Duas
Febre, Manhas e o Ponto de Ruptura
O ar condicionado central do tríplex zumbia em uma frequência monótona, tentando em vão dissipar o clima pesado que se instalou logo nas primeiras horas da manhã. O apartamento, que costumava ser um monumento ao minimalismo e ao sucesso de Emanuel, agora parecia um hospital de luxo em estado de sítio.
Sara estava jogada na suíte principal, envolta em edredons de mil fios que pareciam sufocá-la. A gripe a atingira como um caminhão, derrubando sua postura de aço e transformando sua voz vibrante em um grasnido doloroso. Seus olhos, sempre tão expressivos e maquiados, estavam inchados e lacrimejantes, e a pele, geralmente impecável, brilhava com o suor da febre que insistia em não ceder.
No quarto ao lado, Eduarda, que não tinha um único sintoma físico, decidira que o ambiente carregado era o cenário perfeito para uma crise existencial.
Emanuel estava no corredor, parado entre as duas portas, sentindo a pulsação latejar em suas têmporas. Ele segurava uma bandeja com remédios e um termômetro em uma mão, e um copo de água com açúcar na outra. O grande tatuador, o homem que comandava estúdios ao redor do mundo com mão de ferro, sentia-se um equilibrista em uma corda bamba feita de navalhas.
— Emanuel! — O grito de Sara veio de dentro do quarto, seguido por uma crise de tosse seca que parecia rasgar sua garganta. — Emanuel, eu estou morrendo de calor! Desliga essa porcaria de ar ou me traz outro gelo!
Ele suspirou e entrou no quarto. A luz estava frouxa, as cortinas blackout fechadas. Sara tentava se sentar, o cabelo loiro colado na testa, a expressão de puro ódio contra o próprio corpo.
— Calma, Sara. A febre está baixando, você precisa descansar — disse Emanuel, aproximando-se e colocando a bandeja na mesa de cabeceira.
— Descansar? Como eu vou descansar com aquela sonsa choramingando no outro quarto? — Sara apontou para a parede com uma mão trêmula. — Eu estou doente de verdade, Emanuel! Meus pulmões dóem, minha cabeça vai explodir, e ela está aí fazendo esse teatro de "estou sensível" só para você não me dar atenção!
— A Eduarda está impressionada com a situação, Sara. Você sabe que ela é sensível — Emanuel tentou mediar, pegando o termômetro.
— Sensível o caralho! — Sara tossiu novamente, o rosto ficando vermelho. — Ela é uma parasita emocional! Ela viu que eu estou vulnerável e decidiu que precisa de mais carinho do que eu. É nojento, Emanuel! Me dá logo esse remédio e vai lá dar o peito para a sua bebezona de vinte anos!
Emanuel fechou os olhos por dois segundos, buscando uma paciência que ele já não possuía. Antes que pudesse responder, um choro baixo e rítmico começou a ecoar do corredor. Era Eduarda.
Ele entregou o comprimido para Sara, que o arrancou de sua mão com agressividade, e saiu do quarto. Encontrou Eduarda sentada no chão do corredor, vestindo uma camisola de seda branca, as pernas encolhidas e o rosto escondido entre os joelhos.
— Duda? O que foi agora? — perguntou ele, a voz soando mais dura do que pretendia.
Ela levantou o rosto. Os olhos estavam vermelhos, e uma única lágrima solitária escorria por sua bochecha pálida. Ela parecia uma boneca quebrada.
— Você gritou comigo... — ela sussurrou, a voz trêmula, carregada de uma manha que costumava desarmar Emanuel, mas que hoje parecia um peso de chumbo. — Eu ouvi você falando com ela. Você está bravo comigo porque eu estou triste.
— Eu não estou bravo, Eduarda. Eu estou tentando cuidar de uma mulher com trinta e nove graus de febre enquanto você se recusa a sair do chão — Emanuel passou a mão pelo cabelo, visivelmente exausto. — O que você quer?
— Eu quero sentir que você ainda me ama — ela disse, levantando-se lentamente e se aproximando dele, envolvendo os braços em sua cintura e escondendo o rosto em seu peito. — O clima nesta casa está horrível. A Sara me odeia tanto que a energia dela está me deixando doente também. Eu sinto um aperto no peito, Emanuel... acho que meu coração está fraco.
— É ansiedade, Duda. Só ansiedade — ele murmurou, retribuindo o abraço de forma automática, mas seus olhos estavam fixos na porta do quarto de Sara.
