Duas
Máscaras Sociais e Estilhaços de Cristal
A notícia do convite chegou como um bálsamo para o ego ferido de Sara. Quando Emanuel anunciou, à mesa do café, que Ricardo e Patrícia haviam convidado o "casal" para um jantar íntimo em sua mansão no Jardim Europa, a loira não deixou que ele terminasse a frase antes de soltar uma exclamação de triunfo.
— Eu sabia! — Sara exclamou, batendo as unhas de acrílico perfeitamente esculpidas no tampo de mármore. — Eles perceberam o mal-entendido na clínica. Devem estar morrendo de vergonha pela forma como me ignoraram. É óbvio que esse jantar é um pedido de desculpas formal para mim, a mulher que realmente importa nesta hierarquia.
Emanuel não respondeu de imediato. Ele apenas fixou os olhos no café preto, sentindo a habitual pontada de tensão na base do crânio. Ele sabia que Ricardo não era homem de pedir desculpas por suas percepções, mas preferiu o silêncio ao confronto.
Eduarda, sentada à frente de Sara, manteve os olhos baixos, escondidos pelas mechas castanhas de seu cabelo. Ela usava um pijama de seda clara, parecendo uma criança perdida em meio aos móveis monumentais da cobertura.
— Você ouviu, não é, mosca-morta? — Sara se inclinou sobre a mesa, o sorriso carregado de veneno. — Hoje à noite, você vai ver como uma mulher de verdade se comporta em um ambiente de alto nível. Se eu fosse você, ficava bem quietinha no seu canto, ou melhor, nem aparecia para não passar mais vergonha.
— O convite foi para a casa toda, Sara — Emanuel interveio, a voz cansada. — O Ricardo foi enfático. Ele quer receber "a família".
— Família... sei. — Sara soltou uma risada vulgar, levantando-se para começar sua maratona de beleza. — Prepare o seu melhor terno, Emanuel. E você, Eduarda, tente não parecer uma órfã que foi recolhida da chuva. Use aquele colar de ônix, quem sabe ele não te dá um pouco de personalidade?
O dia foi um tormento para Eduarda. Sara desfilava pelo apartamento como uma rainha prestes a ser coroada. Cada vez que cruzava com a jovem estudante de História da Arte no corredor, lançava um comentário depreciativo.
— Você entende que eles são colecionadores, não é? — Sara disse, enquanto aplicava uma máscara facial dourada. — Eles gostam de coisas caras, brilhantes, imponentes. Eles gostam de mim. Você é apenas o "projeto social" do Emanuel aos olhos deles. Uma caridade que ele faz para se sentir um bom homem.
Eduarda não respondeu. Ela apenas se recolheu ao seu quarto, fechando a porta silenciosamente. Lá dentro, ela não chorou. Em vez disso, abriu seu closet e deslizou os dedos pelas peças de seda fosca e veludo. Ela conhecia a linguagem de pessoas como Patrícia. Sabia que, naquele mundo, o barulho era sinal de insegurança, e o brilho excessivo era sinal de desespero.
Às oito da noite, o contraste no hall do apartamento era gritante. Sara usava um vestido de paetês dourados, extremamente justo, com uma fenda que subia até o limite do quadril. Seus seios, turbinados pelo silicone, pareciam prestes a saltar do decote profundo. Ela exalava um perfume doce e pesado que dominava o ambiente.
Eduarda, por sua vez, escolheu um vestido de corte reto em azul-marinho profundo, quase preto. O tecido era uma lã fria de altíssima qualidade que caía como uma sombra sobre seu corpo esguio. No pescoço, o colar de ônix gótico e, no pulso, a pulseira de hera. Ela não usava maquiagem, apenas um pouco de hidratante labial e um toque de rímel, realçando seus olhos grandes e melancólicos.
— Você vai assim? — Sara debochou, apontando para o vestido discreto de Eduarda. — Parece que vai a um velório.
— Eu acho que ela está elegante — Emanuel cortou, já sem paciência, abrindo a porta para que saíssem.
A mansão de Ricardo era um monumento ao bom gosto conservador. Obras de arte moderna dividiam espaço com antiguidades europeias sob uma iluminação quente e acolhedora. Quando os três entraram, Ricardo e Patrícia já os esperavam no salão principal, segurando taças de cristal com um vinho que custava mais do que o carro de muita gente.
— Emanuel! Que alegria ter vocês aqui — Ricardo disse, ignorando a mão estendida de Sara e indo direto abraçar o amigo.
Patrícia, impecável em um conjunto de pérolas, aproximou-se com um sorriso radiante direcionado exclusivamente a Eduarda.
— Querida Eduarda, como você está linda! — Patrícia segurou as mãos da jovem. — Eu passei a semana pensando na nossa conversa sobre o movimento expressionista. Você trouxe uma luz tão refinada para este grupo.
