Duas
O Fio da Navalha e o Retalho de Lycra
O sol de meio-dia em São Paulo entrava pelas imensas janelas de vidro da cobertura, refletindo-se no piso de mármore e criando uma atmosfera de estufa luxuosa. Emanuel estava sentado à mesa, tentando manter o foco em um orçamento para a abertura de sua nova galeria em Berlim, mas o som ambiente o impedia de alcançar qualquer estado de fluxo. O clima no apartamento, após a "guerra das lingeries", havia se estabilizado em uma neutralidade armada. Sara e Eduarda não se falavam, mas o silêncio era pontuado por olhares que poderiam derreter aço.
— Emanuel, querido, olhe para mim — a voz de Sara ressoou, vindo do corredor com um tom de comando que ele conhecia bem.
Emanuel levantou os olhos e sentiu a pressão arterial subir. Sara estava pronta para a tarde na piscina do prédio. Ela usava um biquíni de verniz preto, com amarrações que subiam pela cintura e destacavam cada curva de seu corpo esculpido por cirurgias e horas de academia. Era um visual agressivo, chamativo e, para os padrões de Emanuel, perfeitamente dentro do personagem dela.
— Você não acha que esse biquíni é um pouco... barulhento para a piscina do condomínio? — perguntou Emanuel, massageando as têmporas.
— Barulhento, Manu? — Sara riu, girando sobre os saltos altíssimos que usava apenas para caminhar até o elevador. — Eu chamo de "presença". Se as vizinhas quiserem reclamar, que reclamem para os maridos delas, que vão estar ocupados demais olhando.
Antes que Emanuel pudesse responder, a porta do outro quarto se abriu. Eduarda saiu de lá, caminhando com sua habitual leveza, mas havia algo diferente em sua postura. Ela carregava uma bolsa de palha romântica e usava uma saída de praia de renda branca, longa e transparente, que flutuava ao redor de suas pernas.
— Eu também estou pronta, Manu — disse Eduarda, com a voz doce, mas com um brilho de desafio nos olhos que ela vinha cultivando desde que destruíra as rendas de Sara.
— Finalmente, a camponesa resolveu aparecer — debochou Sara, ajeitando o busto no biquíni de verniz. — Vamos logo, antes que o sol se ponha e você precise de um chá para se aquecer.
Emanuel suspirou, pegou sua toalha e os óculos escuros. Ele sentia que estava levando dois barris de pólvora para um piquenique.
A área da piscina estava relativamente vazia, exceto por alguns moradores discretos. Emanuel se acomodou em uma espreguiçadeira, esperando ter ao menos dez minutos de paz sob o sol. Sara, como esperado, retirou a saída de praia imediatamente, deitando-se para bronzear o abdômen perfeito, atraindo olhares imediatos.
— Duda, você não vai tirar isso? — perguntou Emanuel, notando que Eduarda permanecia envolta na renda branca, olhando para a piscina com uma hesitação ensaiada.
— Ah, eu não sei... — Eduarda murmurou, olhando de soslaio para Sara. — Talvez seja um pouco demais.
— Deixa de ser sonsa, Eduarda — Sara disse, sem abrir os olhos. — Tira logo esse lençol. Todo mundo sabe que você tem corpo de menina de colégio, ninguém vai se assustar.
Eduarda mordeu o lábio inferior, um gesto que sempre desarmava Emanuel. Ela desamarrou lentamente o laço da saída de praia e a deixou escorregar pelos ombros.
Emanuel, que estava tomando um gole de água, engasgou.
O biquíni que Eduarda usava não era nada do que ele esperava. Não era romântico, não tinha flores, e certamente não era "comportado". Era um conjunto de crochê num tom de azul-serenity, mas o tamanho da peça desafiava as leis da física e da decência. A parte de cima mal cobria o essencial, e a parte de baixo era um fio dental tão minimalista que parecia ter sido feito com sobras de linha de costura.
— Eduarda! — Emanuel exclamou, sentando-se abruptamente na espreguiçadeira. — O que é isso?
Eduarda olhou para ele com os olhos arregalados, fingindo uma surpresa ingênua que Emanuel sabia ser puro teatro.
— O que foi, Manu? É de crochê... eu achei que combinava com o meu estilo mais natural.
