Diária de outro mundo
O Aroma da Mudança e o Clube do Acaso
A manhã na Academia Itachiyama possuía um brilho que Izabelle ainda estava tentando digerir. Caminhar pelos corredores de mármore polido ao lado de Íris — que agora desfilava com o uniforme impecável da escola como se sempre tivesse pertencido àquele lugar — trazia uma sensação de triunfo. O "truque mental" de Íris havia funcionado perfeitamente com Kageyama, e Izabelle mal podia esperar para ver como o resto da escola reagiria.
— Você tem certeza de que ninguém vai notar? — sussurrou Izabelle, enquanto subiam a escadaria monumental em direção ao conselho estudantil.
— Fique tranquila — respondeu Íris, ajeitando a gola da camisa. — Para eles, eu sou apenas a aluna que estava em licença médica ou algo do tipo. A magia preenche as lacunas na memória deles. É como se eu fosse um figurante que finalmente ganhou um nome.
Ao chegarem à sala do conselho, deram de cara com a visão que faria qualquer fã de Haikyuu desmaiar: Oikawa Tooru estava sentado à mesa, revisando papéis com uma caneta elegante, enquanto Kageyama estava encostado na parede, observando um mapa do campus.
— Ah, as atrasadas chegaram — disse Oikawa, sem tirar os olhos do papel, mas com aquele sorriso característico que misturava charme e ironia. — Izabelle, aqui está o seu número de sala. E Íris, que bom que se recuperou para acompanhar sua amiga.
Izabelle sentiu um calafrio. Realmente funcionava. Oikawa, o rei da observação, nem sequer questionou a presença da garota-coelho.
— Obrigada, Oikawa-senpai — disse Izabelle, pegando o papel.
— Lembrem-se — interrompeu Kageyama, sua voz profunda ecoando na sala — que após as aulas vocês devem retornar aqui. É obrigatório escolher um clube. A Itachiyama preza pelo desenvolvimento extracurricular.
— Entendido, "Rei" — provocou Izabelle, usando o apelido que sabia que o irritaria, embora ele apenas tenha fechado a cara e desviado o olhar.
A sala de aula era vasta e moderna. Diferente das escolas comuns, as mesas eram longas, feitas para acomodar quatro pessoas. Izabelle puxou Íris para o fundo, buscando o refúgio da última fileira.
— Eu quero a janela! — declarou Izabelle, deslizando para a cadeira de canto. — É o lugar clássico de todo protagonista de história.
Íris riu e sentou-se ao lado dela. O lugar era perfeito; as outras duas cadeiras da mesa já estavam ocupadas por duas garotas que pareciam imersas em uma conversa melancólica.
A aula começou, mas a mente de Izabelle estava a mil por hora. Ela observava o professor, mas não conseguia deixar de notar o quão diferente tudo era. No seu mundo, as aulas eram barulhentas e as salas apertadas. Ali, tudo exalava luxo e disciplina. Íris parecia perfeitamente à vontade, anotando tudo com uma caligrafia impecável, enquanto Izabelle ainda lutava para aceitar que sua melhor amiga era uma criatura mágica.
Durante o intervalo, o clima na mesa mudou. As duas garotas ao lado começaram a falar mais alto, as vozes carregadas de tristeza.
— Não tem jeito, Hannah — disse a menina de cabelos curtos e castanhos, que Izabelle logo descobriu se chamar Stay. — O conselho foi claro. Se não conseguirmos novos membros até o final da semana, o Clube de Culinária será oficialmente dissolvido.
— Mas é injusto! — Hannah, uma garota de óculos redondos, suspirou pesadamente. — Nós tentamos de tudo. Entregamos panfletos, fizemos degustação no pátio... ninguém quer entrar em um clube que não seja de esportes ou de artes de elite.
Izabelle e Íris trocaram um olhar. Elas estavam ouvindo tudo, fingindo ler seus livros.
— E aquela cozinha... — continuou Stay, desolada. — Está um desastre. O orçamento foi cortado faz meses. Parece um cenário de filme de terror. Ninguém quer cozinhar em um lugar que parece assombrado por gordura antiga e poeira.
Íris cutucou o braço de Izabelle por baixo da mesa.
— Você ouviu isso? — sussurrou a portadora da magia.
