Duas
O Brilho do Ouro e o Veneno da Manha
A manhã seguinte à fuga de Eduarda nasceu cinzenta e pesada, como se o próprio céu de São Paulo estivesse de ressaca. Emanuel não havia pregado o olho. Ele permanecera sentado na poltrona de seu escritório, observando o sol nascer entre os prédios, sentindo uma mistura de exaustão e uma irritação latente que latejava em suas têmporas. O silêncio do apartamento era enganoso; ele sabia que era apenas o intervalo entre dois atos de uma peça de teatro esgotante.
Por volta das dez horas, a porta do escritório se abriu com um rangido suave. Emanuel não se virou, esperando o confronto, o desafio ou as palavras ácidas que Eduarda disparara na noite anterior. Mas o que ouviu foi um som diferente: o fungar baixinho e o arrastar de pés hesitantes.
— Manu? — A voz de Eduarda era um fiozinho de seda, carregada de uma fragilidade que parecia impossível para quem, horas antes, o enfrentara com os olhos injetados de rebeldia.
Emanuel girou a cadeira. Lá estava ela. Eduarda vestia uma camisola de algodão branco, com os cabelos castanhos soltos e levemente ondulados, sem um traço daquela maquiagem gótica e provocante. Ela parecia pequena, quase infantil, segurando as próprias mãos na altura da cintura.
— Eu... eu fiz um café para você — disse ela, apontando para a bandeja que deixara no aparador da entrada. — Eu sei que você não dormiu. Eu me sinto péssima, Manu. Eu não sei o que deu em mim ontem à noite. Aquelas pessoas... a energia daquele lugar... eu me senti perdida.
Emanuel a observou com ceticismo. Onde estava a mulher que falara sobre "ganhar o jogo"? Onde estava a audácia?
— Você foi para um cemitério às três da manhã, Eduarda — disse ele, a voz rouca. — Você me desrespeitou e se colocou em um risco que eu não posso ignorar.
Eduarda caminhou até ele, ajoelhando-se ao lado de sua poltrona e apoiando o queixo em seu joelho. Os olhos grandes estavam marejados e redondos, como os de um filhote que acabara de ser castigado.
— Eu sei, eu sou uma idiota — ela soluçou, uma lágrima solitária escorrendo por sua bochecha pálida. — Eu só queria que você me visse como alguém interessante, não só como a menina que estuda. Eu estava com ciúmes da Sara, da forma como ela te puxa, como ela se exibe... eu tentei ser algo que não sou. Por favor, me perdoa. Eu tive tanto medo quando pulei aquele muro e vi que você não estava lá para me segurar.
O ímpeto de coragem de Eduarda era sempre como um fósforo: brilhava intensamente por um segundo e se apagava no instante seguinte, deixando apenas o cheiro de queimado e a necessidade de ser acolhida. Emanuel, apesar de toda a sua racionalidade, sentiu o coração amolecer. Era a manha dela, aquele jeito de se apoiar nele como se ele fosse seu único pilar no mundo, que o desarmava completamente.
— Não faça mais isso — ele disse, passando a mão pesada pelos cabelos dela. — Você não precisa de cemitérios ou de Julian para ser interessante para mim.
— Eu prometo — ela sussurrou, fechando os olhos sob o toque dele. — Eu só quero paz agora. Só quero ficar aqui com você.
A paz, no entanto, tinha nome, sobrenome e um par de saltos altos que batiam no corredor com a força de marteladas.
— Mas que cena mais patética! — A voz de Sara cortou o momento como uma serra elétrica.
Ela entrou no escritório usando um conjunto de ginástica de lycra neon que deixava muito pouco para a imaginação, segurando um tablet e um catálogo impresso de uma joalheria de luxo. Seu cabelo loiro estava preso em um rabo de cavalo alto, impecável, e ela exalava um cheiro de loção autobronzeadora.
— Já voltou a ser a cadelinha arrependida, Eduarda? — Sara debochou, parando no centro da sala com a mão na cintura. — Ontem era a "rainha do submundo", hoje é a "santinha do pau oco". Emanuel, você realmente cai nesse teatrinho toda vez?
Eduarda se encolheu contra a perna de Emanuel, escondendo o rosto.
— Sara, por favor... eu estou tentando pedir desculpas — murmurou Eduarda, a voz abafada.
— Poupe-me! — Sara jogou o catálogo sobre a mesa de carvalho de Emanuel, bem em cima dos seus desenhos. — Manu, esquece esse drama de baixo orçamento. Eu estive pensando... já que você me fez passar aquele nervoso ontem e me deixou sozinha enquanto ia atrás da "gótica de Taubaté", você me deve um presente. Um presente de verdade.