— Natural? — Emanuel levantou-se, caminhando até ela e tentando cobri-la com a própria sombra. — Duda, esse biquíni é... é minúsculo. É menor do que o da Sara!
Sara abriu um dos olhos, sentindo a mudança na voz de Emanuel. Quando ela focou em Eduarda, seu queixo caiu por um milésimo de segundo antes de ela recuperar a compostura ácida.
— Olha só... a ratinha de biblioteca resolveu mostrar o queijo — Sara riu, embora houvesse uma nota de irritação real em sua voz. — Isso é crochê, querida? Parece que você tropeçou em um novelo de lã e o que sobrou ficou preso nas suas partes.
— Eu achei que você gostasse de coisas artesanais, Emanuel — Eduarda disse, ignorando Sara e aproximando-se dele, deixando que o sol destacasse a pele clara e a curva perigosa de seus quadris. — Você sempre diz que valoriza o trabalho manual.
— Eu valorizo arte, Eduarda, não exposição pública! — Emanuel sussurrou, sentindo o pescoço esquentar de vergonha e desejo reprimido. — Você não pode usar isso aqui. Tem famílias, tem crianças... tem o síndico!
— Engraçado — Eduarda comentou, ajeitando a alça finíssima do biquíni com uma lentidão torturante —, você nunca reclamou dos biquínis da Sara. O dela é de plástico e brilha. O meu é só... sensível. Como eu.
Sara levantou-se da espreguiçadeira, ficando frente a frente com Eduarda. A diferença de altura e de estilo criava um contraste quase cômico: a loira siliconada e agressiva contra a morena esguia e aparentemente frágil, ambas usando o equivalente a três centímetros de tecido.
— Escuta aqui, sua manipuladora de quinta — Sara sibilou —, você está tentando me competir no meu terreno? Você não tem corpo para usar um fio dental desses. Você parece uma criança que esqueceu de crescer.
— Se eu não tenho corpo, Sara — Eduarda respondeu, mantendo a voz baixa e doce, o que a tornava ainda mais irritante —, por que o Emanuel não consegue tirar os olhos de mim desde que eu tirei a saída de praia?
Emanuel olhou para o lado, percebendo que, de fato, ele era o centro de um espetáculo indesejado. Dois ou três homens em mesas próximas fingiam ler jornais, mas suas atenções estavam cravadas no triângulo amoroso à beira da água.
— As duas, para dentro. Agora! — Emanuel ordenou, sua voz de "chefe do estúdio" ecoando de forma autoritária.
— Eu não vou a lugar nenhum! — Sara cruzou os braços, o verniz de seu biquíni rangendo levemente. — Eu paguei caro por esse bronzeado e não vou deixar essa... essa farsa de crochê estragar meu dia.
— Manu, eu só queria nadar um pouco — Eduarda disse, aproximando-se de Emanuel e segurando o braço dele com as mãos pequenas. — Você está sendo duro comigo. A Sara usa coisas muito piores e você só olha com orgulho. Por que comigo é diferente? É porque eu sou "menina demais"?
Emanuel sentiu a manipulação de Eduarda como uma agulha fina entrando na pele. Ela sabia exatamente onde tocar. Ela usava sua imagem de fragilidade para fazer com que qualquer crítica dele parecesse uma opressão.
— É diferente porque não combina com você, Eduarda! — ele exclamou, gesticulando para o biquíni azul. — Isso é vulgar. Não é o que você é.
— E o que eu sou, Emanuel? — ela perguntou, e por um momento a máscara de manha caiu, revelando uma mágoa real. — Eu sou a boneca de porcelana que você guarda na estante enquanto sai para jantar com a mulher de verniz? Eu também tenho corpo. Eu também quero ser desejada do jeito que ela é.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Sara olhava de uma para a outra, sentindo que a dinâmica estava fugindo ao seu controle. Ela sempre fora a "mulher do sexo" e Eduarda a "mulher do afeto". Ver Eduarda invadir seu espaço com aquele biquíni de crochê era mais do que uma provocação estética; era uma ameaça existencial.
