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Duas

Guerra de Seda e Creme

O ar na cobertura de Emanuel estava eletrizado. Após o episódio no estúdio de tatuagem, Eduarda retornara para casa com um brilho vitorioso no olhar e uma aura de satisfação que não passava despercebida nem pelos móveis de design minimalista da sala. Ela se sentia, pela primeira vez, em pé de igualdade na disputa silenciosa contra a exuberância agressiva de Sara. No entanto, ela esquecera uma regra fundamental da convivência com a loira: Sara nunca deixava um golpe sem resposta, e sua vingança costumava ser tão vulgar quanto eficaz.

Sara estava sentada na banheira de hidromassagem, cercada por espuma e pelo aroma caro de sais de banho, mas sua mente trabalhava em alta rotação. Ela vira a marca de batom quase imperceptível na gola da camiseta de Emanuel quando ele chegara, vira o jeito que ele evitara seu olhar e, principalmente, vira o sorriso miúdo e irritante que Eduarda ostentara durante todo o jantar.

— Aquela ratinha de biblioteca acha que ganhou o jogo — resmungou Sara, mergulhando o rosto na água morna para abafar o grito de frustração. — Ela acha que um momento de manha no estúdio apaga anos de fogo que eu dei para aquele homem.

Ao sair do banho, enrolada em um roupão de seda preta que custava o preço de um carro popular, Sara caminhou em direção ao closet compartilhado. Foi então que seus olhos pousaram na penteadeira de Eduarda, um canto que cheirava a lavanda e rosas antigas, repleto de frascos delicados e produtos de cuidados com a pele que a morena tratava como relíquias sagradas.

No centro da organização impecável de Eduarda, brilhava um pote de cristal pesado. Era o hidratante corporal de edição limitada, feito sob encomenda em uma farmácia de manipulação de luxo em Paris, que Emanuel trouxera de sua última viagem. Eduarda o usava com parcimônia, quase como um ritual religioso, alegando que era o único produto que acalmava sua pele sensível e a deixava com o toque de veludo que Emanuel tanto elogiava.

Um sorriso cruel e perverso curvou os lábios perfeitamente desenhados de Sara.

— Pele sensível, não é? — sussurrou ela, pegando o frasco.

Sem hesitar, Sara abriu a tampa. O aroma era divino, uma mistura de peônias e orvalho. Com uma calma deliberada, ela caminhou até o banheiro e começou a despejar o conteúdo cremoso dentro do ralo do bidê. Ela observou a substância branca e cara desaparecer, centímetro por centímetro. Quando o frasco estava quase vazio, ela o levou de volta à penteadeira, mas não antes de enchê-lo até a metade com um hidratante barato, de cheiro enjoado e textura pegajosa, que ela comprara em uma farmácia de aeroporto e que detestava.

— Vamos ver como o seu "toque de veludo" se comporta agora, queridinha — disse Sara, fechando o pote com precisão cirúrgica.

...

Duas horas depois, o grito de Eduarda cortou o silêncio do corredor.

Emanuel estava no escritório, revisando os contratos para a nova unidade do Ink Empire em Berlim, quando ouviu o som de algo quebrando. Ele correu para o quarto principal e encontrou Eduarda em pé, diante da penteadeira, com as mãos trêmulas e o rosto vermelho de indignação. O pote de cristal estava no chão, mas não quebrado; ele apenas rolara após ser arremessado.

— O que aconteceu, Duda? — perguntou Emanuel, aproximando-se e tentando segurar os ombros dela.

— Ela destruiu, Emanuel! — Eduarda se virou para ele, as lágrimas já inundando os olhos expressivos. — Ela jogou fora o meu creme de Paris! Ela colocou uma coisa horrível, gordurosa e com cheiro de chiclete dentro do meu frasco!

Sara apareceu na porta do quarto, encostada no batente, lixando as unhas com uma indiferença ensaiada.

— Do que você está falando, criatura? Eu mal entrei no seu canto de santinha hoje.

— Você é mentirosa, Sara! — Eduarda gritou, a voz subindo de tom, algo raro para ela. — Eu conheço o cheiro do meu hidratante. Eu sei que foi você! Você tem inveja porque o Emanuel me deu esse presente e porque ele não para de me tocar desde que eu voltei do estúdio!

Sara parou de lixar as unhas e seus olhos faiscaram.

— Inveja de você? — Sara deu um passo à frente, a vulgaridade transbordando em seu tom de voz. — Eu tenho pena de você. Você é tão sem graça que precisa de um creme francês para tentar ser interessante. Eu sou interessante até suada e descabelada. Se o seu creme sumiu, talvez tenha evaporado de tédio, igual ao seu papo sobre Renascimento.

