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Duas

Entre o Algodão-Doce e a Adrenalina

O trégua forçada pela cirurgia de Eduarda havia derretido mais rápido que gelo sob o sol de verão. Bastou a primeira cicatriz fechar e o vigor de Sara retornar para que o apartamento de Emanuel voltasse a ser um campo de batalha estético e emocional. A gratidão de Eduarda fora guardada em uma gaveta de veludo, e o instinto cuidador de Sara fora enterrado sob camadas de batom vibrante e sarcasmo.

— Eu não acredito que você vai usar isso para ir ao parque, Sara — disse Eduarda, sentada na beira da cama, observando a outra se enfiar em um short jeans curtíssimo e um top que parecia ser feito de duas tiras de elastano. — É um passeio com amigos, não um teste de elenco para um clipe de funk.

Sara terminou de passar um gloss labial que brilhava como vidro e se virou, arqueando uma sobrancelha perfeitamente desenhada.

— E você, Duda? Vai vestida de camponesa do século XIX de novo? — Sara apontou para o vestido floral de Eduarda, de mangas bufantes e comprimento midi. — Só falta a cesta de vime e o chapeuzinho de palha. O Emanuel gosta de ver curvas, querida, não de adivinhar onde termina o pano e começa o corpo.

— O Emanuel gosta de elegância — rebateu Eduarda, levantando-se com sua calma irritante. — Ele é um artista. Ele valoriza a composição, não a exposição gratuita.

Emanuel apareceu na porta do quarto, terminando de calçar seus tênis pretos. Ele vestia uma camiseta básica que deixava as tatuagens dos braços à mostra, o que sempre atraía olhares por onde passava. Ele suspirou, sentindo o peso familiar da discórdia.

— Se vocês duas não pararem de se avaliar como se fossem críticas de moda, vamos perder o horário com o pessoal — disse ele, a voz firme. — E hoje é um dia de lazer. Sem brigas, entenderam?

— Eu estou em paz, Manu — disse Eduarda, aproximando-se dele e segurando seu braço com aquele jeito dengoso que fazia Sara revirar os olhos. — Só acho que certas roupas não combinam com o ambiente familiar de um parque.

— E eu acho que certas pessoas não combinam com a luz do dia — retrucou Sara, pegando seus óculos escuros de grife. — Vamos logo, Emanuel. O pessoal já deve estar lá.

O Parque Ibirapuera estava vibrante, um mar de gente aproveitando o domingo ensolarado. O grupo de amigos de Emanuel e as amigas de Sara — um bando de mulheres loiras, bronzeadas e ruidosas — já haviam montado uma espécie de acampamento VIP perto do lago.

— Emanuel! Finalmente! — gritou Vanessa, uma das melhores amigas de Sara, que usava um biquíni por baixo de uma saída de praia transparente. — Achei que você tivesse ficado preso entre a santinha e a profana!

Sara riu alto, cumprimentando as amigas com beijos exagerados, enquanto Eduarda se encolhia atrás de Emanuel, apertando a mão dele. O contraste era gritante: de um lado, o grupo de Sara exalava perfume importado, risadas escandalosas e discussões sobre procedimentos estéticos; do outro, Eduarda observava as árvores e os patos no lago com um olhar de admiração contemplativa.

— Manu, olha que luz linda está batendo naquelas vitórias-régias — sussurrou Eduarda. — Poderíamos estender uma toalha ali, longe dessa barulheira. Eu trouxe alguns queijos e um livro de poesias.

— Poesia? — Sara surgiu do nada, segurando um copo térmico com o que parecia ser gim-tônica. — Eduarda, a gente veio para um parque, não para um retiro espiritual. Emanuel, o pessoal quer ir para a área de diversões. Tem aquela montanha-russa itinerante e o bungee jump móvel. Eu já apostei com a Vanessa que você vai comigo no brinquedo que gira 360 graus.

Emanuel olhou para as duas. Eduarda tinha os olhos suplicantes, a mão pequena acariciando o antebraço dele, buscando o silêncio e a intimidade. Sara tinha o corpo inclinado para a frente, a energia pulsando, desafiando-o a viver o extremo.

— Eu não gosto de altura, Sara — disse Eduarda, a voz trêmula. — E o Manu sabe que eu fico enjoada com facilidade. Além disso, a gente combinou de fazer um piquenique.