Emanuel massageou as têmporas. Ele só queria uma manhã tranquila, talvez um banho quente e algumas horas de sono sem interrupções.
— Sara, agora não é o momento para joias.
— É sempre o momento para joias! — ela retrucou, abrindo o catálogo e apontando para um conjunto de colar e brincos de ouro amarelo com diamantes maciços. — Olha isso aqui. É a coleção "Sunlight". É a minha cara. É vibrante, é imponente, chega no lugar chamando atenção. Combina com o meu brilho, com a minha pele. É uma joia de mulher de verdade, não de menina que usa bijuteria de feirinha esotérica.
Eduarda, sentindo a provocação, levantou a cabeça devagar. Ela viu o catálogo e, por um instante, o brilho de competição voltou aos seus olhos, embora camuflado por sua timidez habitual.
— É... é muito chamativo, Sara — disse Eduarda, com uma voz suave e crítica. — Parece um pouco... vulgar. Muita informação para uma peça só.
— O que você disse? — Sara virou-se para ela, os olhos faiscando.
— Eu só acho que joias deveriam realçar a beleza, não escondê-la atrás de tanto brilho — Eduarda levantou-se e, com um movimento tímido, puxou um folheto que estava escondido no bolso de sua camisola. — Manu, eu vi este anel em uma galeria que trabalha com design minimalista. É uma safira bruta em um aro de platina fosca. É discreto, elegante... tem uma história por trás da pedra. Representa a serenidade.
Sara soltou uma gargalhada tão alta que Emanuel teve certeza de que os vizinhos ouviram.
— Safira bruta? — Sara pegou o folheto da mão de Eduarda e o jogou para o alto como se fosse lixo. — Isso parece um pedaço de asfalto preso em um arame, Eduarda! Ninguém usa isso para ser notada. Isso é joia de quem tem vergonha de existir. Emanuel, você não vai gastar o seu dinheiro em uma pedra que parece que foi achada no quintal.
— É arte, Sara! — Eduarda exclamou, as bochechas ficando vermelhas. — É exclusivo! O conjunto que você quer qualquer esposa de bicheiro tem igual. O meu anel é poesia em forma de metal.
— Poesia não paga conta e não brilha no camarote, sua sonsa! — Sara se aproximou de Emanuel, sentando-se no braço da poltrona dele e esfregando o busto em seu ombro. — Manu, meu amor... pensa bem. O ouro amarelo destaca as suas tatuagens quando a gente está junto. É luxo puro. É o que o seu império representa. Você é um tatuador mundialmente famoso, não um monge franciscano. Você precisa de uma mulher que brilhe ao seu lado, não de uma que pareça que está de luto permanente.
Eduarda, percebendo que estava perdendo terreno para o apelo físico de Sara, mudou a tática. Ela se aproximou do outro lado de Emanuel, pegando a mão dele e levando-a até o seu rosto, roçando a palma dele em sua pele macia.
— Manu... — ela sussurrou, ignorando Sara com uma maestria que só ela possuía. — O anel de safira é para os nossos momentos. Para quando estivermos lendo, ou quando você estiver tatuando e eu estiver ao seu lado. Ele não grita. Ele sussurra que eu sou sua. Joias grandes são para quem precisa provar algo para os outros. Eu só preciso provar para você.
A disputa era fascinante e terrível ao mesmo tempo. Emanuel olhava para o catálogo de Sara — diamantes brutos, ouro reluzente, uma ostentação que refletia a personalidade explosiva e carnal da loira. Depois, olhava para o folheto de Eduarda — linhas finas, uma pedra escura e misteriosa, uma sofisticação silenciosa que refletia a profundidade e a manha da morena.
— Eu não vou comprar nada agora — Emanuel disse, tentando se levantar.
— Ah, vai sim! — as duas disseram em coro, o que o fez parar no lugar.
— Emanuel, eu não aceito menos que o conjunto Sunlight! — Sara bateu o pé. — Se você der esse anel de defunto para ela e não me der o meu ouro, eu quebro aquela sua coleção de máquinas de tatuagem antigas!
— Manu, você prometeu que ia me apoiar nos meus estudos e na minha sensibilidade — Eduarda começou a fungar novamente, os olhos já ficando vermelhos. — Se você escolher a vulgaridade da Sara, é porque você não valoriza a nossa conexão espiritual. Você prefere o brilho falso ao sentimento verdadeiro?