— Obrigada, Patrícia. É uma honra estar na sua casa — Eduarda respondeu, a voz baixa e melodiosa, fazendo uma leve inclinação com a cabeça que exalava uma reverência quase aristocrática.
Sara, sentindo o vácuo social se abrir sob seus pés, forçou um riso alto e se jogou na conversa.
— E esse vinho, Ricardo? Espero que seja daquela safra que comentamos no evento passado. Eu disse ao Emanuel que precisávamos renovar nossa adega particular com algo assim!
Ricardo olhou para Sara como se estivesse observando um inseto curioso, mas ligeiramente incômodo.
— Sim, é um bom vinho — ele respondeu secamente, antes de se voltar novamente para Emanuel e Eduarda. — Mas venham, o jantar será servido. Patrícia fez questão de que o menu fosse leve, pensando na sua preferência por coisas sutis, Eduarda.
O jantar foi um massacre silencioso. Patrícia e Ricardo conduziam a conversa sobre óperas, leilões da Christie's e filantropia. Sempre que Sara tentava intervir com algum comentário sobre o "marketing dos estúdios" ou sobre o preço de suas últimas aquisições, o casal de anfitriões apenas assentia educadamente e mudava de assunto, voltando-se para Eduarda para pedir sua opinião sobre a estética de algum quadro na parede.
— É fascinante como a Eduarda tem esse olhar clínico — comentou Patrícia, servindo-se de uma porção mínima de risoto de trufas. — Emanuel, você realmente encontrou uma joia. Ter uma esposa que não apenas decora a casa, mas que compreende a alma da arte... é algo que não se compra com dinheiro.
Sara sentiu o rosto queimar. O termo "esposa" foi usado novamente de forma deliberada.
— Eu também entendo de arte! — Sara disparou, a voz saindo mais estridente do que pretendia. — Eu administro as contas do Emanuel. Eu sei exatamente quanto vale cada centímetro de pele que ele tatua. Se isso não é entender de arte e valor, eu não sei o que é.
O talher de prata de Ricardo bateu levemente no prato de porcelana, produzindo um som metálico que pareceu um tiro no silêncio que se seguiu.
— Existe uma diferença fundamental, minha jovem — Ricardo disse, olhando para Sara por cima dos óculos de leitura —, entre saber o preço de algo e saber o valor de algo. A Eduarda parece compreender o valor.
— E a Sara... bem, a Sara é uma excelente assistente, imagino — Patrícia completou, com um sorriso que não chegava aos olhos. — É sempre bom ter alguém para cuidar da parte... bruta dos negócios, não é, Emanuel? Para que a esposa possa se dedicar às coisas mais elevadas.
Emanuel sentiu o desastre iminente. Ele olhou para Sara e viu que ela estava à beira de um colapso nervoso. Suas narinas estavam dilatadas e ela apertava a taça de vinho com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos. Do outro lado, Eduarda mantinha a expressão de uma santa mártir, olhando para o prato com uma modéstia que Emanuel sabia ser, em parte, uma arma de guerra.
— Eu não sou assistente! — Sara sibilou, a voz tremendo de raiva. — Eu sou a mulher que dorme com ele! Eu sou a mulher que ele leva para a cama todas as noites!
O constrangimento na mesa foi absoluto. Patrícia limpou os lábios com o guardanapo de linho, a expressão de puro nojo.
— Por favor, guardemos os detalhes da vida privada para ambientes menos formais — disse Patrícia, friamente. — Emanuel, talvez tenha sido um erro apressar este encontro. Claramente, nem todos aqui estão prontos para a convivência social que este ambiente exige.
— Acho que é melhor irmos — Emanuel disse, levantando-se bruscamente. Ele não olhou para Sara. Ele pegou Eduarda pela mão, que se levantou com uma graça melancólica, parecendo pedir desculpas com o olhar pelo comportamento da "outra".
— Sinto muito, Patrícia. Ricardo. — Eduarda sussurrou. — A noite estava maravilhosa.
O trajeto de volta no carro foi um prelúdio do inferno. Emanuel dirigia em silêncio absoluto, as mãos apertando o volante com tanta força que o couro rangia. Sara soluçava de raiva no banco de trás, enquanto Eduarda permanecia em seu casulo de silêncio, o olhar perdido na paisagem urbana.
Assim que a porta da cobertura se abriu, a represa rompeu.
— ASSISTENTE?! — Sara gritou, a voz ecoando pelo pé-direito duplo como um trovão. — ELES ME TRATARAM COMO UMA PROSTITUTA DE LUXO, EMANUEL! E VOCÊ FICOU LÁ, PARADO, ENQUANTO AQUELA VELHA NOJENTA CHAMAVA ESSA SONSA DE ESPOSA!