— Ouvi — respondeu Izabelle. — Mas o que a gente tem a ver com isso? Eu nem sei fritar um ovo sem queimar a frigideira.
— Pode ser a nossa chance de passar despercebidas — sugeriu Íris. — Um clube pequeno e isolado é o esconderijo perfeito para nós. Pense nisso.
A aula terminou e, conforme as instruções, as duas voltaram ao conselho estudantil. Oikawa estava pronto com uma lista de clubes.
— Então, o que vai ser? — perguntou ele, girando uma caneta entre os dedos. — Temos o Clube de Esgrima, onde o Tobio-chan pode te dar umas aulas... ou o de Música, ou quem sabe o de Vôlei como assistente?
Izabelle olhou para a lista. Nada parecia certo. Ela não queria estar no centro das atenções, cercada por garotas gritando por Oikawa ou Kageyama. Ela lembrou da conversa das meninas na sala.
— Queremos entrar no Clube de Culinária — disse Izabelle, surpreendendo a si mesma.
Oikawa parou de girar a caneta. Kageyama, que estava limpando seu florete no canto, levantou a cabeça bruscamente.
— Culinária? — Oikawa arqueou uma sobrancelha. — Izabelle, aquele clube está praticamente falido. Só tem duas integrantes e as instalações são... digamos, rústicas. Tem certeza de que não prefere algo mais vibrante?
— Tenho certeza absoluta — afirmou ela, ganhando confiança. — Eu gosto de desafios. E Íris vem comigo.
— Se é o que desejam... — Oikawa deu de ombros, assinando os papéis. — Mas não digam que eu não avisei. A cozinha fica na ala oeste, no subsolo do prédio antigo. É um pouco isolado.
Izabelle e Íris seguiram para a ala oeste. Conforme caminhavam, o brilho da academia ia diminuindo. As paredes eram mais escuras e o silêncio era quase absoluto. Quando chegaram à porta da cozinha, Izabelle hesitou.
— Stay tinha razão — murmurou Izabelle ao abrir a porta. — Isso aqui é um pesadelo.
O lugar era cavernoso. As bancadas de aço inoxidável estavam foscas de sujeira, as cortinas eram de um bege encardido que provavelmente já fora branco um dia, e o cheiro de mofo era quase insuportável. Hannah e Stay estavam sentadas em um canto, olhando para o nada, quando viram as duas entrarem.
— Oi... — Hannah levantou-se, surpresa. — Vocês são as meninas da nossa mesa, certo? Se vieram para o lanche, sinto informar que não temos ingredientes.
— Na verdade — disse Íris, com um sorriso radiante —, viemos nos inscrever. Queremos entrar para o clube.
Stay quase caiu da cadeira.
— Vocês o quê? Estão falando sério? Ninguém entra aqui há anos!
— Pois agora o clube tem quatro membros — declarou Izabelle, colocando as mãos na cintura e analisando o desastre ao redor. — Mas a primeira regra do novo Clube de Culinária é: ninguém cozinha em um lixão.
— Mas não temos orçamento para reforma — lamentou Stay.
— Quem disse que precisamos de dinheiro quando temos braços e força de vontade? — Izabelle sorriu. — Íris, você sabe o que isso significa.
— Limpeza pesada! — comemorou a garota-mágica.
Izabelle correu até o seu dormitório e voltou carregando a sua fiel caixa de som. Ela a colocou sobre uma das bancadas empoeiradas.
— O que é isso? — perguntou Hannah, curiosa.
— Isso é o que vai nos dar energia — respondeu Izabelle. — No meu mundo... quer dizer, na minha antiga cidade, a gente não arrumava nada sem uma boa trilha sonora.
Ela apertou o play. As batidas contagiantes de New Jeans preencheram a cozinha fria. Stay e Hannah nunca tinham ouvido nada parecido; o ritmo era moderno, fresco e trazia uma vontade incontrolável de se mexer.
— Vamos lá, meninas! — gritou Izabelle, entregando um esfregão para cada uma. — Hannah, você cuida das janelas. Stay, as bancadas. Íris e eu cuidamos do chão e do teto!
A transformação começou. Ao som de "Ditto", elas arrancaram as cortinas velhas, revelando janelas que, uma vez limpas, deixaram a luz do entardecer inundar a sala. A gordura das paredes foi cedendo sob a mistura de produtos que Izabelle trouxera.
