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Duas

Sombras, Rendas e a Arte da Perturbação

O hotel em Salem, com suas paredes de carvalho e corredores que rangiam sob o peso da história, parecia o cenário perfeito para os dramas de Eduarda, mas um pesadelo logístico para Emanuel. Ele estava sentado em uma poltrona de couro, analisando alguns e-mails de seus estúdios em Londres, quando a porta do quarto conjugado se abriu com um estrondo.

Sara entrou como um furacão loiro. Ela usava um minivestido de lantejoulas pretas que mal cobria o essencial, botas de cano altíssimo e uma maquiagem pesada que destacava seus olhos azuis. O perfume doce e forte inundou o ambiente instantaneamente.

— Manu, não me espere acordada! — Sara exclamou, checando o batom no reflexo de uma moldura de prata. — As meninas que conheci no lobby estão indo para uma boate em Boston. Parece que o lugar é incrível, cheio de jogadores de hóquei e champanhe por conta da casa. Volto quando o sol nascer!

Emanuel apenas acenou com a cabeça, sem tirar os olhos do tablet.

— Tome cuidado, Sara. Leve o segurança se for beber demais.

— Ah, relaxa, "papai". Eu sei me cuidar — ela piscou para ele, mandando um beijo no ar e saindo rebolando, o som de seus saltos ecoando pelo corredor até sumir.

A paz durou exatamente dez segundos.

Eduarda, que estava sentada na cama folheando um catálogo de arte, levantou-se lentamente. Ela vestia um robe de seda preta sobre uma camisola de renda fina, parecendo uma viúva jovem e etérea de um romance gótico. Seus olhos grandes estavam fixos em Emanuel, e o lábio inferior já começava a tremer.

— Então ela pode ir? — perguntou Eduarda, a voz saindo num fiozinho agudo e manhoso.

Emanuel suspirou, fechando o tablet. Ele sabia o que estava por vir.

— Ela vai para uma boate comercial em Boston, Duda. É um ambiente controlado, com segurança.

— E eu só quero ir à festa de imersão gótica na antiga fundição com o pessoal da faculdade! — Eduarda deu um passo à frente, apertando as mãos contra o peito. — É uma performance artística, Emanuel! Vai ter gente da História da Arte de Harvard, artistas plásticos... é um evento cultural!

— É em um galpão abandonado na periferia, Eduarda — Emanuel rebateu, a voz firme. — Eu pesquisei o endereço que você me mostrou. O lugar é perigoso, a estrutura é precária e é tarde da noite. Você não vai.

As lágrimas, sempre prontas para o combate, transbordaram dos olhos de Eduarda com uma precisão cirúrgica.

— Isso é injusto! — ela soluçou, batendo o pé descalço no tapete persa. — Só porque eu não sou vulgar e não ando por aí mostrando o silicone para jogadores de hóquei, você me trata como uma criança! Você deixa ela fazer tudo, mas me mantém trancada como se eu fosse um troféu de porcelana!

— Eduarda, não comece com o drama — Emanuel levantou-se, esfregando as têmporas. — A Sara é... a Sara. Ela sabe lidar com aquele tipo de ambiente. Você é sensível demais para um galpão cheio de gente estranha fazendo "performance" no escuro.

— Eu não sou sensível, eu sou culta! — ela gritou, sua voz subindo um oitavo. — Eu vou fugir! Eu vou pular aquela janela e ir a pé se precisar! Você não manda em mim, Emanuel! Você é um tatuador, deveria entender de contracultura, mas está agindo como um burguês conservador e chato!

Emanuel olhou para a janela do segundo andar e depois para a figura miúda de Eduarda, que agora soluçava alto, jogando-se dramaticamente sobre a cama.

— Você não vai fugir de lugar nenhum com esse robe de seda — ele disse, tentando manter a calma, embora a irritação estivesse subindo.

— Eu odeio você! — Eduarda gritou abafado contra o travesseiro. — Eu queria que as bruxas de Salem me levassem! Você estraga todos os meus sonhos! Eu passei o semestre inteiro esperando por essa exposição imersiva!

Ela se virou de repente, sentando-se na beira da cama com o rosto corado e os cabelos bagunçados, o que só a deixava mais atraente aos olhos dele.

