Duas
O Labirinto das Vaidades e a Rebelião das Rosas
A semana que se seguiu à catastrófica viagem a Campos do Jordão foi um exercício de masoquismo para Emanuel. O silêncio na cobertura de São Paulo não era de paz, mas de vácuo. Sara havia bloqueado seu número, e Eduarda, embora fisicamente presente e mais "manhosa" do que nunca, parecia ter se tornado uma sombra que flutuava pelos cômodos, sempre pronta para oferecer um chá ou um olhar de compaixão que, honestamente, Emanuel já não suportava mais.
Ele sentia falta do caos. Sentia falta do cheiro do perfume importado e excessivamente doce de Sara e até de seus gritos estridentes. Então, quando a porta do elevador se abriu na noite de terça-feira e Sara entrou, arrastando uma mala de grife e usando óculos escuros à meia-noite, Emanuel sentiu um misto de alívio e pavor.
— Voltei porque esqueci metade das minhas joias no seu cofre, Emanuel. E porque aquela cafona da minha mãe estava me deixando louca com papo de "dignidade" — declarou Sara, jogando as chaves sobre o aparador.
Eduarda apareceu no corredor, vestindo uma camisola de cetim rosa claro, os olhos arregalados.
— Você voltou... — sussurrou a morena, apertando as mãos contra o peito.
— Não desmaia ainda, santinha. Só vim buscar o que é meu e, quem sabe, decidir se te jogo da sacada hoje ou amanhã — rebateu Sara, bufando enquanto caminhava em direção ao bar para servir-se de um uísque.
Emanuel, sentado em sua poltrona de couro, observava as duas. Ele estava exausto. O trabalho nos estúdios estava acumulado, uma convenção internacional de tatuagem em Londres exigia sua atenção e a logística de manter duas namoradas que se odiavam estava drenando sua inteligência. Foi então que seu lado controlador e prático — o lado que geria negócios multimilionários — tomou as rédeas de forma desastrosa.
— Já que vocês duas estão aqui — começou Emanuel, levantando-se com uma expressão de quem acabara de resolver um enigma —, eu tomei uma decisão para acabar com essas brigas de uma vez por todas.
Sara parou com a taça a meio caminho da boca. Eduarda deu um passo à frente, esperançosa.
— Eu organizei uma agenda — continuou ele, pegando um tablet e mostrando uma planilha colorida e milimetricamente detalhada. — A partir de amanhã, o apartamento será dividido. Eduarda fica com a sala e o segundo quarto nas segundas, quartas e sextas. Sara fica com a suíte principal e a área gourmet nas terças, quintas e sábados. Domingo é meu dia de silêncio absoluto, e nenhuma de vocês pode sair do quarto sem autorização prévia.
Houve um silêncio mortal.
— Autorização? — Sara repetiu, a voz perigosamente baixa.
— E tem mais — Emanuel prosseguiu, ignorando o sinal de perigo. — Eu estabeleci um sistema de "créditos de atenção". Para cada briga que vocês iniciarem, perdem o direito de sair para jantar comigo no fim de semana. E, para facilitar a convivência, eu contratei uma personal organizer que vai etiquetar todas as roupas de vocês. Nada de "peguei emprestado" ou "ela estragou meu vestido". Se uma etiqueta for violada, haverá multa descontada da mesada de luxo que eu provejo.
Emanuel sorriu, orgulhoso de sua lógica empresarial aplicada ao amor. Ele achou que estava sendo um mestre da mediação. Ele achou que, ao tratar as duas como funcionários de alto escalão em um de seus estúdios, traria ordem ao caos.
Ele não poderia estar mais errado.
Sara olhou para a planilha no tablet. Eduarda olhou para as etiquetas que Emanuel já havia começado a imprimir e que estavam sobre a mesa de jantar.
— Você... você fez uma planilha para nos gerenciar? — perguntou Eduarda, sua voz perdendo a doçura e ganhando um tom de incredulidade que Emanuel nunca ouvira.
— Como se fôssemos gado? Ou pior, como se fôssemos aquelas suas máquinas de tatuagem que você lubrifica e guarda na gaveta? — Sara completou, aproximando-se de Eduarda.
Pela primeira vez em meses, as duas não estavam se olhando com desprezo. Elas estavam olhando para Emanuel com o mesmo tipo de julgamento.
— É para o bem de vocês — Emanuel defendeu-se, sentindo o clima mudar. — Vocês não conseguem se comportar como adultas. Eu estou apenas colocando limites.
— Limites? — Sara soltou uma risada estridente, mas não era a risada de deboche para Eduarda. Era uma risada de pura fúria direcionada a ele. — Emanuel, você é um gênio das agulhas, mas é um imbecil completo nas relações humanas. Você acha que pode nos etiquetar? Que pode decidir quando eu saio do meu próprio quarto?
— Emanuel... — Eduarda deu um passo à frente, e desta vez não havia lágrimas nos olhos dela. Havia uma lucidez fria. — Eu sempre tentei ser compreensiva. Eu aceitei a Sara porque eu te amo. Eu aceitei as brigas porque achava que você estava tentando nos proteger. Mas isso... isso é desumanizante. Você nos trata como posses. Como troféus que você quer manter organizados na estante.
— Exatamente! — Sara exclamou, batendo a taça na mesa. — Até eu, que adoro um cartão de crédito ilimitado, tenho limites para o quanto de arrogância eu aguento. Você acha que é o rei do castelo, não é? O grande Emanuel, o tatuador dos astros, o homem que carrega sacolas e se faz de mártir.
