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Diária de outro mundo

Entre Violetas e Baunilha

A luz da manhã infiltrou-se pelas frestas das cortinas rosadas, pintando listras douradas sobre o tapete onde Íris, em sua forma humana, ainda dormia profundamente. Izabelle já estava de pé. Havia algo de revigorante em acordar em um quarto que finalmente tinha o seu cheiro — uma mistura de lavanda, produtos de limpeza caros e o perfume doce que trouxera de sua vida anterior.

Ela se arrumou com cuidado, vestindo o uniforme da Itachiyama. Enquanto aplicava uma camada leve de brilho labial diante do espelho, observou Íris pelo reflexo. A garota-mágica parecia tão comum dormindo ali, mas Izabelle sabia que a realidade era muito mais complexa.

— Íris, acorda — chamou Izabelle, cutucando o ombro da amiga com a ponta do pincel de maquiagem. — O sol já nasceu e temos um clube para salvar, lembra?

Íris resmungou, esfregando os olhos antes de se sentar.

— Você tem muita energia para alguém que atravessou dimensões recentemente — bocejou a criatura.

Izabelle sentou-se na beira da cama, terminando de ajeitar o cabelo.

— Escuta, eu estive pensando... se eu me transformar, eu consigo sair daqui? Tipo, pular os muros ou os prédios? — Ela riu, meio de brincadeira, meio desejando que fosse verdade. — Aquela regra de não poder sair do campus é um balde de água fria nos meus planos de decoração.

Íris endireitou a postura, ficando subitamente séria.

— Na verdade, você consegue. Quando você está transformada, sua agilidade e força são sobre-humanas. Mas há um detalhe: seus olhos.

Izabelle franziu o cenho, olhando-se no espelho.

— Meus olhos?

— Sim. Toda vez que você acessa o núcleo do meu poder, seus olhos ficam violetas. É o sinal da sua motivação e do seu contrato comigo. Se você for para a cidade, ninguém pode ver isso. E ninguém pode ver você pulando telhados. Se os humanos deste mundo virem magia, o equilíbrio que me protege aqui pode quebrar.

— Violetas? — Izabelle aproximou-se do espelho, tentando imaginar a cor. — Estiloso. Tudo bem, eu vou tomar cuidado. Você me ajuda?

— Vou distrair a Hannah e a Stay durante o intervalo — prometeu Íris. — Elas vão achar que você foi à biblioteca ou algo assim.

As aulas da manhã passaram como um borrão de fórmulas matemáticas e datas históricas. Izabelle, Hannah, Stay e Íris tornaram-se um quarteto inseparável em questão de horas. O grupo fervilhava de ideias para o Clube de Culinária.

— Precisamos de luzes de fada — dizia Hannah, anotando tudo em seu caderno.

— E potes de cerâmica para os temperos — completou Stay. — Mas como vamos conseguir isso sem sair?

— Deixem comigo — disse Izabelle, piscando para Íris. — Eu tenho meus métodos. Só confiem em mim.

Na hora do almoço, enquanto o refeitório fervia com o som de bandejas e conversas sobre os próximos jogos de vôlei, Izabelle esgueirou-se para trás do prédio antigo.

— Reflexo da Alma, Brilho do Amanhã! — sussurrou.

O calor da transformação a envolveu. Ela sentiu o mundo ficar mais nítido, as cores mais vibrantes. Seus olhos brilharam em um tom violeta profundo e elétrico. Com um impulso que parecia vir do centro de sua alma, ela saltou. O muro da academia, que parecia uma fortaleza intransponível, ficou para trás em um segundo.

A cidade era movimentada e cheia de vida. Izabelle correu pelos telhados com uma leveza que a fazia rir alto. Ela encontrou uma loja de decoração que parecia ter saído de um painel do Pinterest. Comprou luzes de LED, pôsteres fofos, cortinas de renda e vários utensílios de cozinha em tons pastéis.

Quando voltou para a ala oeste da escola, carregando cinco sacolas enormes e pesadas, ela estava ofegante, mas vitoriosa. Desfez a transformação em um beco isolado e caminhou até a porta do clube.

— Surpresa! — gritou ela, escancarando a porta e levantando as sacolas como se fossem troféus de guerra.

Hannah e Stay pararam o que estavam fazendo, boquiabertas.

— Meu Deus, Izabelle! Você conseguiu mesmo! — Stay correu para ajudar com as sacolas. — Mas como? O portão estava trancado!

— Segredo de estado — disse Izabelle, piscando para as meninas e dando uma olhadinha cúmplice para Íris, que sorria no canto da sala.