— Você se comportou como uma pessoa sem classe, Sara! — Emanuel rugiu, virando-se para ela. — Você gritou à mesa, você falou de sexo na frente de pessoas que prezam pela discrição! Você se humilhou sozinha!
— Eu me humilhei?! — Sara arrancou os sapatos de salto alto e os jogou contra a parede de vidro, o som do impacto ecoando por todo o apartamento. — Eles me ignoraram! Eles agiram como se eu fosse invisível! E você... você deu a ela o colar, você deu a ela a pulseira, você deu a ela o título que é MEU!
Sara avançou para a mesa de centro, onde um vaso de cristal murano repousava. Com um movimento violento, ela o varreu para o chão. O vaso estilhaçou-se em mil pedaços, refletindo as luzes da cidade em fragmentos de caos.
— Sara, pare com isso agora! — Emanuel tentou segurá-la, mas ela estava possuída por uma fúria cega.
Ela correu para o bar, derrubando garrafas de uísque e gim. O cheiro de álcool inundou a sala enquanto o líquido escorria pelo mármore caro.
— Eu administro sua vida! Eu moldei sua imagem! — Ela gritava, enquanto derrubava os quadros das paredes. — E o que eu ganho? Eu ganho um anel de diamante para ficar calada enquanto você desfila com essa virgem de Taubaté por aí?
Eduarda estava encolhida em um canto, as mãos cobrindo os ouvidos, chorando copiosamente. Emanuel, vendo a destruição e o terror no rosto de Eduarda, sentiu algo quebrar dentro de si.
— JÁ CHEGA! — Emanuel segurou Sara pelos ombros, sacudindo-a. — Olhe para o que você está fazendo! Você está provando que eles tinham razão! Você é instável, você é vulgar e você não tem lugar naquele mundo!
Sara parou por um segundo, o rosto borrado de maquiagem, os cabelos loiros em desalinho. Ela olhou para Emanuel e depois para Eduarda, que chorava silenciosamente, parecendo a vítima perfeita daquela barbárie.
— Você a defende... — Sara disse, a voz agora rouca. — Você sempre a defende.
— Eu defendo a paz, Sara! Coisa que você parece incapaz de me dar! — Emanuel a soltou com um gesto de repulsa. — Olhe para este apartamento. Olhe para o que você fez.
Sara olhou ao redor. O luxo que ela tanto amava estava em ruínas. Cristais quebrados, álcool espalhado, quadros no chão. E no centro de tudo, Emanuel abraçando Eduarda, que se aninhava nele como se ele fosse seu único porto seguro no mundo.
— Eu te odeio... — Sara sussurrou, mas a força de seu grito havia sumido. — Eu odeio vocês dois.
Ela caminhou em direção ao seu quarto, mas parou diante de Eduarda. Por um breve momento, os olhos das duas se cruzaram. No olhar de Eduarda, por trás das lágrimas, Sara viu algo que Emanuel nunca veria: uma satisfação gélida. Um brilho de vitória que dizia, sem palavras, que cada estilhaço de vidro no chão era um passo a menos para a saída de Sara daquela casa.
Eduarda não precisava quebrar nada. Ela apenas precisava esperar que Sara se destruísse sozinha.
— Manu... eu estou com tanto medo — Eduarda murmurou, escondendo o rosto no peito dele. — O que vai ser de nós? Ela vai nos matar...
— Ela não vai fazer nada, Duda — Emanuel respondeu, a voz carregada de uma decisão sombria. — Amanhã eu vou tomar providências. Isso não pode continuar.
Emanuel a levou para o quarto, guiando-a por entre os destroços de sua vida doméstica. Ele se sentia exausto, um homem que possuía o mundo, mas que não conseguia governar o próprio lar.
No escuro do quarto, enquanto Emanuel a abraçava para acalmá-la, Eduarda acariciou a pulseira de hera em seu pulso. O metal estava frio, mas seu coração estava quente. Ela sabia que, na manhã seguinte, o lugar de "esposa" estaria vago, e ela estaria lá, com sua manha e sua doçura, para preenchê-lo definitivamente.
Sara, no quarto ao lado, sentada no chão em meio às suas roupas de grife, percebeu tarde demais que, naquela guerra, os diamantes eram apenas pedras, enquanto o silêncio de Eduarda era uma lâmina afiada que já havia cortado sua garganta. Ela havia quebrado o vidro, mas Eduarda havia quebrado a única coisa que realmente importava: a confiança de Emanuel.
A noite terminou com o som do vento batendo nas janelas da cobertura, um sussurro persistente que parecia rir da ruína de um império construído sobre a pele, mas destruído pela vaidade e pela dissimulação.