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Distorção

O Gosto de uma Nova Liberdade

A porta do quarto de Sua foi aberta sem que ninguém batesse. O som do clique da fechadura sendo destrancada por fora — um privilégio que Ivan sempre se deu, já que possuía uma cópia de todas as chaves da casa — ecoou como um disparo de aviso.

Sua estava sentada em sua escrivaninha, tentando focar em um livro que não conseguia ler. Seus dedos subiram instintivamente para o pescoço, onde a marca deixada por Mizi ainda pulsava, escondida agora por uma gola alta que ela vestira às pressas ao chegar em casa.

Ivan entrou com a elegância de um predador que sabe que a presa não tem para onde correr. Ele fechou a porta atrás de si e encostou-se nela, cruzando os braços. Seu lábio ainda tinha um pequeno corte da briga com Till, o que dava ao seu rosto perfeito uma nota dissonante e perigosa.

— Você está muito corajosa hoje, Sua — disse Ivan, a voz baixa, carregada daquela calma que costumava preceder suas piores crises de crueldade. — Achar que pode simplesmente dar as costas para mim na frente dos outros... achar que pode escolher com quem vai embora...

Ele começou a caminhar em direção a ela. O ar no quarto parecia diminuir. Sua sentiu o pânico familiar subir pela garganta, o desejo de se encolher, de pedir desculpas por algo que não tinha feito, de aceitar qualquer punição para que o silêncio voltasse.

Mas então, o calor da memória a atingiu. Ela sentiu o peso do corpo de Mizi sobre o seu, a força dos dedos dela, o modo como Mizi a havia reivindicado com uma autoridade que fazia a tirania de Ivan parecer pequena e mesquinha. "Você é minha agora", Mizi dissera.

Ivan parou a poucos centímetros dela, estendendo a mão para segurar o queixo de Sua, pretendendo forçá-la a olhar para ele enquanto despejava seu veneno.

— Não encosta em mim — disse Sua.

A voz dela foi baixa, mas firme. Ivan parou, a mão suspensa no ar, uma expressão de surpresa genuína atravessando seus olhos pretos. Ele soltou uma risada curta e seca.

— O que você disse?

— Eu disse para você não encostar em mim — Sua repetiu, levantando-se da cadeira para ficar na altura dele, embora ainda fosse consideravelmente mais baixa. — E é melhor você não tentar fazer nada do que costuma fazer. Nem hoje, nem nunca mais.

Ivan estreitou os olhos, a diversão sendo substituída por uma irritação fria.

— E quem vai me impedir? O papai? Ele mal consegue ficar de pé. A mamãe? Ela nem sabe que você existe. Você não tem ninguém, Sua. Você é um nada.

— Eu tenho a Mizi — Sua disparou, a voz agora vibrando com uma coragem que ela não sabia que possuía. — E você viu como ela é. Você viu o jeito que ela olhou para você na festa. Se você fizer qualquer coisa comigo, Ivan... se você me tocar, se você me humilhar, eu vou contar para ela. Cada detalhe. E eu acho que você já percebeu que a Mizi não é a garota boba que todo mundo pensa.

Ivan ficou imóvel. O silêncio que se seguiu foi tenso, como uma corda prestes a arrebentar. Ele observou a irmã, notando a mudança na postura dela, o brilho de desafio nos olhos roxos que antes só refletiam medo. Ele pensou na marca no pescoço dela, na forma como Mizi a protegeu com aquele sorriso predatório.

Por um momento, o ódio brilhou puro no rosto de Ivan, mas ele logo se recompôs, soltando um suspiro de desdém.

— Mizi? — Ele riu, balançando a cabeça. — Sua, você é mais patética do que eu pensava. Você acha mesmo que ela se importa com você? Ela é uma manipuladora, igual a mim, talvez até pior. Ela só está brincando com você porque você é um brinquedo novo e quebrado. Ela vai se cansar da sua cara de choro em uma semana e, quando isso acontecer, eu ainda vou estar aqui. E vai ser muito pior.

Ivan deu um passo atrás, ajeitando o colarinho do seu próprio uniforme impecável.

— Aproveite seu "escudo" enquanto ele dura — disse ele, caminhando até a porta. — Mas não se esqueça de quem você é quando as luzes se apagam e ela não está por perto.

Ele saiu, batendo a porta com força.

Sua desabou na cadeira, o coração martelando contra as costelas. Ela estava tremendo, uma reação tardia à adrenalina, mas havia um sorriso minúsculo e trêmulo em seus lábios. Ela tinha enfrentado Ivan. Ela tinha usado o nome de Mizi como uma arma, e a arma tinha funcionado.

