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Duas

Segredos de Algodão e Renda

O sol ainda não havia cruzado a linha do horizonte quando Emanuel começou a se preparar para sua viagem a Londres. O tríplex estava mergulhado em um silêncio raro, quebrado apenas pelo som abafado de suas botas de couro batendo no assoalho e o zumbido distante da geladeira na cozinha gourmet. Ele revisava os documentos em seu tablet, mentalmente organizando a agenda de inauguração de mais um estúdio de tatuagem na Europa, quando sentiu um par de braços finos e delicados envolverem sua cintura por trás.

— Já vai mesmo? — A voz de Eduarda era um sussurro manhoso, carregado daquela sonolência doce que sempre o desarmava. Ela estava vestida com uma camisola de seda branca, o tecido escorregando por seus ombros magros, e o perfume suave de baunilha que emanava de sua pele parecia preencher o vazio da manhã.

— Tenho que ir, pequena — disse Emanuel, virando-se para envolvê-la em um abraço. Ele beijou o topo de sua cabeça, sentindo a maciez dos cabelos castanhos. — São só três dias. Volto antes que você sinta minha falta.

— Eu já estou sentindo — murmurou ela, escondendo o rosto no peito dele, as mãos pequenas apertando o tecido de sua camisa social.

Do outro lado do corredor, a porta do quarto principal se abriu com um estrondo deliberado. Sara apareceu, ostentando um robe de seda vermelha vibrante que mal cobria suas curvas. O cabelo loiro estava perfeitamente bagunçado de forma estratégica, e ela caminhava com uma confiança que parecia vibrar no chão.

— Mas que cena mais patética de despedida — disse Sara, cruzando os braços sob os seios volumosos, fazendo o decote saltar aos olhos. — Parece que ele vai para a guerra, e não para uma reunião de negócios. Deixa o homem trabalhar, Eduarda.

Eduarda se encolheu levemente contra Emanuel, lançando um olhar magoado para a loira.

— Eu só estou me despedindo, Sara. Não tem nada de errado em demonstrar afeto.

— Afeto ou carência desesperada? — Sara soltou uma risada ríspida, aproximando-se de Emanuel e passando a mão de unhas longas e vermelhas pelo rosto dele, ignorando completamente a presença da outra. — Boa viagem, meu amor. Traga algo bem caro de Londres para mim. E não se preocupe, eu vou manter a casa agitada enquanto você não volta para nos colocar na linha.

Emanuel deu um sorriso de canto, sentindo a tensão habitual entre as duas começar a ferver. Ele deu um beijo rápido e possessivo em Sara, sentindo o gosto do gloss de cereja, e depois um beijo terno na testa de Eduarda.

— Comportem-se. Eu não quero receber ligações do zelador reclamando de gritos — avisou ele, pegando seu paletó sobre a poltrona.

Enquanto Emanuel se dirigia à porta, Eduarda correu até ele sob o olhar cético de Sara. Ela se aproximou do paletó dele, fingindo ajustar a gola, mas suas mãos pequenas deslizaram rapidamente para o bolso interno da peça. Com um movimento ágil e praticado, ela depositou algo ali.

— Para você não esquecer de mim — sussurrou ela, com um brilho cúmplice nos olhos.

Emanuel sentiu o volume macio no bolso e um sorriso involuntário surgiu em seus lábios. Ele já sabia o que era. Era um ritual secreto deles. Sempre que ele viajava ou tinha um dia particularmente difícil no estúdio, Eduarda deixava uma de suas calcinhas usadas no bolso dele. Era a marca dela, um segredo que Sara, com toda a sua exuberância e silicone, nunca havia descoberto.

O voo para Londres foi longo, e o fuso horário começou a pesar assim que Emanuel se instalou na suíte presidencial do hotel. O luxo do ambiente era frio comparado ao calor de seu apartamento. Ele se sentou na poltrona de couro, abriu o colarinho da camisa e sentiu o cansaço acumulado. Foi então que ele se lembrou.