— EMANUEL! — O grito de Sara veio novamente, desta vez seguido pelo som de algo de vidro quebrando. — Traga o meu chá! Agora! Eu não vou pedir de novo!
Emanuel sentiu Eduarda estremecer em seus braços. Ela se encolheu ainda mais, soltando um soluço abafado.
— Viu? Ela faz de propósito — disse Eduarda, olhando para ele com olhos suplicantes. — Ela grita para me assustar. Ela sabe que eu odeio barulho. Fica aqui comigo, só um pouquinho... esquece ela. Ela é forte, ela aguenta. Eu não consigo.
— Eu não posso esquecer ela, Eduarda. Ela está doente — Emanuel a afastou gentilmente, mas com firmeza. — Vá para o seu quarto. Leia um livro. Tente se acalmar. Eu vou levar o chá para a Sara e já volto para ver você.
— Você sempre escolhe ela quando ela faz escândalo — Eduarda disse, a voz subindo um tom, a manha dando lugar a uma ponta de ressentimento. — Você premia a vulgaridade dela.
Emanuel não respondeu. Ele caminhou até a cozinha, preparou o chá com movimentos mecânicos e voltou para o quarto principal. Sara estava sentada na beira da cama, tentando limpar os cacos de um copo de água que ela havia derrubado.
— Deixa isso, Sara! Você vai se cortar — disse ele, deixando o chá na mesa e pegando-a pelos ombros para deitá-la novamente.
— Eu não sou inválida, Emanuel! — ela retrucou, mas a força a abandonou e ela desabou nos travesseiros. — Eu só queria a sua atenção por cinco minutos sem ter que ouvir o lamento daquela assombração no corredor. Você é um fraco. Ela te manipula com essas lágrimas de água com açúcar e você cai todas as vezes.
— Sara, por favor, cale a boca e beba o chá — Emanuel disse, sua autoridade finalmente emergindo através do cansaço. — Eu estou fazendo o meu melhor para cuidar de vocês duas.
— Cuidar de nós duas? — Sara soltou uma risada amarga que terminou em tosse. — Você está sendo babá de uma simuladora e enfermeiro de uma mulher que realmente precisa. Não coloque a gente no mesmo saco. Ela está lá fora, agora mesmo, planejando como vai entrar aqui e interromper a gente. Quer apostar?
Como se fosse um roteiro ensaiado, a porta do quarto se abriu silenciosamente. Eduarda apareceu na fresta, segurando um travesseiro contra o peito, os pés descalços e uma expressão de desamparo absoluto.
— Emanuel... eu tive um pesadelo. Eu não consigo ficar sozinha — ela murmurou, ignorando a presença de Sara.
Sara explodiu. Mesmo doente, sua fúria era uma força da natureza. Ela se impulsionou para frente, ignorando a tontura.
— SAI DAQUI, SUA VAGABUNDA! — Sara gritou, a voz falhando e arranhando. — SAI DO MEU QUARTO! VOCÊ NÃO TEM VERGONHA? EU ESTOU DOENTE E VOCÊ VEM AQUI FAZER ESSA CENA DE CRIANÇA DE CINCO ANOS?
— Sara, calada! — Emanuel tentou intervir, mas era tarde demais.
Eduarda começou a chorar de verdade agora, um pranto ruidoso e desesperado, recuando para o corredor.
— Você viu como ela fala comigo? — Eduarda gritou entre os soluços, olhando para Emanuel. — Você deixa ela me tratar assim! Você não me protege!
— Proteger você de quê? Da verdade? — Sara saiu da cama, os pés tocando o chão frio, a camisola de seda amassada. Ela cambaleou, mas manteve o dedo apontado para Eduarda. — Você é uma parasita, Eduarda! Você usa essa sua carinha de santa para sugar a energia de todo mundo. O Emanuel está exausto por sua causa! Olhe para ele! Ele tem olheiras, ele não dorme, ele não trabalha direito porque você exige que ele seja seu pai, seu amante e seu terapeuta vinte e quatro horas por dia!
— E você é uma vulgar! — Eduarda retrucou, a voz ganhando uma força inesperada, a timidez desaparecendo sob a pressão do confronto. — Você só sabe gritar e exigir coisas! Você não dá paz a ele! Você é barulhenta, grosseira e está podre por dentro!
