— Eu não sou seu carrasco — disse Mulan, sua voz projetando-se com uma autoridade que ela não sabia que possuía. — Eu sou o motivo de você ainda estar vivo para servir ao seu Khagan.

Ela retirou a espada e guardou-a com um movimento fluido. Targhai permaneceu no chão, humilhado, enquanto Mulan caminhava de volta para Shan Yu.

O líder huno deu um passo à frente, sua mão descendo pesadamente sobre o ombro de Mulan. O falcão em seu ombro soltou um grito agudo.

— Alguém mais duvida da têmpera deste aço? — perguntou Shan Yu, sua voz carregada de um triunfo sombrio.

Ninguém respondeu. Um por um, os guerreiros bateram seus punhos contra os peitos em um sinal de respeito bárbaro. Mulan sentiu o peso do olhar de Shan Yu sobre ela. Não era apenas orgulho; era a satisfação de um escultor que via sua obra de arte ganhar vida e começar a destruir o mundo.

***

Mais tarde, quando a celebração barulhenta dos hunos ecoava pelo acampamento, Shan Yu e Mulan estavam sozinhos no topo de uma colina próxima. O fogo das tochas lá embaixo parecia uma constelação caída.

— Você poderia tê-lo matado — comentou Shan Yu, observando o horizonte. — Teria consolidado sua posição mais rápido. O medo é uma ferramenta mais eficiente que a gratidão.

— Eu não quero ser como você, Shan Yu — respondeu ela, sentando-se na grama seca. — Eu não quero governar pelo terror.

— Mas você já não é mais como eles — ele apontou para o sul, em direção à muralha invisível. — Você provou hoje que a honra deles é uma fraqueza. Você usou a força, usou a inteligência e, no final, usou o poder de decidir quem vive e quem morre. Isso é ser um governante, Mulan.

Ele aproximou-se dela, sua sombra cobrindo-a completamente.

— Você sente isso, não sente? — ele sussurrou, inclinando-se até que seus rostos estivessem a poucos centímetros de distância. — O gosto do poder. A liberdade de não ter que pedir desculpas por ser forte.

Mulan olhou nos olhos amarelos dele. Havia uma atração perigosa ali, um abismo que prometia tudo o que ela sempre desejara secretamente: ser vista, ser valorizada, ser livre. Mas o preço era sua alma, ou o que restava dela.

— Eu sinto — confessou ela, a voz mal passando de um sopro. — Mas eu sinto medo também.

— O medo é bom — Shan Yu estendeu a mão e acariciou a bochecha dela, seus dedos calejados traçando a linha de sua mandíbula. — Ele mantém você alerta. Ele mantém você viva.

Ele puxou-a para mais perto, e Mulan não resistiu. O beijo dele foi como tudo o mais em sua vida agora: brutal, avassalador e cheio de uma urgência que consumia qualquer rastro de dúvida. Era o gosto da traição, sim, mas era também o gosto da sobrevivência.

Quando eles se afastaram, Shan Yu manteve a testa encostada na dela.

— O Império vai enviar outros — disse ele, a voz rouca. — Eles não vão deixar que o "erro" deles permaneça vivo nas mãos do inimigo. Eles virão para "resgatá-la" ou para matá-la.

Mulan olhou para a escuridão infinita das estepes, sentindo a força do braço dele ao redor de sua cintura. Ela pensou em seu pai, pensou em Shang, pensou na garota que tentara ser. Tudo aquilo parecia um sonho de outra vida.

— Deixe que venham — disse ela, sua mão encontrando o punho da espada em sua cintura. — Eu não sou mais o erro da China.

Shan Yu sorriu, um brilho de pura malícia e admiração em seus olhos.

— Não — concordou ele. — Você é o pior pesadelo deles. E nós vamos lhes mostrar como a noite pode ser longa.

Lá embaixo, os tambores hunos continuavam a bater, um ritmo constante que agora parecia sincronizado com o próprio coração de Mulan. A neve começava a cair novamente, mas ela não sentia frio. Ela estava no centro do incêndio, e pela primeira vez em sua vida, ela não estava tentando apagá-lo. Ela estava pronta para queimar o mundo inteiro ao lado do lobo que a ensinara a uivar.