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Duas

Sinfonia de Hormônios e Alfinetadas

O silêncio na cobertura de Emanuel não era o de uma biblioteca, mas o de um campo minado onde cada passo em falso poderia resultar em uma explosão de proporções catastróficas. O ar parecia mais pesado, carregado com o cheiro de incenso de lavanda que Eduarda acendera para "acalmar as energias" e o odor metálico e doce de chocolate que Sara devorava compulsivamente sentada no balcão da cozinha.

Emanuel, sentado em sua poltrona de couro legítimo, tentava se concentrar em um projeto de tatuagem *blackwork* para um cliente de Berlim. Ele era um mestre em lidar com a dor física dos outros, mas a dor emocional e biológica que emanava daquelas duas mulheres naquele dia específico era algo que desafiava sua sanidade. Pela primeira vez em três anos de relacionamento triplo, o ciclo de Eduarda e Sara havia sincronizado com uma precisão matemática cruel.

— Manu... — a voz de Eduarda veio do sofá, arrastada, manhosa, quase um sussurro de agonia. — Meu ventre parece que está sendo preenchido por chumbo derretido. Você pode trocar a minha bolsa de água quente? De novo?

Emanuel suspirou, deixando o tablet de lado. Ele olhou para Eduarda, que estava enrolada em um cobertor de lã de ovelha, o rosto pálido e os olhos grandes ainda mais úmidos que o normal. Ela parecia uma criança febril, a personificação da fragilidade.

— Claro, Duda. Vou preparar agora — disse ele, levantando-se com a paciência de um santo.

— Ah, pelo amor de Deus! — a voz de Sara cortou o ambiente como uma serra elétrica. Ela estava vestindo um conjunto de moletom de grife, mas seu cabelo loiro estava preso em um coque desleixado e sua pele, geralmente impecável, exibia uma pequena espinha no queixo que ela tentava esconder com camadas de corretivo. — "Chumbo derretido", Eduarda? Menos, bem menos. Todas nós estamos sangrando, não precisa fazer um monólogo de Shakespeare sobre isso.

Eduarda encolheu-se sob o cobertor, lançando um olhar de mágoa profunda para Emanuel.

— Eu sou sensível, Sara. Nem todo mundo tem o útero feito de aço inoxidável e silicone como você — sussurrou a morena, limpando uma lágrima solitária.

Sara bateu a barra de chocolate na mesa, os olhos faiscando.

— O que você disse, sua pálida de museu? Se você está com dor, imagina eu! Meus seios estão pesando dez quilos cada um, minhas costas parecem que foram atropeladas por um caminhão e eu sinto que se alguém respirar perto de mim, eu sou capaz de cometer um crime!

Emanuel parou no meio do caminho para a cozinha, sentindo a tensão subir pelas suas costas. Ele conhecia os sinais. Sara estava na fase da irritabilidade vulcânica, enquanto Eduarda mergulhara no oceano da autocomiseração melancólica.

— Sara, por favor — pediu Emanuel, a voz firme. — Não complique as coisas. Ela está com cólica.

— E eu estou com fome, com raiva e com vontade de jogar esse vaso de cristal na cabeça de alguém! — Sara levantou-se, caminhando até ele com passos pesados. — Você deu atenção para ela a manhã inteira. Trouxe chá, trouxe o livro de arte, trouxe a porcaria da bolsa de água. E para mim? Você nem percebeu que eu terminei o estoque de chocolate amargo e que estou quase tendo um colapso porque essa casa cheira a lavanda e fraqueza!

Eduarda soltou um soluço baixo do sofá.

— Eu não sou fraca... eu só sinto as coisas mais intensamente...

— Você sente as coisas de forma conveniente! — rebateu Sara, voltando-se para a outra. — Usa esse período para se transformar em uma boneca de porcelana quebrada só para o Emanuel carregar você no colo. Eu também quero ser carregada, mas eu não fico fingindo que estou morrendo!

Emanuel caminhou até a cozinha, ignorando a discussão por um momento para encher a chaleira. Ele precisava de silêncio, mas o silêncio era um luxo que ele não possuía naquela cobertura.

— Manu... — Eduarda chamou novamente, agora com um tom mais agudo. — A Sara está sendo agressiva de novo. Minha cabeça está começando a latejar.

— Agressiva? Eu vou te mostrar o que é agressividade quando eu esfregar essa sua cara de coitada no tapete! — Sara gritou, aproximando-se do sofá.