As horas seguintes foram puramente mágicas, mas de um jeito diferente da magia de Íris. Era a magia da amizade e do trabalho em equipe. Elas ligaram a caixa de som e, ao som de "Super Shy" e outras batidas animadas, começaram a decorar.

As luzes de LED foram instaladas sob as prateleiras, as cortinas de renda deram um ar romântico às janelas e os novos utensílios fizeram a cozinha parecer profissional e acolhedora ao mesmo tempo.

— Nem parece o mesmo lugar — suspirou Hannah, olhando para o ambiente agora rosado e iluminado. — Dá até vontade de comer as paredes, está tudo tão lindo.

— Agora, a prova de fogo — disse Izabelle, pegando um avental. — Vamos cozinhar.

Elas abriram um livro de receitas antigo que pertencia ao clube. O desafio era um bolo simples de baunilha com cobertura de morango.

— Eu nunca fritei um ovo na vida — confessou Izabelle, segurando um batedor de arame como se fosse uma espada.

— Você está indo super bem, portadora — brincou Íris, passando por ela com um saco de farinha.

A tarde foi uma sucessão de risadas, farinha voando pelo ar e cheiro de açúcar queimado. A primeira tentativa de bolo ficou dura como pedra. A segunda, murchou. Mas elas não desistiram. Na quinta tentativa, o aroma que saía do forno era celestial.

No final, elas tinham cerca de dez bolos perfeitos sobre a bancada.

— Acho que nos empolgamos — disse Stay, limpando uma mancha de glacê da bochecha. — Não conseguimos comer tudo isso. Já estou enjoada só de provar a massa.

— Poderíamos entregar para os outros clubes — sugeriu Íris. — Seria uma ótima forma de anunciar que o Clube de Culinária está de volta.

— É uma ideia incrível! — Izabelle concordou. — Mas não temos bolo para a escola toda. Vamos sortear quem vai ser o sortudo de hoje.

Elas escreveram os nomes dos clubes em pedacinhos de papel e colocaram em uma tigela de cerâmica.

— Stay, tira um — pediu Izabelle.

Stay mergulhou a mão e puxou um papelzinho.

— Clube de Esgrima.

O coração de Izabelle deu um pequeno solavanco. Esgrima. Onde Kageyama treinava.

— Bom, promessa é promessa — disse Izabelle, tentando manter a voz casual.

Elas embalaram fatias generosas em papéis delicados e seguiram para o ginásio de esgrima. Ao entrarem, o som metálico dos floretes se chocando preenchia o ar. O treinador, um homem de meia-idade com um olhar bondoso, veio recebê-las.

— Com licença — disse Izabelle, sorrindo. — Somos do Clube de Culinária. Fizemos bolos a mais e o seu clube foi o sorteado para o lanche de hoje.

O treinador arregalou os olhos, surpreso.

— O Clube de Culinária? Achei que tivesse sido fechado! Que notícia maravilhosa. E que cheiro bom... que sabores vocês têm?

— Temos baunilha, chocolate e morango — respondeu Hannah.

— Hum, eu adoro morango — disse o treinador, pegando um pedaço. Ele deu uma mordida e fechou os olhos. — Está uma delícia! Pessoal, descansem! O Clube de Culinária trouxe um lanche para nós!

Os atletas retiraram as máscaras de proteção, revelando rostos suados e cansados que logo se iluminaram. Entre eles, estava Kageyama Tobio. Ele parecia ainda mais intimidador de perto, com o cabelo escuro grudado na testa e o olhar intenso.

Izabelle sentiu as bochechas esquentarem. Ela tinha um "crush" óbvio nele desde que chegara, mas estava determinada a não parecer uma fã desesperada.

— Aqui, Kageyama-kun — disse ela, entregando-lhe um pedaço de bolo de chocolate sem olhá-lo diretamente nos olhos.

— Obrigado — respondeu ele, a voz rouca pelo esforço físico.

Izabelle sentiu o olhar dele sobre ela enquanto se afastava para servir os outros. Ela podia jurar que ele estava confuso por vê-la ali, mas ela manteve sua postura indiferente, conversando animadamente com os outros esgrimistas sobre o sabor do bolo.

Quando o sol começou a se pôr, Izabelle e Íris iniciaram o caminho de volta para os dormitórios. A euforia do dia ainda corria em suas veias. No entanto, ao cruzarem o pátio central, uma inspetora de olhar severo as barrou.

— O que as duas estão fazendo juntas a esta hora? — perguntou a mulher, ajustando os óculos. — E por que você, senhorita — apontou para Izabelle —, está indo em direção à ala masculina?

Izabelle e Íris congelaram. Haviam esquecido completamente que, aos olhos do mundo, Íris pertencia ao dormitório feminino e Izabelle ao masculino.

