Destiny
O Labirinto de Desejo e a Sombra do Falcão
A primavera nas estepes era uma estação volátil, onde o sol lutava para derreter as últimas camadas de resistência do inverno. Para Mulan, aquela mudança de clima refletia o tumulto dentro de seu próprio peito. Ela já não era a garota que tremia de desespero nas cavernas de gelo; o sol das montanhas havia bronzeado sua pele, e o treinamento constante com os hunos havia endurecido seus músculos até que eles respondessem com a precisão de uma corda de arco tensionada.
Ela caminhava pelo acampamento com uma confiança que beirava a insolência. Vestia calças de couro e uma túnica curta que lhe permitia mover-se com facilidade, os cabelos agora crescendo em mechas rebeldes que emolduravam um rosto que aprendera a sorrir de forma provocativa. Mulan descobriu que, entre os bárbaros, sua língua afiada era tão respeitada quanto sua espada.
— Você está lenta hoje, pequena loba — a voz de Shan Yu ecoou enquanto ela praticava com uma lança pesada perto das baias dos cavalos.
Mulan girou a arma, a ponta de madeira parando a centímetros do peito largo do líder huno. Ela arqueou uma sobrancelha, um sorriso desafiador brincando em seus lábios.
— Talvez eu esteja apenas dando a você uma falsa sensação de segurança — rebateu ela, os olhos brilhando. — Ou talvez você esteja ficando velho e seus olhos não acompanhem mais a velocidade do meu aço.
Shan Yu soltou uma risada gutural, um som que antes a aterrorizava, mas que agora enviava um tipo diferente de eletricidade por sua espinha. Ele deu um passo à frente, ignorando a ponta da lança, invadindo o espaço dela até que o calor de seu corpo a envolvesse.
— Velho? — ele murmurou, a voz baixando para um tom perigoso. — Eu tenho força suficiente para dobrar você ao meu desejo, Mulan. Nunca se esqueça disso.
— Tente — desafiou ela, fixando o olhar no dele. — Mas lembre-se de que eu não sou uma das suas cidades conquistadas. Eu não me rendo sem queimar tudo ao meu redor.
Shan Yu sentiu um aperto familiar no peito. Mulan era uma criatura magnífica; ela batia de frente com ele, rosnava quando contrariada e possuía uma pureza de espírito que ele nunca encontrara em suas campanhas de sangue. Ela ainda era virgem, um fato que ele sentia em cada reação hesitante dela ao seu toque, e a ideia de ser o único a desvendar aquela força bruta transformava-se em uma obsessão silenciosa.
No entanto, ele não era o único a notar.
Enquanto Mulan se afastava para guardar a lança, Shan Yu percebeu os olhares. Guerreiros hunos, homens que viviam pela lei do mais forte, observavam o balanço dos quadris dela e a força de suas pernas com uma cobiça mal disfarçada. Targhai, o gigante que ela humilhara semanas antes, agora a olhava com uma mistura de rancor e desejo primitivo.
A fúria de Shan Yu ferveu sob a superfície. Ele sentia uma possessividade que ia além da estratégia militar. Mulan não era apenas uma arma; ela estava se tornando o centro de seu mundo, e a ideia de qualquer outro homem tocando o que ele salvara do gelo era um insulto que exigia sangue.
Naquela noite, a tenda principal estava carregada com o cheiro de carne assada e o vapor do vinho de leite de égua. Mulan estava sentada à mesa, rindo de uma piada grosseira contada por um dos batedores. Ela parecia perfeitamente em casa, uma joia imperial lapidada pela aspereza da estepe.
— Ela daria bons filhos, Khagan — comentou um dos oficiais de Shan Yu, um homem chamado Batur, cujos olhos não saíam do decote da túnica de Mulan. — Forte, rápida e com um fogo que aqueceria qualquer cama no inverno mais rigoroso. Se o senhor não for reivindicá-la, há muitos aqui que gostariam de tentar a sorte.
Shan Yu não respondeu de imediato. Ele apertou o cálice de metal em sua mão até que o material começasse a ceder sob sua força. Ele olhou para Mulan, que naquele momento retribuiu o olhar. Havia uma pergunta silenciosa nos olhos dela, um desafio que ele não podia mais ignorar.
— Saiam — ordenou Shan Yu, sua voz saindo como o estalar de um chicote.
O silêncio caiu sobre a tenda. Os homens trocaram olhares rápidos e, reconhecendo o perigo iminente na postura de seu líder, retiraram-se rapidamente, deixando apenas o fogo e a tensão entre os dois.
Mulan permaneceu sentada, observando-o. Ela sentia que algo havia mudado. A diversão da tarde fora substituída por uma seriedade sombria que emanava de Shan Yu como fumaça.
— O que foi? — perguntou ela, levantando-se e caminhando em direção a ele. — Você parece pronto para decapitar alguém.
— Os homens olham para você como se você fosse carne — disse ele, levantando-se e caminhando até ela com passos lentos e predatórios. — Eles esquecem que você é o aço que os cortou. E você... você sorri para eles.
Mulan soltou um suspiro impaciente, cruzando os braços.
— Eu estou vivendo, Shan Yu. Algo que você me ensinou a fazer. Se eles olham, é porque têm olhos. Eu não pertenço a eles.
— Você não pertence a ninguém — rosnou ele, parando a centímetros dela. — É o que você gosta de dizer. Mas aqui, nas estepes, o que não tem dono é tomado.
— Então me tome — desafiou ela, a voz subindo de tom. — Se é isso que você quer, se é por isso que está rosnando como um animal ferido, por que espera? Mostre-me que você é o mestre que diz ser.