Emanuel voltou para a sala, segurando a bolsa de água quente recém-preenchida. Ele se colocou entre as duas, a estatura alta e a expressão severa servindo como uma barreira física.

— Chega. As duas — sentenciou ele. — Sara, vá para o quarto e tome um banho quente. Eu vou pedir o seu chocolate favorito por aplicativo, o dobro do que você costuma comer. Eduarda, aqui está a sua bolsa. Fique quieta e tente dormir um pouco.

Eduarda pegou a bolsa, abraçando-a contra o abdômen com um suspiro de alívio, mas seus olhos continuaram fixos em Sara com um brilho de vitória silenciosa.

— Viu? — sussurrou Eduarda. — Ele cuida de quem merece cuidado.

Sara soltou um rosnado de frustração que parecia vir do fundo de sua alma.

— Eu odeio você. Eu odeio esse seu jeito de sonsa. E Emanuel, se você trouxer o chocolate errado, eu juro que tatuo "Eu amo a Eduarda" na sua testa enquanto você dorme!

Sara saiu pisando fundo, a porta do quarto batendo com uma força que fez os vidros da cristaleira tremerem. Emanuel fechou os olhos, respirando fundo. Ele caminhou até o sofá e sentou-se na beirada, passando a mão pelo cabelo de Eduarda.

— Você não precisava ter provocado ela, Duda — disse ele, o tom de voz carregado de cansaço.

— Eu não provoquei, Manu... — ela se inclinou, apoiando a cabeça no colo dele, buscando a proximidade física que sempre o desarmava. — Eu só existo, e isso já parece irritar a Sara. Ela é tão... intensa. Eu só queria um pouco de carinho. Você sabe como eu fico emocional nesses dias. Sinto que o mundo é um lugar muito hostil.

— O mundo não é hostil, Duda. A convivência com a Sara é que é um desafio — respondeu ele, embora soubesse que Eduarda também tinha sua parcela de culpa na toxicidade do ambiente. — Mas você sabe que ela também sofre. Ela externa a dor com raiva, você com choro. No fim, é a mesma coisa.

— Não é a mesma coisa — insistiu Eduarda, fechando os olhos enquanto recebia o carinho. — Eu amo você de um jeito suave. Ela ama você como se fosse uma posse.

Emanuel não respondeu. Ele amava as duas, de formas que nem ele mesmo conseguia explicar logicamente. Eduarda era o seu refúgio, a estética delicada, a conversa sobre cores e sentimentos. Sara era a energia, o desejo carnal e a praticidade que mantinha seus negócios em ordem quando ele se perdia na própria arte. Mas naquele dia, ele sentia que estava gerenciando duas ogivas nucleares com os cronômetros sincronizados.

Meia hora depois, o interfone tocou. Era a entrega de Sara. Emanuel pegou o pacote — uma sacola pesada com diversas variedades de chocolates belgas e alguns petiscos salgados. Ele caminhou até o quarto de Sara com a cautela de quem entra na jaula de um leão ferido.

Ao entrar, encontrou o quarto na penumbra. Sara estava deitada de bruços, a cabeça enterrada em dois travesseiros.

— Trouxe o seu estoque — disse ele, colocando a sacola na mesa de cabeceira.

Sara virou-se devagar. Seus olhos estavam vermelhos. Para sua surpresa, ela não estava com raiva, mas com uma expressão de vulnerabilidade que ela raramente permitia que alguém visse.

— Eu me sinto inchada, Emanuel — disse ela, a voz rouca. — Eu me sinto feia. Olhe para essa espinha. Eu pareço um monstro de parque de diversões. E aquela... aquela garota de museu continua parecendo uma pintura pré-rafaelita mesmo quando está sangrando.

Emanuel sentou-se na cama, puxando-a para sentar-se entre suas pernas. Ele abraçou-a por trás, as mãos grandes espalmadas sobre o ventre dela, onde o calor de sua pele parecia acalmar os espasmos.

— Você não é um monstro, Sara. Você é a mulher mais vibrante que eu conheço. Essa irritabilidade é passageira. E você não está feia. Está apenas... humana.

Sara relaxou contra o peito dele, pegando um pedaço de chocolate e colocando na boca.

— Ela me tira do sério, Manu. Ela usa essa fragilidade como se fosse uma coroa. E você sempre cai. Você sempre corre para protegê-la como se ela fosse feita de vidro.

— Eu protejo você também, Sara. Só que você não facilita. Você morde a mão de quem tenta ajudar.

