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Duas

Ouro Fino e Navalhas de Seda

A manhã que se seguiu à destruição da sala foi banhada por um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo som rítmico das vassouras dos funcionários da limpeza que Emanuel contratara às pressas. O tatuador estava parado na varanda, observando a névoa se dissipar sobre os prédios de São Paulo, sentindo-se como se ele mesmo fosse feito de vidro estilhaçado. O prejuízo material — o vaso de murano, as garrafas de uísque raro, os quadros — era irrelevante para sua conta bancária, mas o dano à sua estrutura mental parecia permanente.

O bipe suave de seu celular o trouxe de volta à realidade. Era uma mensagem de Ricardo.

"Emanuel, Patrícia e eu gostaríamos de insistir em um novo jantar amanhã à noite. Desta vez, algo mais reservado, sem os... imprevistos da última vez. Gostaríamos muito da presença da Eduarda. Ela é uma jovem de um brilho raro. Esperamos vocês dois."

Emanuel leu a mensagem duas vezes. O convite era cirúrgico. Não mencionava Sara. Não deixava brechas para interpretações. Era um reconhecimento oficial de que, para o círculo social que Emanuel frequentava e respeitava, apenas uma das mulheres tinha o "passe" para cruzar o umbral daquela mansão.

Ele guardou o celular no bolso e voltou para a sala, onde Eduarda estava sentada no sofá, as pernas encolhidas, segurando uma caneca de chá com as duas mãos. Ela usava um casaco de lã oversized que a fazia parecer ainda menor.

— Manu? — ela chamou, a voz rouca como se tivesse chorado a noite toda. — O que vai acontecer agora?

Emanuel sentou-se ao lado dela, sentindo o calor que emanava de seu corpo.

— Ricardo nos convidou para jantar amanhã. Apenas nós dois, Duda.

Um brilho quase imperceptível cruzou os olhos de Eduarda, mas ela rapidamente o substituiu por uma expressão de preocupação.

— Mas... e a Sara? Ela vai ficar furiosa. Eu não quero ser o motivo de mais briga, Emanuel. Talvez seja melhor eu não ir. Eu posso ficar aqui, ou ir para a casa da minha tia...

— Não — disse ele, com uma firmeza que surpreendeu a si mesmo. — Você vai. Você merece ser tratada com o respeito que eles te dão. Eu vou conversar com a Sara.

— Você é tão bom comigo — Eduarda sussurrou, encostando a cabeça em seu ombro e deslizando a mão por baixo do braço dele, onde a pulseira de hera tilintou discretamente. — Eu só queria que as coisas fossem mais fáceis para você.

A conversa com Sara, no entanto, foi tudo menos fácil. Emanuel a encontrou no quarto, cercada por caixas de sapatos e malas abertas. Ela não gritava mais; sua raiva havia evoluído para uma frieza cortante, uma indignação que se manifestava em cada movimento brusco.

— Eu vou jantar com o Ricardo e a Patrícia amanhã — Emanuel anunciou, encostado na porta. — Eles convidaram a Eduarda.

Sara parou de dobrar um vestido de seda e olhou para ele. Seus olhos estavam injetados.

— E eu? — perguntou ela, a voz baixa e perigosa.

— Você não foi convidada, Sara. E, sinceramente, depois do que aconteceu na clínica e aqui em casa, você sabe o porquê.

Sara soltou uma risada ríspida, jogando o vestido de qualquer jeito sobre a cama.

— Entendi. A "esposinha" vai para o baile e a "assistente" fica em casa limpando as cinzas. É isso?

— É uma consequência das suas atitudes — Emanuel disse, tentando manter a racionalidade. — Mas eu não quero que você se sinta... excluída. Pegue meu cartão adicional. Vá ao shopping amanhã. Compre o que quiser. Joias, bolsas, o que te fizer sentir melhor. Só me dê paz para esse jantar.

Sara semicerrou os olhos. A oferta era tentadora. Ela sabia que Emanuel estava tentando comprar o silêncio dela, mas também sabia que o limite dele estava por um fio. Se ela esticasse demais a corda agora, poderia acabar na rua com apenas o que tinha no corpo.

— Tudo bem, Emanuel — disse ela, com um sorriso de canto de boca que não tinha nada de amigável. — Eu vou gastar. Vou gastar tanto que você vai sentir cada centavo no seu bolso. Se é para eu ser a "acompanhante cara", eu vou ser a mais cara que você já teve.

