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Duas

Ouro de Tolo e Cinzas de Diamante

O ambiente do Leilão de Inverno da Casa Christie’s em São Paulo era o ápice da exclusividade. O ar estava saturado com o cheiro de perfumes de nicho, madeira encerada e o aroma metálico e frio do poder. Emanuel, vestindo um terno de lã fria sob medida, sentia o peso dos olhares sobre si. Ele era o tatuador que rompera as barreiras da subcultura para se tornar um ícone do luxo, e sua presença ali era aguardada. No entanto, o que realmente atraía os sussurros eram as duas mulheres que o ladeavam, como dois polos magnéticos opostos prestes a causar um curto-circuito.

De um lado, Eduarda. Ela usava um vestido de veludo negro que parecia absorver a luz, de gola alta e mangas longas, evocando uma sobriedade vitoriana que realçava sua pele de porcelana. O colar de ônix e a pulseira de hera eram seus únicos adornos, conferindo-lhe uma aura de intelectualidade mística. Ela segurava o braço de Emanuel com uma delicadeza possessiva, seus dedos finos roçando o tecido do terno dele.

Do outro lado, Sara. Ela era uma explosão de ostentação. O vestido dourado, com um decote que desafiava as leis da física e uma fenda que revelava suas pernas torneadas, brilhava sob os lustres de cristal. O bracelete de diamantes que ela arrancara de Emanuel na semana anterior reluzia em seu pulso, mas ela queria mais. Seus olhos loiros e predatórios escaneavam o catálogo do leilão como se estivesse escolhendo as armas para uma execução.

— Lembrem-se — disse Emanuel, a voz baixa e carregada de advertência —, viemos aqui para apreciar a arte e adquirir peças específicas. Sem cenas. Sem escândalos.

— Eu serei uma tumba de discrição, Manu — sussurrou Eduarda, encostando a cabeça no ombro dele. — Só quero observar a beleza das peças. A história por trás de cada uma é o que me fascina.

— Ah, poupe-me do discurso de museu, Dudinha — Sara interrompeu, a voz cortante apesar do tom baixo. — Estamos aqui para comprar. Eu vi o lote 42. Aquele anel de rubi 'Sangue de Pombo'. Ele tem a minha alma escrita em cada quilate. E você, Emanuel, prometeu que hoje eu teria algo que faria aquele colar medíocre da Eduarda parecer lixo de brechó.

Emanuel massageou as têmporas. Ele havia planejado tudo com precisão matemática. O lote 15 era um camafeu de ametista esculpido à mão no século XIX, uma peça de uma melancolia profunda que era o espelho de Eduarda. O lote 42 era o rubi de Sara. Ele tinha fundos para ambos, e sua estratégia era simples: comprar a paz através do consumo.

O leiloeiro subiu ao púlpito, e o burburinho da sala cessou. O desfile de tesouros começou. Emanuel sentia a tensão crescer a cada lance. Eduarda permanecia imóvel, quase sem respirar, enquanto Sara batia o salto agulha no tapete persa em um ritmo frenético.

— Lote 15 — anunciou o leiloeiro. — Um camafeu de ametista montado em ouro rosa, proveniente de uma coleção privada em Paris. Iniciamos em cinquenta mil reais.

Eduarda apertou o braço de Emanuel. Ele levantou a palheta com a calma de quem domina o jogo. Houve alguns lances de colecionadores europeus por telefone, mas Emanuel não hesitou.

— Oitenta mil. Noventa mil. Cem mil reais. — O martelo bateu. — Vendido ao senhor Emanuel Silva.

Eduarda soltou um suspiro longo, um sorriso de pura gratidão iluminando seu rosto. Ela se inclinou e beijou o rosto de Emanuel, um gesto suave que fez os fotógrafos ao fundo dispararem seus flashes.

— Obrigada, meu amor... — ela sussurrou. — É a peça mais linda que já vi. Ela tem uma alma tão triste e doce... como eu me sinto às vezes.

