Duas
O Despertar da Renda e o Caos de Crochê
A paz na cobertura de Emanuel era como uma tatuagem recém-feita: parecia bonita na superfície, mas ardia ao menor toque. Após o confronto na piscina, algo havia mudado irremediavelmente na psique de Eduarda. A jovem estudante de História da Arte, que antes se escondia em cardigãs de lã e cores pastéis, descobrira que o tecido — ou a falta dele — era uma linguagem que Emanuel entendia com uma clareza perturbadora.
Para Emanuel, o pesadelo começou com a chegada da primeira caixa. Era uma embalagem discreta, de uma boutique exclusiva no Jardins, mas o conteúdo era tudo menos reservado.
— Manu, você pode me ajudar com esse fecho? — a voz de Eduarda veio do quarto, carregada daquela manha que costumava derreter a resistência dele.
Emanuel largou os desenhos de uma fênix que estava finalizando e caminhou até o quarto. Ele esperava encontrá-la com algum vestido romântico, talvez algo para um jantar tranquilo. Em vez disso, encontrou Eduarda parada diante do espelho de corpo inteiro, vestindo um conjunto de lingerie que parecia ter sido esculpido em teias de aranha negras. Era uma peça de renda tão fina e minimalista que mal cumpria a função de vestimenta.
— O que é isso, Eduarda? — Emanuel perguntou, a voz falhando por um segundo enquanto seus olhos percorriam as linhas delicadas que contrastavam com a pele alva dela.
— Eu achei bonito — disse ela, virando-se lentamente, os olhos grandes e inocentes brilhando com uma malícia nova. — A vendedora disse que é uma tendência "minimalista-sensual". Combina com a minha estrutura óssea, não acha?
— Combina com um ataque cardíaco, isso sim — Emanuel resmungou, aproximando-se para fechar o minúsculo colchete nas costas dela. — Onde está aquela camisola de algodão com estampa de coelhinhos que você adorava?
— Aquela? — Eduarda soltou uma risadinha cristalina. — Eu dei para a caridade, Manu. Descobri que a seda e a renda fazem eu me sentir mais... intuitiva. Mais conectada com a minha própria arte.
Emanuel sentiu um calafrio. Se Eduarda estava se conectando com a arte através de lingeries que custavam o preço de uma moto, ele estava em apuros. Mas o verdadeiro desespero veio nos dias seguintes. O que começou com um conjunto negro tornou-se uma invasão.
Caixas e mais caixas de lojas de luxo começaram a brotar na portaria como cogumelos após a chuva. Eduarda, que antes mal gastava seu limite em livros e pincéis, parecia ter desenvolvido uma obsessão geométrica: quanto menor a peça, maior o interesse dela.
— Outra entrega? — Sara perguntou na manhã de quarta-feira, observando com desprezo enquanto o porteiro subia com três sacolas de uma marca de biquínis australiana.
Sara estava na sala, usando um conjunto de ginástica de lycra neon que gritava por atenção, mas seus olhos estavam fixos em Eduarda, que recebia as compras com um sorriso sereno.
— São apenas algumas comprinhas para a nossa próxima viagem à praia, Sara — respondeu Eduarda, tirando de dentro de uma das sacolas um biquíni de crochê que consistia basicamente em três triângulos do tamanho de selos postais e alguns fios de algodão.
Sara soltou uma gargalhada ruidosa, mas havia um tom de urgência em seu deboche.
— Você vai usar isso? Eduarda, querida, se você espirrar, o biquíni voa para o outro lado da praia. Isso não é moda, é um pedido de socorro.
— O Emanuel gostou do azul, não foi, Manu? — Eduarda virou-se para ele, que acabava de entrar na sala com uma caneca de café.
Emanuel olhou para o emaranhado de fios na mão de Eduarda e sentiu uma pontada na têmpora.
— Eduarda, isso não é um biquíni, é um marcador de página — disse ele, sério. — Você não vai usar isso em público. Eu sou um homem de negócios, tenho uma reputação. Não posso ter minhas... namoradas... andando por aí como se tivessem esquecido metade do figurino em casa.
— Mas Manu — Eduarda aproximou-se, fazendo aquele biquinho que sempre o desarmava, encostando a cabeça no ombro dele —, você sempre diz que a pele é a tela mais bonita. Eu só estou deixando a tela mais visível para você.
— Ela está te manipulando, Emanuel! — Sara gritou, levantando-se do sofá. — Ela está tentando ser "vulgar" para competir comigo, mas como ela é sonsa, ela chama de "arte". Isso é patético!
