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Duas

Sombras de Renda e Reflexos de Ouro

A estrada para a serra fluminense serpenteava entre montanhas cobertas por uma neblina densa, um cenário que Emanuel esperava que trouxesse o mínimo de serenidade para o encerramento daquele ano caótico. O SUV de luxo subia a serra em um silêncio tenso, interrompido apenas pelo som do GPS e pelo ruído das unhas de gel de Sara batucando impacientemente no painel de couro.

No banco do passageiro, Sara usava óculos escuros gigantescos, apesar do céu nublado, e um conjunto de cashmere creme que gritava riqueza urbana. No banco de trás, Eduarda parecia uma boneca de porcelana esquecida, envolta em um casaco de lã batida cinza, abraçada a um livro de poesias, olhando para a paisagem com uma melancolia estudada.

— Emanuel, meu amor, você tem certeza que a sua mãe preparou o quarto com ar-condicionado? — Sara perguntou, ajeitando o cabelo loiro platinado. — Eu não pretendo passar a virada de ano suando como uma camponesa.

— Minha mãe mora em uma fazenda colonial, Sara. O clima da serra é frio o suficiente — Emanuel respondeu, mantendo os olhos na estrada. — E por favor, tente ser gentil. É ano novo.

— Eu sou sempre gentil, querido. A "estudante de arte" ali atrás é que parece que está indo para um velório — Sara alfinetou, olhando pelo retrovisor interno.

Eduarda soltou um suspiro trêmulo, fechando o livro com delicadeza.

— Eu só valorizo o silêncio, Sara. Algumas pessoas precisam de barulho e ostentação para preencher o vazio interno. Eu prefiro sentir a energia da natureza.

— Energia da natureza? — Sara soltou uma gargalhada vulgar. — Você prefere é fingir que é profunda para ver se o Emanuel sente pena de você. Coitadinha da Duda, tão sensível, tão pura...

— Chega, as duas — Emanuel sentenciou, a voz grave vibrando com uma autoridade que raramente funcionava por muito tempo.

A chegada à fazenda de Dona Margarida foi um exercício de paciência. A propriedade era vasta, com jardins impecáveis e uma aura de tradição que Emanuel respeitava profundamente. Ele queria que aquele feriado fosse um terreno neutro, mas assim que desceram do carro, a competição recomeçou.

Emanuel, sendo o homem prático e rico que era, decidiu que a melhor forma de evitar conflitos na primeira noite seria através de mimos. Ele trouxera presentes de uma joalheria renomada em São Paulo, entregando as caixas aveludadas após o jantar, sob o olhar observador e crítico de sua mãe.

— Para você, Sara — Emanuel estendeu uma caixa retangular.

Sara abriu com avidez. Era uma pulseira de ouro 18k cravejada de pequenos brilhantes. O ouro reluzia sob a luz do lustre de cristal, combinando perfeitamente com a estética solar e chamativa da loira.

— Ai, Manu! É divina! — Sara exclamou, estendendo o pulso para que ele a fechasse. — Viu só? Isso sim é brilho de verdade. Combina com quem nasceu para brilhar.

Emanuel então se virou para Eduarda, entregando-lhe uma caixa quadrada, menor.

— Para você, Duda.

Eduarda abriu devagar, quase com reverência. Dentro, repousava um colar de platina com um pingente de pérola negra, rara e discreta, com um brilho acetinado e misterioso.

— É lindo, Manu... — ela sussurrou, os olhos já começando a brilhar com aquela umidade característica. — É tão... profundo. É como a alma do oceano.

— Profundo? É cinza, Eduarda. É uma bolinha cinza num fio de arame — Sara debochou, admirando o próprio pulso. — O meu presente é um investimento. O seu parece algo que se compra em lojinha de museu.

Eduarda empalideceu. Ela olhou da pulseira de Sara para o seu colar e, em seguida, para Emanuel. O veneno da comparação começou a agir instantaneamente.

— Você escolheu o ouro para ela, Emanuel? — Eduarda perguntou, a voz saindo num fiozinho agudo e manhoso, carregado de mágoa. — Ouro é eterno. Ouro é o que se dá para quem se valoriza de verdade. A platina é fria... a pérola é... solitária.