— Que lindo — ironizou Sara, revirando os olhos. — Agora que a órfã ganhou seu brinquedo de museu, vamos ao que interessa. O rubi, Emanuel. O rubi.

Os lotes seguintes passaram como um borrão. Emanuel sentia o suor frio começar a brotar. Havia algo estranho no ar. Ele viu Ricardo, seu amigo colecionador, do outro lado da sala, com uma expressão preocupada no celular.

— Lote 42 — o leiloeiro anunciou, e Sara se empertigou na cadeira, os seios quase saltando do vestido. — O anel de rubi 'Sangue de Pombo'. Uma peça de raridade excepcional. Iniciamos os lances em duzentos mil reais.

Emanuel levantou a palheta.

— Duzentos e cinquenta mil — disse ele.

Um lance veio do fundo da sala. Trezentos mil. Emanuel cobriu. Trezentos e cinquenta mil. Sara sorria, uma expressão de triunfo vulgar já se formando em seus lábios. Ela olhou para Eduarda com um desprezo vitorioso, como se dissesse: "Veja o quanto eu custo".

— Quatrocentos mil reais — Emanuel anunciou, sua voz ecoando com autoridade.

O leiloeiro parou por um segundo, olhando para o monitor à sua frente. Ele franziu a testa e fez um sinal para um assistente. Um silêncio desconfortável se abateu sobre a sala. Emanuel sentiu um nó no estômago.

— Um momento, por favor — disse o leiloeiro. — Recebemos uma notificação de retirada do lote 42.

A sala explodiu em murmúrios. Sara congelou.

— Como assim, retirada? — ela sibilou, a voz subindo de tom.

— Devido a uma disputa judicial de herança de última hora, o lote 42 foi retirado do leilão por ordem judicial — explicou o leiloeiro. — Passaremos imediatamente para o lote 43.

Emanuel sentiu o mundo girar. Ele olhou para Sara e viu a cor sumir de seu rosto, sendo substituída por um vermelho púrpura de fúria cega.

— Não... — Sara murmurou, e então sua voz explodiu. — NÃO! Isso é impossível! Emanuel, faça alguma coisa! Use o seu dinheiro, use a sua influência! Eu quero aquele rubi!

— Sara, acalme-se — Emanuel tentou segurar as mãos dela, mas ela as puxou com violência. — Foi uma ordem judicial. Ninguém pode comprar aquela peça hoje. Eu vou te dar outra coisa, vamos esperar o próximo lote de joias...

— Eu não quero outra coisa! — Sara gritou, agora de pé, ignorando os olhares de choque da elite paulistana. — Você comprou a porcaria da ametista para ela! Ela está aí, com a caixinha dela, e eu não tenho nada! Você prometeu!

— Sara, por favor, as pessoas estão olhando — Eduarda disse, com uma voz tão baixa e doce que parecia óleo fervente na ferida de Sara. — O Manu tentou. Não foi culpa dele. Se você quiser, eu posso dividir o meu camafeu com você...

Foi o estopim. Sara virou-se para Eduarda com os olhos injetados de ódio.

— Dividir? Você quer dividir essa velharia de cemitério comigo? — Sara deu um passo em direção a Eduarda, que se encolheu dramaticamente atrás de Emanuel. — Você planejou isso, não foi? Você e sua cara de santa! Você sabia que eu ia sair daqui de mãos vazias!

— Sara, chega! — Emanuel levantou-se, sua voz de comando silenciando parte da sala. — Saia agora. Vá para o carro.

— Eu não vou a lugar nenhum! — Sara pegou o catálogo do leilão e o rasgou ao meio, jogando os pedaços para o alto como confetes de fúria. — Você me humilhou, Emanuel! Você deu o troféu para a cadelinha e me deixou com as migalhas! Você é um fraco, manipulado por esse choro de crocodilo!

— Eu disse para sair — Emanuel sibilou, segurando-a pelo braço com uma força que raramente usava. — Agora.

