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Diária de outro mundo

O Mistério do Livro de Vidro e o Ritmo Proibido

A manhã seguinte ao nosso pequeno sucesso com o Clube de Esgrima começou com uma energia vibrante. Após um café da manhã rápido no refeitório, onde Oikawa nos lançou um olhar analítico — provavelmente tentando decifrar como quatro garotas "comuns" haviam revitalizado um clube morto em 24 horas —, seguimos para as aulas. No entanto, o destino conspirou a nosso favor: o professor de Sociologia teve um imprevisto e ganhamos um período livre.

— Meninas, vamos aproveitar para organizar os novos armários da cozinha? — sugeriu Stay, animada.

Hannah e Íris concordaram prontamente, mas eu senti um chamado diferente. Algo na minha mente martelava sobre a necessidade de expandir nossos horizontes.

— Vão na frente — eu disse, ajustando a alça da minha mochila. — Eu tenho uma coisa para resolver primeiro.

Stay semicerrou os olhos, curiosa.

— Uma coisa? Que coisa, Iza?

— É segredo — respondi com um sorriso travesso. — Depois eu conto para vocês. Prometo.

Elas me olharam de um jeito estranho, como se eu estivesse escondendo um tesouro, mas acabaram cedendo e seguiram para a ala oeste. Eu, por outro lado, virei na direção oposta. Meu destino era a Grande Biblioteca da Itachiyama.

Eu ainda não tinha explorado aquele lugar, e para alguém que amava livros no meu mundo anterior, aquilo era o paraíso. Ao abrir as portas duplas de carvalho, perdi o fôlego. O lugar era imenso. Juro que caberiam três das casas que eu tinha antes ali dentro. As estantes subiam até perder de vista, tocando o teto afrescado.

Caminhei entre os corredores silenciosos, sentindo o cheiro de papel antigo e cera de madeira. Eu buscava inspiração, talvez novos livros de receitas para o clube. Procurei por horas, subindo escadas rolantes de madeira e explorando seções esquecidas. Acabei em uma área nos fundos, onde a luz do sol mal chegava e a poeira dançava densamente no ar.

— Atchim! — Espirrei, limpando o pó de uma lombada de couro escuro.

Meus olhos brilharam. Não era um livro de bolos. O título gravado em letras douradas desbotadas dizia: *“A Arte dos Elixires de Cristal: Coquetéis e Misturas”*. Era um livro de drinks. Coquetéis com álcool, nomes exóticos e ilustrações que pareciam saltar das páginas. Senti um arrepio. Era como se o livro estivesse chamando meu nome, sussurrando que a diversão de verdade estava naquelas páginas.

— Bebidas alcoólicas em uma escola de elite? — sussurrei para mim mesma. — Se elas não bebem ainda, vão começar hoje.

Mas havia um problema logístico: eu não tinha vodca, gin ou licor no meu armário. E a escola era uma prisão de luxo.

Fui para um canto isolado entre as estantes de História Antiga.

— Íris me ensinou que eu posso fazer isso... — murmurei.

Fechei os olhos e me concentrei. Deixei apenas a energia violeta fluir para os meus olhos, sentindo aquele formigamento familiar. Tentei usar o feitiço de transformação que Íris havia mencionado para mudar minha aparência física completa. Nas primeiras dez tentativas, o máximo que consegui foi fazer meu cabelo crescer dez centímetros e diminuir.

— Vamos lá, Izabelle, foco! — reclamei, suando frio.

Após vinte minutos de esforço mental e várias caretas, senti meus ossos estalarem levemente e minha estatura aumentar. Olhei para minhas mãos; eram maiores, mais ásperas. Eu havia me transformado em um homem de meia-idade, com uma barba rala e um terno cinza sem graça.

Saí da biblioteca a passos largos, aproveitando a confusão do horário de almoço para pular o muro dos fundos. Na cidade, encontrei uma loja especializada chamada *Kirin Spirits*.

O atendente me olhou de cima a baixo quando coloquei o livro de receitas sobre o balcão.

— Boa tarde — eu disse, forçando uma voz mais grossa e rouca. — Preciso de todos os ingredientes para estes três coquetéis. E as melhores garrafas, por favor.

Ele não hesitou. Afinal, eu parecia um homem de quarenta anos com pressa. Saí de lá com duas sacolas pesadas, tilintando vidro. Voltei para a escola como um raio, usando o impulso mágico para correr pelas paredes externas até o subsolo da ala oeste.

Quando entrei na cozinha do clube, as meninas estavam polindo as bancadas.

— Por que demorou tanto, Iza-chan? — perguntou Stay, usando o apelido carinhoso que tínhamos criado naquela manhã.

— Esqueçam as sobremesas por um momento — eu disse, colocando as garrafas sobre a mesa de aço com um baque sonoro. — Hoje, o cardápio é outro. Hoje, nós vamos fazer drinks.

Hannah ajustou os óculos, chocada.

— O quê? Isso é... álcool? Iza, você enlouqueceu?

— Vocês bebem? — perguntei, ignorando o pânico dela.

— Não! — responderam as três em coro, incluindo Íris, que parecia cautelosa.

— Pois vão começar hoje — decretei, abrindo o livro. — Relaxem. Ninguém vai descobrir, a menos que vocês saiam gritando pelos corredores.

— Mas como você conseguiu isso? — perguntou Stay, tocando em uma garrafa de Blue Curacao.

— Meu pai tinha uma adega imensa, eu "peguei emprestado" algumas coisas que ele nem vai sentir falta — menti descaradamente, já que não podia contar sobre o disfarce de homem de meia-idade.

