Duas
Entre o Silêncio e o Grito
O estúdio de tatuagem era o único lugar onde Emanuel sentia que as rédeas do mundo estavam em suas mãos. Ali, entre o zumbido das máquinas e o cheiro de álcool isopropílico, ele era o mestre. Mas, ao cruzar a soleira de seu tríplex naquela noite de terça-feira, ele soube, pelo simples peso do ar, que sua autoridade terminava na maçaneta da porta.
Ele jogou as chaves sobre o aparador de mármore e soltou o nó da gravata, fechando os olhos por um segundo. O silêncio era traiçoeiro; era o prelúdio de uma tempestade que tinha dois nomes, dois cheiros e duas vontades diametralmente opostas.
— Emanuel! Finalmente! — O grito de Sara veio da sala de cinema particular, seguido pelo som abafado de explosões vindas das caixas de som de última geração.
Ele caminhou até lá e encontrou o cenário de guerra habitual. Sara estava jogada na poltrona de couro, vestindo um conjunto de seda curto que deixava suas pernas bronzeadas e torneadas à mostra. Na tela de oitenta polegadas, um filme de ação frenético exibia carros voando e tiroteios ensurdecedores. Do outro lado da sala, encolhida no canto do sofá com uma manta de tricô, Eduarda parecia um fantasma de melancolia, com os fones de ouvido pressionados contra as orelhas e os olhos vermelhos.
— Desliga essa porcaria, Sara! — Emanuel rosnou, pegando o controle remoto e silenciando o sistema. — Eu passei dez horas ouvindo barulho de agulha. Eu quero paz.
— Paz? — Sara levantou-se como uma mola, os seios siliconados balançando sob o tecido fino. — Eu estou tentando ver o novo filme do John Wick há duas horas, mas a "Princesa do Drama" ali decidiu que hoje é noite de maratona de Jane Austen. Ela está chorando porque o Sr. Darcy não deu bom dia!
Eduarda tirou os fones devagar, os lábios tremendo enquanto olhava para Emanuel com aquela expressão de desamparo que costumava derreter sua resistência.
— Eu só queria algo tranquilo, Emanuel... — sussurrou ela, a voz carregada de uma doçura sofrida. — Minha cabeça dói, e esses filmes da Sara são só violência e gritaria. Eu escolhi "Orgulho e Preconceito" porque achei que poderíamos assistir juntos, como um casal... mas ela começou a berrar que era filme de velha.
— Porque é! — Sara rebateu, cruzando os braços. — Emanuel, você é um homem de verdade, porra. Você gosta de adrenalina. Não vai querer ficar sentado vendo gente de peruca tomando chá, vai?
Emanuel sentiu uma veia latejar em sua têmpora. Ele olhou de uma para a outra. Eduarda começou a fungar, escondendo o rosto na manta, enquanto Sara batia o pé no chão, desafiando-o com o olhar.
— Chega de filme. Nenhum dos dois — Emanuel decretou, jogando o controle no sofá. — Eu vou pedir o jantar.
— Pizza! — as duas gritaram em uníssono, mas a concordância parou por aí.
— Eu quero de calabresa, bem apimentada, com borda recheada de cheddar — Sara disparou, já pegando o celular dele. — E muita cebola.
— Credo, Sara... que vulgar — Eduarda murmurou, saindo debaixo da manta e aproximando-se de Emanuel, abraçando seu braço e esfregando o rosto em seu ombro. — Amor, você sabe que meu estômago é sensível. Pede de milho com queijo, aquela bem suave e docinha... e sem cebola, por favor. O cheiro me dá enjoo.
— Milho com queijo? — Sara soltou uma gargalhada ríspida. — Isso é comida de hospital, Eduarda! Ninguém com sangue nas veias come pizza de milho. Emanuel, pede a de calabresa. Eu estou com fome de verdade, não quero comer mingau assado.
— Emanuel, por favor... — Eduarda fez um biquinho, olhando-o de baixo para cima, os olhos castanhos brilhando com uma camada de lágrimas prontas para cair. — Eu não comi quase nada hoje. Se você pedir a de calabresa, eu não vou conseguir jantar.
Emanuel sentiu-se como um cabo de guerra humano. Sara representava o fogo, a exigência barulhenta, o confronto direto que o irritava, mas o instigava. Eduarda era a água, a manipulação silenciosa, a fragilidade que o obrigava a ser o protetor, mas que o sufocava com sua dependência.
— Eu vou pedir duas pizzas pequenas. Uma de cada — ele resolveu, tentando usar a lógica.