Sara soltou uma gargalhada histérica, o som ecoando pelas paredes de mármore. Ela olhou para as mulheres elegantes ao redor, que a observavam com um nojo indisfarçável, e depois para Eduarda, que agora derramava lágrimas silenciosas e perfeitas.

— Aproveite o seu momento, Eduarda — Sara gritou, enquanto Emanuel a arrastava em direção à saída. — Aproveite o seu ouro de tolo! Porque no dia em que o Emanuel acordar e perceber que você é apenas um vazio coberto de veludo, você não vai ter nem um rubi para se consolar!

A saída de Sara foi um espetáculo de vulgaridade. Ela chutou um pedestal de exibição, fazendo uma escultura de bronze oscilar perigosamente, e lançou um insulto impublicável para o leiloeiro. Emanuel sentia o suor frio escorrer por suas costas. Sua reputação, construída com tanto esforço, estava sendo estilhaçada a cada grito da loira.

Quando finalmente conseguiu colocá-la no carro com os seguranças, Emanuel voltou para o salão. Ele encontrou Eduarda sentada na cadeira, abraçando a pequena caixa de veludo do camafeu contra o peito, tremendo levemente.

— Eu sinto muito, Manu... — ela soluçou quando ele se aproximou. — Eu não queria que a sua noite fosse arruinada. Eu estraguei tudo, não foi? Eu deveria ter insistido para você comprar algo para ela primeiro...

— Não, Duda. A culpa não é sua — Emanuel suspirou, sentando-se ao lado dela e passando o braço por seus ombros. — A Sara não tem controle. Ela não entende que o mundo não gira em torno dos caprichos dela.

— Mas ela tem razão em uma coisa... — Eduarda levantou o rosto, os olhos grandes e úmidos buscando os dele. — Você gasta tanto comigo, e eu só te dou preocupação. Talvez você devesse devolver o camafeu. Eu não preciso de joias para te amar.

Emanuel sentiu o coração amolecer. A doçura de Eduarda era o único refúgio que lhe restava após a tempestade de Sara.

— A joia é sua, Duda. Ela foi feita para você. Esqueça a Sara. Eu vou resolver a situação dela amanhã.

— Você vai comprar o rubi para ela depois? — perguntou Eduarda, com uma pontada de ansiedade na voz.

— Se o lote for liberado, sim. Eu prometi. Mas hoje... hoje eu só quero sair daqui.

Eles deixaram o leilão sob um silêncio constrangedor. No trajeto para casa, Emanuel não disse uma palavra. Ele verificava o celular constantemente, vendo as mensagens furiosas de Sara chegarem em uma enxurrada de letras garrafais e ameaças de ir embora.

Ao chegarem na cobertura, o cenário era de guerra. Sara não estava lá. Ela havia pegado algumas malas, suas joias de uso diário e saído, deixando um rastro de roupas espalhadas pelo corredor. Uma garrafa de champanhe quebrada na cozinha indicava que sua despedida fora violenta.

— Ela foi embora? — Eduarda perguntou, a voz trêmula, mas havia um brilho de esperança em seu olhar que ela não conseguiu esconder totalmente.

— Parece que sim — Emanuel respondeu, sentando-se no sofá e enterrando o rosto nas mãos. — Ela foi para um hotel, provavelmente. Amanhã ela volta pedindo desculpas e exigindo o rubi em dobro.

— Você vai aceitá-la de volta? — Eduarda ajoelhou-se entre as pernas dele, colocando as mãos em seus joelhos.

Emanuel olhou para ela. A luz da lua entrava pela janela, refletindo-se no camafeu de ametista que ela agora usava. Ela parecia uma visão de paz em meio ao caos que Sara deixara.

— Eu não sei, Duda. Eu estou exausto.

— Eu estou aqui, Manu — ela sussurrou, subindo o corpo e abraçando o pescoço dele, o cheiro de baunilha inundando os sentidos do homem. — Eu nunca vou te tratar assim. Eu não preciso de rubis. Eu só preciso de você.

