Diária de outro mundo
O Pacto das Sombras e o Despertar de um Sentimento
A manhã na Academia Itachiyama nasceu envolta em uma neblina fina, que dava ao campus um ar de mistério digno de um romance vitoriano. Izabelle acordou antes do despertador, sentindo o peso do livro de Íris sob o travesseiro. A noite de sono fora curta, povoada por sonhos onde fórmulas de coquetéis se misturavam a encantamentos em línguas esquecidas e ao toque rápido dos dedos de Kageyama em seu cabelo.
Ela se sentou na cama, observando o quarto rosado. Íris, em sua forma de coelho, ressonava baixinho no cesto de vime ao lado. Izabelle pegou o livro de capa branca e dourada, sentindo a textura do couro sob as pontas dos dedos.
— Hoje o dia vai ser longo — sussurrou para si mesma.
Após se vestir e garantir que Íris estivesse devidamente escondida para a travessia dos corredores, Izabelle seguiu para o refeitório. O clima na escola parecia diferente. Grupos de alunos cochichavam pelos cantos, e o nome "Clube de Culinária" surgia em fragmentos de conversas. O sucesso dos bolos distribuídos no dia anterior havia plantado uma semente de curiosidade na elite da Itachiyama.
Ao chegar à mesa de costume, encontrou Hannah e Stay radiantes.
— Iza! Você não vai acreditar! — exclamou Stay, mal conseguindo conter os pulos. — Recebemos três pedidos de inscrição hoje cedo! Três!
— Isso é maravilhoso! — Izabelle sorriu, sentando-se com elas. — Mas esperem até eles provarem os nossos novos "sucos especiais".
Hannah deu uma risadinha nervosa, lembrando-se dos drinks da tarde anterior.
— Acho melhor guardarmos os sucos para as reuniões fechadas do conselho de fundadoras, não acha?
— Com certeza — concordou Izabelle, piscando para Íris, que acabara de se juntar a elas na forma humana.
As aulas transcorreram em uma lentidão agoniante. Izabelle sentia o livro de magia queimando dentro de sua mochila. Ela precisava praticar. Precisava entender por que sua transformação física era tão instável. Quando o sinal para o intervalo do almoço finalmente tocou, ela fez um sinal para Íris.
— Meninas, vão indo para a cozinha — disse Izabelle para Hannah e Stay. — Eu e a Íris precisamos passar na biblioteca para devolver uns livros.
— De novo na biblioteca? — Stay arqueou uma sobrancelha. — Vocês estão ficando muito estudiosas de repente.
— É o charme do conhecimento — brincou Izabelle, puxando Íris pelo braço.
Elas não foram para a biblioteca. Em vez disso, seguiram para um antigo observatório desativado no topo de uma das torres laterais da academia. O lugar estava coberto de teias de aranha e poeira, mas era isolado e oferecia uma visão privilegiada do campus.
— Certo, Íris. Me ensine — disse Izabelle, abrindo o livro no chão de madeira.
— Iza, você tem certeza? — Íris parecia genuinamente preocupada. — O que você sentiu ontem quando tentou se transformar no homem de meia-idade?
— Eu senti como se minha energia estivesse sendo puxada por um ralo — confessou Izabelle. — Foi pesado, cansativo.
— Isso é porque você tentou mudar sua essência física sem fortalecer seu núcleo — explicou Íris, sentando-se em posição de lótus. — Para ser outra pessoa, você precisa primeiro estar muito segura de quem você é. A magia violeta é o reflexo da sua alma. Se sua alma está confusa ou ansiosa, a transformação falha.
Izabelle fechou os olhos, respirando fundo. O cheiro de mofo do observatório desapareceu, substituído pela batida rítmica de uma música do New Jeans que ela cantarolava mentalmente para se acalmar.
— Tente focar em algo pequeno primeiro — instruiu Íris. — Mude a cor do seu cabelo. Não para rosa, mas para algo que não seja seu.
Izabelle concentrou-se. Visualizou um loiro platinado, brilhante como a lua. Sentiu o formigamento no couro cabeludo, uma sensação de calor que descia pela nuca.
— Consegui? — perguntou, sem abrir os olhos.
— Quase... está meio manchado, mas é um começo — disse Íris. — Agora, tente canalizar o poder para os seus olhos. Lembre-se do que você sentiu ontem quando viu o Kageyama no jardim.