— Quer saber? — Sara pegou sua bolsa de praia. — Se você quer tanto ser a atração do circo, Eduarda, fique à vontade. Mas saiba que você parece ridícula. Emanuel, eu vou para o apartamento. Quando você cansar de cuidar da creche, sabe onde me encontrar.
Sara saiu pisando firme, o quadril balançando de forma furiosa. Emanuel olhou para Eduarda, que agora parecia subitamente pequena e vulnerável novamente, apesar do biquíni ousado.
— Você conseguiu o que queria, não foi? — Emanuel perguntou, a exaustão vencendo a raiva. — Afastou a Sara e me deixou em uma situação impossível.
— Eu só queria que você me visse, Manu — ela repetiu, sentando-se na beira da piscina e balançando os pés na água. — Do jeito que você olha para as modelos que tatua. Com aquela fome.
Emanuel sentou-se ao lado dela, suspirando. Ele olhou para o biquíni de crochê e, pela primeira vez, permitiu-se notar o quanto ela estava bonita, de uma forma perigosa e nova.
— Eu vejo você, Duda. O tempo todo. Mas você não precisa disso — ele apontou para o biquíni — para ter minha atenção.
— Preciso sim — ela disse, olhando para o reflexo na água. — Porque nesta casa, quem grita mais alto ou quem mostra mais pele é quem ganha. Eu cansei de perder, Emanuel.
Emanuel passou o braço pelos ombros dela, sentindo a pele macia. Ele sabia que aquele biquíni era apenas o começo de uma nova fase. Eduarda aprendera que a fragilidade era uma arma, mas que a sensualidade era o gatilho.
— Vamos subir — disse ele, levantando-a. — Mas você vai colocar uma camiseta. Minha pressão não aguenta mais dez minutos disso.
Eduarda sorriu, o primeiro sorriso genuíno do dia. Ela pegou sua saída de praia branca e a vestiu, mas não a amarrou.
— Você vai comprar um biquíni novo para mim, Manu? — ela perguntou, enquanto caminhavam para o elevador. — Um que você escolha?
— Vou comprar uma armadura de ferro para você, isso sim — Emanuel resmungou, mas havia uma leveza em seu tom que não estava lá antes.
Ao entrarem no elevador, o espelho refletiu o trio que eles eram, mesmo com a ausência física de Sara naquele momento. Emanuel sabia que, lá em cima, encontraria uma Sara furiosa e possivelmente armada com algum novo plano para humilhar Eduarda.
O elevador parou na cobertura. Assim que as portas se abriram, o cheiro de um perfume forte e caro inundou o ambiente. Sara estava no meio da sala, mas não estava mais de biquíni. Ela vestia um conjunto de alfaiataria impecável, segurando uma taça de champanhe.
— Demoraram — disse Sara, com uma calma gélida. — Eu estava aqui pensando... já que a Eduarda quer tanto mostrar o que tem, talvez devêssemos organizar uma festa. Uma festa de máscaras aqui na cobertura. Só para os seus clientes mais vips, Emanuel. O que acha, Duda? Você pode usar o seu biquíni de vovó e eu uso algo... apropriado para uma rainha.
Emanuel fechou os olhos, encostando a cabeça na porta do elevador. O trauma emocional das quinze sacolas agora parecia um passeio no parque comparado ao que estava por vir. O biquíni de crochê fora apenas o tiro de partida para uma guerra de vaidades que ele não tinha mais forças para mediar.
— Eu vou para o estúdio — Emanuel disse, dando meia volta para o elevador.
— Mas Manu, a gente acabou de chegar! — Eduarda protestou, agarrando a mão dele.
— Você não vai fugir agora, Emanuel! — Sara gritou da sala.
As portas do elevador se fecharam antes que qualquer uma das duas pudesse alcançá-lo. Enquanto o cubículo de metal descia, Emanuel olhou para o próprio reflexo. Ele estava rico, bem-sucedido e amado por duas mulheres lindas.
— Por que eu sinto que estou indo para a forca? — perguntou ele para o espelho.
Lá em cima, o som de um vaso quebrando indicava que a trégua do biquíni havia terminado oficialmente. A guerra de seda, crochê e verniz estava apenas começando, e Emanuel sabia que, na próxima vez que voltasse, precisaria de muito mais do que planilhas para sobreviver ao labirinto que se tornara sua própria casa.