— Você combinou com a sua sombra, Duda — rebateu Sara. — Emanuel, você é um homem rico, bem-sucedido, dono de estúdios no mundo todo... vai mesmo passar a tarde lendo verso de quem já morreu enquanto pode sentir a adrenalina de verdade?

— Eu posso fazer as duas coisas — tentou mediar Emanuel, sentindo o suor começar a brotar na nuca.

— Não, não pode! — disseram as duas em coro.

— Primeiro o piquenique — decidiu Emanuel, tentando ser estratégico. — Comemos algo leve, descansamos o almoço e depois vamos ver os brinquedos.

Eduarda sorriu vitoriosa, conduzindo-o para a sombra de uma árvore frondosa. Ela estendeu uma toalha de linho bordada, organizando pequenas porções de frutas cortadas e queijos finos. O grupo de Sara, no entanto, não facilitou. Elas se sentaram ao redor, trazendo caixas de som portáteis que tocavam um batidão eletrônico que nitidamente agredia os ouvidos de Eduarda.

— Manu, você não acha que essa música está um pouco... alta? — perguntou Eduarda, tentando ler seu livro enquanto Sara fazia uma dancinha provocante na frente de Emanuel, balançando os quadris de forma rítmica.

— Está perfeita para o clima, Duda! — gritou Sara sobre o som. — Deixa de ser ranzinza! Emanuel, experimenta esse morango com champanhe que a Vanessa trouxe.

Sara se inclinou sobre Emanuel, oferecendo a fruta na boca dele. Eduarda, num movimento rápido, pegou um pedaço de queijo brie e também o ofereceu. Emanuel se viu cercado: de um lado, a vulgaridade magnética de Sara, o cheiro de álcool e festa; do outro, a doçura manhosa de Eduarda, o cheiro de lavanda e a promessa de uma tarde tranquila.

Ele mordeu o morango de Sara e, logo em seguida, o queijo de Eduarda.

— Vocês vão me deixar louco antes do pôr do sol — disse ele, mastigando o misto de sabores.

— É o seu destino, querido — riu Sara, sentando-se no colo dele por um momento, apenas para marcar território e fazer Eduarda bufar de indignação.

— Manu, eu trouxe um caderno de desenho — disse Eduarda, ignorando a provocação de Sara. — Pensei que você pudesse esboçar algo baseado na natureza hoje. Você trabalha tanto com agulhas e máquinas... a mão livre seria tão terapêutico.

— Esboçar árvore? — Sara revirou os olhos. — Ele esboça corpos, Eduarda. Corpos reais. Emanuel, chega de queijo. A fila do Kamikaze está aumentando. Vamos agora ou eu vou sozinha com aquele instrutor bonitão que estava me olhando.

Emanuel levantou-se, sentindo a tensão muscular. O papel de mediador era exaustivo, mas havia uma parte sombria de seu ego que se alimentava daquela disputa. Ele gostava de ser o sol em torno do qual aqueles dois planetas tão diferentes orbitavam.

— Tudo bem, vamos para os brinquedos. Duda, você vem com a gente.

— Eu não vou naquilo, Manu! — Eduarda se levantou, limpando o vestido com as mãos. — Eu vou ficar aqui cuidando das coisas.

— Ah, não vai não! — Sara agarrou o pulso de Eduarda, não com força, mas com uma insistência irritante. — Você vive se apoiando nele para tudo, agora vai acompanhar o homem nas vontades dele também. Deixa de ser frouxa.

— Eu não sou frouxa, Sara! Eu só tenho respeito pelo meu sistema digestivo!

— Vamos, Duda — pediu Emanuel, passando o braço pelos ombros dela. — Eu seguro a sua mão o tempo todo.

A área de brinquedos era um caos de luzes, gritos e cheiro de pipoca gordurosa. Sara estava em seu elemento, correndo para a fila do brinquedo mais alto, que girava as pessoas de cabeça para baixo a vinte metros de altura.

— Duas entradas! — gritou Sara para o operador, apontando para ela e Emanuel. — E uma para a "menina do museu" ali, que vai ficar segurando as nossas bolsas.

— Eu não sou sua carregadora, Sara! — Eduarda cruzou os braços, a expressão de mágoa crescendo. — Manu, eu quero um algodão-doce. Aquele azul, bem grande.

— Agora não, Eduarda! — disse Emanuel, perdendo um pouco a paciência. — Eu vou com a Sara nesse aqui para ela parar de reclamar, e depois eu compro o seu doce e a gente vai na roda-gigante, que é calma. Pode ser?