— É o meu instinto — murmurou ela, o chocolate começando a fazer efeito em seu humor. — Eu não sei ser "manhosa". Eu não sei pedir carinho sem parecer que estou dando uma ordem.

— Eu sei disso. E é por isso que eu estou aqui — disse ele, beijando o ombro dela.

O momento de paz foi interrompido por um grito vindo da sala.

— MANU! MANU, POR FAVOR!

Emanuel levantou-se num salto, seguido por uma Sara agora novamente em alerta de combate. Eles correram para a sala e encontraram Eduarda de pé, segurando o abdômen, o rosto transfigurado por uma expressão de horror.

— O que foi? O que aconteceu? — Emanuel perguntou, segurando-a pelos ombros.

— Eu... eu acho que vou desmaiar... a dor... foi como uma facada — Eduarda começou a ofegar, as pernas vacilando.

Sara cruzou os braços, observando a cena com ceticismo.

— Ah, não. Outro desmaio dramático não. Eduarda, já demos o Oscar de hoje para você, pode parar com a performance.

— Cala a boca, Sara! — Eduarda gritou, algo raro em seu comportamento. — Eu estou falando sério! Está doendo muito!

Emanuel notou que a palidez de Eduarda era real. Havia pequenas gotas de suor em sua testa.

— Duda, respira. Onde dói exatamente?

— Aqui... embaixo... — ela apontou para o lado direito.

Sara deu um passo à frente, sua formação prática e observadora falando mais alto que a rivalidade por um momento. Ela olhou para a posição da mão de Eduarda e para a forma como ela tentava encolher a perna direita.

— Emanuel — disse Sara, a voz subitamente séria e desprovida de sarcasmo. — Isso pode não ser cólica.

— O que você quer dizer? — Emanuel olhou para Sara.

— A dor dela está muito localizada à direita. E ela está com o que chamamos de sinal de descompressão dolorosa... olhe como ela reage quando você solta a pressão.

Sara aproximou-se e, com uma técnica que Emanuel não sabia que ela possuía, pressionou levemente o abdômen de Eduarda e soltou rapidamente. Eduarda soltou um grito agudo e quase caiu.

— Apendicite — sentenciou Sara. — Esqueça o útero, o problema é o apêndice. Temos que levá-la para o hospital agora.

Emanuel não questionou. Ele pegou Eduarda no colo, sua mente entrando em modo de crise funcional.

— Sara, pegue os documentos dela e uma bolsa com roupas básicas. Agora!

Pela primeira vez em muito tempo, as duas não discutiram. Sara moveu-se com a eficiência de uma administradora de elite, organizando tudo em menos de cinco minutos enquanto Emanuel levava Eduarda para o elevador.

O trajeto até o hospital foi um borrão de tensão. Eduarda gemia no banco de trás, a cabeça no colo de Sara. Sim, no colo de Sara. A loira, embora mantivesse a expressão rígida, passava a mão pela testa da morena, limpando o suor com um lenço de papel.

— Aguenta firme, sua sonsa — murmurava Sara, num tom que era metade insulto, metade encorajamento. — Você não pode morrer agora, eu ainda não terminei de te irritar esta semana.

— Eu... eu te odeio, Sara... — respondeu Eduarda, a voz fraca.

— Eu sei. Guarde suas energias para odiar o cirurgião.

No hospital, as coisas aconteceram rápido. O diagnóstico de Sara estava correto: apendicite aguda. Eduarda foi levada para a sala de cirurgia em menos de uma hora.

Emanuel e Sara ficaram na sala de espera. O silêncio entre eles era diferente agora. Não era carregado de eletricidade estática, mas de uma exaustão compartilhada. Emanuel estava sentado com os cotovelos nos joelhos, a cabeça entre as mãos. Sara estava ao seu lado, segurando um copo de café de máquina que tinha gosto de plástico.

— Você foi bem, Sara — disse Emanuel, sem olhar para ela. — Como sabia o que era?

— Meu pai teve isso quando eu era adolescente. Eu decorei os sintomas. Além disso, apesar de tudo, eu conheço o corpo daquela garota quase tão bem quanto você. Eu sabia que aquele grito não era o "choro de sempre".

Emanuel olhou para ela e viu que Sara também estava pálida. O estresse da situação havia drenado sua energia agressiva.

— Você salvou a vida dela, ou pelo menos evitou algo muito pior.

Sara deu de ombros, tomando um gole do café ruim.

— Não fiz por ela. Fiz por você. Eu não queria ter que lidar com você em luto, seria um porre insuportável. E, lá no fundo... bem lá no fundo... a casa ficaria silenciosa demais sem as reclamações dela.

