Duas
O Labirinto de Vênus e o Despertar do Desejo
A trégua entre Sara e Eduarda durou exatamente o tempo necessário para o cartão de crédito de Emanuel atingir o limite de segurança e o spa cinco estrelas ficar sem estoque de máscaras de ouro. Assim que as duas cruzaram o umbral da cobertura, carregadas de novas sacolas e com a pele impecável, a dinâmica de poder voltou ao seu eixo caótico original. O "inimigo comum" — a tentativa de controle de Emanuel — fora derrotado, e agora elas podiam voltar ao esporte favorito de ambas: disputar o território emocional do tatuador.
— Pode tirar esse sorrisinho da cara, Eduarda — disparou Sara, jogando o roupão de seda branca sobre a mesa de jantar que Emanuel acabara de limpar. — Só porque dividimos uma suíte não significa que somos amigas. Você continua sendo uma sonsa que usa esse olhar de "coitadinha" para conseguir o que quer.
Eduarda, que estava guardando um frasco de perfume recém-adquirido, parou e olhou para Sara. A confiança que demonstrara no hotel ainda estava lá, mas agora vinha acompanhada de sua habitual doçura estratégica.
— E você continua sendo barulhenta, Sara — respondeu Eduarda, com a voz mansa, mas afiada. — O Emanuel sentiu minha falta. Dava para ver nos olhos dele quando chegamos. Ele não quer uma mulher que grita, ele quer alguém que o entenda.
— Ele quer uma mulher que saiba o que fazer com ele entre quatro paredes, querida, e isso não se aprende em livros de História da Arte — Sara retrucou, aproximando-se com um olhar predatório. — Agora sai da minha frente, vou tomar um banho no meu banheiro.
Emanuel, trancado em seu escritório doméstico, ouvia o retorno da cacofonia com um misto de resignação e um estranho conforto. A ordem que ele tentara impor com planilhas fora um fracasso, mas o caos... o caos ele conhecia. No entanto, o clima na casa estava carregado de uma tensão diferente. Eduarda, geralmente passiva, parecia ter despertado para uma nova forma de jogo.
Na manhã seguinte, Emanuel saiu cedo para o seu estúdio principal, o "Ink Empire", localizado em um prédio industrial reformado no coração da cidade. Ele precisava de silêncio, do som da máquina de tatuagem e do cheiro de tinta e antisséptico para organizar os pensamentos. O estúdio era o seu santuário, um lugar de concreto exposto, luzes de neon e couro, onde ele era o mestre absoluto.
Ele estava no meio de um sombreamento complexo nas costas de um cliente quando a recepção interfonou.
— Emanuel? Tem uma moça aqui querendo te ver. Ela disse que é... urgente.
— Sara? — perguntou ele, sentindo a têmpora latejar.
— Não, senhor. É a Eduarda.
Emanuel franziu o cenho. Eduarda raramente ia ao estúdio. Ela dizia que o ambiente era "agressivo demais" para sua sensibilidade. Ele pediu cinco minutos, terminou a sessão e limpou as mãos, saindo para a área de espera.
O que ele encontrou não foi a Eduarda tímida e encolhida de sempre. Ela estava sentada em um banco de couro, usando um vestido de tricô bege que, embora parecesse recatado à primeira vista, era curto o suficiente para mostrar as pernas torneadas e justo o bastante para delinear cada curva de seu corpo esguio. O cabelo estava solto, caindo em ondas suaves, e ela segurava um pequeno pacote de uma padaria gourmet.
— Duda? Aconteceu alguma coisa? — Emanuel aproximou-se, a voz carregada de preocupação.
— Eu só queria te ver, Manu — disse ela, levantando-se e caminhando até ele com um passo lento, quase coreografado. — Senti que você saiu de casa tenso. Trouxe aqueles croissants que você gosta.
Emanuel olhou ao redor. Seus assistentes e alguns clientes observavam a cena. A presença de Eduarda ali era como uma gota de mel em um balde de graxa.
— Obrigado, mas você podia ter esperado eu chegar em casa. Estou no meio de um trabalho.
— Eu sei — sussurrou ela, aproximando-se tanto que ele podia sentir o calor vindo da pele dela. Ela colocou a mão no peito dele, por cima da camiseta preta, e seus dedos pequenos começaram a traçar o contorno de uma das tatuagens que subiam pelo pescoço dele. — Mas eu não queria esperar. Eu tive um sonho com você... e acordei com saudade.
