Distorção
Doce Veneno e o Jogo da Abstinência
— Pelo amor de Deus, Hyuna! — Mizi soltou uma risada cristalina, jogando a cabeça para trás como se tivesse acabado de ouvir a piada mais engraçada do ano. — Você e essa sua imaginação fértil. Bebeu o quê no almoço? Suco de alucinógeno?
O refeitório parecia ter congelado por um milésimo de segundo. O olhar de Ivan era uma lâmina, mas Mizi, com a maestria de uma cirurgiã, começou a costurar a realidade de volta ao seu estado de mentira conveniente. Ela soltou a cintura de Sua com uma naturalidade desconcertante e enfiou a mão no bolso do casaco, puxando um par de fones de ouvido brancos.
— Aqui, ó. A Sua me ajudou a achar perto dos armários da diretoria, como eu disse. — Mizi balançou os fones na frente do rosto de Hyuna, que piscava atordoada, confusa com a mudança brusca de tom. — O que aconteceu na festa foi só... o efeito do álcool, gente. Um momento de loucura, todo mundo tem. A Sua estava mal, eu estava animada demais, e a gente acabou se empolgando. Coisa de uma noite. Não é, Sua?
Sua sentiu o estômago dar um nó. A palavra "momento" ecoava de forma vazia. Ela olhou para Mizi e viu apenas a máscara: a garota boba, a amiga prestativa, a pessoa que não tinha profundidade. Era uma atuação perfeita.
— É... — Sua forçou as palavras a saírem. — Foi só o álcool. A Hyuna entendeu tudo errado.
Ivan estreitou os olhos. Ele não acreditava, mas a explicação de Mizi era boa o suficiente para que ele não pudesse desmenti-la sem parecer um louco obsessivo na frente do grupo. Ele deu uma última olhada para a marca no pescoço de Sua — que Mizi fizera questão de deixar exposta minutos antes — e voltou a comer seu chocolate, embora o movimento de sua mandíbula fosse tenso.
— Que seja — murmurou Ivan, a voz gélida. — Controle-se mais da próxima vez, Sua. Você já dá trabalho demais só por existir.
O restante do dia passou como um borrão cinzento. Mizi não procurou Sua novamente, agindo como se elas fossem apenas conhecidas distantes. Aquela indiferença doía mais em Sua do que os insultos de Ivan.
À noite, o silêncio na casa dos irmãos era absoluto. Para a surpresa de Sua, Ivan nem sequer passou perto da porta de seu quarto. Talvez ele estivesse processando a nova ameaça que Mizi representava, ou talvez estivesse apenas planejando algo pior para o futuro. Sua aproveitou a trégua inesperada para deitar-se e trocar mensagens com Hyuna.
"Me desculpa mesmo, Sua! Eu juro que não queria causar confusão, mas a Mizi é tão convincente que eu achei que era sério", escreveu Hyuna.
"Tudo bem, Hyuna. No fundo, ela tem razão. Foi só um momento", Sua mentiu para a tela do celular, sentindo uma lágrima solitária escorrer. Ela sabia que para Mizi podia ser um jogo, mas para ela, aquele toque era a única coisa que a mantinha sã.
Na manhã de terça-feira, o celular de Sua vibrou às seis da manhã. Era uma mensagem de um número desconhecido, mas ela sabia instantaneamente de quem era.
"Não vá à escola hoje. Diga ao seu irmão que você está passando mal e não vai ceder. Fique em casa até eles saírem. Depois, venha para este endereço."
Sua sentiu o coração disparar. Logo em seguida, uma localização foi enviada. Era um bairro nobre, longe dali.
Quando Ivan bateu na porta dela minutos depois, exigindo que ela se levantasse, Sua sentiu o peso da autoridade dele esmagando seu peito.
— Levanta, Sua. Não vou chegar atrasado por sua causa. — A voz dele era impaciente.
— Eu não vou — disse Sua, a voz firme, embora estivesse escondida sob o cobertor. — Estou passando mal. Não vou à aula hoje.
Houve um silêncio pesado do outro lado da porta. Sua esperou que ele arrombasse a entrada, que gritasse, que a arrastasse pelos cabelos. Ivan sempre mandava nela. Ele era o mestre, ela era a sombra.