Ele enfiou a mão no bolso do paletó e puxou o pequeno pedaço de tecido. Era uma calcinha de algodão simples, de um tom rosa pálido, com uma pequena renda nas bordas. Ao contrário das lingeries provocantes e sintéticas que Sara ostentava, as peças de Eduarda eram sempre macias, confortáveis e imensamente pessoais.

Emanuel levou o tecido ao rosto, fechando os olhos. O aroma o atingiu instantaneamente: era uma mistura do perfume de baunilha dela, o cheiro de sabonete neutro e a fragrância natural e íntima de seu corpo. Ele inalou profundamente, sentindo uma onda de desejo e uma calma estranha percorrerem seu sistema. Aquele cheiro representava a submissão doce de Eduarda, a forma como ela se entregava a ele sem reservas, buscando sua proteção.

— Sonsa... — murmurou ele para si mesmo, um sorriso de satisfação nos lábios. Ele gostava daquela audácia silenciosa dela. Enquanto Sara gritava por atenção, Eduarda se infiltrava em seus sentidos de forma permanente.

Três dias depois, Emanuel retornou. Assim que entrou no tríplex, foi recebido pelo som de música alta. Sara estava na sala, praticando alguma coreografia de um vídeo de internet, usando um top de academia e um short curtíssimo.

— Manu! — Ela correu para ele, pulando em seu colo e envolvendo as pernas em sua cintura. — Que saudade! Londres foi um tédio sem mim, não foi?

— Foi produtivo, Sara — disse ele, segurando-a pelas coxas siliconadas, sentindo o calor do corpo dela.

— Eu senti falta do seu toque — sussurrou ela no ouvido dele, a voz carregada de uma vulgaridade que sempre o incitava. — Vamos para o quarto agora? Eu tenho um conjunto novo de couro que você vai adorar tirar de mim.

Eduarda apareceu na porta da cozinha, segurando uma xícara de chá. Ela parecia mais pálida do que o normal, e seus olhos estavam marejados. Ao ver Sara pendurada em Emanuel, ela baixou o olhar, a expressão de mágoa evidente.

— Oi, Emanuel... — disse ela, a voz quase inaudível. — Que bom que você voltou.

Emanuel colocou Sara no chão, sentindo o peso do conflito recomeçar.

— Oi, pequena. Como foram as coisas por aqui?

— Um inferno! — exclamou Sara, cruzando os braços. — Ela passou o tempo todo trancada no quarto ouvindo músicas tristes e agindo como se você tivesse morrido. É insuportável conviver com alguém tão depressiva.

— Eu não estava depressiva, Sara — Eduarda rebateu, a voz ganhando uma força súbita. — Eu só estava respeitando o espaço da casa, algo que você não sabe fazer com esse barulho todo.

— Espaço da casa? Você é uma morta-viva, Eduarda! — Sara deu um passo à frente, a postura agressiva. — Emanuel precisa de energia, de uma mulher que o faça sentir vivo, não de alguém que parece que vai quebrar se ele apertar um pouco mais forte.

Eduarda caminhou até Emanuel e, ignorando Sara, tocou o bolso do paletó que ele ainda segurava no braço. Ela olhou nos olhos dele, uma pergunta silenciosa em seu semblante.

— Você... você usou? — sussurrou ela.

Emanuel sentiu o sangue pulsar mais rápido. Ele olhou para a calcinha rosa que ainda estava guardada ali, agora um pouco amassada.

— Usei — respondeu ele, a voz rouca. — O tempo todo.

Sara franziu a testa, a desconfiança brilhando em seus olhos loiros.

— Usou o quê? Do que vocês estão falando? Algum segredinho de vocês?

— Nada que te interesse, Sara — disse Eduarda, com um pequeno sorriso vitorioso que raramente exibia.

— Ah, sua cadelinha sonsa! — Sara avançou, mas Emanuel se colocou entre as duas, a mão firme no ombro da loira.

— Chega. Eu acabei de chegar de uma viagem de dez horas. Eu quero um banho e quero as duas no meu quarto em vinte minutos. Sem brigas, sem reclamações.

— Eu vou primeiro — anunciou Sara, lançando um olhar de superioridade para Eduarda. — Vou me preparar para você, Manu. Vou te mostrar o que é uma recepção de verdade.