O tom de voz dela era manhoso, mas os olhos brilhavam com uma determinação que Emanuel nunca vira. Ela não estava ali para pedir proteção; ela estava ali para reivindicar território.
— Duda, aqui não é o lugar... — Emanuel começou, mas sua voz falhou quando ela se inclinou e roçou os lábios no lóbulo da orelha dele.
— Quero que você me leve para a sua sala particular, Manu — murmurou ela. — Agora.
Emanuel sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O controle que ele tanto prezava estava derretendo sob o toque dela. Ele a pegou pelo braço, não com força, mas com uma urgência que não pôde esconder, e a conduziu pelos corredores do estúdio até sua sala privada — um espaço amplo com vista para a cidade, paredes pretas e um sofá de veludo profundo.
Assim que a porta se fechou com um clique magnético, Eduarda soltou o pacote de croissants no chão, ignorando o desperdício. Ela se virou para ele, e a timidez habitual fora substituída por uma fome silenciosa.
— A Sara acha que só ela sabe te provocar — disse Eduarda, a voz baixa e vibrante. — Ela acha que eu sou uma criança. Mas ela não sabe como eu me sinto quando você me olha. Ela não sabe o que eu quero que você faça comigo.
Emanuel a prensou contra a porta, as mãos espalmadas na madeira, cercando-a.
— E o que você quer, Eduarda? — a voz dele saiu rouca, carregada de um desejo que ele tentara reprimir durante toda a manhã.
Eduarda deslizou as mãos pelas costas dele, puxando-o para mais perto, até que não houvesse espaço entre eles. Ela inclinou a cabeça para trás, expondo o pescoço pálido.
— Eu quero ser sua, Manu. Mas não do jeito que a gente faz sempre. Eu quero que você esqueça o estúdio, esqueça a Sara, esqueça as brigas... — ela desceu a mão para o cinto dele, os olhos fixos nos dele. — Eu quero que você me use. Eu quero sentir o que é ser desejada por um homem que tem o mundo nas mãos, mas que agora só tem a mim.
Emanuel sentiu o sangue latejar em suas veias. A fragilidade de Eduarda sempre fora o seu ponto fraco, mas aquela nova faceta — a vulnerabilidade usada como arma de sedução — era irresistível. Ele a pegou pela cintura e a levantou, sentando-a na borda de sua mesa de desenho, espalhando esboços e canetas pelo chão.
— Você veio aqui me provocar no meio do meu dia de trabalho — disse ele, a respiração pesada contra o rosto dela. — Você sabe o que isso significa, não sabe?
— Significa que eu ganhei, não é? — ela deu um sorriso pequeno e vitorioso, as pernas se entrelaçando na cintura dele. — Significa que, neste momento, a Sara não existe. Só existe o meu dengo... e a sua vontade.
Emanuel não respondeu com palavras. Ele a beijou com uma intensidade que beirava o desespero, suas mãos explorando o corpo dela com a familiaridade de um artista e a urgência de um amante. Eduarda soltou um gemido baixo, um som que era puro deleite e provocação.
— Manu... — ela arfou entre os beijos —, por favor. Eu só quero você. Agora.
Ele a deitou sobre a mesa, entre os papéis de seda e os projetos de arte, e naquele momento, o estúdio de milhões de dólares, as brigas incessantes e até a imagem de Sara furiosa desapareceram. Só havia o contraste da pele clara de Eduarda contra a tinta escura de suas mãos, e a certeza de que, não importava o quanto ele tentasse organizar sua vida, ele sempre seria um prisioneiro daquela guerra doce e cruel entre as duas mulheres que o possuíam.
Enquanto isso, a quilômetros dali, Sara olhava para o relógio na parede da cobertura, sentindo um nó estranho no estômago. Ela conhecia o silêncio de Eduarda. E aquele silêncio, ela percebeu com um calafrio, era o som de uma tempestade que ela não tinha certeza se conseguiria vencer.
— Aquela sonsa... — resmungou Sara para o espelho, retocando o batom vermelho com uma fúria renovada. — Onde quer que você esteja, Eduarda, é bom aproveitar. Porque quando o Emanuel voltar para casa, ele vai lembrar quem é que realmente manda neste império.
Mas, na sala escura do estúdio, Emanuel não estava pensando em impérios. Ele estava perdido no labirinto de manha e desejo de Eduarda, carregando um novo tipo de trauma — um que ele não queria curar, e que o lembrava de que, no fim das contas, ele era apenas um homem tentando sobreviver ao fogo cruzado de dois corações que se recusavam a aceitar a paz.