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Diária de outro mundo

Batidas de Hip-Hop e Sombras no Jardim

A luz da lua filtrava-se pelas cortinas rosadas, mas Izabelle não conseguia pregar o olho. Íris já havia se transformado em coelho e dormia profundamente em seu cesto, alheia ao turbilhão de ideias que faziam a mente da sua portadora girar a mil por hora. O convite de Oikawa para o Festival da Primavera mudara tudo. Não era apenas uma barraca de comida; era a chance de consolidar o Clube de Culinária — e de criar uma fachada perfeita para suas atividades mágicas.

— Degustação... — murmurou Izabelle, encarando o teto. — Precisa ser algo que ninguém nunca viu aqui. Algo com estilo.

Ela pegou um caderno e começou a rabiscar. O tema precisava ser moderno, descolado. No seu mundo antigo, o conceito de "Street Style" e Hip-Hop estava em todo lugar, especialmente com seu grupo favorito, New Jeans. O nome surgiu como um estalo: "Blue Groove: Taste of the New Era". Não, muito sério. "Bunny Beats & Bites"? Talvez. Ela queria algo que unisse a estética do Hip-Hop dos anos 90 com a delicadeza que o clube já emanava.

— E se a gente dançasse? — Seus olhos brilharam no escuro. — Atrair clientes com uma performance de "How Sweet". Duas semanas é tempo suficiente para ensinar a Hannah e a Stay se eu treinar com elas todas as noites.

Izabelle passou o resto da madrugada desenhando figurinos: calças largas, bonés virados, tops sobrepostos e cores que remetiam ao jeans e ao lilás. Quando finalmente o sono a venceu, o sol já ameaçava surgir no horizonte.

O resultado foi um despertar catastrófico.

— Íris! Acorda! — gritou Izabelle, tropeçando nos próprios lençóis ao ver o relógio. — Estamos vinte minutos atrasadas!

O coelhinho deu um pulo, transformando-se em garota no ar, ainda com o cabelo bagunçado e cara de sono.

— O quê? Mas eu nem recuperei minha energia direito! — reclamou Íris, enquanto Izabelle jogava o uniforme sobre ela.

As duas saíram do dormitório como se estivessem participando de uma prova de cem metros rasos. Elas literalmente voaram pelos corredores, os pés mal tocando o chão de mármore, e entraram na sala de aula derrapando.

— Com licença, professor! — exclamou Izabelle, ofegante, tentando ajeitar a gola da camisa. — Tivemos um... contratempo com o despertador. Mil desculpas!

O professor apenas suspirou e apontou para os lugares vazios. Izabelle sentou-se, mas sua cabeça ainda estava no caderno de anotações. Durante toda a aula, ela fingiu tomar notas sobre Geografia, mas na verdade estava refinando a coreografia e a lista de ingredientes.

No intervalo, ela reuniu o quarteto em uma mesa isolada do pátio e abriu o caderno com um gesto dramático.

— Meninas, contemplem o plano para o Festival da Primavera! — Ela mostrou os desenhos e as anotações. — O tema é Hip-Hop Retrô. Vamos chamar o evento de "Ditto’s Kitchen: The Bunny Vibe". E o melhor: vamos fazer uma performance de dança para atrair o público.

Hannah e Stay olharam para os desenhos, boquiabertas.

— Iza, isso é... incrível! — disse Stay, passando o dedo pelo esboço de uma calça cargo estilizada. — Mas a gente não sabe dançar assim. Hip-hop parece difícil.

— Eu ensino vocês — garantiu Izabelle. — Vamos treinar todas as noites na nossa cozinha. É isolado o suficiente para ninguém nos ver passando vergonha no começo.

— E a comida? — perguntou Hannah. — O que vamos servir que combine com esse estilo "descolado"?

— Eu ainda não decidi o cardápio exato — admitiu Izabelle. — Vou agora mesmo para a biblioteca pesquisar. Quero algo que seja prático de comer em pé, mas que tenha um visual impecável. Enquanto isso, vocês duas podem começar a ver onde conseguimos esses tecidos para os figurinos, pode ser?

As meninas concordaram, animadas com a missão. Izabelle despediu-se delas e seguiu para a Grande Biblioteca. Ela precisava de algo que fosse "fusion", algo que misturasse o clássico japonês com o toque moderno que ela queria trazer.