Ela saiu rebolando em direção ao quarto principal. Eduarda permaneceu parada, olhando para Emanuel.

— Ela me tratou muito mal enquanto você estava fora — murmurou Eduarda, aproximando-se e segurando a mão dele. — Ela disse que você só me mantém aqui por pena, que eu sou um peso morto.

Emanuel suspirou, puxando-a para um abraço apertado.

— Você sabe que não é verdade, Eduarda.

— Então por que você deixa ela falar assim comigo? — Ela olhou para ele, as lágrimas finalmente caindo. — Eu faço tudo por você. Eu te dou tudo de mim.

— Eu sei que dá — disse ele, a mão descendo para a curva de seu quadril. — E eu aprecio cada detalhe. Agora vai se trocar. Quero você de um jeito bem específico hoje.

Vinte minutos depois, o quarto estava mergulhado em uma luz âmbar. Sara já estava na cama, deitada de forma provocante, vestindo o tal conjunto de couro preto que deixava quase tudo à mostra. Ela parecia uma dominatrix pronta para o combate. Eduarda entrou logo depois, vestindo apenas uma camisola de renda transparente, curta o suficiente para mostrar que ela não usava nada por baixo.

— Olha só quem resolveu aparecer — zombou Sara. — Veio ver como se faz, Eduarda?

— Eu vim ficar com o meu homem — retrucou Eduarda, caminhando até o outro lado da cama e sentando-se de joelhos, com a postura submissa que Emanuel adorava.

Emanuel estava de pé, apenas de calça, observando as duas. A tensão sexual no quarto era quase sólida. Ele se aproximou da cama e jogou o paletó sobre a poltrona, mas antes, retirou a calcinha rosa do bolso.

Sara arregalou os olhos ao ver o pedaço de algodão nas mãos de Emanuel.

— O que é isso? — perguntou ela, a voz subindo de tom. — Isso é uma calcinha? De onde saiu isso?

Emanuel não respondeu. Ele levou a peça ao nariz, inalando o cheiro de Eduarda na frente de Sara, um gesto de possessividade e fetiche que fez Eduarda corar intensamente e Sara bufar de fúria.

— É dela, não é? — Sara gritou, sentando-se na cama. — Você levou uma calcinha usada dessa sonsa para Londres? Que nojo, Emanuel! Isso é doentio!

— É o nosso segredo, Sara — disse Eduarda, a voz agora carregada de uma malícia triunfante. — Ele gosta do meu cheiro. Ele gosta de me sentir por perto, mesmo quando não estou lá. Coisa que você, com todo esse perfume caro e esse silicone, nunca vai conseguir dar a ele.

— Sua vadia! — Sara pulou sobre Eduarda, as duas começando a se atracar sobre os lençóis de seda. Era uma confusão de cabelos loiros e castanhos, unhas vermelhas e pele alva.

— Parem! — ordenou Emanuel, sua voz soando como um chicote no ar.

As duas pararam instantaneamente, ofegantes, os corpos entrelaçados em uma luta de poder. Emanuel subiu na cama, posicionando-se entre elas. Ele segurou Sara pelo pescoço com uma mão, sem apertar, apenas para manter o controle, e com a outra mão, puxou Eduarda para perto.

— Vocês querem brigar? — perguntou ele, os olhos brilhando com um desejo sombrio. — Então briguem pela minha atenção agora.

Ele empurrou Sara de costas no colchão e abriu as pernas dela com brutalidade, enquanto puxava Eduarda para que ela sentasse em seu colo, de frente para ele.

— Sara, você reclama da Eduarda, mas morre de inveja do que temos, não é? — disse Emanuel, começando a possuir Eduarda enquanto mantinha os olhos fixos na loira.

— Eu não tenho inveja de nada que venha dela! — arquejou Sara, as mãos apertando os próprios seios enquanto observava a cena. — Ela é pequena, Emanuel! Ela é apertada demais, deve até doer! Comigo é melhor, você sabe que eu aguento tudo!