— Você acha que manda em alguma coisa? — Ivan riu, um som sem humor. — Abre essa porta agora.
— Não. Eu não vou. E se você tentar me obrigar, eu vou ligar para a Mizi agora mesmo. — Foi um blefe desesperado, mas funcionou.
O silêncio que se seguiu foi gélido. Ivan não disse mais nada. Sua ouviu os passos dele se afastando e, pouco depois, o som do carro saindo da garagem. O pai já tinha viajado na noite anterior para uma de suas reuniões de negócios, e a mãe saíra cedo para as compras semanais. A casa estava vazia.
Sua levantou-se rapidamente. Ela não se sentia doente; ela se sentia elétrica. Vestiu uma roupa simples, pegou um táxi e deu o endereço que Mizi enviara.
A casa de Mizi era uma construção suburbana impecável, com um jardim bem cuidado e janelas amplas. Quando Sua tocou a campainha, Mizi abriu a porta vestindo um roupão de seda rosa claro, o cabelo levemente bagunçado e um pirulito na boca.
— Você veio — disse Mizi, dando espaço para ela entrar. O sorriso era o verdadeiro: frio, calculista e terrivelmente atraente. — Ponto para você, Sua. Está aprendendo a desobedecer.
A casa era silenciosa e cheirava a baunilha e produtos de limpeza caros. Mizi a levou para a sala de estar, onde uma TV enorme exibia um filme de romance antigo em preto e branco. Havia uma mesa de centro repleta de doces: macarons, cupcakes, balas coloridas e chocolates finos.
— Vamos aproveitar o dia — anunciou Mizi, jogando-se no sofá e pegando um macaron roxo. — Comer doces, conversar, ver filmes... o que adolescentes normais fazem quando matam aula, certo?
Sua sentou-se ao lado dela, sentindo a tensão em seus ombros. Ela esperava que, assim que a porta se fechasse, Mizi a tomasse nos braços como fizera na sala da diretora. Ela queria sentir aquela urgência de novo, aquela dor que se transformava em prazer.
Mas Mizi parecia não ter pressa nenhuma.
— Você viu a cara do Ivan hoje? — Mizi perguntou, rindo enquanto mastigava. — Ele deve estar espumando de raiva na aula de matemática. É divertido ver como ele perde o controle quando você para de ser a bonequinha obediente dele.
— Ele disse que você só está brincando comigo — sussurrou Sua, olhando para as próprias mãos.
— E ele está errado? — Mizi virou-se para ela, os olhos dourados brilhando. — A vida é um jogo, Sua. Mas eu jogo muito melhor que ele.
As horas passavam e a frustração de Sua crescia. Mizi falava sobre coisas triviais, comentava sobre o filme, oferecia doces e até ria de algumas cenas, mas não fazia menção de tocá-la. Sempre que Sua tentava se aproximar, Mizi se levantava para pegar mais água ou para trocar o filme, mantendo uma distância milimetricamente calculada.
Mizi sabia exatamente o que estava fazendo. Ela via o modo como Sua a olhava, via como a respiração da outra garota falhava sempre que seus ombros se roçavam "acidentalmente". Ela estava cultivando a fome de Sua, transformando-a em um vício.
— Mizi... — Sua finalmente sussurrou, quando o terceiro filme começou. Ela se inclinou, sua mão tocando o joelho de Mizi. — Por que estamos fazendo isso?
— Vendo filmes? É relaxante — respondeu Mizi, sem desviar os olhos da tela.
— Você sabe do que eu estou falando. Ontem... na escola... você disse que não me deixaria ir.
Mizi finalmente olhou para ela. Ela retirou o pirulito da boca com uma lentidão torturante e inclinou-se para frente, o rosto a poucos centímetros do de Sua.
— Ontem foi ontem, Sua. Hoje eu só queria companhia para comer doces. Você não gosta de macarons?
Sua sentiu as lágrimas de frustração queimarem seus olhos. Ela se sentia patética, desfazendo-se na frente de Mizi, implorando silenciosamente por algo que a outra garota parecia estar negando apenas por diversão.