— Eu carrego sacolas porque vocês não param de comprar! — Emanuel explodiu, perdendo a calma. — Eu tento dar tudo para vocês, e o que eu recebo em troca? Gritos e manipulação!
— Você nos dá coisas para calar a nossa boca! — gritou Sara. — Você compra bolsas para mim para não ter que ouvir os meus problemas. E você dá carinho para a Eduarda para que ela continue sendo essa bonequinha sensível que massageia o seu ego de protetor!
Eduarda olhou para Sara. Pela primeira vez, ela concordou com a rival.
— Ela tem razão, Emanuel — disse Eduarda, a voz firme. — Você gosta da nossa briga. No fundo, você se sente importante sendo o centro de duas mulheres que lutam por você. Essa sua planilha não é para trazer paz. É para você ter o controle absoluto. É a forma mais vulgar de egoísmo que eu já vi.
Emanuel sentiu um baque no estômago. Ver Eduarda e Sara concordando em algo — e esse algo ser o fato de que ele era um idiota — foi mais traumático do que as quinze sacolas de compras.
— Ah, agora as duas viraram melhores amigas? — ironizou ele, tentando recuperar a autoridade. — Ontem vocês se matariam por um par de sapatos!
— Ontem nós éramos burras — disse Sara, caminhando até Eduarda e, para a surpresa de Emanuel, colocando a mão no ombro da morena. — Mas nada une mais duas mulheres do que um homem que tenta tratá-las como se tivessem o QI de uma ameba.
— Eduarda, você vai mesmo ficar do lado dela? — Emanuel perguntou, recorrendo à sua última linha de defesa: a fragilidade da namorada sensível.
Eduarda olhou para a mão de Sara em seu ombro. Sentiu a força da loira e percebeu que, apesar de todas as ofensas, havia uma honestidade em Sara que Emanuel nunca tivera. Sara mostrava as garras; Emanuel escondia as algemas sob o veludo.
— Eu não estou do lado dela, Emanuel — disse Eduarda com uma calma gélida. — Eu estou do meu lado. E, pela primeira vez, o meu lado e o dela querem a mesma coisa: que você entenda que não somos seus empreendimentos.
— Ótimo! — Sara sorriu, um sorriso predatório que fez Emanuel dar um passo atrás. — Já que você gosta de organizar tudo, Emanuel, vamos organizar a sua noite. Eduarda, o que você acha de irmos para aquele hotel spa que ele se recusa a nos levar porque diz que "tem muito trabalho"?
— Eu acho uma ideia maravilhosa — respondeu Eduarda, retribuindo o sorriso. — E podemos usar o cartão de crédito dele. O adicional que não tem limite, lembra?
— Mas... mas o quê? — Emanuel gaguejou. — Vocês não podem sair assim! É meia-noite!
— Assista-nos — disse Sara, pegando sua mala de volta. — Duda, pegue o seu melhor vestido. Aquele que ele disse que era "simples demais". Nós vamos jantar no restaurante mais caro da cidade e depois vamos gastar o equivalente a um estúdio de tatuagem novo em tratamentos de beleza.
— E a planilha, Emanuel? — perguntou Eduarda, passando por ele e pegando o tablet da mão dele. — Eu acho que ela ficaria ótima... no lixo.
Com um gesto deliberado, Eduarda soltou o tablet sobre o chão de porcelanato. A tela rachou em mil pedaços, refletindo a imagem atônita de Emanuel.
As duas subiram para o quarto. Emanuel ficou parado na sala, cercado pelo luxo de sua cobertura, sentindo-se subitamente muito pequeno. Ele ouvia o som de risadas vindo do andar de cima — risadas reais, altas, compartilhadas. Elas estavam trocando dicas de maquiagem? Estavam fofocando sobre ele?
Meia hora depois, elas desceram. Sara usava um vestido de lantejoulas douradas que brilhava como o sol. Eduarda usava o vestido de seda azul que Sara tanto criticara, mas agora ela o portava com uma confiança que o tornava a peça mais elegante do mundo.
— Tchau, Manu — disse Sara, mandando um beijo no ar. — Não nos espere para o café. Ou para o almoço.
— Na verdade, não nos espere — completou Eduarda, abrindo a porta do elevador.
As portas se fecharam.
Emanuel desabou no sofá. O silêncio voltou, mas desta vez era um silêncio de derrota total. Ele olhou para as etiquetas sobre a mesa, para os restos do tablet no chão e para a imensidão do seu apartamento vazio.
Ele era rico, era famoso, era o melhor em sua arte. Mas, naquela noite, ele descobriu que não importava quantas sacolas ele carregasse ou quanto dinheiro ele tivesse; ele nunca seria páreo para duas mulheres que decidiram que o ódio entre elas era menor do que o desprezo por um homem que tentou rotulá-las.
O trauma emocional agora era outro. Não era o estresse da briga, mas a percepção de que ele havia criado um monstro de duas cabeças — uma loira e uma morena — que agora estava solto no mundo com o seu cartão de crédito ilimitado.
Emanuel pegou seu celular e viu a primeira notificação de gasto: uma reserva de suíte presidencial no valor de cinco dígitos.
Ele suspirou, fechou os olhos e, pela primeira vez na vida, desejou que elas estivessem gritando uma com a outra na sala. Qualquer coisa era melhor do que aquela união silenciosa e caríssima que ele mesmo, em sua arrogância organizacional, havia provocado.
— Eu deveria ter ficado em Londres... — resmungou ele para as paredes vazias, sabendo que, no fundo, a planilha de sua vida acabara de ser deletada permanentemente.