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Duas

Garras de Seda e Veludo

O tríplex de Emanuel nunca pareceu tão pequeno quanto naquela tarde de sábado. O ambiente, que geralmente exalava o aroma de couro caro e produtos de limpeza importados, estava agora impregnado com uma mistura caótica de perfumes doces, risadas estridentes e o tilintar constante de taças de cristal. Sara havia decidido que o apartamento precisava de "vida" e, ignorando o clima tenso que pairava desde a descoberta da gargantilha, convidou seu círculo mais íntimo: Paola, Bianca e a recém-chegada ao grupo, Letícia.

Letícia era o tipo de mulher que não pedia permissão para ocupar espaço. Com um vestido de seda dourada que mal cobria o essencial e uma atitude que beirava o predatório, ela parecia ter um alvo fixo desde que cruzara a porta: Emanuel.

Emanuel estava sentado em uma das poltronas de design, tentando manter a compostura enquanto segurava um copo de uísque. Ele odiava invasões em seu santuário, mas a presença das amigas de Sara era um mal necessário para manter a trégua frágil que haviam estabelecido.

— Nossa, Emanuel... eu vi as fotos do seu novo estúdio em Tóquio — disse Letícia, aproximando-se dele com uma lentidão calculada. Ela se sentou no braço da poltrona dele, deixando que uma das mãos, com unhas impecavelmente pintadas de vinho, repousasse no ombro do tatuador. — O traço é tão firme, tão... másculo. Eu sempre quis uma tatuagem em um lugar que ninguém vê. Você faria em mim?

Sara, estirada no sofá oposto com uma taça de champanhe na mão, soltou uma risadinha desdenhosa ao ver a cena. Para ela, aquilo era um jogo de cena familiar. Ela conhecia Emanuel; sabia que ele era um homem de apetites, e a ideia de Letícia — ou qualquer outra — servir de distração para ele por uma noite não a incomodava. Na verdade, Sara achava divertido ver Emanuel sendo testado.

— Cuidado, Lê — debochou Sara, cruzando as pernas e exibindo seus saltos caros. — O Emanuel é exigente com a pele que ele toca. Mas se você for boazinha, quem sabe ele não te dá uma "sessão particular" hoje à noite?

As outras amigas riram, e Emanuel apenas deu um gole longo em seu uísque, os olhos escuros observando o movimento na sala. Ele estava exausto, e a provocação de Letícia era apenas um ruído de fundo.

No entanto, no canto oposto da sala, o silêncio era absoluto. Eduarda estava sentada em um banco baixo, segurando um livro que não lia há mais de uma hora. Seus dedos apertavam a capa de couro com tanta força que as pontas estavam brancas. Ela observava cada centímetro de pele que Letícia aproximava de Emanuel. Observava o jeito que a mão da outra subia pelo pescoço dele, roçando a nuca onde ele tinha uma pequena tatuagem geométrica.

A timidez de Eduarda, sua marca registrada, estava evaporando, sendo substituída por uma pressão interna que fazia seus pulmões arderem. Para Eduarda, Emanuel não era um troféu ou um passatempo; ele era sua propriedade, seu porto seguro, o homem que ela havia manipulado céus e terra para manter sob seu domínio.

— Emanuel — Letícia sussurrou, inclinando-se tanto que seu cabelo roçou o rosto dele —, eu aposto que você tem mãos muito habilidosas. Dizem que tatuadores sentem a dor da pessoa... você gosta de sentir a minha dor?

— Letícia, você está sendo inconveniente — Emanuel murmurou, embora não se afastasse, o estresse acumulado tornando-o apático ao flerte.

— Inconveniente? Eu prefiro chamar de... interessada — ela retrucou, passando a ponta do dedo pela mandíbula dele.

Foi nesse momento que o ar na sala mudou. O som do livro de Eduarda batendo contra a mesa de centro foi como um tiro. Todos se viraram.

Eduarda levantou-se. Não havia rastro da menina manhosa que pedia chá com mel. Seus olhos, geralmente úmidos e expressivos, estavam estreitados, brilhando com uma fúria selvagem que ninguém ali jamais vira. Ela caminhou em direção ao centro da sala com passos firmes, a postura ereta, exalando uma periculosidade silenciosa.

— Tire a mão dele — a voz de Eduarda saiu baixa, mas cada palavra era uma lâmina afiada.