— Duda, eu escolhi cada peça pensando na personalidade de vocês — Emanuel tentou explicar, sentindo a dor de cabeça retornar. — A pérola é sofisticada, única, como você.

— Não venha com essa, Emanuel! — Sara interveio, cruzando os braços, o que fez seus seios siliconados saltarem no decote do vestido justo. — Você deu o ouro para mim porque sabe que eu sou a mulher que está ao seu lado nos negócios, nos eventos. A Duda é o seu "hobby" intelectual. É claro que o meu presente é mais caro.

Eduarda levantou-se da mesa abruptamente, a cadeira arrastando no chão de madeira com um som estridente.

— Você ama mais a Sara do que a mim! — ela gritou, as lágrimas finalmente transbordando. — Você dá o brilho e o ouro para ela porque ela te satisfaz o ego, enquanto para mim você dá o que é discreto, o que pode ser escondido! Você tem vergonha de mim, Emanuel?

— Eduarda, não seja ridícula — Emanuel levantou-se também, mas ela já estava correndo em direção às escadas, soluçando alto o suficiente para que os empregados na cozinha parassem o que estavam fazendo.

— Deixa ela, Manu — Sara disse, segurando o braço dele com as unhas compridas. — Ela só quer chamar atenção. Vamos terminar o nosso vinho.

— Eu não vou terminar nada, Sara — Emanuel soltou-se do aperto dela, a expressão endurecida. — Você não consegue ficar cinco minutos sem provocar?

Ele subiu as escadas em passadas largas, encontrando Eduarda no quarto de hóspedes que ela ocupava sozinha. Ela estava deitada de bruços na cama, a camisola de seda preta subida, revelando as pernas brancas. O colar de pérola negra estava jogado sobre o criado-mudo como se fosse um insulto.

— Duda, abre a porta — ele pediu, embora a porta estivesse apenas encostada.

Ele entrou e sentou-se na beira da cama. O choro dela era rítmico, manhoso, feito para despertar o instinto protetor dele.

— Vai lá com a sua loira de ouro, Emanuel — ela murmurou contra o travesseiro. — Vai lá ver como ela brilha. Eu sou só a "bolinha cinza", lembra?

— Eu gastei o mesmo valor nas duas peças, Eduarda. A pérola negra é mais rara que aqueles diamantes — ele disse, tentando usar a lógica, embora soubesse que com ela a lógica era uma língua morta.

Eduarda virou-se devagar. O rosto estava vermelho, os olhos inchados, e ela parecia a imagem da desolação.

— Não é o preço, é o que significa — ela disse, sentando-se e deixando a camisola escorregar levemente pelo ombro. — O ouro é o que se mostra para o mundo. Você quer mostrar a Sara. Você quer que todos vejam o que você comprou para ela. Para mim, você quer o que é invisível. Você não me ama da mesma forma. Você sente desejo por ela e só sente... pena de mim.

— Isso não é verdade — ele rebateu, a voz ficando mais rouca.

— É verdade sim! — Ela se aproximou dele, engatinhando pela cama até ficar entre as pernas dele, olhando-o de baixo para cima com uma mistura de raiva e luxúria disfarçada de inocência. — Você prefere a vulgaridade dela. Você prefere aquela carne toda exposta. Eu sou só a menina que lê para você, não é?

— Eduarda, para com isso.

— Eu vou te mostrar o que a sua "bolinha cinza" tem, Emanuel — ela sussurrou, a voz mudando drasticamente.

A timidez sumiu como por encanto. Eduarda levou as mãos à barra da camisola e a puxou para cima, revelando que não usava nada por baixo. Ela se ajoelhou na frente dele, abrindo as pernas e exibindo sua intimidade rosada e depilada, contrastando com a pele alva e delicada.

— Olha para mim — ela ordenou, a manha transformando-se em uma audácia que sempre pegava Emanuel de surpresa. — A Sara mostra isso para qualquer um que olhar o decote dela. Eu só mostro para você. Por que você deu o ouro para ela? Por que você a faz se sentir mais mulher do que eu?