— Eu... eu só estava acompanhando minha amiga até o meio do caminho — mentiu Izabelle rapidamente.

— Mentira — retrucou a inspetora. — Você, de cabelo curto, vá imediatamente para o dormitório feminino! E você, Izabelle, para o seu quarto. É proibido circular entre as alas após o toque de recolher.

Íris lançou um olhar de "droga" para Izabelle.

— A gente se encontra depois — sussurrou Izabelle, enquanto a inspetora as escoltava em direções opostas.

No dormitório masculino, Izabelle tomou um banho quente, tentando relaxar os músculos cansados. Vestiu um moletom confortável e sentou-se na cama. O silêncio do quarto parecia estranho sem a presença de Íris.

— Não aguento — murmurou ela. — Preciso falar com ela sobre o treinamento.

Izabelle verificou o corredor. Estava deserto. Com a agilidade que a magia lhe proporcionara, ela saiu sorrateiramente do prédio e correu para o jardim que dividia as alas. Íris já estava lá, sentada sob uma grande árvore de cerejeira.

— Você demorou — disse Íris, sorrindo.

— Tive que fugir da "Gestapo" escolar — brincou Izabelle.

— Já que estamos aqui e ninguém está vendo, que tal treinarmos um pouco? — sugeriu Íris. — Você foi bem pulando os prédios, mas precisa de controle.

Elas se embrenharam um pouco mais na pequena floresta que cercava a academia. Izabelle praticou movimentos de ataque e defesa, sentindo a energia violeta pulsar em suas veias. Era exaustivo, mas cada movimento a fazia se sentir mais conectada àquele mundo.

— Chega por hoje — ofegou Izabelle, após uma hora de treino intenso. — Meus pulmões estão queimando. Vou voltar para o quarto antes que alguém perceba.

— Eu também — disse Íris. — Até amanhã, portadora.

Izabelle começou a caminhar de volta pelo gramado escuro. Estava distraída, limpando o suor da testa, quando ouviu um som rítmico. Passos pesados e constantes. Alguém estava correndo.

Ela se escondeu atrás de uma pilastra, mas era tarde demais. A figura que surgiu na penumbra era alta e atlética.

Kageyama Tobio parou de correr abruptamente, ofegante. Ele estava usando roupas de treino pretas e parecia surpreso ao vê-la ali.

— O que você está fazendo aqui fora? — perguntou ele, a voz carregada de autoridade. — Você sabe que é proibido sair dos quartos a esta hora. Como vice-representante, eu deveria te denunciar.

Izabelle recuperou a compostura, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha.

— E você? O que está fazendo aqui? Se é proibido para mim, também é proibido para o "vice-representante", não acha?

Kageyama pareceu pego de surpresa. Ele desviou o olhar por um momento, limpando o suor do pescoço com a gola da camiseta.

— Eu... eu precisava clarear a cabeça. Treinar sozinho é o único jeito de manter o foco.

— Sei — disse Izabelle, suavizando o tom. — Eu também precisava de ar puro. O quarto estava... abafado.

Houve um silêncio estranho entre eles. O som dos grilos era a única coisa que preenchia o espaço. Kageyama olhou para ela, e por um segundo, Izabelle sentiu como se ele estivesse tentando ler sua alma.

— Você é estranha, Izabelle — disse ele, finalmente. — Chegou do nada, limpa o próprio quarto, salva clubes falidos e agora anda pelos jardins à noite.

— Estranha é um elogio para mim, Kageyama-kun — ela sorriu, um sorriso genuíno que o fez piscar, confuso. — Boa noite. Tente não ser pego pelos seguranças no caminho de volta.

Ela passou por ele, sentindo o perfume de sabonete e esforço físico que emanava dele. Kageyama ficou parado por um longo tempo, observando-a desaparecer na entrada do dormitório.

Na manhã seguinte, Izabelle acordou com o som do despertador e uma sensação de que tudo estava mudando. Ela encontrou Íris, Hannah e Stay no refeitório para o café da manhã.

— Prontas para o segundo dia do "Novo Clube de Culinária"? — perguntou Izabelle, pegando uma torrada.

— Mais do que prontas — disse Hannah, os olhos brilhando de empolgação.

Enquanto caminhavam juntas para a primeira aula, Izabelle olhou para o céu azul sobre a Academia Itachiyama. Ela tinha amigos, tinha magia e, talvez, estivesse começando a entender o seu lugar naquele mundo de ficção que agora era sua realidade.

A vida era curta demais para não ser a protagonista de sua própria história, olhos violetas e tudo mais.