— Vocês são incríveis! — exclamou Stay, limpando o suor da testa enquanto tentava acompanhar o ritmo da música. — Eu nunca pensei que limpar pudesse ser tão... divertido?
— É a magia da organização — brincou Izabelle, trocando um olhar cúmplice com Íris.
Íris, aproveitando um momento em que as outras duas estavam distraídas, usou um pequeno brilho de seus dedos para dissolver uma mancha de ferrugem particularmente difícil em um dos fogões.
— Por que não colocamos uma placa de manutenção na porta? — sugeriu Íris. — Assim ninguém nos interrompe enquanto deixamos o lugar impecável.
— Ótima ideia! — concordou Hannah. — Vou escrever agora mesmo.
Enquanto a placa era pendurada, Izabelle observava o progresso. O lugar já não parecia mais uma sala de terror. O aço das bancadas voltava a brilhar e o ar estava ficando fresco.
— Ainda falta muita coisa — observou Izabelle, olhando para as paredes nuas. — Precisamos de cores, de potes novos, de vida. Amanhã eu vou comprar alguns materiais de decoração. Quero colocar luzes de LED e talvez umas plantas.
Hannah e Stay se entreolharam, confusas.
— Mas Izabelle... você não sabe? — perguntou Stay. — Nós não podemos sair do campus durante a semana. É uma regra rígida da Academia Itachiyama. Segurança máxima para os alunos de elite. Só saímos com autorização especial dos pais ou em feriados.
Izabelle sentiu o balde de água fria.
— Como assim eu não posso sair? Eu sou uma pessoa livre!
— Aqui, somos estudantes protegidos — explicou Hannah. — O portão principal só abre com biometria autorizada.
Izabelle bufou, cruzando os braços. Aquilo era um problema. Como ela ia transformar aquela cozinha no santuário *aesthetic* que planejava se estava presa?
— Eu dou um jeito — murmurou ela, com um brilho desafiador nos olhos. — Eu sempre dou um jeito.
O dia chegou ao fim. As quatro meninas estavam exaustas, mas havia um brilho de esperança nos olhos de Hannah e Stay que não existia antes. Elas se despediram no corredor, prometendo se encontrar na manhã seguinte para continuar o "projeto renascimento" do clube.
Enquanto caminhavam de volta para o dormitório, Izabelle e Íris diminuíram o passo.
— Íris, temos um problema — disse Izabelle. — Todo mundo sabe que eu estou sozinha naquele dormitório masculino. Se você aparecer lá comigo, vai ser um escândalo.
— Eu já pensei nisso — respondeu Íris, parando diante de uma das janelas que dava para o jardim. — Eu posso usar minha forma de coelho para entrar com você, mas para dormir e recuperar energia, eu preciso da forma humana. Eu vou criar uma ilusão no corredor feminino. Vou me registrar lá oficialmente como aluna, mas passarei a maior parte do tempo com você.
— Mas a diretora disse que é proibido ter animais! — Izabelle lembrou-se, entrando em pânico. — Se o Kageyama ou o Oikawa virem um coelho no meu quarto, eu estou frita!
— Então não deixe que vejam — Íris piscou, transformando-se instantaneamente no pequeno coelhinho cinza-azulado.
Izabelle suspirou, pegando a pequena criatura no colo e escondendo-a dentro de sua jaqueta. Ela caminhou apressadamente pelos corredores, o coração batendo forte a cada sombra que cruzava seu caminho. Quando finalmente trancou a porta do seu quarto rosa, ela soltou um suspiro de alívio.
— Essa vida de portadora de magia é muito estressante — reclamou Izabelle, jogando-se na cama enquanto Íris voltava à forma humana ao seu lado.
— Mas admita — disse Íris, deitando-se no tapete macio que Izabelle havia colocado no chão —, você nunca se sentiu tão viva.
Izabelle olhou para os pôsteres no teto, para a luz da lua entrando pela janela e para a sua nova amiga mágica. Ela tinha razão. Entre treinos secretos, clubes falidos e jogadores de vôlei misteriosos, a vida em Itachiyama estava apenas começando a esquentar.
— É — sorriu Izabelle, fechando os olhos. — Acho que amanhã vou ter que descobrir como contrabandear luzes de LED para dentro de uma escola de segurança máxima. Boa noite, Íris.
— Boa noite, portadora.