Eduarda fez um biquinho, os olhos começando a brilhar com lágrimas contidas.

— Tudo bem... eu espero. Como sempre.

Emanuel subiu no brinquedo com Sara. Enquanto o equipamento subia, Sara gritava de excitação, apertando a mão dele com uma força vibrante. Quando o brinquedo despencou e começou as rotações, ela gargalhava, os cabelos loiros voando, a imagem da liberdade selvagem e sem filtros. Emanuel sentiu a adrenalina disparar, o coração batendo na garganta. Era revigorante estar com Sara; ela o lembrava de que ele estava vivo, de que o mundo era intenso e barulhento.

Lá embaixo, Eduarda observava a cena com o coração apertado. Ela odiava como Sara conseguia arrancar de Emanuel aquele sorriso largo e despreocupado. Para Eduarda, Emanuel deveria ser cercado de silêncio e reverência. Ela se sentia pequena diante daquela explosão de energia.

Quando eles desceram, Sara estava radiante, as bochechas coradas, o decote ainda mais desalinhado.

— Isso foi incrível! — ela exclamou, abraçando Emanuel e dando-lhe um beijo ardente, de tirar o fôlego, bem na frente de Eduarda. — Você é o melhor, Manu!

Eduarda aproximou-se, o rosto pálido.

— Agora o meu algodão-doce? — perguntou ela, a voz pequena.

Emanuel, ainda sentindo o sangue pulsar nas têmporas, assentiu. Ele comprou o maior algodão-doce que encontrou. Eduarda começou a comer os flocos azuis com uma delicadeza infantil, sujando levemente a ponta do nariz.

— Está gostoso? — perguntou ele, limpando o açúcar do rosto dela com o polegar.

— Está. Tem gosto de infância — disse ela, voltando a se apoiar nele. — Agora a roda-gigante? Só nós dois?

— Ei! — protestou Sara. — "Só nós dois" o caramba! Eu não vim ao parque para ficar olhando vocês do chão.

— Você já teve seu momento de gritaria, Sara — disse Eduarda, ganhando confiança. — Agora é o meu momento de paz. O Manu prometeu.

Emanuel suspirou. Ele sabia que se deixasse Sara de fora, teria que ouvir reclamações por uma semana. Mas se levasse Sara para a roda-gigante, ela passaria o tempo todo balançando a cabine para assustar Eduarda.

— Vamos os três — decidiu ele. — Mas, Sara, se você balançar aquela cabine uma única vez, eu juro que te deixo voltar para casa a pé.

A cabine da roda-gigante subiu lentamente. O sol estava começando a se pôr, pintando o céu de laranja e violeta. Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, observando a paisagem com um suspiro de satisfação.

— É tão poético daqui de cima... — murmurou ela. — Parece um quadro de Monet.

Sara, sentada à frente deles, estava visivelmente entediada. Ela batia as unhas no banco de metal, olhando para o celular.

— Monet? Parece um bando de formigas lá embaixo — disse Sara. — E esse troço é muito lento. Emanuel, você viu que vai ter uma festa *sunset* no terraço do hotel da Vanessa semana que vem? A gente devia ir. Nada de queijo e livro, só DJ e open bar.

— Eu tenho cirurgia marcada para remover os pontos da vesícula na semana que vem, Sara — disse Eduarda, com uma voz de mártir. — Não posso ir a festas com som alto.

— Ah, pronto! — Sara jogou as mãos para o alto. — Agora a vida de todo mundo tem que parar porque você tirou um pedacinho de gordura do corpo? Emanuel, você não vai cair nessa, vai?

— Eu vou cuidar da Eduarda — disse Emanuel, mas logo completou ao ver a expressão de fúria de Sara: — E depois que ela estiver dormindo, eu posso passar na festa para te ver.

— O quê? — Eduarda se afastou dele. — Você vai me deixar sozinha operada para ir para uma festa com ela?

— Você não vai estar "operada", Duda, você vai estar em recuperação de uma cirurgia simples que aconteceu há dias! — Emanuel aumentou o tom de voz, a paciência finalmente esgotando. — Eu estou tentando equilibrar os pratos aqui, mas vocês dois são pratos de chumbo!