— Se você não me levar, eu vou ligar para aquele meu colega, o Julian — ela disse, limpando o rosto com as costas das mãos de forma infantil. — Ele disse que passaria aqui para me buscar. Ele é um artista de vanguarda, Emanuel. Ele entende a alma feminina.

Emanuel sentiu uma pontada de ciúme que ele odiava admitir.

— Se esse Julian aparecer aqui, ele vai sair com um desenho novo na cara, e não vai ser feito com agulha de tatuagem — Emanuel rosnou.

— Então me leva! — Eduarda levantou-se e correu até ele, segurando-se em seus braços, olhando-o de baixo para cima com aquela expressão suplicante que o desarmava. — Por favor, Manu... eu prometo que não saio do seu lado. É só por duas horas. Eu preciso ver a instalação de luzes. Se você me levar, eu... eu faço aquela coisa que você gosta. Aquela que eu li no livro de arte oriental.

Emanuel olhou para ela, sentindo a batalha perdida. Eduarda sabia exatamente onde apertar. Ela era uma mistura perigosa de carência emocional e uma sexualidade latente que ela usava como uma adaga de seda.

— Duas horas, Eduarda. Nem um minuto a mais — ele cedeu, soltando um suspiro de derrota.

— Eba! — Ela deu um pulinho, beijando o rosto dele repetidamente antes de correr para o closet. — Eu vou me vestir! Vou ficar linda para você!

Vinte minutos depois, Eduarda saiu do quarto. Ela estava irreconhecível. Usava um vestido de renda preta transparente sobre uma lingerie de veludo, um colar de veludo com um rubi falso no pescoço e botas pesadas de plataforma. A maquiagem era carregada nos tons de vinho, dando-lhe um ar de "noiva cadáver" extremamente sexy.

— Vamos? — ela perguntou, com um sorriso radiante que não lembrava em nada a menina que estava "morrendo de tristeza" minutos antes.

Quando chegaram ao lobby, deram de cara com Sara, que voltava para buscar o celular que esquecera. Ela parou, olhou para Emanuel, depois para Eduarda vestida de gótica vitoriana, e soltou uma gargalhada tão alta que alguns hóspedes olharam.

— Mas o que é isso? — Sara apontou para Eduarda, rindo até as lágrimas aparecerem. — Vai para um funeral ou vai se sacrificar em algum altar, "Dudinha"? Emanuel, você vai mesmo sair com a Família Addams?

Eduarda fechou o rosto, agarrando o braço de Emanuel.

— É arte, Sara. Coisa que você não entenderia nem se viesse com legenda de marca de luxo.

— Arte? — Sara se aproximou, ajeitando o busto e lançando um olhar provocador para Emanuel. — Manu, olha para ela. Parece que saiu de um filme de terror dos anos 20. Você tem certeza que quer ser visto com essa esquisita? Vem comigo para Boston! Onde eu vou, o povo é bonito e a roupa é curta por opção, não por luto.

— Ela quer ver a exposição, Sara — disse Emanuel, impaciente. — Vá para a sua festa e nos deixe em paz.

— Ai, que mau humor! — Sara deu de ombros, rindo novamente enquanto olhava para Eduarda. — Cuidado para não tropeçar no véu, bruxinha. E Emanuel, se ela começar a levitar ou falar em latim, me liga que eu chamo um exorcista!

Sara saiu rebolando e rindo, deixando o clima tenso para trás. Eduarda bufou, puxando Emanuel em direção à saída.

— Ela é tão... comum — resmungou Eduarda.

O local da festa era exatamente o que Emanuel temia: um galpão industrial nos limites da cidade, com paredes pichadas e uma fila de jovens vestidos de preto que pareciam não dormir há três dias. O som que vinha de dentro era uma batida industrial arrastada, misturada com ruídos eletrônicos estranhos.

— Eduarda, tem certeza disso? — perguntou Emanuel, olhando ao redor com desconfiança enquanto segurava a mão dela com firmeza.

— É perfeito, Manu! Olha aquela projeção na parede! — Ela estava radiante, os olhos brilhando na escuridão.

Lá dentro, o ambiente era enfumaçado e mal iluminado por luzes estroboscópicas vermelhas. Artistas performáticos se contorciam em plataformas, e as paredes estavam cobertas com fotografias perturbadoras de corpos entrelaçados em tinta preta.

Eduarda agia como se estivesse na Disney. Ela explicava cada instalação para Emanuel, que tentava manter sua expressão de tédio profissional, embora estivesse em alerta máximo por causa do tipo de gente que circulava por ali.