Caminhando entre as estantes de gastronomia internacional, ela estava tão distraída lendo os títulos nas lombadas que não percebeu a presença de outra pessoa dobrando o corredor. O impacto foi inevitável.

— Ei! Cuidado por onde... — Izabelle começou a reclamar, mas parou ao ver quem era.

Oikawa Tooru estava parado à sua frente, segurando um livro sobre táticas de vôlei. Ele não parecia nem um pouco abalado pelo esbarrão; pelo contrário, exibia aquele sorriso confiante que sempre deixava Izabelle em alerta.

— Ora, se não é a nossa pequena mestre cuca — disse Oikawa, fechando o livro. — Pensei que estivesse na cozinha inventando poções mágicas, Izabelle-chan.

Izabelle ajeitou a postura, tentando não parecer afetada pela proximidade dele.

— Estou procurando receitas para o Festival, Oikawa-senpai. Queremos que a nossa barraca seja a melhor que esta escola já viu.

— Ambiciosa — comentou ele, inclinando-se levemente na direção dela. — Gosto disso. Mas saiba que o Clube de Vôlei não vai facilitar as coisas. Nós também temos nossos planos para o festival.

— O vôlei serve comida agora? — retrucou ela, arqueando uma sobrancelha.

— Servimos entretenimento — Oikawa deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Mas confesso que estou curioso para ver o que você vai aprontar. Se precisar de "ajuda" com a organização, sabe onde me encontrar.

— Eu dou conta sozinha, obrigada — ela respondeu, sentindo o coração acelerar um pouco, mas mantendo o tom firme. — Agora, se me der licença, tenho livros para ler.

— Até mais, Iza-chan — ele disse, passando por ela com aquele caminhar elegante, deixando um rastro de perfume caro no ar.

Izabelle soltou a respiração que nem sabia que estava segurando.

— Nada brega, Izabelle. Mantenha o foco — murmurou para si mesma.

Ela finalmente encontrou o que procurava: um livro sobre "Finger Foods de Luxo". As fotos eram incríveis: mini-hambúrgueres coloridos com pães de beterraba e espinafre, torteletes de frutas cítricas com ouro comestível e espetinhos de frango yakitori com molhos fluorescentes de frutas tropicais. Era perfeito.

Ela levou o livro para as meninas no final da tarde. A empolgação foi geral.

— Isso vai atrair todo mundo! — exclamou Hannah. — E o nome da barraca... decidimos! Vai ser "New Jeans & Old Flavors". O que acha?

— Eu amei! — Izabelle riu. — Combina perfeitamente com a nossa proposta.

A noite caiu e, após uma rodada de drinks de "comemoração" — que Izabelle trouxera escondidos, transformando Hannah e Stay em verdadeiras apreciadoras de coquetéis de frutas com um toque de gin —, elas se despediram. Íris, cansada demais para a travessia mágica, decidiu ir para o dormitório feminino com as outras meninas para manter as aparências.

Izabelle voltou sozinha para o prédio masculino. No entanto, a ansiedade pelo festival não a deixava dormir. O silêncio do quarto parecia pesado. Ela decidiu sair para caminhar pelos jardins, precisava de ar fresco para organizar os pensamentos sobre a coreografia.

O campus estava mergulhado em sombras. O ar estava fresco e o cheiro de grama úmida era relaxante. Izabelle caminhava perto da orla da floresta que cercava a academia quando, de repente, sentiu um calafrio subir por sua espinha. O ar ficou gelado, um frio que não vinha do clima, mas do vazio.

Uma mancha de escuridão absoluta se desprendeu de uma árvore. Era uma Sombra, mas esta parecia maior e mais densa do que a que enfrentara no observatório.

— De novo não... — sussurrou Izabelle.

A criatura avançou silenciosamente, garras de fumaça tateando o ar. Izabelle sabia que não podia fazer barulho; se um segurança a visse ali, estaria frita. Ela recuou para dentro da mata, atraindo a criatura para longe das luzes do campus.

— Reflexo da Alma, Brilho do Amanhã! — sussurrou ela, sentindo a transformação envolvê-la.

Seus olhos violetas brilharam na escuridão. A luta foi intensa. A Sombra era rápida e parecia prever seus movimentos. Izabelle usou os passos da coreografia de "How Sweet" para esquivar-se, transformando a dança em um estilo de combate fluido. Ela disparou rajadas de energia, mas a criatura se fragmentava e se unia novamente.

