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Duas

O Pequeno Intruso e a Miragem da Maternidade

O domingo no Parque Ibirapuera parecia ter atingido o seu ápice de saturação. O calor, o som das caixas portáteis e a eterna disputa de território entre Sara e Eduarda estavam começando a desgastar a paciência de Emanuel. Ele observava as duas com um olhar clínico, o mesmo que usava para avaliar a profundidade de uma agulha na derme de um cliente. Sara, em seu top mínimo, exalava uma energia predatória, enquanto Eduarda, com seu vestido de flores miúdas, parecia uma pintura que se recusava a secar.

Eles estavam sentados em uma área gramada mais afastada, onde a sombra de uma enorme figueira oferecia um alento. Sara estava ocupada retocando o batom e verificando as curtidas em sua última foto no Instagram, enquanto Eduarda folheava um catálogo de exposições, embora seus olhos estivessem distantes.

Foi então que o destino, ou talvez apenas o acaso de um parque lotado, enviou uma distração inesperada. Um carrinho de bebê moderno, empurrado por uma mulher jovem que parecia exausta, parou a poucos metros deles. A mulher se abaixou para pegar uma garrafa de água na bolsa, e foi nesse momento que o ocupante do carrinho — um bebê de cerca de dez meses, com bochechas gordas e olhos curiosos — avistou Eduarda.

O pequeno não hesitou. Ele soltou um balbucio agudo e esticou os braços gordinhos na direção da morena, abrindo um sorriso desdentado que iluminou o ambiente.

— Oh... — Eduarda soltou um suspiro baixo, seus olhos brilhando instantaneamente. — Olhe só para isso, Manu.

Emanuel desviou o olhar do tablet e observou a cena. O bebê parecia hipnotizado por Eduarda, talvez atraído pela suavidade de suas feições ou pela cor clara de seu vestido.

— Ele gostou de você, Duda — comentou Emanuel, com um meio sorriso.

A mãe do bebê, percebendo a interação, sorriu sem jeito para o grupo.

— Desculpem, ele é meio carente de atenção hoje. Acho que os dentes estão nascendo e ele quer colo de qualquer um que não seja eu.

— Ele é lindo — disse Eduarda, já se ajoelhando na grama para ficar na altura do carrinho. — Posso?

A mulher assentiu, agradecida pelo breve descanso. Quando Eduarda pegou o bebê no colo, algo mágico e perturbador aconteceu. A aura de fragilidade que ela costumava usar para atrair Emanuel pareceu se transformar em uma força nutridora e real. Ela aninhou a criança contra o peito, e o bebê, num gesto de confiança absoluta, enterrou o rosto no pescoço de Eduarda, soltando um suspiro satisfeito.

— Veja, Manu... ele é tão macio. Tem cheiro de talco e vida — sussurrou Eduarda, completamente alheia ao resto do mundo.

Pela primeira vez em muito tempo, Eduarda não estava olhando para Emanuel em busca de aprovação. Ela não estava tentando competir com Sara. Ela estava simplesmente ali, presente, perdida na pequena criatura em seus braços.

Sara, que até então ignorava a cena, baixou o celular e soltou uma bufada sonora.

— Ótimo. Agora temos um acessório novo. Emanuel, você não vai dizer nada? A gente veio aqui para passear, não para abrir uma creche itinerante.

Emanuel não respondeu de imediato. Ele estava fascinado pela imagem de Eduarda. Havia uma harmonia naquela cena que o tocava de um jeito que ele não sabia explicar. Mas o comentário de Sara, como sempre, veio carregado de seu veneno característico.

— Eduarda, cuidado para não sujar esse seu vestido de camponesa com babinha de bebê — debochou Sara, cruzando as pernas e exibindo as coxas torneadas. — E você, Emanuel, não vai ficar aí parado babando também, vai? É só uma criança. Elas choram, cagam e custam caro. Não vejo a graça.

Eduarda nem sequer se deu ao trabalho de olhar para Sara. Ela começou a balançar o bebê levemente, cantando uma melodia inaudível.

— Ele é tão calmo... — murmurou Eduarda para si mesma. — Ele não julga, não grita, não tenta ser o que não é.