— Vulgar é esse seu neon que brilha no escuro, Sara — Eduarda rebateu, sem perder a doçura na voz. — O crochê é orgânico. É tátil. O Emanuel entende de texturas, não é, querido?
Emanuel fechou os olhos. Ele estava no meio de uma guerra de tecidos. De um lado, o verniz, o silicone e a agressividade explícita de Sara; do outro, a renda, o crochê e a manipulação silenciosa de Eduarda. O problema era que a nova obsessão de Eduarda estava drenando não apenas sua paciência, mas sua sanidade.
Naquela tarde, ele decidiu que precisava de um limite. Ele entrou no quarto de Eduarda e abriu a gaveta de lingeries. O que viu o deixou tonto. Havia mais tiras de cetim e seda ali do que em uma fábrica de fitas. Peças que pareciam quebra-cabeças eróticos, biquínis que desafiavam a gravidade e transparências que não deixavam absolutamente nada para a imaginação.
— Eduarda, precisamos conversar sobre esses gastos — Emanuel disse quando ela entrou no quarto, segurando mais uma sacola.
— Ah, Manu, não seja chato com dinheiro — disse ela, jogando a sacola na cama. — Você é rico. Tem estúdios pelo mundo todo. O que são alguns metros de renda francesa comparados ao meu bem-estar emocional?
— Seu bem-estar emocional ou sua competição com a Sara? — Emanuel cruzou os braços, tentando manter a postura de autoridade.
Eduarda caminhou até ele, envolvendo o pescoço de Emanuel com os braços. Ela cheirava a baunilha e a algo novo, algo mais maduro.
— A Sara acha que é a única que pode te deixar sem fôlego, Manu. Eu só estou mostrando que a "menina sensível" também sabe como te prender. Você não gosta de ver como eu fico nessas peças?
Emanuel suspirou, sentindo a derrota se aproximar.
— Eu gosto, Duda. Mas você está comprando tudo! Ontem eu achei um biquíni de strass dentro da minha pasta de desenhos!
— Era uma surpresa — ela sussurrou, roçando o nariz no dele. — Eu queria que você lembrasse de mim durante as reuniões.
O trauma emocional de Emanuel estava atingindo níveis críticos. Ele se sentia como um mediador de uma guerra onde as armas eram feitas de lycra e renda. Se ele proibisse Eduarda de comprar, ela choraria e diria que ele estava podando sua liberdade de expressão. Se ele deixasse, a cobertura acabaria soterrada em fios dental.
A situação explodiu de vez no sábado à noite. Emanuel havia organizado um pequeno coquetel para alguns investidores alemães em sua cobertura. Era um evento formal, de negócios. Ele havia sido explícito: roupas discretas e comportamento profissional.
Sara apareceu com um vestido de veludo vermelho, justo como uma segunda pele e com um decote que desafiava a lei da gravidade, mas ainda assim, era um vestido. Ela circulava entre os convidados com sua confiança habitual, fazendo Emanuel suspirar de alívio por ela estar, ao menos, vestida.
— Onde está a Eduarda? — perguntou um dos investidores, um homem sério de meia-idade. — Você disse que ela estuda História da Arte, eu adoraria conversar sobre a Bienal.
— Ela já vem, está terminando de se arrumar — disse Emanuel, com um sorriso tenso.
Cinco minutos depois, Eduarda apareceu no topo da escada. O salão ficou em silêncio.
Ela não estava de biquíni, felizmente. Mas o que ela usava era quase pior para os nervos de Emanuel. Era um conjunto de calça e blazer de alfaiataria branca, impecavelmente cortado. O problema era o que ela — não — usava por baixo do blazer.
Eduarda havia escolhido um de seus novos "micro-tops" de renda, uma peça que era basicamente dois triângulos de seda unidos por uma corrente de ouro finíssima. O blazer estava aberto, revelando a peça ousada a cada movimento que ela fazia. Era o equilíbrio perfeito entre a elegância clássica e o erotismo provocador.
Sara quase engasgou com o champanhe.
— Aquela... aquela abusada — sibilou Sara para si mesma, os olhos faiscando.
Emanuel caminhou rapidamente até Eduarda, interceptando-a antes que ela chegasse aos alemães.
— Eduarda, o que você está fazendo? — sussurrou ele, entre dentes. — Eu disse formal!