Letícia soltou uma risada nervosa, olhando para Sara em busca de apoio.

— O quê? A bonequinha de porcelana sabe falar? — Letícia provocou, voltando a tocar o ombro de Emanuel. — Relaxa, querida, é só uma brincadeira.

Eduarda não respondeu com palavras. Em um movimento rápido e preciso que deixou todos atônitos, ela avançou e agarrou o pulso de Letícia, puxando-o para longe de Emanuel com uma força impressionante para seu porte esguio.

— Eu disse para tirar a mão dele — Eduarda repetiu, agora a poucos centímetros do rosto de Letícia. — Ele não é para você tocar. Ele não é para você olhar. Se você encostar nele de novo, eu juro que vou fazer você se arrepender de ter vindo aqui hoje.

— Ei! Ficou louca? — gritou Sara, levantando-se do sofá, a surpresa estampada no rosto. — Eduarda, solta ela! É só a Letícia, deixa de ser possessiva!

Eduarda virou a cabeça para Sara, e o olhar que lançou à loira foi tão carregado de desprezo e autoridade que até Sara recuou um passo.

— Você pode não se importar com quem deita na cama com você, Sara, porque você é vazia — disse Eduarda, a voz cortante. — Mas eu me importo. O Emanuel é meu. Todo ele. E eu não divido o que me pertence com lixo.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral. Paola e Bianca trocaram olhares de puro choque. A "santinha" havia se transformado em uma onça acuando sua presa. Emanuel, pela primeira vez em semanas, parecia genuinamente surpreso, observando Eduarda com um misto de choque e um interesse sombrio e renovado.

Eduarda soltou o pulso de Letícia com um empurrão e virou-se para Emanuel. Ela não pediu. Ela não manhou. Ela simplesmente agarrou a gola da camisa dele e o puxou para cima.

— Nós vamos para o quarto. Agora — ordenou ela.

Emanuel, o homem que controlava estúdios ao redor do mundo, o homem prático e rígido, sentiu um arrepio de adrenalina que não sentia há anos. Havia algo na possessividade crua de Eduarda que apelava para seus instintos mais primitivos. Ele se levantou, deixando o copo de uísque na mesa.

— Eduarda, as visitas... — ele começou, mas ela o interrompeu.

— Eu não quero saber das suas visitas. Eu quero que você me mostre a quem você pertence.

Sem olhar para trás, Eduarda arrastou Emanuel pelo braço em direção às escadas. Sara tentou protestar, dando um passo à frente.

— Emanuel, você não vai deixar ela te mandar assim, vai? Isso é ridículo!

Emanuel parou no primeiro degrau e olhou para Sara por cima do ombro. Havia um brilho estranho em seus olhos, uma aceitação do caos que Eduarda acabara de instaurar.

— Boa noite, Sara. Feche a porta quando suas amigas saírem.

O som da porta do quarto de Emanuel sendo batida e o clique da tranca ecoaram por todo o tríplex.

Lá dentro, o ambiente era carregado. Eduarda encostou as costas contra a porta trancada, o peito subindo e descendo com rapidez. As lágrimas, que antes eram sua arma de manipulação, agora eram de pura raiva possessiva.

— Você ia deixar ela... — ela começou, a voz falhando pela primeira vez. — Você ia deixar aquela mulher te tocar na minha frente.

Emanuel aproximou-se, cercando-a contra a madeira da porta. Ele colocou as mãos de cada lado da cabeça dela, observando a transformação.

— Você parecia uma pessoa diferente lá embaixo, Duda — ele sussurrou, a voz rouca. — Onde estava essa garra toda esse tempo?

— Eu estava guardando para quando fosse necessário — ela respondeu, subindo as mãos pelo peito dele, as unhas cravando levemente no tecido da camisa. — Eu odeio que elas te vejam. Eu odeio que a Sara aja como se você fosse um objeto que ela pode emprestar. Você é meu, Emanuel. Diga que é meu.

— Você sabe que eu sou — ele murmurou, inclinando-se para capturar os lábios dela em um beijo que não tinha nada de carinho e tudo de urgência.

Eduarda respondeu com uma intensidade desesperada. Ela o puxou para a cama, suas mãos pequenas trabalhando com uma agilidade furiosa para abrir os botões da camisa dele. Não havia espaço para delicadeza ou para a fragilidade que ela costumava projetar. Naquele momento, ela queria marcar seu território, queria que os sons que eles faziam atravessassem as paredes e chegassem aos ouvidos de Sara e de suas amigas.