— Eu não quero doces, Mizi — Sua disse, a voz trêmula. — Eu quero... eu quero que você me toque. Do jeito que fez ontem.
Mizi deu um sorriso pequeno e cruel. Ela estendeu a mão e acariciou o rosto de Sua, o polegar traçando o lábio inferior da garota de cabelos pretos.
— Você é tão impaciente. O Ivan te deixou tão carente de atenção que você aceita qualquer migalha que eu te dou, não é?
— Não é isso... — Sua tentou protestar, mas Mizi a calou com um dedo sobre os lábios.
— É exatamente isso. Você quer que eu preencha o vazio que eles deixaram. Mas eu não sou uma caridade, Sua. Eu sou um vício. E viciados precisam aprender a esperar pela dose.
Mizi levantou-se e caminhou até a cozinha, deixando Sua sozinha no sofá, o corpo vibrando de um desejo não resolvido que beirava a agonia física. Sua olhou para a própria mão, a mesma que Mizi segurara na festa, e percebeu que Ivan estava certo sobre uma coisa: Mizi era muito mais perigosa.
Ivan machucava o corpo e a mente para manter o controle. Mizi... Mizi oferecia o paraíso e depois trancava a porta, fazendo Sua implorar para entrar.
Minutos depois, Mizi voltou com duas taças de sorvete de morango. Ela entregou uma para Sua e sentou-se novamente, mas desta vez, ela puxou Sua para que deitasse a cabeça em seu colo.
— Coma o sorvete — ordenou Mizi, seus dedos começando a acariciar os cabelos pretos de Sua com uma ternura que parecia real, mas que Sua sabia ser apenas mais uma camada da máscara. — Se você for uma boa menina e terminar tudo, talvez eu decida te dar um prêmio antes do seu irmão chegar em casa.
Sua obedeceu. Ela comeu o sorvete, sentindo o gelado descer por sua garganta enquanto o calor da mão de Mizi em sua cabeça a mantinha presa naquele momento. Ela odiava o quanto dependia daquilo. Odiava o fato de que Mizi a via como um experimento, uma peça de tabuleiro.
Mas, enquanto ouvia o bater do coração de Mizi sob o roupão de seda, Sua percebeu que preferia ser o brinquedo de Mizi do que a vítima de Ivan. Pelo menos, com Mizi, a dor vinha acompanhada de um gosto doce.
— Mizi? — chamou Sua, com a voz abafada pelo tecido do roupão.
— Hum?
— Você... você realmente vai me proteger dele?
Mizi parou de acariciar o cabelo dela por um segundo. Seus olhos dourados perderam o brilho de diversão, tornando-se algo muito mais profundo e sombrio.
— O Ivan é um amador, Sua. Ele acha que o medo é a única forma de posse. Ele não entende que a possessão real acontece quando a pessoa não quer mais ser livre. — Mizi inclinou-se e beijou o topo da cabeça de Sua. — Ele não vai mais te machucar. Não porque eu sou uma heroína, mas porque eu não divido minhas coisas com ninguém. Especialmente com gente como ele.
Sua fechou os olhos, sentindo uma segurança doentia envolver seu coração. Ela estava trocando um tipo de prisão por outro, um labirinto de espelhos onde Mizi era a única saída.
— Agora — Mizi sussurrou, sua mão descendo do cabelo de Sua para a gola de sua blusa —, vamos ver se você realmente merece aquele prêmio que eu mencionei.
Mizi desamarrou o próprio roupão com uma mão, enquanto a outra puxava Sua para cima, eliminando qualquer distância. O filme na TV continuava rodando, as luzes da tarde filtradas pelas cortinas criando sombras longas na sala, mas para Sua, o mundo tinha se reduzido ao toque de Mizi e ao gosto metálico daquela liberdade manipulada.
Ela sabia que, no dia seguinte, teria que encarar Ivan. Teria que encarar os olhares de Hyuna e a rotina sufocante da escola. Mas ali, naquela sala silenciosa, ela era a escolhida de Mizi. E isso, por enquanto, era o suficiente para fazê-la esquecer todas as feridas que ainda não haviam cicatrizado.