— Chega, as duas! — Emanuel interveio, sentindo a pressão subir. — Sara, se você mexeu nas coisas dela, peça desculpas agora.

— Eu não vou pedir desculpas por algo que não fiz, Manu — mentiu Sara, com uma convicção que quase o convenceu. — Ela deve ter gastado tudo tentando tirar aquele cheiro de mofo que ela carrega e agora quer me culpar para ganhar mais um presentinho seu.

Eduarda não respondeu. Ela não chorou mais. Em vez disso, um silêncio pesado e perigoso caiu sobre ela. Ela olhou para Sara, depois para o frasco no chão, e por fim para Emanuel.

— Tudo bem — disse Eduarda, com uma calma que fez os pelos do braço de Emanuel se arrepiarem. — Se é assim que você quer jogar, Sara... tudo bem.

...

Naquela noite, Emanuel decidiu dormir no sofá do escritório. Ele conhecia os sinais. O apartamento estava silencioso demais, e aquele era o tipo de silêncio que precedia terremotos.

Por volta das três da manhã, Eduarda levantou-se da cama com a cautela de um felino. Ela não precisava de luz; conhecia cada centímetro daquela cobertura. Ela caminhou até o closet de Sara, um santuário de ostentação onde as roupas eram organizadas por cor e preço.

Eduarda abriu a gaveta de rendas. Ali, protegidas por papel de seda perfumado, estavam as lingeries de luxo de Sara. Peças de seda italiana, rendas francesas feitas à mão, cintas-ligas bordadas com cristais. Eram as armas que Sara usava para manter Emanuel hipnotizado, peças que ela exibia com um orgulho quase narcisista.

Eduarda pegou uma tesoura de costura pequena e extremamente afiada que mantinha em seu kit de bordado.

Ela escolheu a peça favorita de Sara: um conjunto de sutiã e calcinha em renda vermelha sangria, a peça que Sara usara na primeira noite que passou com Emanuel. Com movimentos lentos e deliberados, Eduarda começou a cortar. Ela não destruiu a peça de forma grosseira; ela fez cortes precisos nas costuras, transformando a renda cara em um emaranhado de fios inúteis.

Depois, ela passou para o corpete preto de seda. Cortou as alças. Cortou os fechos. Uma por uma, as peças mais provocantes e caras de Sara foram reduzidas a retalhos de luxo.

— Hidratante por seda — sussurrou Eduarda, guardando a tesoura. — Olho por olho, dente por dente.

...

O sol mal havia começado a iluminar os prédios da Avenida Paulista quando o segundo round começou. Desta vez, o grito não foi de tristeza, mas de puro ódio primal.

Sara estava no closet, segurando o que restara de seu conjunto vermelho. Suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia segurar o tecido.

— EDUARDA! — o grito de Sara ecoou por todo o apartamento, fazendo Emanuel pular do sofá do escritório e derrubar sua caneca de café.

Emanuel correu para o closet e estancou na porta. O chão estava coberto de pedaços de renda e seda. Sara estava no centro do caos, parecendo uma deusa da guerra prestes a dizimar uma civilização.

— Olha isso, Emanuel! — Sara jogou os restos do sutiã no rosto dele. — Olha o que a sua "menina carinhosa" fez! Ela destruiu as minhas roupas! Milhares de dólares em lixo!

Eduarda apareceu logo atrás dele, vestindo seu cardigã bege, com um livro de poesias na mão e uma expressão de absoluta confusão.

— O que houve, Sara? Por que você está gritando tão cedo? — perguntou Eduarda, a voz carregada de uma inocência tão perfeita que era quase assustadora.

— Não venha com essa cara de santa! — Sara avançou, mas Emanuel a segurou pela cintura, impedindo que ela pulasse no pescoço de Eduarda. — Você cortou cada uma das minhas peças! Você é uma psicopata, Eduarda! Uma maluca invejosa!

— Eu? — Eduarda arregalou os olhos, levando a mão à boca. — Sara, eu estava dormindo. Eu nem sei o que aconteceu. Emanuel, você acha que eu seria capaz de algo tão... violento?

Emanuel olhou para as duas. Ele olhou para o chão coberto de seda e lembrou-se do frasco de hidratante sabotado no dia anterior. Ele não era burro. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo. Ele estava no meio de uma escalada de agressão passiva que agora se tornara ativa.

— Parem com isso. Agora! — Emanuel gritou, sua voz de comando fazendo as duas silenciarem por um segundo. — Eu não aguento mais! É hidratante, é lingerie, são sacolas, são gritos! Eu sou um homem, não um árbitro de ringue!

— Ela cortou as minhas roupas, Emanuel! — Sara soluçava de raiva, as lágrimas borrando o rímel caro. — Ela atacou a minha feminilidade! Ela sabe o quanto eu amava essas peças!