Ela levou os dedos à própria fenda, umedecendo-os e deslizando-os com uma lentidão torturante, enquanto mantinha o olhar fixo no dele.

— Você vai escolher Salem de novo, Manu? — ela perguntou, referindo-se a como o convencera da última vez. — Ou você vai deixar que aquela loira vulgar ganhe tudo de você? Escolhe a mim. Diz que o meu presente é o único que importa.

Emanuel sentiu o sangue latejar nas têmporas. O contraste entre a fragilidade emocional de Eduarda e sua agressividade sexual era o que o mantinha preso a ela. Ele a puxou pela cintura, sentindo o calor da pele dela contra suas mãos frias.

— Você é uma manipuladora, sabia? — ele murmurou, a respiração pesada.

— Eu só luto pelo que é meu — ela respondeu, arqueando as costas e soltando um gemido baixo quando ele a pressionou contra o próprio corpo. — E você é meu.

O momento foi interrompido pelo som de passos pesados no corredor e a voz estridente de Sara.

— Emanuel! Se você não descer agora para abrir essa garrafa de champanhe, eu vou quebrar a sua coleção de tintas de tatuagem quando voltarmos para casa!

Eduarda sorriu, um sorriso pequeno e vitorioso, mesmo enquanto se cobria rapidamente com o robe.

— Vai lá, Manu — ela disse, voltando ao tom manhoso. — Vai lá com a sua "dona do ouro". Mas não esquece quem é que realmente te conhece por dentro.

Emanuel saiu do quarto sentindo-se como se tivesse acabado de sair de um interrogatório. Na sala, Sara o esperava com duas taças e uma expressão de impaciência.

— Conseguiu calar a boca da carpideira? — Sara perguntou, entregando-lhe a garrafa.

— Sara, por favor, tente colaborar — ele pediu, abrindo o champanhe com um estouro que pareceu um tiro no silêncio da fazenda.

— Eu colaboro quando eu me sinto valorizada, Emanuel. E eu não vou ficar em segundo plano para uma garota que usa drama como se fosse perfume.

A ceia de ano novo foi um campo de batalha silencioso. De um lado, Sara, exibindo a pulseira de ouro a cada movimento, falando alto sobre suas futuras viagens e sobre como a fazenda precisava de uma "modernização". Do outro, Eduarda, com o colar de pérola negra pendendo no pescoço, comendo quase nada, lançando olhares de mágoa profunda para Emanuel a cada vez que ele dirigia a palavra a Sara.

— A carne está excelente, não acha, Duda? — Emanuel tentou incluir a morena na conversa.

— Está... um pouco pesada. Mas imagino que para quem gosta de coisas densas e óbvias, esteja perfeita — Eduarda respondeu, sem olhar para Emanuel.

— Ai, lá vem ela com as metáforas de faculdade — Sara revirou os olhos. — Emanuel, querido, me serve mais champanhe. Esse aqui é do bom, não é como aquele vinho de vinagre que a Duda gosta de tomar enquanto lê poesia de suicida.

— Sara, chega — Emanuel disse, o tom de aviso finalmente surtindo efeito.

Após o jantar, eles foram para a varanda esperar o momento da virada. O céu da serra estava limpo, cravejado de estrelas. Emanuel se posicionou entre as duas, tentando manter uma simetria impossível.

— Falta um minuto — ele anunciou, olhando para o relógio de pulso.

Sara agarrou seu braço esquerdo, colando o corpo siliconado ao dele, exalando o perfume caro e a confiança inabalável.

— Ano que vem, Miami, Emanuel. Sem desculpas — ela sussurrou no ouvido dele.

Eduarda aproximou-se pelo lado direito, segurando sua mão com os dedos frios e trêmulos. Ela não encostou o corpo, mas sua presença parecia pesar mais.

— Ano que vem... que você consiga enxergar quem realmente te ama, Manu — ela murmurou, uma lágrima solitária caindo sobre a pérola negra.

Dez, nove, oito...