A noite do jantar chegou. Enquanto Emanuel e Eduarda se preparavam, o clima no apartamento era de uma trégua armada. Sara saiu cedo, batendo a porta e levando consigo o cartão de crédito de Emanuel como se fosse uma arma carregada.

Eduarda escolheu um vestido de seda verde-esmeralda, com um decote em V discreto e mangas bufantes transparentes. Ela parecia uma ninfa saída de uma pintura pré-rafaelita. Emanuel, em um terno de corte italiano perfeitamente ajustado, sentia uma estranha sensação de correção ao vê-la. Ao lado de Eduarda, ele não precisava se desculpar por sua presença; ele sentia que ela o elevava.

O jantar na mansão de Ricardo foi impecável. Não houve gritos, não houve decotes excessivos, não houve menções a dinheiro ou vulgaridades. Eles falaram sobre a nova exposição no MASP, sobre os planos de Emanuel de abrir um estúdio-galeria em Florença e sobre a tese de Eduarda em História da Arte.

— É revigorante ter vocês aqui — comentou Patrícia, enquanto o som de um piano de cauda tocado por um músico profissional ao fundo preenchia o ambiente. — A Eduarda tem uma sensibilidade que equilibra a sua intensidade, Emanuel. É uma combinação rara.

— Eu concordo — disse Ricardo, erguendo sua taça. — Um homem na sua posição, Emanuel, precisa de um porto seguro. Alguém que entenda que a verdadeira sofisticação reside no que não precisa ser dito.

Eduarda sorriu, o colar de ônix brilhando sob a luz do lustre de cristal. Ela se sentia em casa. Ela sabia exatamente como agir, como sorrir nos momentos certos, como demonstrar uma inteligência que parecia despretensiosa, mas que era afiada como um bisturi. Ela estava cimentando seu lugar como a "mulher oficial" de Emanuel perante a sociedade.

Enquanto isso, no Shopping Iguatemi, Sara estava em um frenesi de consumo. Ela entrava nas lojas de grife como um furacão dourado.

— Eu quero aquela bolsa de couro de jacaré. Não, a preta e a vermelha — dizia ela à vendedora da Prada, que a olhava com uma mistura de admiração e espanto. — E aqueles sapatos? Vou levar três pares.

Ela não estava comprando por necessidade ou prazer estético; ela estava comprando por vingança. Cada transação aprovada no cartão de Emanuel era uma pequena facada que ela desferia contra a situação. Ela se sentia poderosa ao ver as sacolas se acumularem, mas, no fundo de seu estômago, havia um vazio que nenhuma etiqueta de luxo conseguia preencher.

Ao passar em frente a uma joalheria, ela parou. Viu um bracelete de diamantes cravejados, algo tão ostensivo que beirava o vulgar.

— É esse — murmurou Sara para si mesma. — Se ele quer que eu seja a "solar e chamativa", eu vou brilhar tanto que vou cegar todo mundo.

Quando Emanuel e Eduarda voltaram para casa, o apartamento estava silencioso, mas o hall de entrada estava entulhado de sacolas. Sara estava sentada no sofá, rodeada por seus troféus de guerra. Ela segurava uma taça de champanhe e usava o novo bracelete de diamantes.

— O jantar foi bom, "marido"? — Sara perguntou, a voz levemente arrastada pelo álcool.

Emanuel olhou para a montanha de sacolas e soltou um suspiro pesado. Ele verificou o celular; as notificações de gastos somavam um valor astronômico.

— Foi produtivo, Sara. Vejo que você também teve uma noite ocupada.

— Ah, foi maravilhosa — disse ela, levantando-se e caminhando até eles com uma elegância agressiva. Ela parou na frente de Eduarda, olhando-a de cima a baixo. — Olhe só para você... tão verde, tão pura. O jantar foi chique? Falaram sobre coisas que eu não entendo?

— Foi muito agradável, Sara — Eduarda respondeu, mantendo a voz suave, mas sem recuar. Ela sentia a proteção de Emanuel atrás dela.