— Mas eu estou de terno, Manu — disse ela, ajeitando o blazer de forma que a renda ficasse ainda mais evidente. — É um visual "high fashion". Mistura o rigor da alfaiataria com a delicadeza da intimidade feminina. É um conceito artístico.
— É um conceito que vai me dar um AVC! — Emanuel rebateu. — Fecha esse blazer agora.
— Se eu fechar, vou sentir calor — ela respondeu, com uma calma irritante. — E a arte não deve ser escondida, querido. Você mesmo diz isso nas suas entrevistas.
Durante toda a noite, Emanuel não conseguiu se concentrar em uma única cifra. Seus olhos estavam grudados em Eduarda, que debatia a estética da Renascença com os alemães enquanto a renda de seu top subia e descia a cada respiração profunda. E, claro, havia Sara, que para não ficar por baixo, começou a abrir o próprio decote e a rir mais alto, tentando recuperar o centro das atenções.
Quando o último convidado saiu, Emanuel desabou no sofá, enterrando a cabeça nas mãos.
— Eu não aguento mais — murmurou ele. — Eu vou vender este apartamento e ir morar em um mosteiro.
— Não seja dramático, Manu — disse Sara, tirando os sapatos de salto e jogando-os longe. — O problema é que você dá corda para essa sonsa. Agora ela acha que é a rainha do cabaré só porque comprou umas tiras de pano.
— Eu não sou rainha de nada, Sara — disse Eduarda, descendo as escadas após trocar de roupa. Ela agora usava um biquíni de fita adesiva decorativa que acabara de chegar pelo correio, coberto apenas por um robe transparente. — Eu só estou explorando novas texturas. O Emanuel não pareceu reclamar quando os investidores disseram que eu era a mulher mais fascinante que já conheceram.
— Eles disseram isso porque estavam tentando não olhar para os seus mamilos, Eduarda! — Sara gritou, avançando na direção dela.
— Invejosa! — Eduarda se encolheu atrás de Emanuel. — Manu, olha como ela fala comigo! Eu só quero me sentir bonita para você!
— Bonita? Você parece um presente embrulhado por uma criança de cinco anos com essa fita! — Sara tentou agarrar o robe de Eduarda.
— CHEGA! — Emanuel rugiu, levantando-se com uma fúria que fez as duas pararem instantaneamente. — Amanhã, nós vamos ao shopping. De novo.
As duas brilharam os olhos.
— Mas — continuou Emanuel, com o dedo em riste — eu vou escolher as roupas. E eu vou comprar um cofre. Um cofre onde todas essas rendas, fitas, crochês e vernizes vão ficar trancados. Vocês só vão usar o que eu autorizar, quando eu autorizar. Eu sou o controlador desta casa, e se vocês querem brincar de boneca, eu vou ser quem dita o figurino!
— Você não pode fazer isso! — Sara protestou.
— É contra os meus direitos de expressão artística! — Eduarda choramingou, tentando se apoiar no braço dele.
— Eu posso e eu vou — Emanuel disse, caminhando em direção ao quarto. — E Eduarda, se eu encontrar mais um biquíni de crochê nas minhas pastas de trabalho, eu vou usar a linha para costurar a sua boca!
Ele bateu a porta do quarto, deixando as duas na sala. O silêncio durou pouco.
— Viu o que você fez? — Sara sibilou para Eduarda. — Agora ele vai nos vestir como freiras.
— Ele não vai conseguir — Eduarda sorriu, limpando uma lágrima falsa. — Ele adora o controle, Sara. Mas ele adora ainda mais o que está por baixo do controle. Amanhã, no shopping, eu vou convencê-lo a comprar aquela lingerie de seda pura que vi na vitrine.
— Só se eu convencê-lo a comprar o espartilho de couro primeiro — Sara rebateu, cruzando os braços.
No quarto, Emanuel ouvia o murmúrio das duas e sentia o peso de sua vida. Ele era um homem rico, poderoso e respeitado, mas ali, entre aquelas quatro paredes, ele era apenas o carregador de sacolas e o alvo de uma guerra de sedução que não tinha fim. Ele olhou para sua gaveta de meias e encontrou, escondido lá no fundo, um par de calcinhas de renda vermelha com um bilhete de Eduarda: "Para você não esquecer de voltar logo".
Emanuel suspirou, guardou a peça e deitou-se. Ele sabia que, no dia seguinte, sairia do shopping com mais quinze sacolas, um limite estourado e um trauma emocional que nenhuma tatuagem no mundo seria capaz de cobrir. A guerra da renda estava apenas começando, e ele era o campo de batalha mais feliz e exausto da história.