Voltar ao resumo

Duas

O Veneno na Mesa de Jantar

O som da campainha ecoou pelo tríplex como um gongo de guerra. Emanuel, que terminava de ajustar o relógio no pulso, sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado central. Ele conhecia aquele toque: persistente, rítmico e autoritário. Era o toque de Dona Margarida.

Sua mãe não era apenas uma mulher rica e conservadora; ela era a personificação da etiqueta e do julgamento silencioso. E ela estava ali, três horas antes do combinado, para o jantar que Emanuel vinha adiando há meses.

— Emanuel, querido! — exclamou a mulher assim que a porta se abriu, entrando no recinto com a elegância de uma rainha exilada e o cheiro inconfundível de Chanel nº 5. — Que bom que você está em casa. O trânsito estava divino, decidi vir mais cedo.

— Mãe, você sabe que eu ainda estava terminando algumas ligações — disse Emanuel, inclinando-se para beijar a face da mulher. — Mas seja bem-vinda.

Nesse momento, o som de saltos altos batendo no porcelanato anunciou a chegada das namoradas. Sara vinha na frente, usando um mini vestido de cetim dourado que parecia mais uma segunda pele do que uma vestimenta, realçando cada milímetro de seus seios siliconados e pernas torneadas. Logo atrás, Eduarda caminhava com passos curtos, vestindo um vestido de tricô bege, discreto e recatado, com o cabelo castanho preso em um coque frouxo.

Dona Margarida parou no meio da sala. Seus olhos, afiados como bisturis, percorreram Sara de cima a baixo. O lábio superior da matriarca curvou-se em um milímetro de puro desprezo.

— Boa noite, Dona Margarida! — disse Sara, com uma voz projetada e um sorriso largo, estendendo a mão com as unhas longas e pintadas de um dourado cintilante. — Que prazer ter a senhora aqui. O Emanuel fala... bom, ele fala de você às vezes.

A mãe de Emanuel ignorou a mão estendida de Sara e voltou sua atenção para Eduarda, que permanecia em silêncio, com as mãos entrelaçadas à frente do corpo.

— Eduarda, minha querida — disse Margarida, ignorando Sara completamente e segurando as mãos de Eduarda com um carinho que parecia genuíno. — Como você está linda. Tão serena, tão... adequada. É um alívio ver que meu filho ainda mantém algum bom gosto por perto.

Eduarda sentiu o rosto corar, um sorriso tímido surgindo em seus lábios.

— Obrigada, Dona Margarida. É uma honra recebê-la. Eu... eu preparei o arranjo de mesa com as flores que a senhora gosta.

— Eu notei — respondeu a matriarca, lançando um olhar de soslaio para Sara, que estava com o rosto vermelho de raiva. — Algumas pessoas nasceram com classe, outras tentam comprá-la em clínicas de estética, mas o resultado é sempre... ruidoso.

— O que a senhora quis dizer com isso? — disparou Sara, cruzando os braços sob os seios fartos, o que só fez o decote parecer ainda mais agressivo.

— Sara, por favor — Emanuel interveio, sentindo a tensão subir. — Vamos para a sala de jantar. O buffet já deve estar chegando.

O jantar foi um exercício de tortura psicológica. Emanuel sentou-se na cabeceira, com sua mãe à direita e as duas namoradas à esquerda. Eduarda sentou-se mais perto de Margarida, enquanto Sara ficou na ponta oposta, bufando a cada comentário da sogra.

— Sabe, Emanuel — começou Margarida, cortando o filé com uma precisão cirúrgica —, eu soube que você abriu um novo estúdio em Miami. Fico feliz que os negócios estejam indo bem, apesar desse ambiente... exótico em que você vive.

— É um investimento sólido, mãe — respondeu Emanuel, bebendo um gole de vinho tinto.

— É maravilhoso! — interrompeu Sara, batendo a taça na mesa. — Eu já disse ao Manu que precisamos passar o verão lá. As festas em South Beach são o meu número. Muita gente bonita, champanhe e diversão.

Margarida pousou os talheres lentamente. O silêncio que se seguiu foi gélido.

— "Manu"? — repetiu a mulher, como se a palavra fosse um insulto à língua portuguesa. — Minha jovem, o fato de você estar ocupando um espaço nesta casa não lhe dá o direito de mutilar o nome do meu filho. E quanto a Miami... tenho certeza de que Emanuel prefere a companhia de pessoas que saibam distinguir um evento social de um carnaval de rua.