— Ele também não fala, o que deve ser um alívio para você, já que você adora monólogos dramáticos — disparou Sara, levantando-se e parando na frente de Emanuel, bloqueando a visão dele para Eduarda. — Manu, vamos caminhar. Deixa a Madre Teresa aí com o órfão. Eu vi um quiosque de caipirinhas ali perto que parece bem mais interessante do que trocar fraldas imaginárias.

Emanuel sentiu a pressão. De um lado, a vulgaridade vibrante de Sara, exigindo sua atenção, seu corpo e seu dinheiro. Do outro, a imagem quase sagrada de Eduarda, que o ignorava pela primeira vez em meses, totalmente entregue a um afeto que não o incluía.

— Espera um pouco, Sara — disse Emanuel, a voz mais rouca. — Deixa ela aproveitar um pouco.

— Aproveitar o quê? — Sara riu, uma nota de insegurança vibrando sob o sarcasmo. — Ela está fazendo cena, Emanuel! É só mais um jeito de parecer "doce" e "pura" na sua frente. Daqui a pouco ela vai dizer que quer um desses e você vai cair como um pato.

Eduarda finalmente levantou os olhos. Não havia mágoa neles, apenas uma indiferença fria que pegou Emanuel de surpresa.

— Você não entende nada, Sara — disse Eduarda, a voz firme. — Nem tudo é sobre o Emanuel. Nem tudo é sobre você. Às vezes, a beleza está apenas no que é simples.

O bebê soltou uma risadinha e puxou uma mecha do cabelo de Eduarda. Ela riu junto, um som cristalino que Emanuel raramente ouvia. Ele sentiu uma pontada de ciúme — não do bebê, mas daquela felicidade autônoma de Eduarda. Ele estava acostumado a ser o provedor de toda a alegria e segurança dela.

— Manu — chamou Sara, puxando a mão dele com força. — Eu estou falando sério. Vamos sair daqui. Esse clima de "família feliz" está me dando urticária. Você não é esse tipo de cara. Você é o Emanuel, o tatuador, o cara que vive no limite. Não o pai de condomínio.

Emanuel olhou para Sara. Ela era o seu espelho de adrenalina, a mulher que o desafiava e o mantinha alerta. Mas então ele olhou para Eduarda, que agora permitia que o bebê agarrasse seu dedo com a mãozinha gorda.

— Eu vou buscar uma água para a Eduarda e um suco para você, Sara — decidiu ele, tentando ganhar tempo. — Fiquem aqui.

— Eu não vou ficar aqui olhando para essa cena de comercial de margarina! — gritou Sara, perdendo a compostura. — Se você não vem comigo agora, eu vou encontrar o pessoal no bar e você que se entenda com a babá de luxo!

Sara virou as costas e saiu pisando fundo, seus saltos afundando na grama, o que a deixava ainda mais irritada. Emanuel suspirou e sentou-se ao lado de Eduarda.

— Ela ficou brava — comentou ele.

— Ela sempre está brava, Manu — respondeu Eduarda, sem desviar os olhos do bebê. — Ela tem medo de qualquer coisa que ela não possa controlar com o corpo ou com o dinheiro. Ela tem medo da inocência.

Emanuel observou o bebê. A criança olhou para ele, soltou um balbucio e depois voltou a se aninhar em Eduarda.

— Você leva jeito, Duda — disse ele, com uma sinceridade que o assustou.

— Eu gosto de cuidar, Manu. Você sabe disso. Mas cuidar de alguém que realmente precisa, de alguém que não usa o cuidado como uma arma... é diferente.

Emanuel sentiu o peso das palavras dela. Eduarda estava jogando uma verdade na sua cara: o relacionamento deles era baseado em necessidades manipuladas. Mas ali, com aquele bebê estranho, a troca era pura.

— Você esqueceu de mim por uns dez minutos — disse ele, tentando soar brincalhão, mas falhando.

Eduarda finalmente olhou para ele, um sorriso suave nos lábios.

— Foi bom, Manu. Foi bom não ter que me preocupar se você estava me olhando ou se a Sara estava me atacando. Foi bom apenas... ser.

A mãe do bebê se aproximou, parecendo renovada após o breve descanso.

— Muito obrigada, de verdade. Ele parece ter amado você. Acho que ele sentiu que você tem uma alma boa.