Izabelle sentiu o coração falhar uma batida. A imagem de Kageyama, com o olhar intenso e o toque inesperado, inundou sua mente. De repente, o calor em seu peito explodiu.
— Iza! Seus olhos! — exclamou Íris.
Izabelle abriu os olhos e correu até um pedaço de vidro quebrado no chão que servia de espelho. Seus olhos não eram apenas violetas; eles brilhavam com uma intensidade elétrica, como se galáxias inteiras estivessem girando dentro de suas pupilas.
— É isso! — disse Izabelle, maravilhada. — Eu sinto... sinto que posso fazer qualquer coisa.
— Cuidado com esse sentimento — alertou Íris, levantando-se. — O poder pode ser viciante. E ele atrai coisas que não deveriam ser atraídas.
Como se para confirmar as palavras de Íris, um vento gelado soprou pelas janelas quebradas do observatório, fazendo as páginas do livro de magia virarem furiosamente. Uma sombra densa começou a se formar no centro da sala, uma mancha de escuridão que parecia absorver a pouca luz que entrava.
— O que é aquilo? — sussurrou Izabelle, sentindo o instinto de luta despertar.
— Uma Sombra — disse Íris, sua voz tremendo. — Elas sentiram o seu despertar. Elas se alimentam de energia mágica instável.
A criatura não tinha forma definida, parecia uma fumaça negra com garras longas e olhos vermelhos que brilhavam com puro ódio. Ela avançou em direção a Íris.
— Não no meu turno! — gritou Izabelle.
Sem pensar, ela executou o movimento de dança que vinha treinando no clube. Um giro fluido que terminava com as mãos estendidas.
— Reflexo da Alma, Brilho do Amanhã!
Uma rajada de luz violeta disparou de suas palmas, atingindo a criatura em cheio. A Sombra soltou um grito agudo, que parecia metal arranhando vidro, e se dissolveu em fumaça cinzenta antes de desaparecer completamente.
Izabelle caiu de joelhos, ofegante. O brilho violeta em seus olhos desapareceu, deixando-os castanhos e cansados novamente.
— Você a derrotou — disse Íris, correndo para ampará-la. — Mas elas vão voltar. Agora que você usou o poder de forma ofensiva, elas sabem que você é a Portadora.
— Que venham — disse Izabelle, com um sorriso desafiador, apesar do cansaço. — Eu tenho uma cozinha para decorar e um esgrimista para impressionar. Não vou deixar uns fantasmas de fumaça estragarem meus planos.
Elas desceram da torre e seguiram para a cozinha, onde Hannah e Stay já haviam começado a testar uma nova receita de torta de limão. O resto da tarde foi uma mistura de culinária e risadas, mas Izabelle não conseguia tirar a Sombra da cabeça. Ela sabia que sua vida na Itachiyama tinha acabado de subir de nível.
Ao final do dia, enquanto as meninas limpavam as bancadas, a porta da cozinha se abriu. Oikawa Tooru entrou, com as mãos nos bolsos e um sorriso enigmático.
— Ora, ora... se não é o clube mais falado da semana — disse ele, caminhando pelo ambiente e observando as luzes de LED e as decorações. — Devo admitir, Izabelle-chan, você tem bom gosto. Até o Tobio-chan não para de falar do bolo de chocolate de vocês.
Izabelle sentiu o rosto esquentar ao ouvir o nome de Kageyama.
— Ele falou do bolo? — perguntou ela, tentando parecer desinteressada.
— Falou que estava "aceitável" — riu Oikawa. — O que, vindo dele, é o mesmo que dizer que foi a melhor coisa que ele já comeu na vida. Ele é um péssimo comunicador, coitado.
— E o que traz o grande representante de classe à nossa humilde cozinha? — perguntou Stay, com uma pitada de deboche.
— Vim fazer um convite oficial — disse Oikawa, tornando-se subitamente sério. — Teremos o Festival da Primavera da Itachiyama em duas semanas. É o maior evento do ano. O Clube de Culinária está convidado a ter uma barraca principal no pátio. É a chance de vocês garantirem o orçamento para o ano inteiro.
Hannah e Stay quase desmaiaram de emoção. Izabelle, no entanto, viu ali uma oportunidade e um perigo. Um festival significava muitas pessoas, muitas emoções e, possivelmente, muitas Sombras.