— E ela jogou fora o meu creme, Emanuel! — Eduarda rebateu, permitindo que uma lágrima solitária corresse. — Ela atacou a minha segurança, a única coisa que me fazia sentir bonita para você!

Emanuel sentiu a cabeça girar. Ele olhou para Sara, curvilínea e furiosa, e para Eduarda, delicada e letal. Ele percebeu que a dinâmica mudara. Eduarda aprendera a morder, e Sara descobrira que seus gritos não eram mais suficientes para intimidar a morena.

— Eu vou sair — disse Emanuel, sua voz agora perigosamente calma. — Eu vou para o estúdio. Vou passar o dia trabalhando. E quando eu voltar, eu quero que este closet esteja limpo e que vocês tenham encontrado uma forma de não se matarem.

— Você vai deixá-la aqui depois disso? — Sara gritou, incrédula.

— Eu vou deixar vocês duas aqui — Emanuel respondeu, pegando sua jaqueta. — E se eu encontrar mais alguma coisa destruída nesta casa, eu juro que cancelo todos os cartões, fecho esta cobertura e coloco as duas em um apartamento de um quarto na periferia para aprenderem o que é problema de verdade.

Ele saiu e bateu a porta com tanta força que um quadro na sala ficou torto.

O silêncio que se seguiu no closet foi denso. Sara e Eduarda se encararam sobre os restos de seda vermelha.

— Você acha que venceu, não é? — Sara cuspiu as palavras, limpando o rosto com as costas da mão. — Você acha que me atingiu onde dói.

— Eu não acho, Sara. Eu sei — respondeu Eduarda, aproximando-se e falando em um tom que só Sara podia ouvir. — Você mexeu com a minha paz. Eu mexi com a sua vaidade. Agora estamos quites.

Sara deu um passo à frente, o rosto a centímetros do de Eduarda.

— Você não tem ideia do que eu sou capaz de fazer, Eduarda. Você acabou de declarar uma guerra que não pode vencer. Eu vou fazer você desejar nunca ter saído daquela faculdade de artes.

— Eu já estou na guerra, Sara — Eduarda sorriu, um sorriso que não chegou aos olhos. — E, pelo que vi hoje, você é quem está sangrando.

Eduarda deu as costas e saiu do closet, deixando Sara sozinha entre os retalhos de sua lingerie favorita.

Sara olhou para o chão e sentiu uma fúria que nunca sentira antes. Não era apenas pelas roupas. Era pelo fato de que a "sonsa" tinha coragem. Ela pegou um pedaço da seda vermelha e o apertou no punho.

— Você quer guerra, sua ratinha? — sussurrou Sara para as paredes. — Pois você vai ter um inferno.

Enquanto isso, Emanuel dirigia seu carro em alta velocidade, as mãos apertando o volante com força. Ele sentia que estava perdendo o controle de tudo. Ele amava as duas, de formas diferentes e intensas, mas a convivência se tornara um labirinto de vidros quebrados.

Ele pensou nas quinze sacolas do shopping, no hidratante sabotado, na lingerie cortada. Ele pensou no trauma emocional que estava acumulando, uma tatuagem invisível de estresse que cobria seu corpo inteiro.

— Eu preciso de férias — murmurou ele para si mesmo. — Sozinho. Em uma ilha. Sem mulheres, sem sedas e, definitivamente, sem hidratantes.

Mas ele sabia que, assim que cruzasse a porta de casa novamente, seria puxado de volta. Porque, no fundo, ele era viciado naquele jogo. Ele era o prêmio e o prisioneiro, o juiz e o culpado. E a guerra entre a seda e o creme estava apenas começando a queimar a estrutura de sua vida perfeita.

Ao chegar no estúdio, seu assistente o olhou com preocupação.

— Chefe? Você está bem? Parece que passou por um furacão.

— Eu passei por duas, felipe — respondeu Emanuel, pegando sua máquina de tatuagem. — E o pior é que eu acho que elas acabaram de descobrir como trabalhar em equipe para me destruir, mesmo enquanto tentam destruir uma à outra.

Ele ligou a máquina. O som do motorzinho era a única coisa que fazia sentido. Mas, na sua mente, ele ainda via o rastro de destruição no closet e o olhar de Eduarda. Ele percebeu que a timidez da morena fora apenas a casca de algo muito mais sombrio e determinado. E que a vulgaridade de Sara era a única defesa de uma mulher que estava apavorada de perder o único lugar onde se sentia rainha.

Emanuel começou a tatuar, mas seus traços, geralmente precisos, estavam inquietos. Ele sabia que a paz era uma ilusão e que, naquela noite, o jantar na cobertura teria um sabor de veneno e vitória, servido em pratos de porcelana cara e regado ao sangue simbólico de rendas cortadas e cremes desperdiçados.