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Duas

O Ritual das Sombras e a Fuga do Anjo

O retorno de Salem para o luxuoso apartamento em São Paulo não trouxe a paz que Emanuel esperava. Pelo contrário, parecia que a energia sombria daquela cidade histórica havia se infiltrado na bagagem de Eduarda, enquanto a frustração de Sara por ter sido "negligenciada" em solo americano fervia como um caldeirão. O tatuador, agora sentado em seu escritório, tentava focar nos esboços de uma manga inteira com temática mitológica, mas o som abafado de uma discussão na sala tornava a concentração impossível.

— É uma celebração estética, Sara! Você não tem sensibilidade para entender o conceito de memento mori! — A voz de Eduarda, embora tentasse manter a doçura, subia de tom em uma frequência que denotava impaciência.

— Memento o quê? Garota, você quer ir beber vinho barato sentada em cima de uma lápide! Isso não é arte, é falta de internação! — Sara rebateu, a risada vulgar ecoando pelas paredes de vidro. — Emanuel! Vem aqui ver o que a sua "princesinha das trevas" inventou agora!

Emanuel largou o tablet gráfico e caminhou até a sala. A cena era quase cômica, se não fosse trágica. Sara estava vestindo um robe de seda rosa neon, com uma máscara facial dourada, enquanto Eduarda segurava um vestido de veludo preto e um véu, parecendo pronta para um funeral de gala.

— O que está acontecendo agora? — perguntou Emanuel, cruzando os braços e deixando os músculos tatuados tensos sob a camiseta branca.

— Manu, o aniversário da Beatriz é hoje! — Eduarda correu até ele, segurando suas mãos com aquela urgência dramática que ela dominava tão bem. — Vai ser no Cemitério da Consolação. Um piquenique noturno, com poesia, vinho tinto e velas. É uma homenagem à beleza da finitude. Por favor, eu preciso ir.

Emanuel arqueou uma sobrancelha, o olhar severo recaindo sobre a namorada mais jovem.

— Um cemitério? À noite? Eduarda, você perdeu o juízo? É perigoso, é ilegal e, honestamente, é de um mau gosto absurdo. Você não vai.

O rosto de Eduarda se transformou instantaneamente. A manha deu lugar a uma máscara de choque, e os olhos grandes começaram a brilhar com lágrimas de indignação.

— Como você pode dizer isso? Você é um artista! Suas tatuagens falam de morte e renascimento o tempo todo! — ela gritou, a voz falhando propositalmente. — Você me deixa trancada aqui enquanto a Sara gasta seu dinheiro em shoppings fúteis, mas quando eu quero viver uma experiência cultural profunda, você me proíbe?

— Não é cultura, Eduarda. É invasão de propriedade e comportamento de risco — Emanuel sentenciou, a voz fria. — A resposta é não. Encerramos o assunto.

— Eu odeio você! Você é um hipócrita! — Eduarda explodiu, lançando o vestido de veludo no chão e correndo para o quarto dela, batendo a porta com tanta força que um dos vasos de cristal de Sara quase tombou.

O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som rítmico da lixa de unha de Sara, que agora sorria vitoriosa por trás de sua máscara dourada.

— Viu só? A bonequinha de porcelana tem garras — comentou Sara, levantando-se e caminhando até Emanuel com um gingado provocante. — Esquece ela, Manu. Ela está fazendo cena. Sabe o que a gente devia fazer? Sair. Só nós dois. Você está me devendo uma noite decente desde que me arrastou para aquele frio maldito de Salem.

Emanuel olhou para a porta fechada do quarto de Eduarda e depois para Sara. Ele sentia o peso da culpa por ter dado tanta atenção aos caprichos de Eduarda na viagem. Sara, apesar de barulhenta e vulgar, era direta. Com ela, ele sabia onde o conflito começava e terminava.

— Você tem razão, Sara — Emanuel suspirou, passando a mão pelo rosto cansado. — Vá se arrumar. Vamos ao Fasano. Quero um jantar tranquilo, sem falar de bruxas, cemitérios ou História da Arte.

— Finalmente! — Sara deu um beijo estalado na bochecha dele, deixando um rastro de creme dourado. — Vou ficar tão gostosa que você vai esquecer até o próprio nome.

Enquanto Sara se arrumava, Emanuel foi até a porta de Eduarda. Ele bateu suavemente.

— Duda? Eu vou sair com a Sara para jantar. Tente descansar e esfriar a cabeça. Amanhã conversamos sobre isso com calma.

Não houve resposta, apenas o som abafado de um soluço contra o travesseiro. Emanuel, acostumado com os dramas da namorada, interpretou o silêncio como a rendição dela. Ele se vestiu com um terno preto sob medida que realçava seu porte imponente e partiu com Sara, que brilhava em um vestido dourado ultracurto, exalando um perfume que custava mais do que o aluguel de muitos apartamentos na cidade.