O silêncio caiu sobre a cabine da roda-gigante. Eduarda olhou para o lago, as lágrimas agora caindo de verdade. Sara cruzou os braços e olhou para o outro lado, bufando. Emanuel ficou no meio, sentindo o peso de ser o centro daquele sistema binário em colapso.

Quando desceram do brinquedo, o clima estava gélido, apesar do calor da tarde. As amigas de Sara já estavam chamando para ir a um barzinho próximo.

— Eu vou para casa — anunciou Eduarda, a voz embargada. — Estou com dor de cabeça.

— Eu vou para o bar com as meninas — disse Sara, desafiadora. — O Emanuel vem comigo, não é, Manu?

Emanuel olhou para Eduarda, que parecia uma flor murcha, e para Sara, que era um incêndio indomável. Ele sentiu o estresse acumulado de meses. Ele era o tatuador renomado, o homem que controlava impérios, mas ali, ele era apenas um homem exausto.

— Eu vou levar a Eduarda para casa — disse Emanuel.

Eduarda lançou um olhar de triunfo para Sara. Mas a vitória durou pouco.

— ...e depois — continuou Emanuel, fixando os olhos em Sara —, eu vou encontrar a Sara no bar. E eu não quero ouvir uma única reclamação de nenhuma das duas sobre isso. Se eu ouvir uma palavra, eu desligo o celular e passo a noite no estúdio. Fui claro?

As duas se calaram. Sara deu um sorriso de lado, satisfeita por ter metade do que queria. Eduarda assentiu, aceitando que metade de Emanuel era melhor do que nada.

No caminho para o carro, Emanuel caminhava entre as duas. Eduarda segurava sua mão esquerda, caminhando devagar, manhosamente encostando o ombro no dele. Sara caminhava à direita, ocasionalmente esbarrando nele de propósito, exalando uma sensualidade agressiva.

Ele sentia o contraste na pele: o toque suave e frio de Eduarda, o calor vibrante e elétrico de Sara. Era uma tortura constante, um equilíbrio impossível que exigia dele uma energia que ele mal possuía. Mas, enquanto observava o reflexo dos três em uma vitrine de vidro, ele não pôde deixar de sentir um orgulho sombrio.

Ele tinha a pureza e o caos. A paz e a guerra. A arte renascentista e o grafite de rua.

— Manu? — chamou Eduarda, quando chegaram ao carro. — Você me ajuda a subir? Minhas pernas estão cansadas.

— Eu ajudo, Duda.

— E Manu? — chamou Sara, antes de entrar no táxi com as amigas. — Não demora. Eu vou pedir uma garrafa daquele whisky que você gosta. E vou estar usando aquela lingerie que você tatuou no meu pensamento.

Sara mandou um beijo no ar e entrou no carro. Eduarda estremeceu de raiva, mas se conteve, abraçando o braço de Emanuel com mais força.

Emanuel deu partida no carro. O silêncio com Eduarda era confortável, mas sua mente já estava acelerada com a perspectiva da noite com Sara. Ele sabia que chegaria em casa, cuidaria de Eduarda com toda a paciência, ouviria suas queixas suaves, a colocaria na cama com um beijo na testa e, depois, mergulharia de cabeça no furacão que era Sara.

Era uma vida fragmentada, cheia de alfinetadas e venenos de estimação, mas era a vida que ele havia escolhido. E enquanto dirigia pelas ruas de São Paulo, Emanuel percebeu que, por mais que reclamasse, ele era viciado naquela adrenalina. Ele era o mestre das cicatrizes, e aquelas duas mulheres eram as marcas mais profundas e complexas que ele já havia permitido que fossem gravadas em sua própria alma.

— Você está bem, Manu? — perguntou Eduarda, notando o olhar distante dele.

— Estou, Duda — disse ele, dando um leve aperto na mão dela. — Só estou pensando que, no fundo, eu não mudaria nada neste domingo.

— Nem a parte da montanha-russa? — perguntou ela, fazendo um biquinho.

— Nem essa — sorriu ele. — Às vezes, a gente precisa perder o chão para valorizar onde pisa.

Eduarda não entendeu a metáfora, mas sorriu, sentindo-se protegida. Emanuel olhou pelo retrovisor, vendo as luzes da cidade se acenderem. A noite estava apenas começando, e ele estava pronto para trocar o algodão-doce pelo whisky, sabendo que, no fim das contas, ele era o único homem no mundo capaz de sobreviver entre a beladona e a seda.