— Imagino. Mas sabe de uma coisa? — Sara se aproximou do ouvido de Eduarda, o cheiro de champanhe e perfume caro inundando o espaço. — Ele pode te levar para jantar com os amigos velhos dele, mas é o meu nome que está queimando o crédito dele. Ele paga para você ser a santa e paga para eu ser o pecado. E, no fim das contas, Emanuel nunca foi um homem de uma nota só.

— Chega, Sara — Emanuel interveio, colocando-se entre as duas. — Vá dormir. Você já conseguiu o que queria.

Sara deu um tapinha no rosto de Emanuel, um gesto carregado de ironia e posse.

— Eu sempre consigo o que eu quero, Manu. Você só demora um pouco mais para perceber o preço.

Ela subiu as escadas para o quarto principal, o som de suas sacolas arrastando no chão parecendo o rastro de uma serpente.

Emanuel ficou parado na sala, sentindo o peso daquela vida dupla. Ele olhou para Eduarda, que parecia subitamente exausta, a fragilidade voltando a dominar sua expressão.

— Me desculpe por isso, Duda. Eu achei que...

— Está tudo bem, Manu — ela o interrompeu, pegando sua mão e levando-a ao rosto. — Eu sei que você tenta equilibrar tudo. Eu não me importo com as sacolas dela. Eu me importo com o fato de que, hoje à noite, você escolheu estar ao meu lado onde realmente importa.

Emanuel a abraçou, sentindo o cheiro de baunilha e a suavidade de sua pele. Eduarda era o bálsamo, a paz, a imagem de perfeição que ele queria projetar para o mundo. Mas, enquanto a abraçava, seus olhos vagaram para os estilhaços de vidro que ainda permaneciam em um canto negligenciado da sala, um lembrete de que o caos de Sara nunca estava longe demais.

Ele havia comprado o silêncio de Sara com diamantes e bolsas de grife, mas sabia que era apenas um aluguel temporário. A guerra entre o veludo e o espinho não havia terminado; ela apenas havia se tornado mais cara.

— Vamos dormir — disse Emanuel. — Amanhã tenho muito trabalho no estúdio.

— Você vai me levar para ver o novo projeto em Florença? — Eduarda perguntou, manhosamente, enquanto subiam as escadas.

— Vou, pequena. Eu vou te levar para todos os lugares.

No quarto, enquanto Eduarda se despia com a lentidão de quem sabe que está sendo observada e admirada, Emanuel sentou-se na beira da cama. Ele pensou em Ricardo, na elegância de Patrícia, e em como sua vida parecia, pela primeira vez, estar entrando em um eixo de respeitabilidade.

Mas então, o som de um objeto pesado caindo no quarto de Sara — provavelmente uma de suas novas caixas de sapatos — o fez estremecer.

Ele percebeu, com uma clareza dolorosa, que estava vivendo em um castelo de cartas. Eduarda era a fundação estética, a mulher que ele amava exibir e proteger. Sara era o motor pulsante, a fúria e o desejo que ele não conseguia silenciar totalmente.

Eduarda deitou-se ao seu lado, a pulseira de hera roçando em seu braço.

— Você está pensando nela? — Eduarda sussurrou, a voz carregada de uma insegurança que Emanuel sempre sentia necessidade de curar.

— Estou pensando em como manter você segura, Duda. Só isso.

Eduarda sorriu no escuro. Ela sabia que tinha vencido o round mais importante. Ela não precisava do cartão de crédito de Emanuel; ela tinha o seu orgulho. Ela não precisava de dez bolsas novas; ela tinha o título de "esposa" validado pela elite.

E, enquanto Emanuel adormecia, Eduarda permaneceu acordada por alguns minutos, ouvindo o silêncio da casa. Ela sabia que Sara estava acordada também, provavelmente admirando seu novo bracelete de diamantes.

"Brilhe o quanto quiser, Sara," pensou Eduarda, fechando os olhos com uma satisfação gélida. "Diamantes são apenas pedras. Mas eu... eu sou o sangue que corre nas veias deste império."

A noite em São Paulo continuava, indiferente aos dramas humanos dentro da cobertura. Ouro, seda, diamantes e veneno — os elementos estavam todos lá, prontos para a próxima batalha de uma guerra onde o prêmio final não era o amor, mas o controle absoluto sobre o coração e a fortuna de um homem que acreditava, ingenuamente, que poderia ter o céu e o inferno ao mesmo tempo.