Começamos a misturar. O cheiro era forte, pungente.

— Credo, isso tem um cheiro horrível! — reclamou Hannah, fazendo careta ao cheirar o gin puro.

— Confiem no processo — eu disse, rindo. — O sabor melhora, e o efeito que isso dá na alma é maravilhoso.

As primeiras misturas ficaram intragáveis. Amargas, fortes demais, pareciam remédio. Jogamos várias tentativas no ralo. Mas, depois de consultarmos o livro com mais atenção e ajustarmos o xarope de açúcar e o suco de limão, conseguimos o primeiro "Drink do Havaí" perfeito. Era azul vibrante, doce e refrescante.

Bebemos o primeiro copo. Depois o segundo.

— Nossa... eu me sinto... leve — disse Stay, rindo de uma mancha de farinha na parede que nem era engraçada.

— Eu disse — comentei, sentindo o rosto esquentar e uma animação contagiante tomar conta de mim.

Coloquei a caixa de som no máximo. New Jeans começou a tocar. A batida de "Hype Boy" parecia ressoar dentro das garrafas.

— Gente — eu disse, levantando-me e começando a balançar os quadris —, por que a gente não ensaia? Por que não criamos coreografias para essas músicas? Tipo, dançar de verdade.

— Eu sou péssima dançando, Iza! — Hannah exclamou, embora já estivesse balançando a cabeça no ritmo.

— Eu também sou! — gritei de volta. — Mas se a gente treinar, vamos ficar incríveis. Vai ser como o nosso segundo clube secreto. Imagina: drinks, música e dança. O esconderijo perfeito.

— Sabe de uma coisa? — Íris disse, os olhos brilhando mais que o normal. — Eu adorei essa ideia. Nunca me senti tão solta.

Dançamos por uma hora, rindo dos nossos tropeços e inventando passos absurdos. O Clube de Culinária tinha se tornado o lugar mais feliz daquela escola cinzenta. Quando o efeito da bebida começou a suavizar para um cansaço bom, decidimos encerrar.

— Vamos pensar na ideia da dança — disse Stay, despedindo-se na porta. — Foi a melhor tarde da minha vida.

Esperei que elas se afastassem e puxei Íris pelo braço.

— Íris, espera. Preciso falar com você.

Caminhamos devagar pelos corredores, aproveitando o silêncio da noite que caía.

— Eu quero treinar mais, Íris. Não só a dança, mas a magia. Eu senti que hoje, quando tentei me transformar, foi muito difícil. Você pode me emprestar aquele livro de feitiços?

Íris franziu o cenho, preocupada.

— Iza, treinar sozinha pode ser perigoso. A energia violeta é instável se você não souber canalizar.

— Eu sei, mas eu quero estar pronta — insisti. — Você pode me ajudar nas horas vagas, mas quando eu estiver no meu dormitório, quero poder praticar o básico para não passar vergonha na próxima vez que precisar sair da escola.

Ela hesitou, olhando para os lados para garantir que nenhuma professora ou inspetora estivesse por perto.

— Tudo bem. Mas prometa que não vai tentar nada avançado sem mim.

— Prometo. Confia em mim.

Ela me entregou o livro de capa branca e dourada. Senti o peso do conhecimento místico em minhas mãos.

— Obrigada, Íris. De verdade.

Nos separamos perto da bifurcação dos dormitórios. Eu seguia para a ala masculina, sentindo o peso do livro na mochila, quando vi uma silhueta familiar perto da fonte do pátio central.

Kageyama Tobio estava parado ali, olhando para a água. Ele não estava treinando, apenas observando o reflexo da lua. Ao me ver, ele não pareceu surpreso, apenas suspirou.

— Você de novo — disse ele, a voz baixa.

— O mundo é pequeno, Kageyama-kun — respondi, aproximando-me. — Ou talvez eu seja apenas atraída por lugares silenciosos.

Ele me olhou de cima a baixo. Seus olhos se detiveram nos meus por um segundo a mais do que o necessário.

— Você está com cheiro de... frutas? E algo mais.

— É o Clube de Culinária — menti rapidamente, sentindo um frio na barriga. — Testamos algumas receitas novas hoje.

Kageyama deu um passo à frente. Ele era muito mais alto que eu, e sua presença parecia ocupar todo o espaço ao redor. Por um momento, achei que ele fosse me dar um sermão sobre as regras, mas ele apenas estendeu a mão e tirou uma pequena folha seca que estava presa no meu cabelo.

O toque de seus dedos foi rápido, quase imperceptível, mas enviou uma descarga elétrica por todo o meu corpo.

— Você se esforça demais por esse clube — comentou ele, desviando o olhar, as orelhas levemente avermelhadas. — Tente não se cansar tanto. Itachiyama não é um lugar gentil para quem baixa a guarda.

— Eu sei me cuidar — respondi, sorrindo para ele. — Mas obrigada pelo aviso, "Rei".

Kageyama bufou, mas não parecia irritado.

— Boa noite, Izabelle.

— Boa noite, Tobio.

Caminhei para o meu quarto com o coração batendo num ritmo que nenhuma música do New Jeans conseguiria alcançar. Entrei, tranquei a porta e encostei o rosto na madeira fria. Eu tinha um livro de magia, amigas incríveis, drinks proibidos e um esgrimista misterioso que, por um momento, não pareceu tão frio assim.

Abri o livro de Íris sobre a cama rosada. A jornada estava apenas começando, e eu pretendia aproveitar cada gole.