— Não! — Sara protestou. — O sabor da sua vai contaminar a minha se vierem no mesmo entregador. E eu não quero o cheiro de milho na casa.
— E eu não suporto o cheiro de calabresa no quarto se formos comer lá! — Eduarda retrucou, subindo o tom de voz, o que era raro.
Emanuel esfregou o rosto com as duas mãos. O estresse acumulado do dia parecia prestes a explodir. Ele era dono de um império, respeitado em três continentes, mas em sua própria sala de estar, ele não conseguia decidir o sabor de uma pizza sem que uma guerra civil começasse.
— Querem saber? Eu não vou pedir nada — ele disse, a voz perigosamente baixa. — Vocês que se virem com a cozinha. Eu vou tomar um banho.
Ele caminhou em direção ao quarto, mas elas o seguiram como sombras persistentes.
— Emanuel, espera! — Sara o segurou pela camisa. — Precisamos decidir a viagem do mês que vem. Eu já olhei as passagens para Ibiza. As melhores boates, as festas nos iates... vai ser épico. Eu preciso de diversão, de gente, de barulho!
— Ibiza? — Eduarda parou na porta do quarto, horrorizada. — Emanuel, você prometeu que iríamos para a Toscana. Visitar as vilas históricas, os museus, as vinícolas... um lugar calmo, onde possamos caminhar de mãos dadas sem música eletrônica estourando nossos ouvidos.
— Toscana é lugar de aposentado, Eduarda! — Sara virou-se para ela, os olhos faiscando. — Você quer enterrar o Emanuel vivo? Ele é um artista, ele precisa de inspiração, de vida, de carne!
— Ele precisa de descanso! — Eduarda rebateu, aproximando-se e segurando a outra mão de Emanuel. — Você só pensa em você, Sara. Só pensa em se exibir nessas festas vulgares. Emanuel quer paz, não quer? Diz para ela, amor. Diz que você prefere o silêncio das colinas italianas.
Emanuel parou no meio do quarto, com uma mulher pendurada em cada braço. O contraste era quase cômico se não fosse trágico. Sara, com seu perfume importado forte e sua postura de ataque; Eduarda, com seu cheiro de sabonete de bebê e seu jeito manhoso de se apoiar nele.
— Vocês não param? — Emanuel perguntou, a voz subindo de volume. — É todo dia a mesma coisa! Filme, comida, viagem... vocês não conseguem ceder um milímetro uma pela outra?
— Eu cedo o tempo todo! — Sara gritou. — Eu aguento essa mosca-morta chorando pelos cantos o dia inteiro!
— Você não cede nada! — Eduarda gritou de volta, surpreendendo a ambos. — Você ocupa todo o espaço, você grita, você impõe tudo! Eu só quero um pouco de carinho e tranquilidade!
Eduarda começou a soluçar de verdade agora, cobrindo o rosto com as mãos e deixando o corpo amolecer contra Emanuel. Era o seu golpe de mestre. Ela sabia que ele não suportava vê-la desmoronar.
— Ah, lá vem ela! — Sara revirou os olhos, bufando. — O prêmio de melhor atriz vai para...
— Cala a boca, Sara! — Emanuel explodiu, fazendo ambas saltarem de susto. — Basta! Eu estou exausto. Eu trabalho doze horas por dia para sustentar esse luxo, para dar a vocês tudo o que querem, e quando chego em casa, encontro duas crianças mimadas brigando por causa de milho e calabresa!
O silêncio caiu sobre o quarto, pesado e desconfortável. Emanuel respirava com dificuldade, a fúria evidente em seus ombros tensos.
— Eu vou para o escritório — ele disse, sua voz agora fria como gelo. — Não quero ser interrompido. Se eu ouvir um grito, uma reclamação ou um soluço, eu juro que mando cancelar Ibiza, Toscana e a porra da pizza.
Ele deu as costas e saiu, batendo a porta com força suficiente para fazer os quadros na parede tremerem.
Sara e Eduarda ficaram sozinhas no quarto. Por um momento, a rivalidade foi substituída por um choque mútuo. Emanuel raramente perdia o controle daquela forma.
— Viu o que você fez? — Sara sibilou, mas sem gritar desta vez. — Deixou ele louco com esse seu choro de cadela ferida.
— Eu? Foi você com essa sua mania de querer tudo do seu jeito barulhento! — Eduarda retrucou, limpando as lágrimas com as costas da mão, o olhar agora afiado.