— Aquela ali é a interpretação do vazio de Malevich! — ela gritava por cima da música, puxando-o para um canto mais escuro. — Não é profundo?

— É escuro, Duda. Só isso — Emanuel respondeu, mas sorriu levemente ao ver a empolgação dela.

Em um determinado momento, um rapaz de cabelos longos e pálido como um fantasma se aproximou deles.

— Eduarda? Você veio! — ele exclamou, tentando tocá-la no ombro.

Emanuel se moveu instantaneamente, colocando-se na frente de Eduarda como uma parede de músculos e tatuagens. O rapaz recuou dois passos, os olhos arregalados.

— Julian, este é o Emanuel, meu namorado — disse Eduarda, com um tom de voz que misturava orgulho e diversão ao ver a reação de Emanuel. — Manu, este é o Julian, o curador da parte de fotografia.

— Prazer — Emanuel disse, com uma voz tão profunda e ameaçadora que o tal Julian apenas murmurou algo incompreensível e se afastou rapidamente.

— Você é tão protetor... — Eduarda ronronou, abraçando o braço de Emanuel e colando os seios contra ele. — Eu adoro quando você fica com essa cara de quem vai matar alguém por minha causa.

— Eu só não gosto de gente estranha tocando no que é meu — ele retrucou, puxando-a para mais perto.

— "No que é seu", é? — Ela sorriu, uma expressão de pura malícia cruzando seu rosto delicado.

Eduarda o levou para uma área atrás de umas cortinas de veludo pesado, onde a música era um pouco mais baixa. Ela se encostou em uma pilastra de ferro frio e puxou Emanuel pela nuca, forçando-o a se inclinar.

— Você me trouxe — ela sussurrou, a voz manhosa voltando com força total. — E eu disse que ia te compensar.

Ela levantou a saia de renda, revelando que a lingerie de veludo era, na verdade, um conjunto extremamente provocante e aberto nos lugares estratégicos. Ali, naquele ambiente depravado e artístico, Eduarda sentia-se em casa para explorar a faceta que Sara jamais entenderia: a de que a pureza é apenas uma máscara para os desejos mais sombrios.

Emanuel esqueceu o perigo do lugar, esqueceu a irritação com Sara e esqueceu o cansaço. Ele a prensou contra a pilastra, as mãos grandes mapeando cada curva que a renda revelava.

— Você é um problema, sabia? — ele murmurou contra o pescoço dela.

— Eu sou o seu problema favorito — ela respondeu, arqueando as costas e soltando um gemido que se perdeu na batida industrial da música.

Duas horas depois, conforme o prometido, eles deixaram o galpão. Eduarda estava com o batom borrado e o cabelo ainda mais bagunçado, mas com um ar de triunfo absoluto. Emanuel parecia mais relaxado, embora ainda mantivesse o olhar atento.

Ao chegarem de volta ao hotel, encontraram Sara no lobby. Ela parecia ter voltado mais cedo, com um sapato na mão e a maquiagem levemente escorrida.

— A festa foi uma porcaria! — Sara reclamou, jogando-se em uma poltrona. — Só tinha gente querendo aparecer e a bebida era quente. E vocês? Como foi o encontro das bruxas?

Eduarda olhou para Emanuel e depois para Sara. Ela se aproximou da loira e, com um tom de voz doce e mortal, disse:

— Foi transformador, Sara. O Emanuel descobriu que prefere a "arte" de Salem do que o "comércio" de Boston. Não foi, Manu?

Emanuel apenas deu um sorriso de canto, passando o braço pelos ombros de Eduarda.

— Foi uma noite interessante.

Sara bufou, olhando para os dois com uma mistura de inveja e irritação.

— Que seja. Amanhã eu quero ir ao shopping. E não quero ouvir uma palavra sobre museus ou galpões velhos.

Eduarda piscou para Emanuel, vitoriosa. Ela sabia que a guerra entre as duas continuaria, que Sara tentaria recuperar o terreno na manhã seguinte com seus gritos e demandas, mas, por aquela noite, a "bruxinha" tinha enfeitiçado o rei. E enquanto subiam para o quarto, ela já planejava qual seria o próximo drama, a próxima lágrima e a próxima carícia que garantiria que, no império de Emanuel, a coroa sempre seria dela.