— CHEGA! — O grito de Emanuel silenciou as duas.
Ele estava parado entre elas, a respiração ofegante, as mãos fechadas em punhos. O controle que ele tanto prezava havia evaporado. Ele olhou para Sara, que tremia de febre e raiva, e depois para Eduarda, que tremia de manha e possessividade.
— Eu vou sair — disse Emanuel, sua voz agora num tom perigosamente calmo.
— O quê? — Sara perguntou, a voz sumindo. — Você vai me deixar aqui assim?
— E eu? Você vai me deixar sozinha com ela? — Eduarda perguntou, agarrando o braço dele.
Emanuel puxou o braço com força, um gesto de repulsa que fez Eduarda recuar.
— Sim. Eu vou sair. Vou para o estúdio. Vou dormir no sofá do escritório, ou em um hotel, ou em qualquer lugar onde eu não tenha que ouvir a voz de nenhuma de vocês — ele disse, pegando as chaves do carro na mesa do corredor. — Sara, os remédios estão na bandeja. Se você piorar, ligue para o Dr. Arnaldo, não para mim. Eduarda, cresça. O mundo não gira em torno das suas inseguranças.
— Emanuel, você não pode fazer isso... — Eduarda começou a chorar novamente, tentando se aproximar.
— Eu posso e eu vou — ele se virou para ela, o olhar frio. — Eu estou farto. Farto das brigas, farto das manipulações, farto de ser o prêmio de uma guerra que eu nunca pedi para lutar. Vocês duas se merecem. Passem a noite cuidando uma da outra, ou se matando, eu não me importo mais.
Ele caminhou em direção ao elevador. O som metálico das portas se fechando foi o ponto final da discussão.
O silêncio que se seguiu no tríplex era irreal. Sara ficou parada na porta do quarto, apoiada no batente, a respiração pesada e ruidosa. Eduarda continuava no meio do corredor, as lágrimas secando no rosto, uma expressão de choque puro.
Sara olhou para Eduarda. O ódio ainda estava lá, mas havia também uma exaustão compartilhada.
— Viu o que você fez? — Sara tossiu, a voz agora apenas um sussurro. — Você esticou a corda até quebrar. Parabéns, "santinha". Agora estamos as duas sozinhas.
Eduarda não respondeu com manha. Ela olhou para Sara com um brilho gélido nos olhos.
— Eu não estou sozinha, Sara. Ele vai voltar. Ele sempre volta para mim porque eu sou a paz que ele procura. Você é só o barulho que ele quer esquecer.
— A paz? — Sara riu, uma risada seca e dolorosa. — Você é o caos disfarçado de silêncio, Eduarda. E hoje ele percebeu isso.
Sara virou as costas e caminhou de volta para a cama, deitando-se de qualquer jeito. Eduarda ficou no corredor por um longo tempo, observando a porta do elevador. Ela sentia o vazio do apartamento, o peso da ausência de Emanuel.
Lentamente, Eduarda caminhou até a cozinha. Ela pegou um copo de água, colocou gelo e voltou para o quarto de Sara. Ela entrou sem bater.
Sara levantou a cabeça, os olhos semicerrados.
— O que você quer agora? Veio me sufocar com o travesseiro?
Eduarda não sorriu. Ela caminhou até a cama e estendeu o copo de água.
— Beba — disse Eduarda, a voz desprovida de qualquer emoção. — Se você morrer, ele vai se sentir culpado e nunca vai me perdoar. Eu preciso que você esteja viva para que ele tenha alguém para comparar comigo quando ele voltar.
Sara encarou Eduarda por um longo momento. Ela viu a frieza por trás da máscara de doçura, a estratégia por trás da fragilidade. Ela pegou o copo, a mão ainda trêmula.
— Você é muito pior do que eu, sabia? — disse Sara, antes de beber a água.
— Eu sei — respondeu Eduarda, sentando-se na poltrona do quarto, vigiando a rival como um predador vigia outro. — Por isso eu vou ganhar no final.
A noite avançou lenta e pesada. No estúdio, Emanuel observava a cidade através da janela de vidro, o silêncio do escritório sendo o único remédio para a sua alma exausta. Ele sabia que voltaria. Ele sempre voltava. Mas, naquela noite, ele se permitiu odiar a própria vida, preso entre a febre de uma e a manha de outra, em um tríplex que era, ao mesmo tempo, seu palácio e sua cela.