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Duas

Neon, Sal e Sedas Amargas

O calor de Miami não era como o calor do Brasil; era uma massa úmida e elétrica que parecia vibrar contra a pele, carregada com o cheiro de loção bronzeadora cara, combustível de iates e o perfume doce de coquetéis de beira de piscina. Para Sara, aquele era o cheiro do paraíso. Para Eduarda, era o cheiro do inferno em tons de neon.

Eduarda estava sentada na varanda da cobertura luxuosa que Emanuel alugara em South Beach, protegida pela sombra de um guarda-sol de grife. Ela usava um chapéu de palha de abas largas e um vestido de linho branco que a fazia parecer uma aparição etérea em meio à estética agressiva da cidade. Em seu colo, um livro de ensaios sobre a estética do feio parecia ser seu único escudo contra a visão de Sara, que, a poucos metros dali, se bronzeava à beira da piscina privativa.

Sara era uma visão de excessos. Usava um biquíni de fita dourado que mal cobria o necessário, deixando à mostra cada centímetro de sua pele dourada e as curvas acentuadas pelo silicone e pela academia. Ela segurava uma taça de champanhe gelado, rindo alto enquanto falava ao celular com uma amiga sobre as compras que faria na Lincoln Road.

— Manu, olha esse azul! — gritou Sara, ignorando completamente a presença de Eduarda. — Eu nasci para este lugar! Por que a gente perdeu tempo naquele museu a céu aberto que é Salem? Miami é vida, é brilho!

Emanuel saiu de dentro da suíte, vestindo apenas um short de natação escuro. O sol de Miami destacava as tatuagens que cobriam seus braços e peito, dando-lhe um ar de poder bruto que contrastava com a sofisticação do ambiente. Ele caminhou até Sara e deu um tapinha possessivo em seu quadril antes de se sentar em uma espreguiçadeira próxima.

— Fico feliz que esteja gostando, Sara. Você merece um pouco de diversão depois de tanta "história" na última viagem — disse Emanuel, sua voz grave carregada de uma complacência que fez o estômago de Eduarda revirar.

Eduarda fechou o livro com um estalo seco. Ela se levantou e caminhou lentamente até Emanuel, parando ao lado dele. Sua expressão era a personificação da manha e do sofrimento contido.

— Manu... — sussurrou ela, com a voz embargada. — Minha cabeça está latejando. Esse sol é tão forte, e o barulho da rua... eu realmente tenho que ir ao jantar hoje à noite? O Lincoln disse que vai ser em uma boate ruidosa.

Emanuel olhou para cima, encontrando os olhos grandes e úmidos de Eduarda. Por um momento, o instinto protetor dele vacilou.

— Sim, Duda, você tem que ir — respondeu ele, embora o tom fosse mais suave do que o usado com Sara. — Nós combinamos. Na sua vez, em Salem, a Sara foi a todos os memoriais e bibliotecas que você quis. Agora é a vez dela. Equilíbrio, lembra?

— Mas eu me sinto tão fora de lugar aqui — continuou ela, sentando-se no pé da espreguiçadeira dele e apoiando a mão pequena e pálida sobre o joelho tatuado de Emanuel. — Tudo é tão... vulgar. As pessoas não conversam, elas gritam. Eu sinto que estou desaparecendo nesse lugar.

Sara soltou uma risada debochada, tirando os óculos escuros para encarar a rival.

— Ah, para de ser sonsa, Eduarda! Você não está desaparecendo, você está é morrendo de inveja porque aqui ninguém dá a mínima para os seus livrinhos. Em Miami, você tem que ter presença, coisa que você não tem nem se nascesse de novo. Deixa o Manu em paz, ele quer aproveitar o sol, não ser seu enfermeiro.

— Eu não estou falando com você, Sara — rebateu Eduarda, sem desviar os olhos de Emanuel, a voz tremendo levemente. — Manu, eu só queria uma noite tranquila. Só nós dois, talvez um jantar no quarto...

Emanuel suspirou, sentindo a corda bamba em que vivia esticar uma vez mais. Ele olhou para Sara, que exibia um sorriso vitorioso e desafiador, e depois para Eduarda, que parecia uma criança prestes a ser abandonada.

— Duda, vá descansar um pouco no ar-condicionado — disse ele, dando um aperto final no joelho dela. — Tome um banho, coloque um vestido bonito e nos encontre às nove. Eu prometo que, se ficar muito ruim, voltamos cedo. Mas hoje a noite é da Sara.

Eduarda levantou-se em silêncio. Ela não discutiu, mas seus ombros caídos e o olhar de mágoa profunda lançaram uma sombra sobre o entusiasmo de Emanuel. Ela caminhou para dentro do apartamento, mas antes de entrar, viu pelo reflexo do vidro Emanuel se inclinar para frente e aceitar um beijo profundo e molhado de Sara.