Emanuel olhou para as duas. A loira vulgar, expansiva, que lhe dava o fogo e o status; a morena tímida, manhosa e manipuladora, que lhe dava o mistério e o refúgio. Ele era o centro daquele sistema solar caótico, e sabia que nenhuma delas jamais cederia um centímetro de território.

Três, dois, um... Feliz Ano Novo!

Sara o puxou para um beijo voraz, possessivo, querendo marcar seu domínio diante de Eduarda. Emanuel correspondeu mecanicamente, sentindo as mãos de Sara em seu pescoço. Assim que se separaram, Eduarda aproximou-se. Ela não o beijou na boca. Ela apenas abraçou sua cintura e escondeu o rosto em seu peito, soltando um suspiro longo e sofrido.

— Você beijou ela primeiro — Eduarda sussurrou, audível apenas para ele. — Você sempre escolhe o brilho, Emanuel. Sempre.

— Eu só estava retribuindo o gesto, Duda — ele tentou se defender, sentindo-se exausto antes mesmo do primeiro dia do ano começar.

— Retribuiu com vontade, não foi? — Sara alfinetou, ajeitando o vestido. — Dá para ver na sua cara, Manu. Você gosta de mulher de verdade, não de encenação teatral.

— Eu não sou encenação! — Eduarda gritou, soltando-se de Emanuel. — Você é que é uma construção de plástico e arrogância!

— E você é uma parasita emocional! — Sara rebateu, dando um passo à frente.

Emanuel colocou-se entre as duas, as mãos espalmadas.

— Parem! Agora! É o primeiro minuto do ano e vocês já estão se matando!

— Ela começou! — as duas disseram ao mesmo tempo.

Emanuel olhou para a pulseira de ouro e para a pérola negra. Ele percebeu que, não importava o quanto ele tentasse ser justo ou igualitário, o conflito entre elas era a própria essência do relacionamento. Elas não queriam igualdade; elas queriam a aniquilação total da outra.

— Eu vou dormir — Emanuel anunciou, sua voz carregada de um cansaço que ia além do físico. — Sozinho.

Ele caminhou para dentro da casa, deixando as duas na varanda. Sara soltou um bufo de indignação, enquanto Eduarda sentou-se em um dos bancos de vime, parecendo subitamente pequena sob a luz das estrelas.

— Viu o que você fez? — Sara disse para Eduarda. — Estragou a noite dele com o seu drama.

— Eu não estraguei nada. Eu só mostrei a verdade — Eduarda respondeu, a voz agora fria e desprovida de lágrimas. — Ele sabe quem eu sou. E ele sabe que o seu ouro não compra o que eu dou para ele no escuro.

Sara estreitou os olhos, a mão indo instintivamente para a pulseira.

— Aproveite o seu mistério, "Dudinha". Porque a luz do dia sempre chega. E na luz, o ouro é o que as pessoas veem.

Eduarda não respondeu. Ela apenas tocou a pérola negra em seu pescoço, sentindo a superfície lisa e fria. Ela sabia que Emanuel voltaria para o quarto dela mais tarde, ou talvez no dia seguinte, buscando o conforto da sua manha e a intensidade da sua entrega. E ela estaria lá, pronta para lembrá-lo de que a dor que ela lhe causava era muito mais viciante do que o prazer que Sara oferecia.

Emanuel, deitado em seu quarto, olhava para o teto de madeira da fazenda. Ele era um homem que fizera fortuna marcando a pele das pessoas com tinta indelével. Mas ali, entre Sara e Eduarda, ele sentia que as marcas eram feitas em sua alma. O ouro de uma e a pérola da outra eram apenas os símbolos de uma guerra de atrito que ele mesmo alimentava. O ano era novo, mas as correntes que o prendiam àquelas duas mulheres eram mais velhas e fortes do que ele ousava admitir. E, no fundo, ele sabia que não queria ser libertado. Ele era o tatuador, mas elas eram as artistas, desenhando em sua vida um mapa de desejo, ciúme e uma paixão doentia que nenhuma viagem ou joia seria capaz de curar.