O jantar no Fasano foi exatamente o que Emanuel precisava. O ambiente sofisticado, a luz baixa e a conversa fútil, porém divertida, de Sara serviram como um bálsamo para seus nervos. Sara falava sobre as novas tendências de preenchimento labial e sobre como pretendia reformar o closet, enquanto Emanuel bebia um vinho tinto encorpado, sentindo a tensão deixar seus ombros.

— Sabe, Manu... — Sara disse, acariciando a mão dele por cima da mesa, as unhas longas e decoradas brilhando sob o candelabro. — Você fica muito mais bonito quando não está tentando salvar a "coitadinha" de si mesma. A gente combina, sabia? A gente é poder, é brilho. Aquela menina é... cinza.

— Ela só é diferente, Sara — Emanuel respondeu, embora sem muita convicção. — Mas admito que esta noite está sendo necessária.

Ele checou o celular uma única vez. Nenhuma mensagem de Eduarda. Ele sorriu, pensando que ela provavelmente tinha pegado no sono após o choro, como sempre fazia.

O que Emanuel não imaginava era que, no exato momento em que ele pedia a sobremesa, Eduarda estava terminando de amarrar suas botas de couro em cima de uma calça jeans preta justa. Ela vestia uma blusa térmica escura e uma jaqueta de couro que Emanuel lhe dera. Seus olhos não estavam mais inchados; havia neles um brilho de rebeldia fria e calculada.

— Você acha que pode me trancar, Emanuel? — ela sussurrou para o reflexo no espelho, passando um batom roxo quase preto. — Você não conhece a metade do que eu sou capaz.

Eduarda esperou ouvir o som do elevador de serviço, que ela sabia que os funcionários usavam naquela hora. Com a agilidade de quem passou a infância subindo em árvores antes de se tornar uma "estudiosa refinada", ela saiu pela porta dos fundos, evitando as câmeras principais do hall social. Ela conhecia os pontos cegos do condomínio.

Lá fora, o ar da noite paulistana estava fresco. Ela pegou um carro de aplicativo duas quadras longe do prédio, para não deixar rastros imediatos.

O cemitério da Consolação, àquela hora, era uma fortaleza de silêncio e sombras. Mas Eduarda sabia exatamente onde o grupo de Beatriz se reunia: perto do mausoléu de uma família de barões do café, onde o muro tinha uma brecha conhecida pelos "exploradores urbanos" da faculdade.

Ao pular o muro, sentindo o impacto das botas no solo úmido, Eduarda sentiu uma onda de adrenalina que nunca sentira nos braços de Emanuel. Lá estavam eles: dez jovens vestidos de veludo e couro, sentados em volta de lanternas de luz quente, com garrafas de vinho caro e livros de poesia.

— Eduarda! Você veio! — Beatriz, uma garota de cabelos platinados e olhos pintados de preto, estendeu uma taça de cristal. — Achamos que o seu "tatuador possessivo" tinha te colocado em uma jaula de ouro.

— Ele tentou — Eduarda sorriu, aceitando o vinho. — Mas ele esqueceu que eu sei como abrir as trancas.

A noite foi uma celebração dos sentidos. Eduarda recitou versos de Baudelaire sob a luz da lua, sentindo-se a própria rainha do submundo. Ela bebeu, riu e, em um momento de pura audácia, permitiu que Julian — o mesmo fotógrafo de Salem que Emanuel detestava — tirasse fotos dela deitada sobre uma tumba de mármore, com o vinho escorrendo levemente pelo canto da boca.

Enquanto isso, Emanuel e Sara voltavam para o apartamento por volta das duas da manhã. Sara estava levemente embriagada e tentava arrastar Emanuel para o quarto, mas ele, movido por um instinto de proteção tardio, decidiu passar no quarto de Eduarda.

— Duda? — ele chamou, abrindo a porta devagar.

O quarto estava vazio. A cama estava arrumada, exatamente como ele a deixara. O vestido de veludo ainda estava jogado no chão, mas a jaqueta de couro e as botas de Eduarda haviam sumido.

O sangue de Emanuel gelou. Ele correu para o closet. As chaves reserva dela não estavam lá.

— Sara! — Emanuel gritou, a voz ecoando como um trovão. — A Eduarda sumiu!

Sara apareceu na porta, tropeçando nos próprios saltos.

— O quê? Aquela sonsa fugiu? — Ela soltou uma risada nervosa. — Eu te disse, Manu! Ela é louca! Deve ter ido para o tal cemitério beber com os defuntos.

Emanuel não esperou. Ele pegou o celular e ligou repetidamente para Eduarda. Caixa postal. Ele tentou localizar o sinal do celular dela, mas o aparelho estava desligado. A fúria começou a superar a preocupação. Ele se sentia traído, não apenas pela fuga, mas pela audácia de Eduarda em desafiar sua autoridade direta.

— Eu vou atrás dela — Emanuel disse, pegando as chaves do carro.

— Você vai me deixar aqui sozinha às três da manhã para ir atrás dessa garota em um cemitério? — Sara gritou, a vulgaridade aflorando com a raiva. — Emanuel, se você sair por aquela porta, não volta para a minha cama hoje!