— Acabe com isso! — Izabelle concentrou toda a sua energia em um único ponto e disparou uma explosão de luz purificadora.

A Sombra soltou um ganido mudo e dissolveu-se em cinzas. Izabelle desfez a transformação, sentindo o corpo pesado como chumbo. Ela precisava voltar para o quarto agora.

Ela correu em direção ao campus, os pulmões ardendo. Ao se aproximar do prédio, viu a lanterna de um segurança varrendo a área.

— Droga... — ela murmurou, escondendo-se atrás de um carvalho centenário.

De repente, uma mão firme e quente fechou-se em torno de seu pulso e a puxou com força para trás de uma fileira de arbustos densos, em um recuo estratégico para o meio de um grupo de árvores ornamentais.

Izabelle abriu a boca para gritar, mas uma mão cobriu seus lábios.

— Shh... — sussurrou uma voz masculina em seu ouvido. — Você quer ser expulsa no primeiro mês?

Ela olhou para cima e deu de cara com Oikawa Tooru. Ele estava muito perto, a respiração dele batendo em seu rosto. Ele a mantinha pressionada contra o tronco de uma árvore, escondendo-os completamente da vista do segurança que passava a poucos metros dali.

Oikawa esperou o feixe de luz se afastar antes de tirar a mão da boca dela, mas não a soltou.

— Pode me explicar o que a "garota dos bolos" está fazendo na floresta a essa hora da noite? — perguntou ele, o tom de voz misturando diversão e uma seriedade incomum. — E por que você parece que acabou de lutar contra um urso?

Izabelle tentou recuperar o fôlego, seu coração batendo tão forte que ela tinha certeza de que ele podia ouvir.

— Eu... eu perdi o sono. Estava caminhando e me perdi um pouco — mentiu ela, a voz saindo trêmula. — Obrigada por... me puxar.

Oikawa a soltou, mas continuou bloqueando seu caminho, os olhos fixos nos dela.

— Você é péssima mentirosa, Iza-chan. Mas vou deixar passar desta vez. Se o Tobio-chan soubesse que você anda por aqui sozinha, ele teria um colapso nervoso.

— Por que vocês dois se importam tanto com o que eu faço? — retrucou ela, tentando disfarçar a vergonha.

Oikawa sorriu, mas desta vez o sorriso não era irônico. Era algo mais profundo, quase predatório, mas não de um jeito ruim.

— Talvez porque você seja a única coisa interessante que aconteceu nesta academia em anos. Agora, vá para o seu quarto. Se eu te pegar aqui fora de novo, eu mesmo te levo para a diretoria.

— Boa noite, Oikawa — disse ela, saindo do esconderijo e correndo em direção à entrada lateral do dormitório.

Ela entrou no quarto e trancou a porta, encostando-se nela com as pernas trêmulas. O encontro com a Sombra a esgotara, mas o encontro com Oikawa a deixara em um estado de confusão mental absoluto.

No dia seguinte, Izabelle chegou ao café da manhã parecendo um zumbi. Hannah e Stay perceberam imediatamente.

— Iza, você está péssima! — disse Stay, entregando-lhe uma xícara de café forte. — O que aconteceu?

Izabelle olhou para as amigas e depois para Íris, que a observava com preocupação.

— Eu tive uma noite... agitada — começou ela, baixando a voz. — Encontrei uma daquelas Sombras na floresta. E o Oikawa me viu.

— O quê?! — sussurrou Íris, quase derrubando a torrada.

— Ele me ajudou a fugir do segurança — continuou Izabelle. — Mas ele sabe que eu estava escondendo algo. Meninas, o festival não vai ser apenas sobre comida e dança. Precisamos estar mais preparadas do que nunca. As Sombras estão ficando mais fortes.

Hannah e Stay trocaram olhares determinados. Elas não tinham magia, mas tinham a coragem que Izabelle lhes inspirara.

— Então vamos treinar o dobro — disse Hannah. — Na cozinha, na dança e na vigilância. Ninguém vai estragar o nosso festival.

Izabelle sorriu, sentindo a força de suas amigas. A jornada para o Festival da Primavera estava apenas começando, e ela tinha a sensação de que, entre passos de hip-hop e segredos noturnos, sua vida na Itachiyama estava prestes a mudar para sempre.