Emanuel sorriu levemente e puxou Sara para um abraço lateral.

— Você é uma mentirosa, Sara. Você se importa com ela.

— Se você contar isso para alguém, eu nego até a morte — respondeu ela, encostando a cabeça no ombro dele. — Mas sim, talvez eu me importe um pouco. É como um bicho de estimação irritante. Você se acostuma com o barulho.

Horas depois, o médico apareceu. A cirurgia fora um sucesso. Eduarda estava na recuperação e logo iria para o quarto.

Quando finalmente puderam vê-la, Eduarda estava acordada, mas grogue devido à anestesia. Ela viu os dois entrarem e um sorriso fraco surgiu em seus lábios.

— Manu... — ela chamou. Depois, seus olhos focaram em Sara. — Sara... você me ajudou... você não me deixou morrer...

Sara caminhou até a beira da cama, cruzando os braços e tentando retomar sua máscara de indiferença, embora seus olhos estivessem mais suaves.

— Claro que ajudei. Se você morresse, quem é que eu ia chamar de vulgar o resto da vida? Agora trate de se recuperar logo. Essa sua palidez agora é real e está me dando aflição.

Eduarda estendeu a mão para Sara. Foi um gesto hesitante, quase tímido. Sara olhou para a mão, depois para Emanuel, que apenas assentiu com o olhar. Com um suspiro de "não acredito que estou fazendo isso", Sara segurou a mão de Eduarda.

— Obrigada — sussurrou a morena.

— De nada. Mas não se acostume. Assim que você sair desse hospital e sua menstruação acabar, a guerra volta ao normal — avisou Sara.

— Eu não esperaria nada menos de você — respondeu Eduarda, fechando os olhos para descansar.

Emanuel observou as duas. Ali, naquele quarto de hospital esterilizado, ele viu um vislumbre do que aquele relacionamento poderia ser se as defesas caíssem. Ele sabia que a trégua era temporária, um subproduto do susto e dos hormônios em fúria, mas era um começo.

Nos dias seguintes, a cobertura de Emanuel mudou de dinâmica. Sara, surpreendentemente, assumiu o papel de cuidadora com uma disciplina militar. Ela controlava os horários dos remédios de Eduarda, preparava sopas leves (embora reclamasse do cheiro o tempo todo) e garantia que a morena não fizesse esforço.

Eduarda, por sua vez, estava menos manhosa e mais genuinamente grata. Ela ainda pedia a atenção de Emanuel, mas agora também buscava a aprovação de Sara, como se o evento tivesse criado um vínculo de sangue — literalmente — entre elas.

Emanuel, no entanto, continuava sendo o porto seguro. Certa noite, com Eduarda já em casa, recuperando-se no sofá, e Sara sentada no chão ao lado dele, os três assistiam a um filme clássico.

— Manu... — disse Eduarda, quebrando o silêncio. — Sabe o que eu percebi?

— O quê, Duda?

— Que mesmo quando a gente se odeia, a gente funciona. É estranho, mas funciona.

Sara soltou uma risada, servindo-se de uma taça de vinho, agora que seu ciclo estava terminando e seu humor voltava ao normal.

— Funciona porque o Emanuel é um mestre em lidar com mulheres problemáticas. Ele deveria ganhar um prêmio de gerenciamento de crise.

Emanuel riu, abraçando as duas ao mesmo tempo.

— Eu não quero prêmios. Só quero que, da próxima vez que vocês sincronizarem o ciclo, a gente não precise de uma cirurgia de emergência para manter a paz.

— Promessas que não podemos cumprir, querido — disse Sara, piscando para ele.

— É — concordou Eduarda, aninhando-se nele. — Mas pelo menos agora eu sei que, se eu estiver morrendo, a Sara vai ser a primeira a notar.

— Só para garantir que eu vou dar a última palavra — retrucou a loira.

Emanuel olhou para as luzes da cidade pela janela. Sua vida era um caos, uma mistura de arte, dor, silicone, seda e agora, cicatrizes de cirurgia. Mas, enquanto observava as duas mulheres que preenchiam seus dias com tanta intensidade, ele percebeu que não trocaria aquele desequilíbrio por nenhuma paz monótona do mundo.

Afinal, na pele da vida, as tatuagens mais bonitas eram aquelas que doíam um pouco para serem feitas, mas que duravam para sempre, marcando a história de quem teve a coragem de suportar a agulha. E ele, Emanuel, tinha pele de sobra para todas elas.