Emanuel parou por um segundo, olhando para Sara com um desprezo que a fez recuar.

— A Eduarda é minha responsabilidade. E se algo acontecer com ela, a culpa é da sua insistência em me tirar de casa quando ela estava instável. Fique aí com o seu champanhe, Sara.

Ele saiu, deixando Sara gritando obscenidades na sala. Emanuel rodou os arredores do cemitério da Consolação por horas. Ele viu viaturas de polícia, grupos de moradores de rua, mas nenhum sinal da "estudiosa de arte". Ele tentou entrar, mas os portões estavam trancados e a vigilância impediu qualquer aproximação.

A madrugada passou como um borrão de ansiedade e ódio. Emanuel voltou para casa às seis da manhã, com os olhos vermelhos e o coração acelerado. Sara dormia no sofá, ainda com o vestido dourado, parecendo uma estatueta de Oscar descartada.

Ele se sentou na cozinha, esperando. A cada minuto que passava, a imagem que ele tinha de Eduarda — a menina frágil, manhosa e dependente — se fragmentava.

Às oito da manhã, o som da fechadura eletrônica ecoou.

Emanuel levantou-se de um salto. Eduarda entrou. Ela estava pálida, com olheiras profundas, o batom roxo borrado e o cheiro de vinho e incenso impregnado nas roupas. Ela carregava as botas na mão, caminhando descalça pelo mármore frio.

Ao ver Emanuel parado no meio da sala, ela não se encolheu. Não chorou. Ela apenas o encarou com um olhar vazio, quase desafiador.

— Onde você estava? — A voz de Emanuel era um sussurro perigoso.

— Eu estava vivendo, Emanuel — ela respondeu, a voz rouca. — Eu estava sendo a artista que você diz que admira, mas que tenta sufocar todos os dias.

— Você tem noção do que eu passei? Eu procurei por você a noite toda! — Ele avançou, segurando-a pelos ombros. — Você mentiu, você fugiu, você se colocou em perigo!

— Eu não me coloquei em perigo. Eu estava com amigos. Pessoas que entendem o que eu sinto sem que eu precise chorar para chamar atenção — ela se soltou do aperto dele com uma força surpreendente. — Você saiu com a Sara, não saiu? Você teve o seu jantar de luxo com a sua loira siliconada. Por que eu não poderia ter a minha noite também?

Sara, acordada pelos gritos, apareceu no corredor, descabelada e furiosa.

— Olha só quem apareceu! A rainha do lixo! Você tem sorte do Emanuel não te expulsar daqui agora mesmo, sua vagabunda de cemitério!

Eduarda olhou para Sara com um sorriso frio.

— Pelo menos eu não preciso de silicone e quilos de maquiagem dourada para ser interessante, Sara. Eu tenho conteúdo. Eu tenho mistério. Coisa que você nunca vai ter, nem que nasça de novo.

— Ora, sua...! — Sara avançou para cima de Eduarda, mas Emanuel se colocou entre as duas, empurrando Sara para trás.

— Chega! As duas! — Emanuel gritou, a autoridade voltando, mas com uma rachadura evidente. — Eduarda, vá para o seu quarto. Agora. Você está de castigo. Sem celular, sem faculdade, sem sair deste apartamento até eu decidir o que fazer com você.

Eduarda riu, um som seco e sem alegria.

— Castigo? Você acha que é meu pai, Emanuel? Você é meu namorado. E se você quiser me manter aqui, vai ter que ser porque eu quero, não porque você manda.

Ela caminhou em direção ao quarto, mas parou ao lado de Emanuel, sussurrando no ouvido dele para que apenas ele ouvisse:

— O Julian tirou fotos lindas minhas, Manu. Fotos que mostram exatamente o que você tentou esconder em Salem. Se você quer brincar de controle, saiba que eu já ganhei o jogo.

Ela entrou no quarto e trancou a porta.

Emanuel ficou parado no centro da sala, sentindo o mundo que ele construíra desmoronar. Sara começou a berrar sobre como ele era fraco por não expulsar Eduarda, mas as palavras dela eram apenas ruído branco.

Ele olhou para as próprias mãos, as mãos que criavam arte permanente na pele das pessoas, e percebeu que a arte mais complexa e perigosa estava acontecendo ali, sob o seu teto. Eduarda não era mais a menina que precisava de proteção; ela era a mestre da manipulação, e Sara, em sua vulgaridade agressiva, era apenas uma peça no tabuleiro.

Emanuel sabia que aquela fuga era apenas o começo. Salem tinha sido o ensaio, e aquela noite no cemitério fora a estreia. Ele tinha duas mulheres que se odiavam, uma que o desafiava com o corpo e outra que o destruía com a mente. E, pela primeira vez em sua vida de controle absoluto, Emanuel sentiu que era ele quem estava sendo tatuado — marcado por feridas que nenhuma tinta seria capaz de cobrir.