Naquele momento, uma percepção amarga atingiu Eduarda como um soco: Emanuel amava Sara. Não era apenas desejo físico ou obrigação; ele amava aquela vulgaridade, aquela energia caótica e aquela alegria superficial. Ele precisava do brilho de Sara tanto quanto precisava do silêncio de Eduarda. Ela teria que dividi-lo. A ideia de exclusividade que ela tentara construir com suas manipulações em Salem era uma ilusão.

No entanto, enquanto fechava a porta da suíte e sentia o ar frio do interior, um sorriso pequeno e frio surgiu em seus lábios. Ela teria que dividi-lo, sim. Mas isso não significava que ela não pudesse ser a favorita. Se Sara era o sol de Miami, Eduarda seria a lua: silenciosa, oculta, mas a única capaz de controlar as marés.

A noite em Miami Beach era uma explosão de luzes roxas e azuis. O restaurante-boate onde estavam era o ápice da ostentação local. Modelos, empresários e herdeiros circulavam entre mesas de mármore e garrafas de champanhe que chegavam com fogos de artifício espetados nas rolhas.

Sara estava em seu elemento. Usava um vestido de malha de metal prateado que parecia ter sido esculpido em seu corpo, brilhando sob os estroboscópios. Ela bebia, dançava na cadeira e puxava Emanuel para perto, exibindo-o como um troféu para as outras mulheres no local.

Eduarda, por outro lado, escolhera um vestido de seda negra, fechado até o pescoço na frente, mas com um decote profundo nas costas que terminava perigosamente perto do início das nádegas. Ela mal tocava na comida, mantendo uma expressão de tédio sofisticado e fragilidade emocional.

— Manu, olha como aquela mulher está me olhando! — gritou Sara por cima da música eletrônica pesada. — Ela reconheceu você! Vamos dançar, agora!

— Sara, eu acabei de sentar — reclamou Emanuel, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos.

— Ah, deixa de ser chato! É Miami! — Sara o puxou pela mão, forçando-o a se levantar. Antes de sair, ela olhou para Eduarda com desprezo. — Fica aí cuidando da bolsa, "bibliotecária". Tenta não chorar no champanhe.

Emanuel deixou-se levar por Sara para a pista de dança. Eduarda observou de longe. Ela via como Emanuel se perdia no ritmo, como suas mãos grandes apertavam a cintura de Sara e como ele ria quando ela sussurrava algo em seu ouvido. Doía. Doía ver que ele podia ser feliz naquele ambiente que ela tanto desprezava.

Eduarda esperou dez minutos. Então, levantou-se com uma elegância felina e caminhou não em direção à pista, mas em direção ao banheiro VIP. No caminho, ela passou propositalmente perto de Emanuel, deixando que sua mão roçasse levemente nas costas dele, um toque fugaz que ele certamente sentiu.

Cinco minutos depois, como ela previra, Emanuel apareceu na área mais reservada do corredor dos banheiros, alegando que precisava de um ar ou de água. Ele a encontrou retocando o batom diante de um espelho de moldura dourada.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz soando mais clara agora que estavam longe das caixas de som.

Eduarda virou-se devagar. Seus olhos estavam grandes, expressivos, e ela parecia estar à beira de um colapso nervoso.

— Eu tentei, Manu. Juro que tentei — disse ela, a voz falhando. — Mas dói muito ver você assim com ela. Parece que eu não existo quando estamos em público. Você a ama tanto, não é?

Emanuel hesitou. A honestidade crua de Eduarda sempre o desarmava.

— Duda, eu... a Sara é diferente. Ela é intensa. Mas isso não diminui o que temos.

— Diminui sim — sussurrou ela, aproximando-se e segurando as lapelas do paletó dele. — Porque com ela você é o homem que o mundo vê. Comigo, você é o homem que eu guardo no meu peito. Eu não aguento mais essa divisão, Manu. Eu sinto que estou morrendo um pouco a cada risada que você dá com ela.

Ela começou a soluçar silenciosamente, escondendo o rosto no peito dele. Emanuel a abraçou, sentindo o perfume de jasmim e a delicadeza de seu corpo.

— Não chore, pequena. Por favor.

Eduarda levantou o rosto, as lágrimas manchando levemente sua pele perfeita.

— Você disse que eu tinha que vir porque era a vez dela. Tudo bem. Eu vim. Eu suportei a vulgaridade, o barulho, o sol. Mas agora eu preciso que você me lembre por que eu sou sua.

Ela olhou ao redor, garantindo que estavam sozinhos no corredor luxuoso e mal iluminado. Com um movimento rápido e audacioso, ela pegou a mão de Emanuel e a levou para baixo de sua saia de seda.