— Nós aceitamos — disse Izabelle firmemente.
— Ótimo. Detalhes técnicos amanhã na sala do conselho — disse Oikawa, virando-se para sair. — Ah, e Izabelle... tente não se meter em confusão nos jardins à noite. O Tobio-chan ficou bem preocupado com a sua "insônia".
Ele saiu com uma piscadela, deixando Izabelle em choque. Kageyama estava preocupado?
Depois que Hannah e Stay foram embora, Izabelle e Íris ficaram sozinhas na cozinha, terminando de guardar os ingredientes.
— Íris, você ouviu o que o Oikawa disse? — perguntou Izabelle.
— Ouvi. Parece que o esgrimista misterioso tem um ponto fraco por garotas que limpam quartos e fazem bolos — brincou Íris.
— Não é isso — disse Izabelle, sentando-se em uma das bancadas de aço. — É o festival. Vai ser a nossa maior vitrine, mas também o maior alvo. Precisamos estar prontas.
— Vamos treinar todas as noites — prometeu Íris. — Mas agora, você precisa descansar. Sua energia está baixa.
Izabelle concordou. Elas apagaram as luzes e seguiram para o dormitório. No caminho, Izabelle sentiu que estava sendo observada. Ela olhou para as sombras das árvores, mas não viu nada. No entanto, o cheiro de ozônio e frio permanecia no ar.
Ao entrar no prédio masculino, ela deu de cara com Kageyama. Ele estava voltando do treino noturno, carregando sua mochila de esgrima. Estava suado e parecia exausto.
— Oi — disse Izabelle, parando na frente dele.
Kageyama parou, olhando para ela por um longo tempo.
— Oi — respondeu ele, a voz baixa.
— Oikawa me contou sobre o festival. E sobre o bolo.
Kageyama desviou o olhar, as orelhas ficando vermelhas instantaneamente.
— Ele fala demais — resmungou.
— Ele disse que você achou "aceitável" — provocou ela, aproximando-se um passo. — Fico feliz que tenha gostado.
Kageyama voltou a olhar para ela. Havia uma suavidade em seus olhos que Izabelle nunca tinha visto antes.
— Estava bom — admitiu ele, quase num sussurro. — Mas você deveria estar no seu quarto. Já passou da hora.
— Eu sei, vice-representante — disse ela, sorrindo. — Já estou indo.
Ela começou a passar por ele, mas Kageyama segurou seu pulso de leve.
— Izabelle.
— Sim?
— Tome cuidado — disse ele, a expressão séria e quase protetora. — Tem algo estranho acontecendo na escola ultimamente. Eu sinto isso durante os treinos. Sombras onde não deveriam existir. Não ande sozinha.
Izabelle sentiu um calafrio. Ele não tinha magia, mas seus instintos de atleta eram aguçados o suficiente para sentir a presença das Sombras.
— Eu vou tomar cuidado, Tobio. Prometo — disse ela, tocando a mão dele por um breve segundo antes de se soltar.
Ela subiu as escadas para seu quarto com o coração acelerado. Entrou, trancou a porta e encostou-se nela, respirando fundo.
— Íris — chamou ela.
O coelhinho pulou da mochila e se transformou na garota.
— Eu sei, Iza. Ele sentiu.
— Se ele sentiu, significa que a barreira da escola está enfraquecendo — disse Izabelle, pegando o livro de magia. — Temos duas semanas até o festival. Duas semanas para eu me tornar a Portadora que este mundo precisa.
Ela abriu o livro em uma página que ainda não tinha explorado. O título dizia: *“A Dança das Estrelas: Magia em Movimento”*.
— Vamos começar — disse Izabelle.
Pela janela do quarto, a lua observava a pequena garota rosada que, em um mundo de gigantes do esporte, estava prestes a se tornar a maior lenda que aquela academia já vira. Izabelle colocou seus fones de ouvido, a batida de "Cookie" do New Jeans servindo como o metrônomo para seu novo treinamento. Entre passos de dança e faíscas violetas, o destino da Itachiyama estava sendo traçado.
E no fundo de seu coração, Izabelle sabia que, não importava quão escuras fossem as sombras, ela tinha uma luz que ninguém poderia apagar. E, talvez, um esgrimista de olhos azuis para lutar ao seu lado.