Ela se deitou na cama, fechando os olhos, e imediatamente sua mente a levou de volta para o quarto de hóspedes da festa. Ela conseguia sentir o cheiro de morango de Mizi, o peso das pernas dela sobre as suas, a sensação avassaladora de ser preenchida e dominada de uma forma que não a diminuía, mas a fazia sentir-se viva. O prazer que Mizi lhe proporcionara era algo que ela nunca imaginou existir — uma explosão de cores e sensações que abafava o cinza de sua rotina. Ela tocou o próprio pescoço, sentindo a marca sob o tecido da blusa, e dormiu com a sensação de que, pela primeira vez, não estava sozinha no escuro.

***

A manhã de segunda-feira na Anakt High School era, como sempre, barulhenta e caótica. O sinal para o primeiro horário já havia batido há cinco minutos, e os alunos se acomodavam em suas classes.

Sua estava sentada em sua classe habitual, no fundo da sala. Ela olhava fixamente para a porta, a ansiedade crescendo a cada segundo. A cadeira ao lado de Hyuna, onde Mizi geralmente se sentava para jogar conversa fora, estava vazia.

Dez minutos se passaram. Quinze.

Sua sentiu um aperto no peito. "Ivan tinha razão?", ela pensou, o pessimismo voltando a rastejar por sua mente. "Ela se cansou? Foi só uma brincadeira de uma noite?".

Ivan, sentado algumas fileiras à frente, virou-se levemente. Ele não precisou dizer nada. O olhar que ele lançou para Sua era carregado de um "eu avisei" silencioso, um brilho de satisfação cruel por ver a irmã voltando ao estado de desamparo. Ele deu um sorriso de canto, voltando a prestar atenção na aula de história, enquanto Sua sentia vontade de desaparecer.

Hyuna também parecia preocupada, olhando para o relógio e depois para a porta, trocando um olhar confuso com Luka, que apenas deu de ombros, concentrado em suas anotações.

O mundo de Sua parecia estar desmoronando novamente. A coragem que ela sentira na noite anterior estava se esvaindo, substituída pela velha e conhecida sensação de ser descartável.

Então, a porta da sala se abriu com um estrondo suave.

— Desculpe o atraso, professor! — A voz doce e melodiosa de Mizi preencheu o ambiente. — O despertador resolveu tirar o dia de folga e eu acabei me perdendo no tempo!

Mizi entrou na sala com seu habitual andar saltitante, os cabelos rosa brilhando sob as luzes fluorescentes. Ela usava um sorriso radiante, a máscara de perfeição e alegria firmemente no lugar.

O professor resmungou algo sobre pontualidade, mas Mizi apenas riu, pedindo desculpas novamente com um jeitinho que fazia qualquer um relevar sua falta.

Enquanto caminhava para o seu lugar, Mizi passou pela mesa de Sua. Ela não parou, mas sua mão deslizou rapidamente pelo ombro de Sua, um toque firme e possessivo que durou apenas um segundo, mas que enviou uma onda de calor por todo o corpo da garota de cabelos pretos.

Mizi sentou-se e, antes de abrir o caderno, virou-se para trás, piscando um dos olhos dourados para Sua. Não era o piscar de uma amiga; era o sinal secreto de quem compartilhava um abismo.

Sua soltou a respiração que nem sabia que estava prendendo. Ela olhou para a nuca de Ivan e percebeu que ele estava rígido, a caneta apertada com força excessiva entre os dedos.

O escudo tinha chegado. E ele era mais brilhante e perigoso do que qualquer um ali poderia imaginar.

***

**Opções de continuação:**

1. **O Plano de Mizi:** Durante o intervalo, Mizi chama Sua para um canto e revela que o atraso foi proposital, apenas para testar a reação de Ivan e dar a Sua uma lição sobre "esperar pelo prêmio".

2. **A Suspeita de Hyuna:** Hyuna percebe a troca de olhares e o toque de Mizi em Sua e decide confrontar Mizi no banheiro, questionando se ela está usando Sua para algum jogo doentio contra Ivan.

3. **Provocação no Refeitório:** Mizi decide testar a paciência de Ivan publicamente, agindo de forma extremamente íntima com Sua na frente de todo o grupo, forçando Ivan a um ponto de ruptura.

4. **POV de Ivan:** Um capítulo focado na mente de Ivan, mostrando como a perda de controle sobre Sua está afetando sua sanidade e como ele planeja "eliminar" a influência de Mizi sobre a irmã.