Eduarda entregou o bebê de volta com uma relutância visível. Ela ajeitou o vestido, sentindo o vazio súbito nos braços. A mulher agradeceu novamente e seguiu seu caminho, desaparecendo entre a multidão do parque.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Emanuel estendeu a mão para Eduarda, esperando que ela a pegasse e voltasse a ser a sua "Duda manhosa", mas ela apenas se levantou e começou a recolher as coisas do piquenique.

— A Sara deve estar esperando você no bar — disse ela, o tom de voz neutro.

— Ela pode esperar. Eu quero ficar aqui com você.

— Não, Manu. Vá atrás dela. Você gosta do fogo que ela acende. Eu só... eu só preciso de um pouco de tempo para processar esse cheiro de bebê que ficou no meu vestido.

Emanuel levantou-se, sentindo-se estranhamente excluído. Ele estava acostumado a ser o prêmio pela qual elas lutavam, mas naquele momento, ele se sentia apenas como um espectador.

— Você está diferente, Eduarda.

— Talvez eu esteja apenas cansada, Manu. Cansada de ser uma peça em um jogo que nunca termina. Aquele bebê... ele não queria nada de mim, a não ser o meu colo. E isso foi o suficiente.

Emanuel caminhou até ela e a abraçou por trás, enterrando o rosto em seu pescoço. Ele sentiu o perfume de baunilha, mas também, de forma tênue, o cheiro de talco do bebê.

— Eu também quero o seu colo, Duda.

— Eu sei que quer, Manu. Mas você quer o meu colo para se esconder do mundo que a Sara te oferece. E eu não sei se quero mais ser o seu esconderijo. Eu quero ser o mundo de alguém.

Emanuel travou. Aquela era a primeira vez que Eduarda questionava a dinâmica deles de forma tão direta. Ele a virou para si, segurando seu rosto com as mãos tatuadas.

— Você é o meu mundo, Eduarda. Você e a Sara. Cada uma de um jeito.

Eduarda sorriu, mas era um sorriso triste.

— Um mundo dividido não é um mundo, Manu. É um território em guerra. E hoje, por um momento, eu vi como é a paz.

Ela se soltou dele e começou a caminhar em direção à saída do parque, sem esperar por ele, sem olhar para trás para ver se ele a seguia. Emanuel ficou parado sob a figueira, observando a silhueta dela se afastar.

Pelo rádio de uma lanchonete próxima, uma música qualquer falava de escolhas e perdas. Emanuel sentiu o celular vibrar no bolso. Era uma mensagem de Sara: *"Onde você está? O bar está incrível e tem um cara aqui querendo me pagar um drink. Vem logo ou eu não respondo por mim."*

Ele olhou para a mensagem, depois para o caminho por onde Eduarda sumira. O controle que ele tanto prezava parecia estar escorrendo por seus dedos como areia fina. Ele tinha a paixão ardente e vulgar de Sara esperando por ele, pronta para queimar qualquer resquício de tédio. E tinha a doçura melancólica de Eduarda, que agora parecia ter descoberto que existia vida além dele.

Emanuel caminhou lentamente. Ele sabia que encontraria Sara, que beberia, que riria de suas piadas ácidas e que, mais tarde, voltaria para casa e tentaria compensar Eduarda com presentes ou carinhos exagerados. Mas ele também sabia que algo havia mudado.

Aquele bebê, com sua inocência bruta, havia aberto uma fenda na armadura de Eduarda. E através dessa fenda, Emanuel viu algo que o assustava mais do que qualquer briga entre suas namoradas: a possibilidade de que, um dia, a paz de Eduarda fosse mais atraente para ela do que o caos que ele oferecia.

— Maldito bebê — resmungou Emanuel para si mesmo, embora no fundo soubesse que a culpa não era da criança.

Ele apressou o passo para encontrar Sara, sentindo que precisava da vulgaridade dela para abafar o silêncio ensurdecedor que Eduarda deixara para trás. Mas, enquanto caminhava, o cheiro de talco parecia persegui-lo, uma lembrança persistente de que, às vezes, as maiores revoluções acontecem nos momentos mais silenciosos, no colo de uma mulher que, por um breve instante, esqueceu que pertencia a alguém.