Shan Yu a agarrou pelos ombros, os dedos cravando-se na pele dela.
— Eu não quero uma escrava, Mulan! — gritou ele, a face a centímetros da dela. — Eu já tive mil mulheres que se submeteram por medo. Eu quero a mulher que derrubou a montanha. Eu quero a única pessoa que se atreve a me olhar nos olhos e me chamar de monstro.
Ele a soltou abruptamente, virando as costas e caminhando em direção ao mapa da China estendido sobre a mesa.
— O Imperador enviou emissários — disse ele, mudando de assunto com uma rapidez que a deixou tonta. — Eles querem negociar. Eles oferecem ouro e terras para que eu me retire e... para que eu entregue você para o "julgamento adequado".
Mulan sentiu um frio súbito. O julgamento adequado significava execução. Significava a vergonha de sua família selada com seu sangue.
— E o que você decidiu? — perguntou ela, a voz agora um sussurro.
Shan Yu virou-se, e pela primeira vez, Mulan viu algo que não era apenas crueldade ou ambição em seus olhos. Havia uma hesitação humana, uma vulnerabilidade que ele tentava esconder sob camadas de fúria.
— A China é um labirinto de regras e sombras — disse ele. — Eu passei minha vida querendo queimá-la. Mas agora... eu olho para aquele império e vejo apenas o lugar que tentou matar a única coisa que me faz sentir vivo.
Ele caminhou até ela novamente, mas desta vez não havia violência em seus movimentos. Ele pegou a mão dela e a levou ao próprio peito, onde Mulan pôde sentir as batidas pesadas e rítmicas de seu coração.
— Eu não vou entregar você — afirmou ele. — E eu não vou mais atacar a China.
Mulan piscou, incrédula.
— O quê? Você desistiria da sua conquista? Do seu propósito?
— Meu propósito mudou — declarou Shan Yu, segurando o rosto dela com ambas as mãos. — Eu não quero ser o imperador de um povo que odeia você. Eu quero ser o homem que constrói um novo mundo com você. Se você aceitar ser minha, Mulan... se aceitar ser minha esposa e Khagan de todos os hunos, eu queimarei os planos de invasão. Deixaremos a China para trás, com seus muros e suas mentiras.
Mulan sentiu o mundo girar. A proposta era absurda, escandalosa, e no entanto... era a única coisa que fazia sentido. Ela nunca voltaria para casa como a filha obediente. Ela nunca seria o soldado de Shang. Ali, entre as peles e o cheiro de terra, ela tinha a chance de ser algo que nenhuma mulher na história de seu povo jamais fora.
— Você desistiria de tudo por mim? — perguntou ela, as lágrimas começando a embaçar sua visão.
— Eu não estou desistindo de nada — respondeu ele, aproximando os lábios dos dela. — Eu estou escolhendo o que é real.
Shan Yu a beijou então, e não foi o beijo de um conquistador, mas o de um homem que encontrara seu par. Mulan respondeu com toda a sede que vinha guardando, suas mãos subindo para os ombros largos dele, puxando-o para mais perto. O gosto dele era de vinho e promessas sombrias, e ela se entregou àquela sensação com uma fome que a assustava.
Ele a levantou do chão, levando-a em direção às peles de urso que serviam de cama. O toque dele em sua pele era uma descoberta — calejado, quente e carregado de uma reverência que ela nunca esperara. À medida que as roupas eram deixadas de lado, Mulan sentiu que estava se despindo não apenas de tecidos, mas de todas as expectativas que o mundo um dia colocara sobre seus ombros.
— Você tem certeza? — sussurrou Shan Yu, observando-a sob a luz do fogo, seus olhos amarelos devorando cada curva de seu corpo.
— Eu nunca tive tanta certeza de nada — respondeu ela, estendendo a mão para puxá-lo para baixo. — Mostre-me o que é ser livre, Shan Yu.
Naquela noite, sob o teto de couro da tenda e o céu infinito das estepes, Mulan deixou de ser a filha da China. Entre gemidos e o calor de corpos que se fundiam, ela se tornou a loba da horda. Shan Yu a possuía com uma intensidade que reivindicava não apenas seu corpo, mas sua alma, e Mulan retribuía com a mesma ferocidade, marcando a pele dele com suas unhas, deixando claro que ele também pertencia a ela.
Quando o sol começou a despontar no horizonte, pintando o céu de violeta, eles estavam deitados um nos braços do outro, exaustos e satisfeitos. O fogo na lareira era apenas cinzas, mas o incêndio dentro deles estava longe de acabar.
— O que faremos agora? — perguntou Mulan, a cabeça descansando no peito dele.
Shan Yu beijou o topo de sua cabeça, os dedos traçando padrões em seu braço.
— Agora — disse ele —, nós cavalgamos para o norte. Longe da muralha, longe do passado. Vamos mostrar a este povo o que acontece quando um lobo encontra sua companheira.
Mulan sorriu, fechando os olhos. Ela sabia que o caminho à frente seria difícil, que o ódio das tribos e a sombra do Império ainda os perseguiriam. Mas enquanto ela estivesse ao lado do homem que a vira na neve e decidira que ela valia mais do que uma conquista, ela não tinha medo.
— Khagan e Khagan — murmurou ela.
— Para sempre — selou ele.
E nas estepes, o vento uivou um novo nome, um nome que os ancestrais nunca ousariam sussurrar, mas que a terra, em sua sabedoria selvagem, já começava a celebrar: Mulan, a Senhora dos Hunos.