Elas se encararam por longos segundos. O ódio era real, palpável, mas havia algo mais ali — uma compreensão silenciosa de que, se continuassem puxando a corda, ela acabaria arrebentando no pescoço delas.
— Ele não vai sair do escritório tão cedo — Sara comentou, sentando-se na beirada da cama e cruzando as pernas. — E eu estou morrendo de fome.
Eduarda suspirou, sentando-se na outra extremidade da cama king-size.
— Eu também.
— Metade milho, metade calabresa? — Sara sugeriu, com um sorriso de canto que não chegava aos olhos.
Eduarda hesitou, olhando para a porta fechada do corredor.
— E a cebola?
— Eu peço para colocarem só no meu lado, sua chata. E a gente come na cozinha para não deixar cheiro no quarto.
— Tudo bem — Eduarda concordou, a voz voltando ao tom manhoso. — Mas eu escolho o filme depois. Algo neutro. Um documentário sobre a natureza, talvez?
— Documentário? Nem morta. Vamos ver um suspense. Tem crime, tem mistério, ninguém morre de tédio e ninguém precisa ver gente de peruca.
— Suspense... — Eduarda ponderou. — Se não tiver muito sangue, eu aceito.
Sara pegou o celular e fez o pedido. Elas ficaram ali, em um silêncio tenso, cada uma em seu canto da cama, como dois generais planejando o próximo passo de uma guerra fria.
Duas horas depois, Emanuel saiu do escritório. A casa estava estranhamente silenciosa. Ele caminhou até a cozinha e parou na porta.
As duas estavam sentadas na ilha de granito. Uma caixa de pizza vazia estava entre elas. Elas não conversavam, mas também não brigavam. Sara estava distraída no Instagram, enquanto Eduarda folheava uma revista de arte.
Ao verem Emanuel, a dinâmica mudou instantaneamente.
— Amor! — Sara levantou-se, caminhando até ele com seu rebolado provocante e passando os braços pelo pescoço dele. — Desculpa pela gritaria. Eu estava estressada, sabe como eu fico quando não como...
— Emanuel... — Eduarda aproximou-se pelo outro lado, deslizando a mão pelo peito dele, o olhar suplicante e doce. — Eu não queria te irritar. Eu só sinto tanto a sua falta quando você está fora que fico sensível demais.
Ele olhou para as duas. Elas eram manipuladoras, cada uma à sua maneira. Eram o caos que ele escolhera para sua vida. Ele sabia que aquela trégua duraria apenas até o próximo dilema — provavelmente sobre a cor dos lençóis ou o destino do final de semana —, mas, naquele momento, o silêncio era uma vitória.
— Vocês comeram? — ele perguntou, a voz ainda cansada.
— Sim — respondeu Eduarda, aninhando-se nele. — Estava... aceitável.
— Foi horrível — Sara sussurrou no ouvido dele, mordendo o lóbulo de sua orelha. — Mas eu sobrevivi. Agora, acho que você nos deve uma compensação por ter gritado com a gente, não acha?
Emanuel soltou um suspiro, mas seus lábios se curvaram em um sorriso sombrio. Ele as segurou pela cintura, uma de cada lado, sentindo o calor da pele de Sara e a maciez do corpo de Eduarda.
— Vocês não têm jeito — ele murmurou. — Pro quarto. Agora.
— Só se formos para a Toscana no verão — Eduarda disse, fazendo um carinho em sua nuca.
— Ibiza, Emanuel! Não ouça ela! — Sara exclamou, já começando a desabotoar a camisa dele.
Emanuel parou no meio do corredor e olhou para ambas com uma autoridade renovada.
— Nós vamos para a Grécia. Tem história para a Eduarda e boates para a Sara. E se eu ouvir mais uma reclamação sobre o destino, eu vou sozinho para o Japão. Fui claro?
As duas se entreolharam. Não era o que nenhuma das duas queria originalmente, mas era o preço de manter Emanuel sob controle.
— Tudo bem — disseram juntas, embora os olhares que trocaram prometessem que a disputa por quem escolheria o hotel ainda estava longe de terminar.
Emanuel as conduziu para o quarto, sabendo que a noite seria longa. Ele as amava, mas às vezes se perguntava se o seu império de tatuagens não era muito mais fácil de gerenciar do que o coração daquelas duas mulheres. Entre o silêncio de uma e o grito da outra, ele encontrava o seu equilíbrio — um equilíbrio precário, barulhento e viciante, do qual ele não tinha a menor intenção de escapar.