— Escuta aqui, Dona Margarida — Sara inclinou-se para frente, a voz subindo de tom —, eu sei que a senhora prefere essa mosca-morta da Eduarda porque ela abaixa a cabeça para tudo o que a senhora diz. Mas eu não sou de ferro. Eu sou a mulher que anima a vida do seu filho, enquanto ela só serve para decorar o sofá e choramingar.

— Você é uma vulgar, isso sim — retrucou Margarida, a voz baixa e letal. — Olhe para você. Esse cabelo, essa... arquitetura corporal artificial. Você exala falta de berço, minha querida. É uma distração passageira para um homem como o Emanuel, nada mais.

— Distração passageira? — Sara soltou uma risada estridente e amarga. — Eu sou o que ele quer quando as luzes se apagam. Pergunte a ele se ele prefere o meu "corpo artificial" ou a timidez sem graça dessa sonsa que nem consegue sustentar um olhar!

Eduarda, que até então estava quietinha, apenas observando o prato, deixou escapar um soluço baixo. Uma lágrima solitária rolou por seu rosto pálido.

— Eu não fiz nada para você, Sara... — sussurrou Eduarda, a voz embargada. — Eu só queria que o jantar fosse em paz para o Emanuel e para a mãe dele.

— Oh, minha querida, não chore — disse Margarida, estendendo a mão para acariciar o ombro de Eduarda. — É natural que você se sinta acuada diante de tamanha falta de educação. Nem todos fomos criados entre pessoas civilizadas.

— Chega! — gritou Sara, levantando-se da cadeira com tanta força que ela quase tombou. — Eu não vou ficar aqui sendo insultada por uma velha amarga e uma garotinha manipuladora! Emanuel, você não vai dizer nada? Vai deixar sua mãe me chamar de puta na sua cara?

Emanuel massageou as têmporas. Ele estava no centro de um incêndio. De um lado, a lealdade e o respeito que devia à mãe; do outro, a paixão vulcânica e o temperamento de Sara; e no meio, a fragilidade de Eduarda que o obrigava a ser o herói.

— Sara, sente-se agora — ordenou Emanuel, a voz carregada de uma autoridade sombria. — Mãe, você está sendo desnecessariamente agressiva. A Sara faz parte da minha vida, quer você goste ou não.

— Faz parte da sua vida como um erro de percurso, Emanuel — Margarida levantou-se também, mantendo a postura impecável. — Eu não vim até aqui para ser tratada com desrespeito por uma mulher que claramente não sabe o seu lugar.

— Meu lugar é na cama dele, sua velha! — berrou Sara, o rosto transformado pela fúria. — E é lá que eu mando! Ele pode até gostar da carinha de santa da Eduarda para apresentar para a mamãe, mas é de mim que ele precisa quando o sangue esquenta!

Margarida empalideceu de choque diante da crueza de Sara. Eduarda, aproveitando o caos, levantou-se e caminhou até Emanuel, abraçando-o por trás e escondendo o rosto em suas costas, tremendo levemente.

— Emanuel, eu estou com medo... — murmurou Eduarda, a voz abafada. — Por favor, faz elas pararem.

— Você está com medo? — Sara riu, apontando o dedo para Eduarda. — Você é uma gênio, sabia? Usa esse seu silêncio para fazer todo mundo parecer vilão. Mas eu não caio nessa! Emanuel, ou essa velha pede desculpas, ou eu saio desta casa agora!

— Pois saia! — retrucou Margarida. — Seria o maior presente que você poderia dar a esta família.

— Mãe, basta! — Emanuel levantou-se, soltando-se delicadamente de Eduarda. — Eu não sou mais um menino. Se você não consegue respeitar as mulheres que eu escolhi, talvez seja melhor terminarmos este jantar em outro momento.

Margarida olhou para o filho como se ele tivesse acabado de lhe dar um tapa. Ela pegou sua bolsa de grife, lançando um último olhar de puro veneno para Sara e um de compaixão para Eduarda.

— Você está cego, Emanuel. Cego pelo brilho barato desse silicone e pela manipulação dessa menina — Margarida caminhou até a porta. — Quando você acordar e perceber que sua casa se tornou um circo, não diga que não avisei.

A porta bateu com um estrondo. O silêncio que se seguiu na sala de jantar era denso, carregado de adrenalina e ressentimento. Sara ainda respirava pesadamente, com as narinas dilatadas.

— Finalmente aquela bruxa foi embora — disse Sara, tentando recuperar a pose, mas sua voz ainda tremia de raiva. — Você viu como ela me tratou? Ela me odeia porque eu sou autêntica, Emanuel!