Emanuel a abraçou com força, buscando nela a estabilidade que sua vida parecia perder a cada dia. Ele não via, no entanto, o pequeno sorriso de triunfo que se formava nos lábios de Eduarda contra o seu ombro.

No dia seguinte, Emanuel cumpriu sua promessa de forma pragmática. Ele enviou seu assistente pessoal para localizar o proprietário do rubi retirado do leilão e ofereceu o dobro do valor de mercado para encerrar a disputa judicial e adquirir a peça. Era o preço da paz, ou assim ele pensava.

Quando a caixa com o rubi "Sangue de Pombo" chegou à cobertura, Sara já havia retornado, agindo como se o escândalo da noite anterior nunca tivesse acontecido, embora seus olhos ainda brilhassem com uma hostilidade latente.

— Aqui está — disse Emanuel, entregando a caixa para a loira na sala de estar. — O rubi que você tanto queria.

Sara abriu a caixa e seus olhos se iluminaram com uma ganância quase religiosa. Ela colocou o anel no dedo e o admirou contra a luz, o vermelho profundo da pedra parecendo uma gota de sangue fresco.

— É maravilhoso, Manu — disse ela, voltando a ser a mulher sedutora e vulgar de sempre. — Sabia que você não me deixaria na mão.

Eduarda observava da porta da cozinha, segurando seu chá. Ela olhou para o rubi espalhafatoso no dedo de Sara e depois para o seu camafeu discreto de ametista.

— É uma peça linda, Sara — disse Eduarda, com uma voz que não carregava nenhum traço de inveja. — Combina com você. É forte, marcante... quase agressiva.

Sara olhou para a morena, o anel brilhando como uma provocação.

— É o preço da minha presença, Dudinha. Enquanto você se contenta com pedras de velório, eu exijo o que há de mais vivo. O Emanuel sabe que, para me ter, ele precisa sangrar um pouco.

Emanuel, parado entre as duas, sentiu o peso das joias como se fossem correntes. Ele dera a ametista para a paz e o rubi para o silêncio. Mas, ao olhar para as duas mulheres, percebeu que nenhuma joia no mundo seria capaz de comprar o que ele realmente desejava: uma vida onde o amor não fosse uma negociação constante entre a manha dissimulada de uma e a vulgaridade explosiva da outra.

— Eu vou para o estúdio — disse Emanuel, pegando sua jaqueta. — Tenho uma sessão de dez horas hoje. Não me liguem, a menos que o prédio esteja pegando fogo.

Ele saiu, deixando para trás o brilho do ouro e o veneno das palavras. Na sala, Sara admirava seu rubi, e Eduarda acariciava sua ametista. Duas mulheres, duas joias, e um homem que se tornava cada vez mais uma sombra de si mesmo, preso em um leilão onde ele era, ao mesmo tempo, o comprador e o objeto leiloado.

Eduarda aproximou-se da janela, observando o carro de Emanuel se afastar. Ela tocou o camafeu e sentiu o relevo da pedra.

— Você acha que venceu, não é? — Sara perguntou, aproximando-se por trás, o rubi faiscando.

— Eu não estou competindo, Sara — Eduarda respondeu, sem se virar. — Eu já tenho o que eu quero.

— O quê? Aquela pedrinha roxa?

Eduarda virou-se lentamente, um sorriso doce e gélido nos lábios.

— Não. Eu tenho a culpa dele. E a culpa, Sara... a culpa dura muito mais do que qualquer rubi.

Sara sentiu um calafrio que o luxo de seu vestido não conseguiu aplacar. Pela primeira vez, ela olhou para a timidez de Eduarda e viu, não uma fraqueza, mas uma armadilha de seda que estava se fechando, lentamente, ao redor de todos eles. O leilão terminara, mas a verdadeira conta ainda estava por vir.