— Duda, aqui não... — ele começou a protestar, mas sua voz morreu na garganta quando sentiu que ela não usava calcinha.

— Shhh... — sibilou ela, colando os lábios no ouvido dele. — A Sara ganha a pista de dança, Manu. Ela ganha os flashes e os olhares dos outros. Mas eu ganho a sua alma. Eu quero que você sinta o quanto eu estou desejando você em meio a esse caos que você tanto gosta.

Ela se encostou na parede de veludo, abrindo levemente as pernas e guiando os dedos de Emanuel para sua intimidade quente e úmida. O contraste entre sua expressão de sofrimento e o que ela estava fazendo com ele era a droga mais potente que Emanuel já experimentara.

— Por que você tem que escolher Miami, Manu? — sussurrou ela, enquanto ele, movido por um desejo incontrolável, começava a acariciá-la ali mesmo. — Por que você me faz passar por isso? Diz que eu sou a sua favorita. Diz que, mesmo no meio de todo esse ouro da Sara, é a minha pérola que você quer guardar.

Emanuel estava perdido. O som da música lá fora parecia vir de outro planeta. Ele a beijou com uma fome desesperada, uma mistura de culpa e luxúria.

— Você é... você sabe que é diferente, Eduarda — ofegou ele entre os beijos.

— Diferente não é o suficiente — rebateu ela, intensificando o contato. — Eu quero ser a única que te faz perder o controle. A Sara é para o show. Eu sou para a vida. Promete que, depois de amanhã, vamos embora deste lugar? Promete que vamos para algum lugar onde o sol não brilhe tanto e onde eu possa ter você só para mim?

— Eu prometo... — murmurou ele, rendido.

Eduarda sorriu contra o pescoço dele. Ela sentia o poder fluindo de volta para suas mãos. Sara podia ter o dia, podia ter o champanhe e os iates de Miami, mas Eduarda possuía as sombras de Emanuel.

Quando voltaram para a mesa, Sara estava sentada, bebendo um coquetel colorido, com uma expressão de desconfiança.

— Demoraram, hein? — disse ela, olhando de Emanuel para Eduarda com os olhos cerrados. — O que foi dessa vez? A "princesinha" teve um desmaio cultural?

Emanuel sentou-se, bebendo um copo de água gelada de um gole só. Seu rosto estava levemente corado.

— Ela só não estava se sentindo bem com o barulho, Sara. Eu fui levá-la para respirar um pouco.

— Sei... respirar — ironizou Sara, percebendo a mudança na energia de Emanuel. — Bom, o fôlego deve ter voltado, porque agora nós vamos para o camarote do DJ. O dono me convidou e eu disse que você ia adorar.

Emanuel olhou para Eduarda. Ela apenas deu um sorriso triste e submisso, o tipo de sorriso que dizia "eu sofro em silêncio por você".

— Vá você, Sara — disse Emanuel, surpreendendo as duas. — Eu vou levar a Eduarda para o hotel. Ela realmente não parece bem e eu também estou com um pouco de dor de cabeça.

O rosto de Sara se transformou em uma máscara de fúria.

— Você está brincando? É a minha noite! Você prometeu!

— Eu sei o que prometi, Sara. Mas a Duda fez um esforço para vir. Agora é minha vez de cuidar dela. Fique com o Lincoln e o pessoal, o segurança está lá fora para te levar depois.

Sara se levantou, batendo a bolsa na mesa com tanta força que as taças tilintaram.

— Você é um fraco, Emanuel! Deixa essa garota te manipular com esse jeitinho de sonsa! Quer saber? Fique com ela! Fique com o silêncio dela e morra de tédio!

Sara saiu pisando duro, os saltos agulha estalando contra o chão de mármore, desaparecendo na multidão de neon.

Emanuel suspirou e olhou para Eduarda.

— Vamos? — perguntou ele.

Eduarda levantou-se e segurou o braço dele, aninhando-se com uma doçura vitoriosa.

— Vamos, meu amor. Obrigada por me escolher.

Enquanto caminhavam para a saída, Eduarda sentiu o calor de Miami pela última vez naquela noite. Ela sabia que Emanuel ainda amava Sara, que amanhã ele teria que compensar a loira com um colar de diamantes ou um passeio de helicóptero, e que ela teria que dividir o espaço e a atenção dele novamente. Mas, enquanto entravam no carro climatizado, ela sabia que a batalha de Miami fora vencida.

Sara podia ter o ouro, o sol e o barulho, mas Eduarda tinha o controle. E no jogo de poder daquele triângulo, ser a favorita era muito mais importante do que ser a única. Ela olhou pela janela, vendo as luzes de Miami ficarem para trás, e sentiu que, finalmente, o ar estava começando a ficar respirável.