— Você foi vulgar, Sara — disse Emanuel, voltando-se para ela com um olhar que a fez recuar um passo. — Você desrespeitou minha mãe na minha casa.

— Ela começou! — Sara retrucou, mas o tom agora era defensivo. — Ela me chamou de tudo quanto é nome sem usar as palavras! E essa aí... — ela apontou para Eduarda — ...ficou lá, fazendo papel de vítima para ganhar pontos!

Eduarda aproximou-se de Emanuel, os olhos grandes e úmidos, a expressão de quem acabara de sobreviver a um trauma.

— Eu só não queria brigar... — disse Eduarda, a voz manhosa, tocando o braço de Emanuel com as pontas dos dedos. — Minhas mãos ainda estão tremendo. Ela foi tão ruim com a Dona Margarida, Emanuel. Sua mãe só queria te proteger.

— Viu? Viu só? — Sara gritou, gesticulando freneticamente. — Ela faz de propósito! Ela joga lenha na fogueira com essa voz de anjo!

Emanuel sentiu a exaustão tomar conta de seus ossos. Ele olhou para Sara, tão vibrante e agressiva, e para Eduarda, tão suave e dependente. O conflito entre elas era o motor que mantinha sua vida em um estado de tensão constante, e, paradoxalmente, era o que o atraía.

— Eu não quero ouvir mais uma palavra sobre minha mãe — Emanuel sentenciou, segurando o braço de Sara com firmeza e puxando Eduarda para perto com o outro braço. — As duas passaram dos limites hoje. A Sara pela boca, e a Eduarda pelo silêncio manipulador.

— Eu não manipulei nada! — protestou Eduarda, fazendo um biquinho.

— Shhh — Emanuel a calou com um olhar. — Agora, vocês duas vão para o quarto. Eu estou com uma dor de cabeça infernal e a única coisa que vai resolver é ter vocês duas caladas e sob o meu controle.

Sara deu um sorriso malicioso, a raiva sendo rapidamente substituída pelo desejo de reafirmar seu poder sobre ele.

— Vai ter que me foder com muita força para eu esquecer o que aquela velha disse, Manu — sussurrou ela, roçando o corpo no dele.

— E eu... eu preciso de carinho — murmurou Eduarda, abraçando a cintura dele. — Eu tive um dia tão difícil.

Emanuel as conduziu para o quarto principal. O jantar fora um desastre, sua mãe provavelmente não falaria com ele por um mês e o clima na casa estava em frangalhos. Mas, enquanto observava Sara começar a se despir com movimentos impacientes e Eduarda sentar-se na beira da cama com aquele ar de quem precisava ser resgatada, ele soube que o caos estava apenas começando.

— Vocês querem atenção? — Emanuel perguntou, desabotoando a camisa e revelando as tatuagens que cobriam seu peito. — Pois vão ter. Mas do meu jeito.

A noite avançou entre gemidos e provocações sussurradas. Sara fazia questão de ser barulhenta, gritando o nome de Emanuel para que, talvez, o eco chegasse aos ouvidos da sogra em algum lugar da cidade. Eduarda, por sua vez, agarrava-se a ele com uma urgência silenciosa, buscando provar que, embora Sara tivesse a voz, era ela quem possuía a alma dele.

— Ela é tão... básica — provocou Sara, enquanto Emanuel a possuía por trás, forçando-a contra o colchão. — Ela nem sabe o que fazer com você, Emanuel.

— Eu sei... o que ele gosta — arquejou Eduarda, que estava deitada logo à frente, recebendo os beijos de Emanuel em seu pescoço. — Eu não preciso... ser vulgar para ele me querer.

Emanuel não dizia nada. Ele apenas usava o corpo de ambas para purgar a raiva e a frustração do jantar. Ele sentia a rivalidade vibrar entre elas em cada toque, em cada olhar de desdém trocado por cima de seus ombros.

Quando a madrugada finalmente trouxe um pouco de quietude, as duas adormeceram exaustas. Emanuel permaneceu acordado, observando o teto. Ele sabia que o confronto com sua mãe teria consequências, e que a guerra entre Sara e Eduarda nunca teria um fim. Mas ali, naquele quarto, envolto pelo cheiro das duas e pelo silêncio temporário, ele era o único dono da situação. E, para um homem que construíra um império sobre a dor e a beleza das agulhas, aquele caos era o único lar que ele conhecia.