Eduarda soltou um gemido alto, as mãos cravadas nos ombros tatuados de Emanuel.

— Ele gosta... de como eu o aperto, Sara! — disse Eduarda entre suspiros de prazer. — Ele gosta de sentir que está me preenchendo... de um jeito que você nunca vai entender!

— Cala a boca! — gritou Sara, começando a se tocar freneticamente, a visão de Emanuel dentro de Eduarda a levando ao limite da sanidade e do desejo. — Emanuel, me fode! Tira essa garota de cima e vem para mim!

Emanuel ignorou o pedido de Sara por um momento, focando inteiramente em Eduarda. Ele a beijava com uma urgência quase violenta, sentindo as paredes internas dela o esmagarem. O cheiro de baunilha e o aroma da calcinha que ele inalara mais cedo pareciam fundir-se em uma experiência sensorial avassaladora.

— Você é minha, Eduarda — murmurou ele contra os lábios dela. — Minha bonequinha sonsa.

— Sou sua... — respondeu ela, as lágrimas de prazer correndo pelo rosto. — Só sua.

Quando Emanuel finalmente se retirou de Eduarda, ele se virou para Sara, que estava em um estado de necessidade quase animal. Ele a virou de quatro na cama, puxando-a pelos cabelos loiros.

— Você quer a minha atenção, Sara? — sibilou ele no ouvido dela. — Então mostre que você é melhor que ela. Mostre que esse seu corpo vale o barulho que você faz.

— Eu sou a melhor! — gritou Sara, enquanto ele entrava nela com uma estocada profunda que a fez arquear as costas. — Olha como eu sou quente! Olha como eu sou voraz! Ela é um nada perto de mim!

Eduarda, recuperando o fôlego, deitou-se ao lado deles, observando a cena com um olhar de desdém e desejo. Ela estendeu a mão e começou a acariciar as costas de Emanuel, sentindo os músculos se contraírem sob sua pele.

— Ela é só barulho, Emanuel... — sussurrou Eduarda, aproximando-se do ouvido dele enquanto ele fodia Sara. — Ela é só carne. Eu sou a sua paz.

— Você não é paz nenhuma, Eduarda! — retrucou Sara, a voz embargada pelo orgasmo iminente. — Você é um veneno silencioso! Emanuel, me chama de sua! Diz que eu sou a sua preferida!

Emanuel não deu a ela o que ela queria. Ele continuou a usá-las, alternando entre a doçura manipuladora de Eduarda e a agressividade vulgar de Sara, alimentando-se da rivalidade que as consumia. Para ele, aquela guerra era o combustível perfeito.

A madrugada avançou entre insultos sussurrados, gemidos de satisfação e a constante disputa por território. Sara tentava usar sua técnica e seu corpo escultural para impressionar, enquanto Eduarda usava sua vulnerabilidade e seus pequenos segredos de algodão para manter o vínculo emocional.

Quando o cansaço finalmente as venceu, Emanuel permaneceu no meio da cama. Sara dormia de um lado, a expressão ainda carregada de uma arrogância defensiva, mesmo no sono. Eduarda estava do outro, encolhida contra o braço dele, com a mão pequena descansando sobre o peito tatuado.

Emanuel esticou o braço e pegou a calcinha rosa de Eduarda, que havia ficado caída sobre o lençol. Ele a cheirou uma última vez antes de guardá-la na gaveta de sua mesa de cabeceira. Ele sabia que, na manhã seguinte, Sara acordaria reclamando do café, Eduarda acordaria choramingando por algum motivo fútil, e a guerra recomeçaria.

Mas, enquanto olhava para as duas, ele sentia uma satisfação sombria. Ele tinha o melhor dos dois mundos: o fogo que o incendiava e a água que o acalmava. E enquanto Eduarda continuasse a colocar seus pequenos segredos em seus bolsos, ele saberia exatamente para onde voltar, não importa o quão longe seus negócios o levassem. O império de Emanuel era vasto, mas seu verdadeiro domínio estava ali, entre o algodão de uma e o silicone da outra, em um tríplex que era, ao mesmo tempo, seu palácio e seu campo de batalha particular.