Enquanto isso, na sala, o clima era de total constrangimento. Letícia massageava o pulso, visivelmente abalada.

— Que garota psicopata! — exclamou Letícia. — Sara, você vive com essa maluca? Ela quase quebrou meu braço!

Sara estava parada no meio da sala, segurando sua taça agora vazia. Ela olhava para o andar de cima, para a porta fechada onde o silêncio era ocasionalmente quebrado por sons abafados que não deixavam margem para a imaginação. Pela primeira vez, Sara sentiu uma pontada de algo que não era raiva, mas sim um reconhecimento perigoso: Eduarda não era uma bonequinha de porcelana. Ela era uma jogadora muito mais astuta do que Sara jamais creditara.

— É melhor vocês irem embora — disse Sara, sua voz soando fria e distante.

— Mas a festa mal começou! — reclamou Bianca.

— A festa acabou — sentenciou Sara, caminhando até a porta e abrindo-a. — O show principal já começou lá em cima e eu não estou a fim de plateia. Vão.

Depois que as amigas saíram, Sara trancou a porta principal e ficou ali, no centro do luxo que Emanuel lhe proporcionava. Ela ouviu o som de algo caindo no quarto dele — talvez um abajur, talvez a própria vontade de Emanuel sendo quebrada.

Lá em cima, Emanuel estava completamente entregue ao domínio de Eduarda. Ela o cavalgava com uma determinação que o deixava sem fôlego, seus cabelos castanhos chicoteando o ar. Cada vez que ele tentava retomar o controle, ela o pressionava de volta contra o colchão, os olhos fixos nos dele, exigindo sua atenção total, sua alma, sua submissão àquele momento.

— Você não vai sair daqui — ela ofegava contra o ouvido dele, enquanto os corpos se moviam em um ritmo frenético. — Você só sai quando elas forem embora. Quando não sobrar ninguém além de mim.

— Elas já foram, Duda... — Emanuel conseguiu dizer, as mãos apertando os quadris dela.

— Não importa. Você é meu prisioneiro hoje.

Emanuel sorriu entre os dentes, sentindo o suor escorrer por seu peito tatuado. Ele percebeu que, de certa forma, Sara tinha razão: a fragilidade de Eduarda era uma prisão. Mas, naquele momento, ele não queria ser libertado.

Horas se passaram. O tríplex mergulhou em um silêncio profundo, interrompido apenas pelo som distante do tráfego da cidade. Sara estava sentada na cozinha, bebendo vinho direto da garrafa, observando o relógio.

Finalmente, o som da tranca do quarto de Emanuel foi ouvido. Eduarda saiu primeiro, vestindo apenas um dos roupões de seda dele, que ficava enorme em seu corpo pequeno. Ela desceu as escadas com a calma de uma rainha que acabara de pacificar uma rebelião.

Ela entrou na cozinha e encontrou o olhar de Sara. Eduarda não disse uma palavra. Ela apenas caminhou até a geladeira, pegou uma garrafa de água e bebeu um gole longo.

— Você é louca — disse Sara, a voz rouca pelo vinho.

Eduarda parou, a garrafa na mão, e olhou para Sara com uma serenidade assustadora.

— Eu sou o que eu preciso ser para manter o que eu amo, Sara. Você deveria tentar às vezes. Ser "vulgar" e "autêntica" só te levou até a porta do quarto. Eu estou dentro dele.

Eduarda virou as costas e subiu as escadas novamente, deixando Sara sozinha na cozinha escura. Emanuel apareceu no topo da escada logo depois, vestindo apenas uma calça de moletom, o rosto relaxado mas os olhos ainda carregando a intensidade do que ocorrera. Ele olhou para baixo, viu Sara, e por um momento, houve uma centelha de pena em seu olhar.

Mas então, Eduarda apareceu atrás dele, envolvendo seus braços em volta da cintura de Emanuel e puxando-o de volta para a escuridão do quarto. Emanuel se deixou levar, desaparecendo de vista.

Sara ficou ali, no silêncio do seu abismo de luxo, percebendo que a guerra no tríplex acabara de ganhar contornos de sangue. E que, naquela casa, a doçura de Eduarda era, na verdade, o veneno mais letal de todos.