— Brilho falso é a sua cara de santa, Eduarda! — Sara gritou. — Emanuel, olha para mim! Eu sou real, eu sou carne, eu sou o que te mantém acordado! Ela é só um pesadelo de História da Arte que te faz gastar com terapia!
A briga escalou rapidamente. Sara começou a berrar sobre os preços das peças e sobre como ela merecia mais por "aguentar" a convivência com Eduarda. Eduarda, por sua vez, sentou-se no chão, abraçando os joelhos e balançando o corpo levemente, em um estado de vitimização absoluta que forçava Emanuel a se sentir o pior homem do mundo.
— Chega! — Emanuel rugiu, levantando-se com tanta força que a poltrona girou. — Eu não quero ouvir mais uma palavra sobre joias, sobre ouro, sobre safiras ou sobre quem é mais "real" nesta casa!
As duas se calaram instantaneamente. Sara cruzou os braços, bufando, enquanto Eduarda olhou para cima com uma expressão de pavor fingido.
— Eu tive a noite mais estressante da minha vida — continuou Emanuel, apontando o dedo para ambas. — Eu lido com estúdios em três continentes, lido com artistas temperamentais e com clientes que pagam milhões. Eu venho para casa para ter paz, não para ser juiz de uma disputa de ego e vaidade.
Ele caminhou até a mesa e pegou o catálogo de Sara e o folheto de Eduarda. Com um movimento brusco, ele os rasgou ao meio e os jogou na lixeira.
— Não vai ter joia nenhuma. Para nenhuma das duas.
Sara abriu a boca para protestar, mas o olhar de Emanuel era tão gélido que ela apenas soltou um ganido de frustração e saiu do escritório, batendo a porta e gritando que ia gastar o triplo em sapatos com o cartão dele.
Eduarda permaneceu no chão. Ela não gritou. Apenas olhou para os pedaços de papel na lixeira e deixou uma lágrima cair.
— Eu só queria algo que nos unisse, Manu... — ela murmurou, a voz quebrada. — Eu não queria brigar. A Sara é que começa... ela é tão agressiva.
Emanuel suspirou, sentindo a raiva se esvair e ser substituída por uma fadiga crônica. Ele se inclinou e pegou Eduarda pelos braços, levantando-a.
— Eu sei, Duda. Eu sei. Mas você também provoca, à sua maneira.
Ele a puxou para um abraço. Eduarda se aninhou nele, o rosto escondido em seu peito. Por cima do ombro de Emanuel, ela olhou para a porta por onde Sara saíra. Não havia mais lágrimas. Havia apenas a paciência de quem sabia que, se não conseguira o anel hoje, conseguiria algo muito maior amanhã, apenas sendo "tímida e manhosa".
— Você vai dormir um pouco comigo? — ela perguntou, a voz doce e arrastada. — Eu posso fazer aquela massagem que você gosta... sem barulho, sem pedidos. Só nós dois.
Emanuel fechou os olhos. O silêncio que ela oferecia era a sua maior droga.
— Vou, Duda. Vamos dormir.
Enquanto caminhavam para o quarto, Emanuel passou pela sala. Sara estava sentada no sofá, tomando um suco verde e digitando furiosamente no celular, provavelmente planejando sua próxima vingança financeira. Ela olhou para os dois com um desprezo mortal, mas não disse nada.
Emanuel deitou-se na cama king-size, sentindo o peso do corpo afundar no colchão de luxo. Eduarda deitou-se ao seu lado, começando a traçar as linhas de suas tatuagens no braço com a ponta dos dedos. O toque era leve, hipnótico.
— Manu? — ela chamou baixinho, quando ele já estava quase pegando no sono.
— Hum?
— Aquela safira... ela realmente combinaria com a cor dos seus olhos quando você está feliz.
Emanuel não respondeu. Ele apenas virou para o lado, sentindo o cheiro de baunilha de Eduarda e o som distante de Sara batendo portas nos armários da cozinha. Ele era um homem rico, poderoso e respeitado no mundo inteiro. Tinha as duas mulheres mais desejadas que já conhecera sob o seu teto. Mas, enquanto mergulhava no sono, a única coisa que ele realmente desejava era uma noite em que o ouro não brilhasse tanto e o silêncio não fosse apenas uma arma de manipulação.
Era uma esperança vã. Naquela casa, até o sono era um campo de batalha, e as joias eram apenas as medalhas de uma guerra que nunca teria vencedores, apenas sobreviventes exaustos. E Emanuel, o grande tatuador, sabia que as marcas que elas deixavam nele eram muito mais profundas do que qualquer agulha poderia alcançar.